Capítulo 10 – Bem escuro antes das trevas
Harry estava extremamente deprimido, por isso deixou a enfermaria, e, contrariando todas as promessas que tinha feito a seu papai, saiu do castelo rumo à mata que ficava atrás da cabana de Hagrid no meio da noite. Era escuro, e Harry não via muito para onde estava indo, mas ele tinha que ir embora. Para sempre.
Papai Severus tinha ficado muito bravo com Harry. Ele nunca tinha gritado com Harry, e mais: ele estava com um machucado onde seu pai o agarrara e o sacudira. Claro que isso não era nada comparado ao que o tio Vernon tinha feito, mas Harry estava horrorizado. E depois o próprio tio Vernon tinha aparecido, dizendo como ele era um inútil e imprestável e aberração. Era tudo verdade.
Harry tivera dois papais que o amavam, mas ele tinha sido um menino muito mau, por isso não merecia ficar com eles. Ele era uma aberração, como os Dursley sempre disseram que ele era, e não podia ficar no meio de bruxos normais.
Ele era um menino muito mau. Deveria ter sido bonzinho. Ele ganhara dois papais, um quarto só para ele, amigos na escola; enfim, tudo que ele sempre quisera. Mas ainda assim, ele tinha sido mau e desobedecido seu Papai Severus, quando ele estava tentando curar Papai Remus. Era melhor mesmo ele ir embora dali. Papai Severus e Papai Remus podiam arrumar outro garoto, um melhor que ele.
Harry estava muito, muito triste. Ele chorava feito um bebezinho, e aí ele não conseguiu mais andar de tanto que chorava.
– Desculpe... – ele soluçou, na floresta escura. – Desculpe, Papai Severus!
Harry chorou tanto que não percebeu as criaturas da noite, atraídas pelo barulho, pelo cheiro e pelo inusitado de um filhote tão apetitoso sozinho no meio da noite. Então Harry se enrodilhou no chão, embaixo de uma árvore, exausto. Sua vontade era dormir e não acordar mais.
Bom, algumas das criaturas estavam pensando mais ou menos a mesma coisa.
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– Vocês não vão acreditar nisso – disse a voz de trovão. – Ele está aqui mesmo.
Severus quase sentiu o coração parar de alívio. Ele estava procurando Harry há horas. Não era o único: uma força-tarefa de professores estava na caçada. O sol já saíra, e eles estavam há horas praticamente revirando o castelo em busca do guri. Ninguém sabia quando ele tinha saído, mas era provável que ele tivesse passado a noite inteira na Floresta.
Hagrid o tinha em seus braços.
– Ele nem acordou, pobrezinho. Firenze me trouxe na beirada da floresta. Como Fang estava me puxando para lá, e ele é bom farejador, eu temia que Harry estivesse lá. Firenze achou que ele podia ser de alguém da escola. Achou-o dormindo numa árvore e havia outras criaturas rondando o lugar, prontas para dar o bote.
O coração de Severus quase parou pela segunda vez.
– É melhor levá-lo para Madame Pomfrey o quanto antes, Rubeus – pediu o diretor. – Obrigado por isso. Vou chamar os outros e avisar que Harry foi encontrado.
Severus também agradeceu:
– Fico muito agradecido, Hagrid.
– Não tem de quê, professor.
Hagrid saiu, e Severus andou de um lado para o outro no gabinete de Albus, inconformado.
– Sou um monstro. Meu próprio filho prefere a companhia de feras na floresta a viver comigo!
– Tenha calma, Severus. Estou certo de que a situação não é tão grave como pensa.
– Como não? Ele fugiu, Albus! De *mim*! Remus vai ficar enlouquecido quando souber. Eu sou tão ruim quanto Dursley. O Ministério tinha razão.
– Pode parar aí mesmo, Severus. Em primeiro lugar, temos muita sorte de ter resolvido esse assunto rapidamente. Se isso cair nos ouvidos do Ministério, eles podem tentar questionar a adoção mais uma vez.
– Sim, eu sei.
– Em segundo lugar, você nada tem a ver com o tratamento que Vernon Dursley deu ao seu sobrinho. Severus, certamente Poppy já deve ter lhe dito que eventualmente será necessário disciplinar o garoto. Você vai ter que erguer a voz para ele, dizer nãos e fazer com que ele o obedeça. Quando ele chegar à adolescência, então...
– Eu não precisava tê-lo agarrado... ou sacudido...
