O
manejo racional da água
A
água vem se tornando cada vez mais escassa à medida que a população,
a indústria e a agricultura se expandem. Embora os usos da água
variem de país para país, a agricultura é a atividade que mais
consome água. É possível atenuar a diminuição das reservas locais
de água de duas maneiras: pode-se aumentar a captação, represando-se
rios ou consumindo-se o capital -- "minando-se" a água
subterrânea; e pode-se conservar as reservas já exploradas,
seja aumentando-se a eficiência na irrigação ou importando
alimentos em maior escala -- estratégia que pode ser necessária
para alguns países, a fim de reduzir o consumo de água na agricultura.
Assegurar
a quantidade de água necessária não basta. É preciso manter a
qualidade da água.
Milhares
de lagos estão atualmente sujeitos à acidificação ou à eutroficação
-- processo pelo qual grandes aportes de nutrientes, particularmente
fosfatos, levam ao crescimento excessivo de algas. Quando as algas
em quantidade excessiva morrem, sua degradação microbiológica
consome grande parte do oxigênio dissolvido na água, piorando
as condições para a vida aquática. É possível restaurar a qualidade
da água nos lagos, mas há um custo e o processo leva anos.
Embora
a poluição dos lagos e dos rios seja potencialmente reversível,
o mesmo não acontece com a água subterrânea. Como a água subterrânea
não recebe oxigênio atmosférico, sua capacidade de autopurificação
é muito baixa, pois o trabalho de degradação microbiana demanda
oxigênio. A única abordagem racional é evitar a contaminação.
Por
sua vez, a recuperação da qualidade da água do oceano é incomparavelmente
mais difícil do que a dos lagos e rios, segundo experiência já
adquirida, que dita ainda mais precaução nesse caso.
Tornou-se
clara a necessidade de uma abordagem integrada. Expectativas socioeconômicas
devem se harmonizar com as expectativas ambientais, de modo que
os centros humanos, os centros de produção de energia, as indústrias,
os setores agrícola, florestal, de pesca e de vida silvestre possam
coexistir. Nem sempre o fato de existirem interesses variados
significa que devam ser conflitantes. Podem ser sinergísticos.
Por exemplo, controle de erosão caminha junto com reflorestamento,
prevenção de enchentes e conservação de água.
Um
projeto de manejo de recursos hídricos deveria visar mais um aumento
da eficiência no consumo de água do que um aumento da disponibilidade
de água. O aumento do fornecimento de água é usualmente mais caro
e apenas adia uma crise. Para alguns países, aumentar a eficiência
é a única solução às vezes. A irrigação pode ser e geralmente
é terrivelmente ineficiente. Na média mundial, menos de 40% de
toda a água usada na irrigação é absorvida pela plantação. O resto
se perde. Um dos problemas trazidos pela irrigação excessiva é
a salinização. À medida que a água se evapora ou é absorvida pelas
plantas, uma quantidade de sal se deposita e se acumula no solo.
Novas técnicas de micro-irrigação, pelas quais tubulações perfuradas
levam a água diretamente às plantas, fornecem boa maneira de conservar
a água.
A
captação de água subterrânea para aumentar o fornecimento de água
deveria ser evitada a todo custo -- a menos que se garanta que
o aqüífero de onde se tira a água será reabastecido. Como a água
subterrânea se mantém fora do alcance de nossas vistas, pode se
tornar poluída gradualmente sem excitar o clamor público, até
que seja tarde demais para reverter o dano causado pela poluição.
A
adoção de programas de prevenção de poluição é preferível à utilização
de técnicas de remoção de contaminantes em água poluída, uma vez
que a tecnologia de purificação é cara e complexa à medida que
o número de contaminantes cresce.
Paralelo
a tudo isso, existe a necessidade de se fazer mais pesquisa sobre
a hidrosfera, com estudos sobre a ecologia e a toxicologia da
vida marinha; sobre o ciclo hidrológico e os fluxos entre seus
compartimentos; sobre a extensão das reservas subterrâneas e sua
contaminação; sobre as interações entre clima e ciclo hidrológico.
"Predizer
o que pode acontecer se medidas rigorosas não forem implementadas
no manejo dos recursos hídricos é fácil. Rios que viraram esgotos,
lagos que se tornaram fossas... Não vimos isso acontecer? Pessoas
morrem por beber água contaminada, a poluição sendo carregada
para o mar ao longo das praias, peixes envenenados por metais
pesados e a vida silvestre sendo destruída... A política do laissez-faire
com relação ao manejo da água só pode conjurar mais desgraças
desse tipo -- e em escala maior.
Mas
temos esperança que o reconhecimento desse fato vai estimular
o governo e os povos à ação." |