Capítulo 13 – O último hino foi cantado
Sem surpresas, os olhos azuis do diretor de Hogwarts brilharam intensamente ao ouvir, durante o almoço, o anúncio de Remus, aceitando a proposta de ficar em Hogwarts.
– Ah, excelente, meu rapaz! Isso muito me alegra.
– Mas ainda não sei o que tem em mente para mim, Prof. Dumbledore – confessou Remus. – Presumo que seja a Defesa Contra as Arte das Trevas. Ouvi dizer que está vago novamente.
– Não, meu jovem. Você não será professor de Defesa Contra as Arte das Trevas. – Dumbledore acrescentou, vendo o movimento do outro lado da mesa: – Não, Severus, também não pretendo retirá-lo de Poções este ano. Mesmo que o cargo esteja vago, seus serviços são muito preciosos no campo das Poções.
Harry observou Severus fechar a cara. O menino achava que seu amigo taciturno precisava sorrir mais.
Dumbledore continuou, dirigindo-se a Remus:
– O Prof. Kettleburn vem me solicitando mais tempo livre. Portanto, meu jovem Remus, eu gostaria de lhe oferecer o cargo de professor assistente de Trato de Criaturas Mágicas. Ao menos inicialmente. Se o nosso querido Prof. Kettleburn decidir se aposentar, como se confidenciou recentemente, o cargo é seu, claro.
– Precisarei apenas de alguns dias para tratar de algumas coisas entre os Muggles antes de me instalar definitivamente em Hogwarts. Preciso entregar o apartamento, retirar Harry da escola e do posto de saúde, dar adeus a alguns amigos. Além disso, as aulas começam em breve, e eu gostaria de passear um pouco com Harry, talvez em Londres. Ele nunca foi a um zoológico. Ou a um circo.
A revelação fez os adultos se entreolharem, mas Remus desviou a atenção de Harry observando que ele deveria comer sua Shepherd's Pie.
O diretor comentou:
– Estou pensando que vocês se alojariam bem num aposento especial na Torre de Gryffindor. O que você acha, Harry?
– Eu queria ficar nas masmorras, perto do Prof. Snape.
– Mesmo? – perguntou o Prof. Dumbledore. – E por que prefere ali, Harry?
– Fica embaixo do lago! – respondeu o menino, animado. – A gente vê os peixes no teto transparente! Eu queria ver a Lula Gigante também. E as paredes são de pedra!
Dumbledore sorriu:
– Sim, sim, é fascinante. Mas precisa se agasalhar bem, porque ali faz frio no inverno.
– Tem lareira. E o Prof. Snape fica perto. A gente pode visitar, não é, Papai Remus?
– Claro. Desde que o Prof. Snape permita, é claro. Ele também precisa descansar e fazer suas poções. Não podemos ficar incomodando.
Harry se virou para Severus e sorriu. Como resposta, Severus ergueu um dos cantos da boca.
Remus voltou-se para Dumbledore:
– Professor, eu gostaria de pedir permissão para Harry se tratar com Madame Pomfrey. O médico Muggle insistiu que Harry deveria passar por exames num hospital, mas eu não quis levá-lo a St. Mungo’s, por razões óbvias.
– Não haverá problema algum – garantiu Dumbledore. – Poppy ficará feliz em ter alguém para acompanhar desde tão tenra idade.
Remus aproveitou a deixa e disse:
– Aliás, Severus, falando em acompanhar, Harry e eu estivemos conversando e queremos convidá-lo para passear um pouco.
– É! – reforçou Harry. – Você pode vir conosco, Prof. Snape? Por favor?
– As aulas estão para começar – lembrou ele. – Eu preciso preparar para a chegada dos alunos.
– Oh. – Harry abaixou a cabeça, decepcionado.
– Que pena. Harry e eu adoraríamos se pudesse passar uns dias conosco.
– Eu tenho um quarto! – disse Harry. – Você pode dormir na minha cama. Por favor?
Severus encarou Remus e viu uma luz nos olhos castanhos, uma luz que despertou um tipo de fome que nada tinha a ver com o delicioso almoço de Hogwarts.
– Bem... – Ele se fez de difícil. – Talvez eu possa me afastar por uns poucos dias. Pretendem ir em breve?