– Sim, verdade. Mas você já aprendeu, não? Entendo, você se irritou com ele e descontou sua raiva. Mas confio que não vai continuar machucando-o fisicamente. E o mais importante é fazer Harry entender que, ainda que você grite com ele e o ponha de castigo, ou coisa semelhante, isso não quer dizer que você deixou de amá-lo. Existe uma possibilidade de que ele tenha ficado apavorado com a perspectiva de que você não o quisesse mais. Ele precisa ser reassegurado que não será mandado embora, não importa o que tenha feito.
– Nunca mais vou gritar com ele...
– Com seu temperamento? Severus, seja mais realista. É claro que você vai gritar com ele. Um dia ele vai se sentir seguro o bastante para gritar de volta. É da natureza da criança. Elas gostam de testar limites. Ele certamente vai testá-lo, esticar o limite para ver até onde conseguirá ir. O importante é você estabelecer limites e puni-lo se ele ultrapassar esses limites. Pode usar detenção, ir para cama mais cedo, fazê-lo repetir linhas, mas deve se reprimir de usar violência física.
– Por Merlin, Albus. Eu não quis machucá-lo.
– Claro que não. Harry sabe disso. No fundo, bem lá no fundo, ele sabe disso.
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– Acho que precisamos ter uma conversa, Harry.
O menino baixou a cabeça, olhando para o lençol da enfermaria, onde ele ainda estava. Ele queria se controlar, parar de chorar feito um bebezinho. Mas aquele era o momento em que seu pai ia mandá-lo embora para sempre, porque Harry dava muito trabalho.
– Eu sei. – Harry não conseguia erguer muito a voz, mas ainda conseguiu perguntar: -Quando você vai me levar?
– Levar para onde?
– Para o orfanato. – Ele não tinha direito de pedir nada, mas ainda assim implorou: – Por favor, não me mande de volta para a casa do meu tio! Eu prefiro ir para o orfanato!
Chocado, Severus ficou em silêncio alguns segundos. Harry acreditava que ele tinha decidido levá-lo de volta para a casa do tio Vernon?
– Posso dar tchau pro Papai Remus?
– Harry – apressou-se em dizer Severus. – Você não vai embora para lugar nenhum. Pensei que tivesse entendido isso. Seu pai e eu queremos você para sempre, e isso não vai mudar nunca.
Harry o encarou, quase com medo de ter esperança. Ele podia ficar?
Severus completou:
– A menos que você não queira mais ficar conosco.
– Não, não! Eu quero ficar aqui, sim! – Harry disse. – Pensei que não me quisesse mais. Você estava muito bravo.
– Sim, eu estava muito bravo mesmo. Na verdade, Harry, eu estava apavorado. Pensei que tivesse perdido você ontem. Quando eu chamei, chamei e você não respondeu, eu achei que nunca mais fosse vê-lo. E depois eu fiquei bravo. Sabe por quê?
– Foi porque eu desobedeci?
– Bom, isso também. Harry, se eu não deixo você andar sozinho no castelo, não é porque eu queira estragar sua diversão. É para sua proteção. Aquilo que apareceu no túnel era um Boggart, uma criatura que tem como prazer causar medo. Por isso ele se transformou no seu tio Vernon, para assustar você.
– Eu fiquei com medo.
– Foi mesmo. Como você ainda é pequeno para usar sua magia, ele não encontrou resistência. Os alunos mais velhos podem fugir de Peeves e se defender de Boggarts, mas você é pequeno. Ainda assim, você não é nenhum bebezinho, e quer conquistar sua independência. Posso entender isso, mas meu dever é protegê-lo. É isso que papais fazem.
– Tá bom.
– Só que eu preciso lhe pedir desculpas, Harry. Fiz uma coisa muito errada com você. Agarrei seu braço e sacudi você, e isso é uma coisa que papais não devem fazer, mesmo que estejam muito bravos. Como expliquei antes, eu estava com muito medo de perder você, por isso fiquei tão nervoso. Eu também nunca tive um filho antes, Harry, por isso espero que você entenda que eu cometerei erros. Talvez seu pai Remus não cometa tantos quanto eu, porque ele tem um temperamento diferente. Mas isso não quer dizer que eu o ame menos, Harry. Você é meu garoto, e eu nunca vou deixar de amar você. Tá bom?
Harry olhou para ele, os olhos brilhando. De repente, ele desceu da cama e agarrou-se a Severus.
