Um dia de gl�ria

O motorista nem ligava, que era crente de verdade e as coisas do mundo, como futebol, n�o lhe interessavam, mas o cobradorzinho, coitado, n�o se ag�entava na cadeira. O Brasil jogando pelo tetracampeonato, o pa�s inteiro com a respira��o suspensa e ele ali, preso, sem sequer um radinho de pilha. E o que mais enraivecia � que n�o havia um �nico passageiro.

At� que entrou um rapaz de blus�o, cabelos compridos, ar tranq�ilo. O cobradorzinho nem levantou os olhos, pegou a moeda e largou com exaspera��o dentro da gaveta. O rapaz passou a catraca e foi sentar-se no �ltimo banco, de frente para o corredor.

Era uma vazia tarde de domingo, com um sol pregui�oso j� amea�ando se esconder, tudo muito diferente da tens�o estendida sobre o pa�s feito um len�ol e � medida que o sol pregui�oso ia abaixando a ang�stia do pobre cobrador crescia e crescia.

De repente o passageiro tirou um obo� ningu�m sabe de onde, ajeitou a palheta com carinho entre os l�bios e soprou uma can��o linda de morrer. Uma �nica nota, come�ando t�mida e como que galgando o palp�vel desespero do funcion�rio fosse se firmando e adquirindo corpo, at� derramar-se numa melodia terna e quente, e esparramar-se pelo �nibus, e esparramar-se pela tarde.

Era t�o linda que aumentou ainda mais a tristeza do cobradorzinho, que apoiou a cabe�a na m�o e botou nos olhos o ar de quem n�o est� entendendo nada e n�o quer saber mesmo.

O rapaz tocava do fundo de sua alma, l� do fundo, e perto de terminar ele chorava. A can��o terminou num rallentando bem longo e sofrido. Quando a �ltima nota morreu, como se s� estivesse esperando por isso, a cidade explodiu. Berros e mais berros, e ent�o roj�es, uma tempestade deles, e cabe�as despontando em todas as janelas de todos os pr�dios e bandeiras tremulando e tudo ao redor cuidando de se entregar � esquizofrenia absoluta.

O cobradorzinho saltou do banco e come�ou a sambar desvairadamente no corredor, gritando � Gooooooooool, foi goooooooooool! Pulando feito um doido agarrando-se aos apoios, levantando as pernas, batendo-as no teto do carro, arrancando os cabelos.

S� depois de transpirada a primeira cascata da emo��o olhou para o motorista que, nem a�, assobiava desafinadamente uma m�sica de sua igreja. Olhou para o rapaz, ent�o.

O passageiro esfor�ou-se por secar as l�grimas e sorrir para o cobradorzinho. Ent�o levantou-se e fez uma mesura lenta e emocionada, trazendo ao seu peito o instrumento, como se a como��o nacional pra ele fosse, como se fosse seu aquele dia de gl�ria.

Escrito em 25/11/92


Marco Aur�lio Brasil Lima
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