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A Publicação Científica Eletrônica

A possibilidade de, com um simples clicar, podermos passar de uma citação bibliográfica para um abstract ou um texto completo de um artigo, e até tirar dúvidas ou discutir o texto diretamente com o autor, está promovendo uma mudança considerável na forma de utilização da informação científica de publicação seriada.

A eletrônica está abalando as fundações do sistema de publicação periódica tradicional. Cada vez mais, está parecendo insustentável manter, como um meio básico de comunicação científica, uma infinidade de títulos de revistas científicas de alto preço, às vezes de baixa circulação.

Um requisito fundamental para o avanço da pesquisa científica em nossos dias é a propagação rápida da informação revisada por pares, que é ainda o indicador de qualidade aceitável no tradicional meio científico. Da mesma forma, o avanço nas carreiras acadêmicas e na captação de recursos para a pesquisa está associado a publicação em tempo recorde. Porém, algumas condições tornam progressivamente difícil publicar em tempo hábil nas revistas convencionais em papel. Nas revistas mais solicitadas, existem problemas de limitação de espaço. Nas revistas menos conhecidas, tempo de espera para fechamento de uma edição, escassez de recursos para manter uma periodicidade menor e constante. Altos custos de publicação e altos preços de assinatura, inerentes às publicações em papel, tornam inacessível sua aquisição por laboratórios ou bibliotecas de limitados recursos financeiros. Revistas de menor circulação não são facilmente encontradas em bibliotecas, ou nos índices de referenciação bibliográfica. Em conseqüência, fica difícil, às vezes, garantir o caráter inédito de um resultado e, à medida que novas descobertas são publicadas, falha-se eventualmente em dar o devido crédito a um trabalho prévio de outros pesquisadores. Uma forma alternativa de publicar trazendo solução para todos estes problemas surge, necessariamente, com um potencial enorme de sucesso.

Em 1995, o número de revistas na web era de 306, ao todo, incluindo todas as áreas. Em 1997, apenas algumas revistas científicas publicavam textos completos, com ilustrações, nas páginas da Internet. Uma grande mudança se verificou, a partir de então, com a entrada na web dos grandes editores científicos tradicionais. Até o início de 1999, a Reed-Elsevier já tinha mais de 1200 revistas on-line; a Springer tinha 360 e a Academic Press, 174. Hoje, é raro encontrar-se uma boa revista sem sua versão para a web, o que representaria até um risco para ela (Butter, D., Nature, vol.397, p.195-200, 1999).

A revolução inclui universidades em todas as partes do mundo e não é só a forma acadêmica de publicar que está em mudança. A própria existência das bibliotecas de pesquisa, como as conhecemos hoje, está em questão, com a erosão de seus papéis tradicionais. As editoras e os novos serviços eletrônicos estão entregando informação sofisticada diretamente aos usuários, sem a mediação das bibliotecas, que passam a executar outras funções.

Como estão reagindo, a respeito das publicações eletrônicas, os indexadores internacionais da literatura seriada científica? Tomemos o poderoso ISI (Institute for Scientific Information), cujos serviços se irradiam a partir de sedes situadas em países de três continentes - EUA, Japão, Singapura e Reino Unido - com a proposição de fazer uma cobertura abrangente da mais importante e influente pesquisa realizada em todo o mundo. O banco de dados do ISI cobre cerca de 16 mil publicações internacionais nas áreas de ciências, ciências sociais, artes e humanidades. É o ISI quem disponibiliza para a comunidade científica as conhecidas bases de dados de referências Current Contents e Web of Science. Para o ISI, são imprescindíveis nas revistas eletrônicas as mesmas qualidades esperadas nos periódicos tradicionais em papel: conteúdo editorial de valor, alta categoria dos autores e do corpo editorial, amparo financeiro, revisão por pares e caráter internacional. Em suas duas formas básicas – a forma tradicional de "edições" contendo uma coleção de artigos, ou a forma mais ágil de publicação de um artigo por vez – um periódico eletrônico deve apresentar também constância de periodicidade, embora os padrões para a avaliação dessa característica nos períodos eletrônicos ainda estejam em desenvolvimento. Segundo o ISI, um bom indicador da "saúde" de uma revista eletrônica é a regularidade com que os artigos são enviados. Embora esse indicador dependa da área de pesquisa, é de se esperar que pelo menos em seis meses alguma atividade seja manifestada.