– Então você nunca vai me mandar embora, não importa o que eu fizer?
Severus o abraçou com força, garantindo:
– Não, não vou. Mas você vai ganhar bronca se fizer coisas erradas. E entrar na Floresta definitivamente é uma coisa muito, muito errada. Você não faz idéia de metade das coisas que habitam aquele lugar. Agradeci muito a Hagrid por tê-lo trazido são e salvo.
Harry se sentiu todo quentinho por dentro, abraçado a seu Papai Severus. Ele não era tão brincalhão quanto seu Papai Remus, mas ele gostava muito de Harry.
Harry deu-lhe um beijinho na bochecha e aninhou-se todo com ele:
– Que bom que você é meu papai...
– Também fico muito feliz de você ser meu filho, Harry.
– Então tá tudo bem agora?
– Tá. Vamos esperar Madame Pomfrey dar uma olhada em você e depois podemos voltar para casa.
Capítulo 11 – Uma surpresa
– E assim que chegarmos aos aposentos, você vai direto para o banheiro. Está devendo um bom banho.
– Posso tomar banho de banheira? Com espuma roxa?
– Pode. O Urso também precisa ser limpo.
– Mas ele não pode ir na água. Papai Remus diz que ele vai estragar.
– Então vamos ter que dar um outro jeito nisso.
Severus tirou a varinha do bolso e apontou contra o boneco.
– Escorificar!
O urso ficou limpinho, e Harry, que nunca tinha visto essa mágica, ficou impressionado:
– Wow. Pode fazer isso comigo?
– Espertinho. Você vai para a banheira. Agora.
– Tá!
Harry entrou nos aposentos correndo e foi direto para o banheiro. Ele sabia preparar seu próprio banho e usar a espuma roxa que ele adorava. Severus apanhou as roupas que ele ia trocar e uns brinquedinhos para a banheira.
– Vamos lavar a cabeça e tudo.
– Posso brincar um pouco com a espuma?
– Depois que estiver limpo, então. – Ele mostrou o patinho de borracha. – Olhe, trouxe seu pato.
– Obrigado, Papai!
Severus agradeceu ao fato de que Harry ainda era novo o suficiente para gostar de tomar banho e brincar na água. Quando ele começasse a ser rebelde para entrar no banho, eles iam ter problemas.
Depois que Harry já estava de molho há quase 30 minutos, Severus o chamou para o fim da brincadeira. Tirou-o da banheira, secou-o e começou a vesti-lo, dizendo:
– Daqui a pouco vamos almoçar no Grande Salão. Você quer descansar um pouco antes disso?
– Não é sonequinha?
– Claro que não. É descanso, de gente grande.
– Talvez mais tarde. Agora não tô cansado.
– Ótimo. Eu tenho uma surpresa no seu quarto. Quero ver se você vai gostar.
Harry arregalou os olhos:
– Uma surpresa? Para mim?
– Isso mesmo.
– O que é?
– Se eu contar, deixará de ser surpresa. Por que não vai ver?
Curioso, Harry correu, e parou na porta do quarto. Ele estava maravilhado.
Sua cama, antes uma cama infantil normal, agora era uma cama grande, com quatro postes e dosséis azul-marinho, um tom mais escuro do que o azul-Ravenclaw. As cobertas também eram azuis, tons escuros, mas diferente dos dosséis.
– Wow...
– Essa é a mesma cama que os meninos grandes de Hogwarts têm nos dormitórios – explicou Severus, da porta. – Já que você não é mais bebezinho que tira sonequinhas, achei que você deveria ter uma cama de criança grande.
Harry rodeava a cama, maravilhado. Ele nem sabia o que dizer. Depois de tudo que ele tinha aprontado, seu pai ainda lhe dava um presente desses...!
– É como uma barraca, que nem Dudley brincava com seus amigos...
Severus explicou:
– Aquele túnel foi fechado, Harry, e você não vai mais poder brincar lá. É muito perigoso, mesmo sem o Boggart. Mas você pode fechar as cortinas de sua cama e brincar de caverna, se quiser.
– É.
– Então vou deixar você brincando. Não vá se sujar. Venho apanhá-lo quando for hora do almoço, e não vai dar tempo de um outro banho.
Harry pulou para cima da cama, e começou a fechar as cortinas. Obviamente estava tão ansioso em começar a brincar de "barraca" que nem ouvira o pai.