– Esperava pegar o Expresso de Hogwarts ainda hoje. Depois do que aconteceu na vinda para cá, não quero ver Harry tão cedo perto de uma lareira de Floo.
– Excelente idéia – elogiou Dumbledore. – Enquanto isso, que tal uma sobremesa? Harry, gostaria de dropes de limão?
Harry olhou para o Prof. Dumbledore e notou que ele não queria mais separá-lo do Papai Remus. Então ele sorriu e aceitou o doce.
Remus também sorriu e olhou para Severus. Ele não quis ser muito otimista, mas jurou ver também um brilho de fome nos olhos negros.

Harry ficou maravilhado com a viagem de trem. Ele tinha sido informado que grande parte da viagem seria à noite, porque Hogwarts era muito longe de casa, e ficava na Escócia. Mas, ao lado de seu Papai Remus e do Prof. Snape, o menino se divertiu muito. À noite, ele dormiu no colo de Remus, e os dois adultos ficaram a sós. Com Harry dormindo na cabine, eles ficaram apenas conversando. Foi gostoso, e eles falaram longamente de tudo, de muita coisa e de nada ao mesmo tempo.
De Londres, os três pegaram outro trem para Bristol, de manhã cedinho, e logo um outro para Kingswood. Finalmente chegaram em casa. Mal tinham entrado no apartamento, e uma batida ouviu-se à porta. Harry correu para atender.
– Olá, Harry. Eu pensei ter ouvido vocês chegando.
– Olá, Sra. Reesespoon. Acabamos de chegar de viagem.
Remus foi à porta e saudou:
– Sra. Reesespoon! Por favor, entre. Não repare a bagunça: acabamos de chegar de viagem.
– Foi o que Harry estava me contando. Bem que eu notei que vocês não estavam por aqui. Eu fiz biscoitinhos e queria saber se Harry gostaria de alguns, mas ninguém me atendeu.
– Fomos de repente à Escócia. Um antigo amigo de escola meu me ofereceu um emprego por lá.
– Mesmo? – perguntou a velha senhora.
– Sim. Lamento informar, mas eu aceitei o emprego. Não seremos mais vizinhos.
– Oh, que pena, meu jovem. Somos vizinhos há pouco tempo, mas eu já sinto como se fôssemos amigos há tempo.
Nesse momento, Severus deixou o quarto de Harry, atraindo a atenção da velha senhora. Remus se ergueu para apresentar:
– Sra. Reesespoon, queria apresentar meu amigo, Severus Snape. Severus, esta é nossa boa amiga e vizinha, a Sra. Reesespoon. De vez em quando ela cuida de Harry.
– Prazer, Madame.
A velha senhora olhou Severus de alto a baixo, cumprimentando-o de modo especulativo:
– Olá.
– Severus é o amigo de quem lhe falei. Ele me ofereceu o emprego na Escócia.
– Então é você que está roubando meus vizinhos? – Ela acrescentou: – Brincadeira, meu jovem. Diga-me, então, em que trabalha?
– Severus é professor de um internato.
– E você também vai ser professor lá?
– Professor-assistente – corrigiu Remus. – Um dos professores vai se aposentar e quer treinar um substituto.
– E Harry vai freqüentar a escola?
– Não, o internato só aceita crianças com 11 anos. Mas tem um vilarejo ao lado da escola, e eles já aceitaram Harry. As aulas começam em breve.
Por mais que a velha senhora tentasse disfarçar, Remus notou os olhares que a Sra. Reesespoon lançava contra Severus, de reprovação. Ela indagou:
– Que bom vocês terem se reencontrado. Amigos de escola, não? Você chegou a conhecer a esposa de Remus, Severus?
Severus encarou o amigo:
– Você não me disse que você tinha se casado.
– Não, não me casei.
– Oh – fez a Sra. Reesespoon. – Bem, fico feliz que tenha assumido o seu menino, mesmo fora do casamento.
– Harry não é meu filho biológico. Eu o adotei.
Harry disse:
– Papai e mamãe morreram quando eu tinha um ano. Papai Remus também era colega de escola de papai e mamãe, não é?
– Isso mesmo – confirmou Remus. – Conheço você desde que era um filhotinho pequenininho!