Uma vez que, através da publicação eletrônica, as informações têm meios de ser repassadas do editor para o pesquisador mais rapidamente que suas versões impressas, os periódicos eletrônicos contam com a preferência do ISI, em sua avaliação para cobertura, desde que apresentem os requisitos mencionados.

 

Características e vantagens da publicação na Internet

A publicação eletrônica na Internet permite a disseminação em grande escala da informação científica tradicional - ou seja, de trabalhos revisados por pares de pesquisadores - em curto prazo, sem limitação de espaço e a um custo baixo, além de abrir possibilidade para apresentações multimídia, incluindo sistemas de coordenadas tridimensionais para modelos, filmes, arquivos sonoros ou ilustrações a cores sem custo extra. A possibilidade de comunicação eletrônica entre pesquisadores e outros usuários da informação veiculada via Internet, seja por correio eletrônico ou em fórum de discussão, tende a impulsionar a comunicação global na ciência. O uso do e-mail, facilitando a transmissão de trabalhos científicos a serem submetidos ao corpo editorial das revistas, para avaliação e revisão, assim como para solicitação e envio de separatas, elimina, não só os custos convencionais correspondentes da publicação impressa, como também agiliza consideravelmente a comunicação.

A informática aplicada à enorme acumulação de dados gerados na área de biologia molecular e biociências em geral é um exemplo oportuno de como a publicação eletrônica é bem adequada às necessidades correntes da pesquisa. No Projeto Genoma Xylella, tivemos recentemente a oportunidade de ver uma rede de laboratórios comunicando, continuamente e com grande velocidade, seus arquivos repletos de dados, através da Internet. Assim tem sido com outros trabalhos do Projeto Genoma Fapesp, assim como com o Projeto Genoma Humano Internacional e outros que requeiram um armazenamento maciço de dados em uma forma flexível que possibilite fácil recuperação e análise.

A obtenção direta, no próprio ambiente da revista, de links para diferentes partes do trabalho, ou para outros trabalhos, ou de links para fontes de consulta, como bancos de dados sobre um determinado assunto, ou banco de dados de referências bibliográficas, que já estão disponibilizados na Internet por grandes sistemas gerenciadores de informação, públicos e privados, é uma vantagem incomparável oferecida pelo ambiente de hipertexto.

A publicação de artigos de forma contínua, à medida que vão sendo enviados e liberados pelo corpo editorial da revista, a facilidade de revisão on-line e a possibilidade imediata da correção de possíveis erros nos trabalhos publicados são outras vantagens das versões eletrônicas das revistas científicas, que podem, se quiserem, abrir mão de elementos como volume, números de edição, paginação, etc., que são indispensáveis na versões impressas. Um dado fundamental, entretanto, necessário à confiabilidade que deve merecer o periódico eletrônico, é a permanência e a estabilidade do seu endereço na web. Da mesma forma, devido à facilidade de alteração de textos ou outros itens, facilidade que é inerente à publicação eletrônica, o periódico deve sempre informar a data em que revisões ou erratas dos trabalhos publicados foram feitas ou disponibilizadas na rede. Desse modo, as citações de artigos podem ser feitas e acompanhadas de forma conveniente. As citações bibliográficas de revistas ou de artigos on-line devem, portanto, incluir como seus elementos, além dos elementos essenciais convencionais, o endereço da página da web onde se encontram, a data em que os artigos foram disponibilizados - se possível - e a data em que foram acessados para consulta, esta última sendo uma condição praticamente indispensável.

 

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