Isabela acorda e chora

- Qual a cor dos teus olhos? ela perguntou.

- Meus olhos s�o da mesma cor dos teus - ele disse depois de algum tempo, e ela sorriu.

Claro. Ele tinha mesmo voz de olhos verdes. Ele era alto. Ele falava "oi, Isabela" de um jeito diferente e ela sempre ruborizava. N�o saberia definir isso assim, claro, s� sabia que sentia um calor intenso na face. N�o sabia que isso era vis�vel. Mas ela abria muito os olhos de que tanto se orgulhava, e perguntava, antes de sair da escola, se estava arrumada, se os cabelos estavam em ordem, se a roupa.

Ela sempre voltava para casa pensando nele. Na �ltima ter�a trope�ou na guia da esquina do a�ougue, imagina! Passou ali duzentas mil vezes sem jamais trope�ar! Cabe�a na lua. Nele, ali�s.

� que nos �ltimos tempos ele vinha se aproximando mais, puxando conversa, se oferecendo para atravessar a rua com ela. Nesse curto trajeto de atravessar a rua, de esperar o �nibus com ela, ela, nos �ltimos dias, n�o escondia mais nada. A cegueira na primeira inf�ncia, a frieza da m�e, o abandono do pai, os desejos de longo prazo, professora com tr�s filhos, a forma como imaginava o mundo. Ela sentia seu h�lito quando ele dizia: "nossa!" ou "pomba, que barra, menina!", ou ainda "voc� � mesmo muito forte", e ela gostava. Sentia que uma coisa muito, muito boa estava pra acontecer. Era uma expectativa sufocante, sentia suor nas palmas das m�os, e os pelos da nuca se eri�avam.

Ela j� estava dentro do �nibus, quando ele terminou:

- � bom ter olhos castanhos, porque dependendo do jeito que o sol do poente bate, a gente fica com olhos cor de mel! Como esses teus, agora, Isabela.

O �nibus arrancou e ela ficou ouvindo aquilo ainda um temp�o. Pensou na m�e. Achou o mundo l� fora ainda mais escuro. O tipo de escurid�o que deixa a gente assim com medo de pisar.


Marco Aur�lio Brasil Lima
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