Registo da sessão de Role-Play a 25/VI/99 - 1990's campaign.

Local: Casa do Luís
Game Master: Ricardo Madeira
Aventura: "Castle Dark", primeira parte.
Personagens:
     Magi Clouds [Irina], Sharon Graves [Raquel], Valdemar Phyllis [Luís Rodrigues], Jhonathan Stein [Marc].
NPCs:
     Homem do aeroporto, estalajadeiro, John Kopech, 3 rufias, padre Alexander, Serena & Vech.


25/VI/99 - Sexta-feira

     O pedido de viagem à Transilvânia é aceite pela Universidade para 4 pessoas: o prof. Valdemar Phyllis, os estudantes Sharon Graves e Jhonathan Stein, e a enfermeira Magi Clouds. [afinal quem é que paga à Magi: a Universidade ou a filha do professor?]
     Antes de partirmos efectuamos uma busca na Internet e obtemos apenas alguns nomes: uma montanha chamada Montelui Mare e uma aldeia de nome Drovosna. O castelo Hauptman fica a nordeste do monte, a 2000m de altitude. É presentemente ocupado por um descendente do Barão e foi construído no século XIII.

26/VI/99 - Sábado

Manhã:
     Os 4 elementos do grupo reúnem-se no aeroporto, prontos para a viagem, a horas indecentemente matutinas. Não podemos levar armas, claro, mas isso não impede Sharon de incluír as suas duas espadas na bagagem mais pesada.
     Já no avião, Jhonathan, compenetrado no seu papel de estudante em viagem de estudo, chateia tanto a hospedeira que lá acaba por obter permissão para ir ao cockpit. A sua alegria expressa-se num triunfante "YESSS!!" A viagem decorre sem problemas alguns. Nós e os passageiros mais próximos, no entanto, temos de aturar a excitação de Jhon e os seus intermináveis comentários em relação às maravilhas do cockpit.

Tarde:
     No aeroporto de Bucarest somos esperados por um homem magro com os nossos nomes num cartaz. Está encarregue de nos levar à aldeia de Drovosna. Lá nos enfiamos todos numa mini-van. O homem ainda nos mostra algumas das vistas de Bucarest e até paramos num Pizza Hut para levar pizzas na viagem.
     A viagem dura algumas horas. Sharon dorme o caminho quase todo, por causa do jet-lag e de se ter levantado tão cedo. Os restantes enjoam (uns mais que outros) nos caminhos maus de curva e contra-curva ao aproximar da aldeia.
     Já estava a escurecer quando chegámos. A aldeia encontra-se à sombra do imponente castelo Hauptman. Íamos já procurar alojamento quando o nosso guia nos informa que já está tudo tratado, de modo que só nos resta despedir do homem e encontrar a nossa estalagem - a única da aldeia.

Noite:
     Depois de algumas dificuldades de comunicação, o estalajadeiro lá nos leva aos quartos. Diz-nos também que lá tem outro turista, um estudante húngaro que está lá a fazer um estudo histórico da região, parece. Descemos uma última vez para um jantar tradicional na própria estalagem. Estamos nós já embrenhados no delicioso manjar quando entra um jovem de aspecto bastante deslocado. Convidamo-lo a sentar connosco, na esperança de conseguir aprender alguma coisa com o estudante. Chama-se John Kopech. Para nosso desapontamento, o jovem pouco ou nada nos diz em virtude de ter chegado há poucos dias.
     De súbito, a porta abre-se e dão entrada três homens com cara de rufias. Têm a pele escura e olham de soslaio para o grupo americano. Dirigem-se ao bar e pedem bebida com poucas cerimónias. Phyllis reconhece-lhes as feições como magiares.
     O grupo americano recolhe então aos quartos, trancam as velhas portadas de madeira e adormecem. Mas não por muito tempo porque um grito bem feminino se faz ouvir a meio da noite, acordando quase toda a gente na estalagem - menos o prof. Phyllis que pelos vistos vai ficando um pouco rijo de ouvido ;) Afinal era só Sharon e os seus pesadelos recorrentes. Ela abre a porta aos quantos preocupados que lhe batem à porta e pede desculpas. Jhon queixa-se amargamente, mas Magi insiste em passar o resto da noite perto de Sharon.
     Regressam todos aos seus quartos após o incidente, excepto Magi, que adormece no quarto de Sharon. Esta não consegue voltar a pregar olho nessa noite e fica a ver a noite a passar e o dia a nascer, abraçada aos seus próprios joelhos, sentada na cama.