Severus saiu do quarto, preocupado com outros afazeres. Ele perdera uma manhã de aulas, e precisava ter certeza de que conseguiria dar as aulas da tarde. Isso exigiria um pouco de planejamento, e seria preferível deixar Harry com alguém a mantê-lo sozinho no quarto. Ele provavelmente só iria se meter em novas encrencas, e uma nova bronca só iria...
Severus interrompeu sua linha de raciocínio quando dois bracinhos curtos tentaram dar um abraço na sua linha de cintura. A princípio, surpreendido, ele ficou tenso, mas ao ver que era Harry, ele relaxou e pôs a mão na cabeça do garoto.
– Obrigado, papai.
Severus ficou mais emocionado com aquilo do que queria admitir. Ele não sabia exatamente por que Harry estava agradecendo. Mas Harry estava grato, e ele sentiu um calorzinho no fundo de sua alma. Ele não costumava sentir muitos desses, mas, desde que Harry e Remus entraram em sua vida, ele vinha sentindo isso com freqüência. Ele podia se acostumar àquilo.
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Ao chegar ao Salão Principal para o almoço, Severus sugeriu que Harry devesse agradecer Hagrid por tê-lo tirado da Floresta. O gigante ficou emocionado e fez Harry prometer fazer uma visitinha a ele e Fang.
Depois do almoço, Severus levou Harry de volta à enfermaria, pois Madame Pomfrey tinha concordado em tomar conta dele até o final das aulas. Harry não entendeu direito e quis se certificar:
– Mas eu não tô doente, né, papai?
– Não, Harry. Você só vai ficar com Madame Pomfrey até as aulas acabarem. Procure ser bonzinho e obedeça a ela, entendeu?
– Tá.
A velha matrona recebeu-os com um sorriso, e ela observou com cuidado Harry abraçar e beijar seu pai com carinho, antes que ele voltasse às masmorras. Parecia que não tinham sobrado quaisquer traumas da noite passada.
– Está cansado, Harry?
– Não, senhora.
– Bom, se você ficar cansado, é só me avisar e aí você pode descansar um pouco naquela cama ali adiante, está bem?
– Está bem.
– Agora, se você não tiver outros planos, eu gostaria que me ajudasse na enfermaria. Naquela cama ali – Ela apontou para o canto oposto –, tem um paciente a quem você poderia fazer companhia.
Harry olhou a cama de longe.
– Ele tá doente?
– Ele é um menino do 3° ano que se machucou e vai ter que passar a noite aqui. Se você puder brincar um pouco com ele, acho que ele vai ficar bem contente.
– Tá.
– Se precisar de alguma coisa, é só chamar.
Harry foi até a cama indicada e viu apenas uma pessoa deitada com muita gaze pelo corpo, inclusive em grande parte da cabeça. Mas dava para ver o cabelo cor de fogo, e Harry se lembrou do menino, mesmo que não soubesse seu nome.
– Oi.
O menino ergueu a cabeça. Harry viu que ele era mais velho, provavelmente mais de 12 anos. Bom, se ele era do terceiro ano, podia ter até 13 anos.
– Ei. Você é Harry Potter?
– Sou. E você?
– Meu nome é Charles Weasley. Pode me chamar de Charlie.
– Tá. O que aconteceu com você?
– Eu tentei fazer uma poção que não deu certo.
– Você errou na poção?
– Não, eu tentei inventar uma poção.
– Meu papai também faz isso! Ele inventa poções. – Harry franziu o cenho. – Mas o que a sua poção deveria fazer?
Charlie pareceu envergonhado em admitir:
– Eu queria apagar as minhas sardas.
– Por quê?
– Todo mundo fica gozando de mim. Me chamam de Ferrugem e essas coisas.
– Que chato. Mas você vai ficar bom?
– Madame Pomfrey diz que sim. Mas as sardas vão continuar.
– Até que não é tão ruim. Eu gosto de sardas.
– Aposto que minha mãe vai me dar uma bronca.
– Meu pai também me deu bronca.
– Eu vi que você esteve aqui antes. Você fugiu?
– Foi.
– Por quê?
– Achei que meu pai não me queria mais.
– Tá brincando? O Prof. Lupin adora você!
– Não ele. Meu Papai Severus.
– Ele é bravo. O que você fez?
– Ele me pediu uma coisa e eu desobedeci.
– Ih, isso é ruim. Seu pai sabe mesmo como dar castigos.