Ele pegou Harry no colo e o garoto riu alto, jogado para cima. A Sra. Reesespoon olhou a interação entre os dois com atenção. Indagou:
– Você também tem família, Severus?
– Não, madame. Perdi meus pais há tempo.
– E gostaria também de se casar, ter família?
– Não é minha prioridade no momento. Como professor, já tenho crianças suficientes sob meus cuidados.
– Um internato, Remus disse... – Ela quis confirmar.
– Isso mesmo – Remus confirmou. – Harry e eu também vamos morar na escola durante o ano.
– Quando pretendem se mudar?
– O diretor da escola me deu alguns dias para a mudança. Também pretendemos passear em Londres com Harry.
Ela abriu um sorriso:
– Se você e seu amigo quiserem passear uma noite dessas, terei prazer em ficar com Harry. Ele até pode dormir lá em casa, como da outra vez. Tipsy e Dipsy vão gostar de ver você, Harry.
– Posso, Papai Remus?
– Normalmente, não deveríamos abusar da boa vontade da Sra. Reesespoon, Harry...
– Oh, não é qualquer abuso – insistiu ela. – Vai ser um prazer. Vou morrer de saudades de Harry quando ele se mudar.
– Que tal, Severus? Podemos combinar um cinema, que tal?
– Parece uma boa idéia. É muita gentileza sua, madame.
– Oh, nem pensem nisso. Qualquer amigo de Remus é meu amigo. Além disso, Harry e eu sempre nos divertimos muito quando estamos juntos, não é, Harry?
– É, sim! E Tipsy e Dipsy também!
– São os periquitos da Sra. Reesespoon – explicou Remus.
– Podemos combinar agora mesmo – sugeriu ela. – Que tal amanhã à noite? Vocês podem escolher o filme que quiserem, e depois até fazer um programa noturno.
– Isso seria ótimo. Obrigada, Sra. Reesespoon.
– Ora, não precisa agradecer. E vou guardar também uns biscoitinhos para quando forem levar Harry. Bom, vocês devem estar cansados, e vou deixá-los descansar. Prazer em conhecê-lo, meu jovem.
– O prazer foi todo meu, Madame.
Eles se despediram da Sra. Reesespoon, e Harry perguntou:
– Papai Remus, posso falar uma coisa que eu não sei se devo?
– Para mim você pode falar qualquer coisa, Harry. O que aconteceu?
Ele ficou constrangido:
– A Sra. Reesespoon não gostou do Prof. Snape.
Remus não escondeu o riso e concordou:
– Eu também fiquei com a mesma impressão, Harry.
Severus ergueu uma sobrancelha:
– Sim, ela definitivamente tinha algo em mente. Talvez devêssemos tomar cuidado com ela.
– Deixe de ser paranóico, Severus – disse Remus. – Ela só não conhece você. Como gosta muito de Harry, ela é protetora do menino. Além do mais, ela nos possibilitará sair amanhã à noite para... pegar aquele cineminha.
Os dois se entreolharam, e Harry, esperto como era, ficou com a certeza de que eles não iriam ao cinema. Mas ele não quis perguntar, então ele apenas sorriu.
Capítulo 14 – Homem de paixão
– Isso é ir devagar?
– Devagar demais pro meu gosto, Severus – ofegou Remus, pedindo mais movimento. – Mais rápido!
Totalmente dentro do lobisomem, Severus se absteve do quarto de motel barato onde eles tinham se metido. Ele encarou os olhos castanhos fixos em seu rosto, sentindo-se como raras vezes tinha se sentido: desejado. O mestre de Poções não sabia o que o lobisomem sentia por ele, nem o que queria da relação, mas naquele momento, o desejo de Lupin era quase palpável.
– Mais!
Sem piedade, Severus deu exatamente o que Remus queria: sexo selvagem, animal. Apesar das promessas de irem devagar, Remus mal esperara que eles terminassem a refeição numa parte afastada da pequena cidade, e arrastou-o para o primeiro motel que viram pela frente, onde simplesmente se agarraram como se ainda tivessem dezessete anos e mal pudessem esperar para trepar feito dois animais no cio.