27/VI/99 - Domingo

Manhã:
     Ao nascer do sol, a vida volta à estalagem e o grupo reencontra-se à mesa do pequeno-almoço. Antes de saírmos em exploração do local, fazemos montes de perguntas ao estalajadeiro para sabermos por onde começar. Por ele sabemos de algumas crenças populares da região. Pensa-se que o castelo é mau; o barão raramente é visto. Os homens abrutalhados na noite anterior eram homens do barão. Diz-se que a família dele era de vampiros e aconselha-nos a levar crucifixos se nos aproximarmos do castelo. Conta-nos que alguém da sua família tinha encontrado uma vez uma rapariga morta cujo corpo nao tinha pinga de sangue.
     Com perguntas mais específicas conseguimos também descobrir que o barão trouxera um jovem americano, há uns 30 anos atrás, que lá ficara a viver uns quantos anos. Ao fim de 6 ou 7 anos, desaparecera. Os últimos casos estranhos de que se lembra deviam ter tido lugar também há uns 30 anos atrás.
     Saímos à rua para a igreja ver o padre por recomendação do estalajadeiro; Sharon de óculos escuros por causa da noite mal passada. Trata-se de uma igreja romana ortodoxa. As pedras da fachada estão velhas e escurecidas. A porta da frente está trancada, mas isso não nos desmoraliza. o prof. Phyllis bate à porta.
     O padre que nos abre a porta, passados alguns instantes, é bastante velho, está vestido de preto, e chama-se Alexander. Fazemos uma série de perguntas e conseguimos que nos convide a entrar. Nos aposentos dele sentamo-nos à conversa. Somos supreendidos pelo facto de a população nao ser muito religiosa, tendo em conta as revelações supersticiosas do estalajadeiro.
     O padre conta-nos que há alguns anos atrás houvera um surto de vampirismo. Mencionamos Edward e o padre diz tê-lo conhecido. Segundo o padre, um dia o barão e o jovem americano saíram em viagem e só voltara o barão. Fora nessa época que houvera o surto de vampirismo.
     O padre fica encantado quando descobre que alguns de nós até falam latim e presta-se a deixar-nos estudar os arquivos da igreja, que se encontram nas catacumbas. Ficamos claramente entusiasmados e aceitamos àvidamente. Nas catacumbas está frio e húmido, mas uma parede inteira recheada de todo o tipo de registos faz-nos ignorar o desconforto.
     Ficamos o dia inteiro a estudar o material. Esquecemo-nos até do almoço! Jhonathan desiste pelas 3 da tarde, e sobe para conversar com o padre e passar o tempo - bibliotecas e investigação deste estilo não são bem o forte do jovem aspirante a eng. aeronáutico. Algures no meio da extensa conversa, o padre menciona tambem a proximidade de um acampamento de ciganos.
     Às pingas, o conhecimento vai chegando às nossas mãos, através de pequenas pistas dispersas por vários documentos. Aprendemos, entre outras coisas, que:

- Em 1242 é construído o castelo pelo primeiro Barão Hauptman, depois de ter expulso da área os mongóis.
- O primeiro Barão era descendente de um Hauptman expulso dos "Cavaleiros da Ordem Teutónica"
- Em 1348, uma patrulha de Luís o Grande da Hungria, mandada investigar irregularidades no baronato, desaparece, possivelmente vítima de bandidos.
- Em 1389 o castelo é cercado pelos turcos, mas o cerco só dura três dias: na quarta manhã o comandante e o seu escriba são encontrados mortos e drenados de sangue, tendo o exército levantado o cerco e partido para conquistar Wallachia
- Em 1545 a igreja local pede investigação oficial do Barão, sob acusação de prisão injusta e tortura.
- Em 1546 o Barão Hauptman VII é excomungado pela Igreja Oriental.
- Entre 1546 e 1552 foi registado um surto de vampirismo. Não se chegara a nenhuma conclusão.
- Em 1628 o Barão é acusado de raptar uma rapariga da povoação e de a manter cativa no castelo. Dias depois aparece o corpo dela despedaçado, lançado das muralhas do castelo
- Também em 1628, liderados pelo padre local, os habitantes de Drovosna tomam de assalto o castelo e matam o Barão. O castelo permanece desocupado até 1792, quando a Áustria reconquista a área aos turcos e aparece um suposto descendente do Barão, que retoma o título e as terras.
- Em 1956 o conde Sangrais da Hungria desaparece durante uma visita prolongada ao Barão. Amigos do conde procedem a buscas infrutíferas. O Barão não lhes concede audiência.
- O Barão é descrito como sendo baixo, muito musculado e de cabelo escuro.

     Quando o grupo já começava a sentir o cansaço da investigação e se preparava para desistir, Sharon encontra algo diferente: um pergaminho selado com cera e um sinete representando um símbolo deveras estranho. Ela quebra o selo e lê o relato de Jan Savechik, pároco da aldeia, em 1632. Entre alguns dados históricos já conhecidos dos americanos, aparece um relato em primeira mão da tomada do castelo pelos habitantes de Drovosna.
     Copiamos para um papel o símbolo que estivera no selo e acabamos a busca. Sharon repõe o relato na prateleira.

