| Lantejoulas verdes Isso n�o � id�ia minha, n�o. Segundo o reverendo preto que vem aqui toda quarta-feira, �a mente ociosa � oficina de Satan�s�. Ele quer dizer que o coisa ruim trabalha na cabe�a de quem n�o faz nada, entende? S� que esse � o tipo de coisa que n�o se v� assim, s� de olhar pra cabe�a de algu�m. O Satan�s n�o aparece na janelinha do olho e d� tchauzinho, e tamb�m n�o se percebe por raio x ou aquele outro tro�o, ultra sei l� o que. Ent�o as pessoas ficam atentas ao que a gente faz. O doutor deve ter chegado � conclus�o de que o Satan�s andava por aqui olhando o jeito que eu me recuso a comer, que eu perco as estribeiras e quebro umas coisas, e d�-lhe rem�dio, d�-lhe rem�dio e a� � dois tr�s dias fora de �rbita. Enfim. N�o sabiam com o que me ocupar. N�o gosto do jardim. N�o coleciono bichos, como o Miro. N�o invento hist�rias como a Dina. Num dia qualquer chegou a minha prima aqui no casar�o (uma mo�a que parece uma p�ra), e disse ao doutor que tinha algum talento pras letras antes de �perder a cabe�a�. Deve ter falado desse jeito, �perder a cabe�a�. A� o lenga-lenga me tentando convencer a escrever. Papel, caneta, tudo em abund�ncia, crentes que minha vida vale um romance de 560 p�ginas. Vou tratar de terminar logo e mostrar que. Bom, mostrar alguma coisa. Nada de 560 p�ginas. A coisa se resume, entende? Chama lantejoulas verdes porque eu adoro lantejoulas verdes. Rarr� (estou rindo), meu irm�o tinha um chap�u com lantejoulas verdes, que eu um dia taquei no fogo. Inveja. Confessar n�o d�i nada. Tente. In-ve-ja. Pessoa distint�ssima esse meu irm�o. Senhor doutor advogado. Ali�s, suspeito que seja quem paga a conta aqui do casar�o. Que pague! E, quando eu tinha dezessete anos e meu pai morreu, eu sa� de casa. Desde aquele tempo eu j� sentia que essas sombras tavam mal intencionadas. Queriam me pegar, engolir. Hoje eu passei um tempo intermin�vel sem abrir os olhos, quando acordei, com medo da prateleira de f�rmica. Digo, a sombra. Ela passou a noite me amea�ando, assim, com os dentes, trictric, trictric. Desde ent�o, aquele tempo, mas eu n�o sabia que era loucura. Sempre perguntei ao doutor, mas ele nunca me respondeu: loucura nasce com a gente ou � s� depois que. Que o qu�? S�o Paulo de botar medo. Sa� de Jales com dezessete, eu j� disse, e descobri que apesar do tamanho, passar fome � igual, seja l�, seja c�. Depois de um tempo dei sorte. Vendi meus contos para uma revista. Com o dinheiro, comprei um sapato bonito, de couro, ali perto do shopping Ibirapuera, tem uma ponta de estoque. Com o sapato arrumei um emprego, no despachante. Ruim, ningu�m falava comigo e eu carimbava coisas e era perto do aeroporto, aquele barulh�o, e dois anos assim, e comendo sempre o xis-salada do boteco do Henrique, mas em cima dos documentos mesmo. N�o tinha not�cia da m�e. S� dois anos? N�o sei. Depois, o banco. Detestava o trabalho, mas eu tinha que pagar a pens�o, na Ana Rosa. N�o tinha pai, meu irm�o advogado n�o ajudava com um nada, ent�o que pague! Mas no banco havia Mariana. Quando Mariana ficava de p� sua sombra era pequenina como ela, eu lembro. E parecia haver dois buracos no vulto dela, os buracos de seus grandes olhos azuis. C�us! Que horr�vel! Algu�m est� gritando feito um louco l� em baixo. Feito um louco, rarr�rr�! Mam�e nunca me bateu mas droga, isso n�o tem nada a ver com o que