Severus não reclamara. Nem começaria a fazer isso naquele momento, em que estava todo dentro de Remus, metendo com gosto, sentindo o final glorioso chegando num ritmo alucinante, e aquele local gostoso, quentinho, apertado...
– Severus...! – A voz de Remus era entrecortada pelas estocadas ritmadas do Slytherin.
– Como você é apertado...
Quando ele mudou o ângulo, Remus viu estrelas e não poupou um grito inarticulado pelo estímulo de sua glândula do prazer. Ele não agüentaria mais...
Aparentemente, Severus também não iria.
Se ele pudesse pensar, seria até engraçado o que acontecia. Eles tinham falado em ir devagar, por causa de Harry. Droga, eles mal tinham ficado juntos dois dias e já estavam na fase de sexo anal. Severus não estava nada incomodado com isso, claro.
Remus muito menos. Isso, aliás, ficou bem claro quando ele uivou o nome de Severus e despejou seu líquido entre os dois. Seu orgasmo precipitou o de Severus. Remus teve o impulso de abrir os olhos e testemunhar a expressão de deleite no rosto do sisudo mestre de Poções de Hogwarts enquanto ele se esvaziava dentro do lobisomem.
Severus deixou-se cair na cama, separando-se de Remus e tentando recuperar o fôlego. O lobisomem murmurou um feitiço de limpeza, e esgueirou-se para abraçar-lhe o corpo magro, beijar-lhe o ombro.
– Se isso é o que você chama de devagar – ofegou Severus –, temo em imaginar como você agiria se resolvesse se atirar inconseqüentemente em alguma coisa.
– Desculpe. Não consegui me conter. Mas também não ouvi você reclamando.
Severus sorriu. Remus pôs-se a acariciar-lhe o peito e a mordiscar a orelha, com um sorriso maroto.
– E que tal um segundo round?
– Por Merlin, Lupin! Nós já temos quase trinta anos. A recuperação pode demorar um pouco mais.
– Que nada. – O lobisomem começou a beijar-lhe o torso, cada vez mais sensual. – É só estimular direitinho, e não tem erro...
– Então vem cá.
Severus se virou e apertou-o entre os braços, beijando-o apaixonadamente, esfregando-se contra o corpo ardente do lobisomem. A temperatura aumentava rapidamente, e tudo indicava que em breve eles estariam mais uma vez engajados um no outro.
Se não fosse Remus de repente ficar tenso.
Severus sentiu a mudança no amante e ficou intrigado:
– Algo errado?
Remus franziu o cenho e olhou para Severus, sério:
– É Harry. Alguma coisa aconteceu.
– O que está falando?
Remus já estava se levantando e catando as roupas espalhadas no chão, dizendo:
– Alguma coisa aconteceu com Harry, eu tenho certeza!
Severus não perdeu tempo em também começar a se vestir, mesmo que intrigado:
– Como sabe? Algum feitiço?
– Talvez. Lancei um pequeno feitiço nele para monitorar suas condições de saúde, mas não sei se funciona à distância. Mas eu tenho instintos aguçados, Severus. Harry precisa de nós.
– É melhor você Aparatar até lá. Eu cuidarei da conta lá embaixo e encontro você no apartamento.

– Sra. Reesespoon? Sra. Reesespoon, é Remus Lupin! Por favor, deixe-me entrar!
A porta se abriu, e a velha senhora parecia intrigada:
– Remus? O que está fazendo aqui? Eu pensei...
Ele a interrompeu:
– Desculpe o horário, Sra. Reesespoon. Mas houve uma mudança de planos. Preciso levar Harry agora mesmo.
Ele tentou entrar, mas ela o deteve, ainda na porta:
– Não! Ele está dormindo, Remus. Desculpe, mas tirá-lo da cama agora seria um crime. Amanhã de manhã você pode levá-lo.
Os instintos de Remus gritavam em seu sangue, e ele insistiu:
– Por favor, Sra. Reesespoon, isso é muito importante! Por favor, me deixe entrar.
– Não!
Então Remus olhou atrás dela, vendo um objeto que chamou a atenção, e indagou, intrigado:
– Vai viajar, Sra. Reesespoon?
A velha empalideceu e tentou fechar a porta na cara dele. Remus sentiu algo errado e facilmente passou por ela, que rapidamente se afastou dele, assustada.