– Ele não me castigou. Ele me pediu desculpas depois. Sabe, ele ficou bravo, e eu... eu me assustei. Aí eu tentei fugir.
– Fugir? Para onde?
– Para a Floresta.
O ruivinho arregalou os olhos:
– Para a Floresta? Não sabe que é proibido?
– Agora eu sei.
– Cara, você é demais! Fugiu do Snape e ainda foi para a Floresta? – Charlie estava impressionado. – Conta aí: viu algum lobisomem? Meu irmão Bill diz que tem tudo quanto é tipo de monstro lá.
– Não. Eu dormi. Hagrid me tirou de lá quando eu estava dormindo, ai eu não vi muita coisa.
– Nossa! Você podia ter sido comido por um monstro! Não ficou com medo?
Harry ia responder, mas foi interrompido quando uma coruja entrou voando na enfermaria, circundou um pouco o teto alto do castelo, mas entregou uma carta a Charlie. Harry adorava ver as corujas entregando correspondência. Ele também notou que ela trazia um envelope vermelho.
– Você recebeu uma carta!
– Não é carta, é um Howler.
– Howler? O que é isso?
– Não sabe o que é um Howler?
Harry fez que não com a cabeça, mas antes que Charlie dissesse mais alguma coisa, Madame Pomfrey veio verificar a presença da coruja em sua enfermaria.
– O que é isso, Sr. Weasley?
– Acho que é um Howler.
A enfermeira balançou a cabeça:
– Bom, nesse caso, não fique aí o melhor a fazer é abrir logo. Não adianta nada tentar ignorá-lo. Prefere abri-lo sozinho?
O ruivinho de 13 anos deu de ombros:
– Tanto faz. Todo mundo vai saber mesmo.
Harry não estava entendendo, então Charlie abriu o envelope, e uma voz veio de dentro dele, uma voz de mulher. E parecia furiosa:
– *Charles Weasley! Estou absolutamente desgostosa! Pensei que fosse seguir os passos de seu irmão Bill, mas agora está servindo de mau exemplo para seus irmãos menores! Como se eu já não tivesse problemas suficientes com Fred e George! Se você não se endireitar, seu pai e eu vamos tirar você de Hogwarts!*
O envelope se queimou sozinho, para espanto de Harry. Charlie tinha o rosto mais vermelho do que o cabelo. Harry não conseguia falar nada, com os olhos arregalados.
– Essa aí é... a minha mãe – disse o ruivo, desanimado.
– Puxa! Ela estava furiosa! Meu pai também brigou comigo.
– Eu tenho muitos irmãos, sabe? Ela tem muito trabalho cuidando de todos eles. Os gêmeos são umas pestes! Eu tenho um irmão que deve ser da sua idade, o Rony. Vocês podiam brincar juntos.
– Ele podia vir estudar em Hogsmeade! Comigo e com meu amigo Neville!
– Vocês iam se dar bem. Podiam jogar Quidditch juntos.
– Eu nunca vi Quidditch.
– Nunca? Puxa, você vai ver daqui a pouco. Os jogos vão começar no final do mês. Sabe que eu sou o apanhador do time de Gryffindor?
– É? Isso é como um goleiro?
– Melhor. Deixa eu te explicar.
A tarde passou tão rapidamente para Harry que ele nem se lembrou de estar cansado.
Capítulo 12 – Pondo Harry para dormir
– Ouvi dizer que você fez um amigo hoje na enfermaria.
– Charlie! – disse Harry, animado, colocando o pijama. – Ele é legal. Ele me falou tudo sobre Quidditch!
– Você vai gostar de ver os jogos, Harry – garantiu Severus. – É muito divertido.
– Você joga Quidditch, Papai Severus?
– Não, mas seu pai, James Potter, foi um grande jogador no tempo dele.
– É mesmo?
– Isso mesmo. Seu pai Remus pode lhe contar muitas histórias de seu pai James.
– Quando Papai Remus vai voltar?
– Acho que ele perdeu o trem, Harry, e deve chegar num outro mais tarde. Quem sabe amanhã, quando você voltar da escola, ele já estará em casa.
– Legal! Charlie disse que ele podia brincar comigo um dia desses. Ele pode, Papai?
– Ele quis brincar com você? Ele é mais velho, por que brincaria com você?
– Para me ensinar Quidditch.
– Bom, eu vou ter que falar com seu Papai Remus antes e com os pais de Charlie. Quidditch pode ser bem perigoso, rapazinho. Madame Pomfrey disse que você já jantou.