eu estava dizendo. Sim. Eu estava perdidamente apaixonado. Eu lhe falava de livros, os que havia na biblioteca municipal de Jales. Conhecia todos, podia falar por horas. Ela me falava de filmes, conhecia todos, podia falar por horas. Eu comecei a notar o quanto gostava dela, e at� do seu pai, sua m�e, tudo o que lhe dizia respeito. Roupas, cheiros, tons e timbres, tudo. Naqueles olhos grandes eu tinha paz, bem diferente do ambiente barulhento do banco e suas filas intermin�veis e sua briga de foices promo��es e mesquinharias que tais. Ela era a minha fuga. O doutor me disse que pessoas com sanidade comprometida sempre procuram fugas. Da� porque penso que j� ent�o eu era louco. Quem viu diz que foi o casamento mais bonito que j� viu. Simples e lindo. Ela sorria para mim confiante e eu n�o sabia onde colocar as m�os. Ela fazia as contas, as compras, me animava, ela me amava, segurava a minha cabe�a no seu colo e dizia coisas, aquelas todas, e ent�o foi embora. Colega da faculdade, eu li a carta sobre a mesa. Ela sempre soube o que fazer, ent�o... talvez ela j� soubesse que eu n�o tinha o equil�brio, mas por outro lado era justamente ela a medida do meu equil�brio, quem colocava os pingos e os is. Naquela noite eu senti que as sombras cresciam muito. Quanto mais sil�ncio, maiores, como se se alimentassem de sil�ncio e n�o eram mais meras sombras, mas sombras de sombras, e queriam me engolir e eu sozinho. Sozinho e pior que antes, porque antes era eu sozinho e s�. Agora n�o. A solid�o depois da Mariana � assim um ferro na carne, rasgando lento. Ag�entei calado por dois meses, mas a� explodi. Segundo a minha prima-p�ra, me joguei vidra�a afora e vi que minha salva��o era o c�rrego; l� as sombras se afogariam, ent�o nadei e nadei. Eu nasci com tr�s quilos e pouco, minha m�e repetia a hist�ria todo anivers�rio. Todo anivers�rio era a hist�ria, sempre. Era forte e vigoroso, dizia sempre. Nem Caio nasceu com esse pes C�us, o que foi feito do Caio? Onde colocaram meu filho? O que fizeram com ele? Ele. ... como, como esqueci tanto tempo? Droga, estou chorando e eu detesto chorar. N�o consigo ver direito o que escrevo, desculpa a caligrafia. Ele n�o tem culpa! Sem Mariana deve estar t�o morto quanto eu. Caio. Caio. Voc� existe? Embora, foi, colega de facul. Quando eu fiz doze anos meu pai me deu uma m�quina de escrever. Exultante eu escrevi minha primeira poesia, uma bobagem sobre nosso gatinho obeso, o Bong�. Deu tr�s horas agora. Meu Deus, odeio esse hor�rio! As sombras da tarde come�am a crescer aqui dentro do quarto (e tomar vida! O doutor n�o pode saber que eu ainda tenho medo delas, ele disse, assim com o l�bio inferior saltado �meu filho, estamos fazendo progressos enormes! Continue assim, esque�a as sombras idiotas� n�o falou assim. Mas pensou) S� que eu preciso continuar. Tenho que acabar a hist�ria da minha vida, um pouco da inf�ncia, tenho, por causa do sas, do Satan�s e a vidra�a... e quando cansei de nadar o pano caiu, ningu�m aplaudiu, -DOR-de-denTE, foi o que eu disse canos Sorocabana cabana. Preciso pensar, pensar, pensar! Sem que algu�m pudesse dar-se conta voou gramas de todo ponto.................sai SOMBRA! SAIS SAI SAI SAI te odeio, vou suar tudo trif�sico parnasianos. Mem�ria em ca da c oz in h a de Marco Aur�lio Brasil Lima |
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