– Onde está meu filho? – Ele gritou. – Harry! Harry, vamos embora!
A Sra. Reesespoon tinha um ar desafiador, e disse:
– Ele não está mais aqui. Você chegou tarde! Nunca mais vai vê-lo.
Remus arregalou os olhos ao ver a transformação da doce velhinha diante de seus olhos. Ela parecia outra pessoa, a voz numa inflexão dura.
– Do que está falando?
– Eu salvei o menino! Ele estará longe de seus hábitos pervertidos e vai crescer num ambiente saudável, junto de Cristo! Não vai ser como você, que peca contra a natureza!
Uma raiva branca subiu pelos braços de Remus. Sem perceber, de repente, ele tinha empurrado a mulher até a parede e agarrado seus ombros:
– O que está acontecendo aqui?
– Eu salvei Harry! – ela desafiou, o pescoço vermelho de tanta veemência. – Ele não vai ser um sodomita degenerado como você e seu amigo.
– De onde tirou essas idéias?
– Eu sei como vocês atuam. Primeiro você adota o menino, depois o seu amigo aparece, e Harry começa a chamá-lo de "tio", mas vocês já estarão educando o garoto para ser um pederasta como vocês. Não pensem que conseguiram me enganar. Por um tempo, eu admito, você me iludiu. Com seu jeito de bom moço. Imaginei que fosse um viúvo, ou divorciado, lutando para criar sozinho o garoto. O que mais me dói é que Harry realmente gosta de você.
– Isso é crime! Quem pensa que é? Quem lhe deu autoridade sobre meu filho?
– Deus me deu autoridade! Eu precisava salvar o garoto! Nem que fosse na marra!
– Eu devia...! Devia...!
– Pois pode me matar! É o que queria dizer, não era?
– Eu ia dizer que deveria chamar a polícia!
– Prefiro que me mate! Pensa que eu tenho medo de vocês, sodomitas pervertidos? Cristo está do meu lado!
– O que você fez? Onde está Harry?
– Eu o mandei para longe. Ele vai ser adotado por uma família normal, com pai e mãe. Vai ser amado e vai crescer com Cristo em sua vida! Você nunca mais vai vê-lo!
Um estouro se ouviu do lado de fora, e Severus adentrou o apartamento, pela porta aberta. A velha não conteve a língua:
– Já estava imaginando quando o outro efeminado ia aparecer.
Severus fulminou-a com uma olhar tão ferino que a velha se encolheu. Mas ele indagou:
– O que está acontecendo? Onde está Harry?
O lobisomem tremia de ódio:
– Ela o raptou, Severus. Ela olhou para nós cinco minutos, achou que éramos amantes, e decidiu salvar Harry de ter um destino desviado como o nosso! – Ele avançou de novo contra ela. – Você vai dizer agora para onde vocês levaram Harry. Eu disse AGORA!
Remus ergueu a mão e por um minuto, o terror nos olhos da mulher brilhou na sala, esperando que ele desferisse o golpe.
Severus o tentou detê-lo:
– Remus, não! – A voz imperiosa do mestre de Poções reverberou na sala.
Tarde demais.
Remus socou a parede com violência. Bem ao lado da cabeça da mulher. Ela perdeu todo o sangue do rosto.
Severus puxou Remus, a voz sem esconder o tom de ameaça:
– Deixe-me cuidar disso.
Remus olhou para Severus, e detectou um brilho de ódio que parecia reluzir por todo o aposento. Nem o próprio lobisomem pôde evitar um arrepio diante do ar que emanava do mestre de Poções. Ele era o próprio retrato de um Death Eater. Naquele momento, Remus identificou em Severus alguém capaz e muito disposto a produzir dor em quem o machucava.
Ele não sabia que Severus considerava Harry tão importante.
Uma aura de mau presságio destilava de tal forma do homem magro que a Sra. Reesespoon se encolheu, tentando dizer:
– Eu não vou dizer nada...! Pode fazer comigo o que quiser...!
Severus não respondeu, apenas continuou avançando contra ela. O silêncio era pesado, a tensão podia ser cortada com uma faca.
De repente, ele puxou uma varinha contra ela, e Remus gritou:
– Severus!