Noite:
     Quando saímos da igreja já está a anoitecer. Felizmente o padre gostou de nós e é todo sorrisos. Dirigimo-nos então à estalagem, cheios de fome. Apercebemo-nos que estamos a ser seguidos pelos três homens do Barão, os mesmos da noite anterior. Atentos mas sem dar a entender, ignoramo-los e chegamos à estalagem sãos e salvos, para um jantar opíparo.
     Durante o jantar, decidem visitar os ciganos: uns por mera curiosidade, outros, como a Sharon, para que lhes leiam a sina. Portanto, uma vez findo o jantar, o grupo sai mais uma vez em direcção à floresta, seguindo as indicações do estalajadeiro. Encontramos os seus carros vermelhos numa clareira perto da orla da floresta nocturna. À vista só estão dois deles: uma senhora velha, de vestido muito colorido, e um senhor baixinho, com uma certa idade. Interpelamos ambos.
     A senhora chama-se Serena e o homem, Vech, é seu filho. Ela convida-nos a entrar na carroça, que tem um certo cheiro peculiar. Puxamos-lhe pela língua e ela fala-nos do vampirismo do Barão. Lá fora ouve-se apenas o chop-chop do filho dela cortando lenha cadenciadamente.
     Finalmente Sharon insiste que lhe leiam a sorte. Serena saca do seu baralho de Tarot, baralha e começa a dispôr das cartas numa mesinha. Espada... Diabo... Torre... Morte. Ela fica um pouco abalada e volta a baralhar bem. Mais uma vez deita as cartas. Saem exactamente as mesmas cartas, o que muito impressiona Sharon e deixa a velha um pouco abalada.
     No silêncio constrangido que se segue, notamos de súbito que a cadência do machado, lá fora, se alterou. De facto parou por completo. Ouvimos sim, um gemido. A velha corre lá para fora, connosco aos calcanhares, chamando pelo seu filho.
     Do lado de fora, damos de caras com uma visão deveras estranha: o corpo de Vech debate-se com algo, suspenso no ar, como que por magia. Ficamos todos estupefactos e sem reacção durante o tempo suficiente para Vech terminar a sua luta com um esticão pouco natural. Algo começa a aparecer em pleno ar à medida que líquido vermelho lhe enche as entranhas, saído do pobre Vech. A visão e horrível: uma criatura com asas, cheio de bocas e tentáculos com ventosas, que vai ficando mais definido à medida que rouba sangue a Vech.
     Por fim o bicho larga o corpo exangue de Vech, voa numa espiral ascendente e desaparece.
     Tal visão nao deixa os turistas impassíveis: o Prof. Phyllis vomita, Sharon perde consciência. Jhonathan, num acto de coragem (ou pânico?) corre pela noite escura até à aldeia para ir buscar auxílio enquanto Magi fica atrás a cuidar dos seus companheiros de aventura. Jhonathan regressa com alguns aldeões que nos escoltam até à estalagem. O grupo recolhe aos seus quartos, onde se deitam bem embrulhados em cobertores, cheios de frio. Magi dorme no quarto de Sharon, para o caso das coisas.

28/VI/99 - Segunda-feira

Manhã:
     Sharon acorda perturbada, com Magi a sacudi-la de volta do mundo dos pesadelos. Reunidos à mesa do pequeno-almoço, o membros do pequeno grupo discutem longamente que acção tomar de seguida. Preparamo-nos para seguir até ao castelo. O pretexto? Estamos a estudar a história da região e o castelo é de grande interesse para nós. De preferência entramos sem que ninguém nos veja...
     Saímos então para o sol. O casaco comprido de Sharon esconde mais uma vez o seu Rapier e os óculos escuros as suas olheiras. Dirigimo-nos primeiro à igreja e ao seu simpático pároco para saber de caminhos para o castelo. Não havendo nada a relatar, seguimos para lá directamente.
     Demoramos um bocado a trepar o caminho até à porta do castelo, sempre sob a visão impressionante do edifício que domina a aldeia. Chegámos ao portão. Olhando em redor vemos a muralha em ruínas, a torre direita abatida... O portão é de madeira maciça e o batente de ferro em forma de um esqueleto inumano com cornos.
     Como o portão não parece muito convidativo, procuramos primeiro alguma entrada alternativa nas proximidades: como Magi bem nos lembra, o relato de Jan Savechik mencionava uma saída dos subterrâneos do castelo que vinha dar ao lado de fora das muralhas. A nossa busca é, no entanto, infrutífera, de modo que nos dirigimos de novo para o portão e nos reunimos sob a presença desconcertante da enorme massa de madeira com batentes.

Batemos ou não?

(to be continued...)


Citações do dia:

Jhonathan Stein [Marc] - "Slovodan!"*

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* Palavra com múltiplos significados conforme nos convinha: era a única palavra romena que o grupo conhecia, gracas a Jhonathan, e que passou por 'bom dia', 'boa noite', 'obrigado' e 'o jantar estava muito bom'.



Registo escrito por Raquel Correia e Luís Santana

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