| Uma f�bula E por falar em pregui�a, sabe que h� num canto obscuro do Paran� um internato onde o ver�o fustiga sem d�. Lembrar dos ver�es ali instila na gente uma sensa��o ao mesmo tempo tediosa e grata. Quem passou por l� e respirou aqueles ver�es toda vez que fecha os olhos sob o sol alto de qualquer outro lugar volta em lembran�a ao ch�o que estalava, cheio de luz. E os domingos? Pode-se ver grupinhos acomodados sob as copas das �rvores, gente cruzando em vagarosas bra�adas a piscina, meninos e meninas vagueando bem molemente pelas vastas extens�es, todo mundo fugindo da atmosfera do claustrofobizantes espa�os em que s�o obrigados a passar o resto da semana. Olhando com cuidado, bem de perto, v�-se outras coisas tamb�m. Fechando os olhos sob um sol alto pode-se sentir um pouco do ar daquele tempo entrando nos pulm�es, aquele ar que misturava sem fronteiras bem demarcadas o real da fantasia, o sonho do concreto. A despeito de o sol brilhar alto, a mo�a loira ainda dormia pesadamente. Ela estava deitada de lado em posi��o quase fetal, com a m�o esquerda sob o travesseiro, o len�o esquecido aos seus p�s. Sua respira��o compassada, profunda, enchia o quarto desocupado e fechado � luz do dia. Ela ocupava a cama de cima de um dos dois beliches que durante o dia servia de prateleiras para os bichos de pel�cia, dezenas deles, e todos aqueles seres mudos assistiam atentos ao sono intoc�vel da mo�a loira. L� fora, em frente � capela e ao refeit�rio, o rapaz de camiseta branca recebia a visita dos tios paulistas. Cumprimentou o tio falador, que reclamava do calor, beijou a tia sorridente e abra�ou a prima querida. Ela o tomou pelas m�os e disse que queria conhecer tudo. Os dois foram �s quadras, seguiram pela biblioteca e pelo conservat�rio musical, entraram na bonita capela, deram uma espiada no refeit�rio ainda vazio, cruzaram a horta para chegar at� o pomar, onde furtaram alguns cachos de uva, quebraram em dire��o � piscina, depois o gin�sio e o campo de futebol e chegaram ao pr�dio da administra��o, que dava de frente para o pr�dio das salas de aula, de onde se podia ver ao longe a leiteria. S� o dormit�rio masculino, claro, a prima querida n�o quis ver, mas o feminino fez quest�o. Por ser a filha do pastor xxxxx, a preceptora consentiu em deixar entrar tamb�m o rapaz da camiseta branca, acompanhados os dois de uma monitora. Ele achou engra�ado e at� um pouco desconcertante andar por aqueles corredores cujo acesso lhe era veementemente vedado. Era tudo muito branco e silencioso, uma porta atr�s da outra, todas fechadas, tudo �quela hora deserto. Quando se achava uma porta aberta a prima sorridente entrava sem fazer cerim�nia, olhava para um lado, para outro, conferia a vista da janela e sa�a fazendo algum coment�rio engra�ado sobre este ou aquele objeto. O rapaz ia atr�s, t�o curioso quanto sua prima, mas muito mais reservado que ela. Ficou de fora quando a monitora quis mostrar � mo�a os banheiros, mas depois continuou a segui-la pelos vastos corredores, rindo do que a prima falava. Terminada a visita, a preceptora, de sua mesa, perguntou: - Voc� levou a menina no quarto 5, Regina? O quarto 5 era o mais bonito, o mais espa�oso. Tinha uma escrivaninha e dois arm�rios embutidos maiores que os dos outros quartos, sem falar na vista da janela, que era privilegiada por pegar toda a extens�o da horta verdinha e, al�m, os morros a perder de vista. A monitora abriu a porta e os tr�s, entrando, estranharam a penumbra que tomava conta do lugar. Foi a pr�pria Regina quem notou que a mo�a loira ainda dormia, por isso pediu sil�ncio aos invasores. Enquanto sua prima olhava em volta com ar de quem lamentava n�o poder abrir a janela, o rapaz da camiseta branca n�o conseguia tirar os olhos daquele corpo sobre a cama, jogado sem cuidado, tendo sobre a pele apenas uma comprida camiseta e, presumivelmente , a calcinha. � que para ele aquela n�o era simplesmente uma mo�a loira colhida inusitadamente em sua intimidade; era a mo�a loira, a primeira e �nica mo�a loira, a quem ele insistentemente contemplava no refeit�rio e durante os cultos, a quem ele admirava cantando no coral e tocando flauta, a mesma que lhe tirara o sono tantas e tantas vezes. O rapaz fez com que sua timidez sufocante sa�sse com a prima e a monitora. Bastou um olhar significativo para que a prima entendesse tudo e perguntasse � outra alguma coisa a respeito do regime de disciplina, sempre levando-a para fora e longe do quarto 5. A s�s ali, o rapaz da camiseta branca encostou a porta e aproximou-se da cama. A luz que a persiana da janela filtrava dava ao espet�culo uma cor m�gica, et�rea. Ele n�o podia acreditar no que via. Levantou uma m�o tr�mula e tocou com a ponta de um dos dedos a pinta que a mo�a loira tinha perto da boca e que lhe dava um qu� t�o especial. Ela n�o esbo�ou nenhum movimento. O rapaz secou na camiseta branca o suor das palmas das m�os, tomou toda a coragem que cabia em sua anatomia e beijou os l�bios da mo�a loira. Um beijo de venera��o, bem longo; Com os olhos ainda fechados afastou a cabe�a, sentindo na boca um formigamento de fantasia. Quando enfim abriu seus olhos, estremeceu; ela tinha os olhos semi-cerrados e o fitava meio de soslaio. Sem conseguir falar nada ele trope�ou para fora do quarto pedindo desculpas e saiu correndo. Ficou esperando a prima l� fora, pensando em coisas tenebrosas como tapa no rosto, execra��o p�blica e at� expuls�o do col�gio. No dia seguinte, servindo-se de p�o preto no refeit�rio, o rapaz se viu frente a frente com a mo�a loira, a quem ele passara o dia anterior inteiro evitando. Suas pernas amoleceram e ele engoliu em seco, sem entender o olhar que ela lhe lan�ara, j� que ela nunca lhe havia lan�ado olhar algum, considerando que o da manh� de domingo n�o poderia ser considerado exatamente como tal. Ela parecia que ia falar alguma coisa, mas antes que pudesse, o rapaz da camiseta branca baixou a cabe�a enrubescido e tratou de fugir. - Que � que foi? Perguntou � mo�a loira uma amiga, que vinha atr�s. - Sei l�. Ia dizer praquele guri que sonhei com ele ontem, mas ele me olhou t�o estranho! Hoje, com os olhos fechados sob o sol alto de algum lugar qualquer, lembro daquele tempo e arrisco dizer que isso bem pode ser uma f�bula. Durante o ver�o, especialmente, f�bula e realidade se confundem muito facilmente. Escrito em 25/11/92 Marco Aur�lio Brasil Lima |
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