Capítulo 15 – Lúcifer gelado
– Legilimens!
Nas raras vezes que Severus penetrara mentes de Muggles, ele sempre encontrara as mesmas coisas: desorganização intelectual e caos sentimental. Bom, geralmente, ele só tentava invadir essas mentes em circunstâncias longe de serem tranqüilas.
A mente da Sra. Reesespoon não era exceção, mas ele sabia direitinho o que procurar: alguma influência de Voldemort, talvez de outros Death Eaters. Ele procurava saber, primariamente, se ela tinha sido localizada por remanescentes do grupo do desaparecido Lord das Trevas e posta sob Imperius ou alguma outra maldição.
Ao invés disso, ele encontrou apenas lembranças frescas de um encontro recente com um pastor de uma igreja fundamentalista cristã e a chegada de dois homens ao apartamento. Ele viu Harry sendo levado. O menino resistira.
Um ódio gelado esfriou as veias de Severus ao ver o garoto chutando dois homens, tentando oferecer alguma resistência, mas ele foi arrastado, gritando por seu papai Remus... e por Severus. Harry tinha chamado por ele, e Severus sentiu uma dor misturada a um ódio como jamais experimentara até o momento. Por todo o ódio que tinha por James Potter, Severus sentia o equivalente em ódio a quem machucasse Harry, filho de James.
O pavor nos olhos da velha não o comoveu. A voz destilava ódio quando ele enfiou a varinha no rosto dela e perguntou:
– Onde está ele?
– Que é isso? Você tem parte com o demônio, não é? Eu sabia! Fora, Satanás!
Mais uma vez, Severus Snape não respondeu. Apenas apontou a varinha para cima e soltou algumas faíscas vermelhas. A Sra. Reesespoon soltou um grito:
– Valha-me, Deus! É o próprio capeta!
– Severus – chamou Remus, apreensivo. – Severus, o que está fazendo?
Severus, o ignorou, cego de fúria. Mas era uma fúria gelada, uma ira azul.
E ele se aproximava dela lentamente.
Mesmo sem entender muito o que era aquilo, a mulher percebeu que estava em perigo, imprensada contra a parede. Começou a chorar. Severus apontou a varinha contra o seu rosto, e ela quase parou de respirar, de tão aterrorizada. Ele lembrou, em voz mais baixa, com ainda mais malignidade:
– Eu fiz uma pergunta.
– Não... não me machuque, por favor...
– Diga para onde levaram o garoto.
Ela ficou de joelhos no chão.
– Eu não sei...! Não me leve para o Inferno...!
– Madame, a senhora não faz idéia com quem está lidando. Diga-me o que quero saber, ou as conseqüências poderão ser desagradáveis.
– Eu lhe disse a verdade! – A mulher estava em prantos, soluçando. – Não sei para onde foram! Assim seria mais seguro para o menino!
Severus encostou a varinha na bochecha dela, e ela gritou, apavorada. Ele a encarou, procurando a informação em sua mente frágil.
Não estava lá. Mas ele encontrou outras informações.
– Obliviate!
A Sra. Reesespoon de repente ficou relaxada, os olhos vazios. Na seqüência, Severus emendou:
– Petrificus totalus!
Remus empalideceu ao vê-la no chão, o corpo rígido.
– O que está fazendo? Como vamos achar Harry se você congelou a mulher?
– Vamos – disse Severus, sem se incomodar com a mulher estatelada no chão. – Acho que podemos encontrá-los. Vamos rápido!
– Como?
Eles estavam descendo as escadas para a rua.
– Está brincando, não? Eu pus um feitiço rastreador em Harry. Para o caso de ele se perder em algum passeio.
– Quando?
– Desde que saímos de Hogwarts.
– Por que não me disse nada?
– Não sabia se iria aprovar.
Na rua vazia àquela hora da noite, Severus agitou a varinha na calçada. Logo um rastro luminoso se formou.
– Rumo norte.
Os dois se puseram a seguir o rastro vaporoso. De repente, avistaram um táxi, e assim se mexeram mais rapidamente pela cidade.
Mas o rastro de repente terminou. Eles desceram do táxi numa estrada aparentemente vazia, exceto por um homem trocando o pneu de um furgão. Eles se encaminharam para lá, já desconfiados.