– Com o Charlie! O irmão dele apareceu também. Ele é enorme! Mas é legal.
– Quer comer mais alguma coisa? Está com fome?
– Não tô com fome. – Harry correu para a cama e começou a se enfiar debaixo das cobertas. – Papai, conta uma historinha?
– Qual você gostaria de ouvir?
– Conta de novo a da Lebre que Perdeu os Óculos!
– Você gosta mesmo dessa história, não gosta?
Harry assentiu, excitado. Severus maravilhou-se que seu filho tivesse tanta energia e alegria depois de tudo o que acontecera.
Mas as emoções não tinham terminado. Uma voz diferente e familiar apareceu no quarto.
– Ahá! Peguei os dois!! Então, estão contando historinhas sem esperar por mim?
O rosto de Harry se iluminou num sorriso como se fosse uma árvore de natal ao ver seu outro papai no quarto:
– Papai Remus!! – Ele saiu debaixo das cobertas e correu a pendurar-se nele, animadíssimo. – Você chegou! Viu minha cama nova? Papai Severus deu para mim uma cama com cortinas porque no túnel tinha um Boggart! Aí ele me assustou, eu fiquei muito chateado e fui para a Floresta, onde tem monstro e até lobisomem! Aí o Hagrid me achou, e o Papai Severus me explicou que ele não ia me mandar para um orfanato! Ele me deu um banho e depois só me levou para a enfermaria, e eu conheci o Charlie! Ele ganhou um envelope que berra com a voz da mãe dele!
Com Harry no colo, Remus não sabia se ria ou chorava com tudo que ouvia. Aliás, ele não entendia muito do que estava ouvindo.
– Que história é essa de orfanato? E como você foi para a Floresta?
Severus garantiu:
– É uma longa história.
– Vocês vão ter que me contar tudinho. – Mesmo com Harry no colo, Remus se inclinou para dar um selinho em Severus. – Sentiu minha falta?
– De mais modos do que você pode imaginar. Está melhor?
– Estou cansado, só isso. – Ele beijou Harry. – E você, sentiu minha falta?
– Muuuito! Senta, Papai! Vamos contar para você tudo que aconteceu.
– Só se fizermos diferente. Você vai contar, Harry. Não me esconda nada.
– Papai Severus, me ajuda, tá?
– Comece do começo, Harry. Quando começou tudo?
– Eu descobri um túnel no meu armário, e aí eu fui explorar o túnel, e aí eu levei o Urso para a aventura!
– O "túnel" a que ele se refere era um buraco que mal cabia uma toupeira.
– Mas tinha um Boggart lá dentro! Eu nunca tinha visto um Boggart!
A narrativa excitada de Harry, com algumas intervenções de Severus, demorou quase 30 minutos. Remus alternava emoções como extremo horror e medo, com uma ternura sem fim. Harry estava no colo dele, e Severus também o abraçava.
– Oh, meu garoto tão corajoso. E sortudo! A Floresta é um lugar perigoso. Por isso ela tem o nome de proibida.
– Eu sei disso agora.
– E sabe também que não importa o que aconteça, nós amamos você e nunca vamos querer que vá embora? Que vamos procurar por você se sumir, e se não conseguirmos encontrar, vamos ficar apavorados e zangados? Sabe de tudo isso?
– Sei, Papai.
– Você é muito precioso para nós, Harry. É nosso menino. Nunca vamos desistir de você, não importa o que faça. Entende direitinho o que isso quer dizer?
– Acho que sim. A mãe de Charlie também deu uma bronca nele.
– Conheço a mãe de Charlie Weasley, e ela é louca pelos filhos. Assim como nós somos loucos por você, Harry.
– Eu também gosto de você, Papai Remus. E do Papai Severus.
– Que bom – Remus beijou-lhe a testa. – E agora está na hora de você ir dormir. Amanhã temos que ir à escola.
– Que bom que você está de volta, Papai Remus. Fico feliz.
– Também fico feliz em estar de volta. Agora vamos dormir.
– Papai, será que vocês podem ficar aqui até eu dormir?
Remus olhou para Severus, que tentou esconder o riso no canto dos lábios, mas não deu. Então os três se ajeitaram na cama de Harry, que agora era bem grande e cabia todos ali – mais Urso, é claro.
Os três estavam unidos num casulo de emoções variadas, juntos. Juntos, em todas as ocasiões.
Como as famílias costumam ser.
The End
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