– Precisa de ajuda, amigo?
– Oh, puxa, obrigado. – O homem tinha uns quarenta e cinco anos e parecia feliz em ver alguém disposto a ajudar. – Não sei como ele de repente furou. Era novinho. Foi como se fosse mágica!
A mágica de Harry de novo, pensou Severus.
– Onde está o substituto? – perguntou Remus.
– Quer dizer o estepe?
– Isso mesmo. Fica lá atrás, não?
– Não! Por favor, não. – O homem ficou nervoso. – Meu garoto está dormindo. Ele pode chorar.
Foi aí que Remus tentou abrir a porta de trás do furgão. O homem tentou impedi-lo, mas Severus aplicou uma azaração que fez seus joelhos virarem ao contrário, e ele terminou andando uns passos para trás e caindo no chão, praguejando. Aquilo não era muito apropriado a um homem tão religioso, pensou Severus.
Mas sua atenção foi logo desviada pelo tipo de som que vinha do furgão. Remus apontou sua varinha e gritou:
– Alohomora!
A cena no bagageiro do furgão fez Lupin revirar o estômago. Dois homens estavam na parte de carga, um deles segurava Harry contra seu corpo, a grande boca tapando a do menino, abafava seus gritos. Harry se debatia. O segundo tinha uma arma apontada contra o lobisomem.
– Parado, sodomita!
– Expelliarmus!
O feitiço veio de Severus, nocauteando o Muggle armado. Remus não tinha cabeça para escolher feitiços, nem pensar em outra coisa que não Harry. Num reflexo, por puro instinto, Remus enfiou um potente soco no outro homem, que cambaleou para trás e soltou Harry. Remus, então, arrancou Harry dos braços do desconhecido.
– Papai Remus! Papai Remus!
Remus o abraçou, perguntando:
– Você está bem, Harry? Eles machucaram você?
Entre soluços, o menino respondeu:
– N-não...! M-mas eles q-queriam me s-separar de v-você, Papai Remus!
– Shh – Remus o pegou no colo. – Já acabou agora, pronto. Eu não vou deixar eles fazerem mal a você nunca mais. Vamos embora daqui.
Quando ele se virou, viu Severus levitando o corpo rígido dos Muggles, todos os três imobilizados pelo Feitiço do Corpo Preso. Com a varinha, o mestre de Poções os colocou lado a lado dentro do furgão e trancou a porta magicamente, de tal maneira que eles permanecessem presos ali durante pelo menos três dias. Isto pronto, Severus finalmente voltou sua atenção para Remus e Harry:
– Todos bem?
– Sim. Harry está muito assustado, mas está bem.
Harry chorava, agarrado a Remus como se alguém pudesse arrancá-lo de seus braços de novo:
– Papai Remus...! Eles queriam me levar para longe!...
– O que eles fizeram foi errado, Harry. Eles achavam que estavam certos, mas fizeram uma coisa muito feia.
– Severus deu um jeito neles. – O menino olhou para Severus, agradecido. – Você bateu nos homens maus.
– Depois podemos conversar melhor – disse o mestre de Poções. – Agora devemos sair daqui antes que atraiamos atenções indesejadas.
Eles começaram a caminhar.
– Não seria bom voltarmos para o apartamento – disse Remus. – Muito traumático.
– Sim, eu ia sugerir a mesma coisa. Vamos para um hotel.
Harry não largou de Remus nem um único minuto, até que eles encontraram um pequeno B&B que os abrigaria pela noite. Severus, porém, não ficou ali. Ele ajeitou Remus e Harry, e em seguida aparatou ao apartamento para providenciar a mudança daquele lugar. Ele não se incomodou com a ambulância que viera pegar a Sra. Reesespoon, aparentemente vítima de um ataque nervoso de algum tipo, segundo os vizinhos.
Severus encolheu roupas, brinquedos, livros e móveis dentro de uma mala surrada que Remus guardava na parte de cima do armário. Fazia tudo de maneira cuidadosa e rápida, eficiente como sempre fora. Ele deliberadamente tentava não pensar no que tinham feito a Harry, ou ele poderia reverter a seus dias de Death Eater. Os dias em que ele não só usava violência, mas os dias em que ele *gostava* de infligir violência.
Silenciosamente, Severus torcia para que Remus estivesse conversando com Harry, explicando o que aconteceu. Ele queria ter um caldeirão para preparar uma poção calmante para o garoto. Ou a Poção Para Dormir Sem Sonhar.
O que ele queria mesmo era ter um pescoço para apertar, apertar, até esvaziar a raiva que sentia pelo que tinham feito a Harry.
Capítulo 16 – O pagão amoroso
– Desculpe, Papai Remus.
– Harry, você não fez nada.
– Você ficou bravo. Por minha culpa.
– Não, Harry, não foi sua culpa. Eu não fiquei bravo com você. Fiquei bravo com aquelas pessoas. O que elas fizeram foi muito, muito errado. Você entende isso, não?
– Sim.
– E você entende também que você não fez nada de errado, não entende? Nada disso é culpa sua, Harry. Você não tem que me pedir desculpas.
– Tá.
O garoto estava sentado na cama, incapaz de dormir. Remus não tinha tido coragem de comprar um remédio Muggle para ele dormir, embora Harry precise urgentemente de descanso.
– Você está bem mesmo? Não está sentindo nada estranho?
– Não
– Você comeu ou bebeu alguma coisa na casa da Sra. Reesespoon?
– Peixe com batatas.
– Ela comeu também?
– Comeu. – Ele baixou a cabeça.
Remus chegou perto dele:
– Harry, que tal falarmos sobre o que aconteceu? Não precisa, se não quiser.
– Eu não entendi direito. Eles queriam me roubar, me deixar longe de você, mas eu não entendi por quê.
– Harry, vou tentar explicar. Você sabe que há famílias com um pai e uma mãe, mas há outras que têm dois pais e duas mães, não sabe?
– Eu nunca vi. Tia Petúnia dizia que eram "berração", quer dizer, aberração.
– Como a sua tia, a Sra. Reesespoon também acha isso muito errado. Ela acha que só deveria haver famílias com pai e mãe. Ela conheceu Severus e acreditou que Severus e eu fôssemos seus dois pais. Então, ela achou que você estaria melhor longe de nós dois. Como ela sabia que eu não deixaria isso acontecer, ela chamou algumas outras pessoas para levá-lo para muito, muito longe, assim eu nunca acharia você.
Harry ficou tão assustado que se encolheu. Remus o abraçou, imediatamente assegurando:
– Mas eu jamais iria deixar isso acontecer. Nunca ninguém vai nos separar, Harry. Mas se acontecer, eu vou fazer de tudo para achar você de volta. Você sabe disso, não?
– Sei, Papai Remus. Severus também vai me procurar, né? Se alguém quiser me roubar de novo.
– Sim, Severus também. Ele gosta muito de você. Nós dois gostamos.
– Papai Remus, por que a Sra. Reesespoon achou que Severus também ia ser meu papai?
– Bom, Harry, acontece que Severus e eu somos amigos. Aliás, somos mais do que amigos. Somos amigos especiais.
– Como assim?
– Err... Nós temos muito carinho um pelo outro. Como seu pai e sua mãe tinham um pelo outro. Nós nos amamos como dois adultos.
– Então vocês são meus dois papais?
– Quase isso, Harry. Somos... bom, somos namorados.
– E vocês se beijam?
– Sim, Harry. Isso incomoda você?
– Não. – Ele olhou para Remus. – Eu nunca vi vocês beijando.
– A gente não queria que você visse. Não antes de você ter essa conversa.
O menino franziu o cenho, o narizinho também torceu, uma dúvida o perseguindo. Perguntou:
– Severus pode ser meu papai também?
– Isso depende dele, Harry. No momento, ele está muito nervoso com tudo que aconteceu. Quem sabe a gente deixa para perguntar isso depois? Daqui a alguns dias, quem sabe?
– Tá bom, Papai Remus. Aonde ele foi?
– Pegar umas coisas do antigo apartamento. Nós não vamos voltar lá, você sabe.
– Será que ele não vai esquecer Urso lá? Ele pode ficar com medo de ficar sozinho.
– Tenho certeza de que Severus vai trazer Urso para cá em segurança. Você acha que pode dormir sem Urso?
– Sim. Papai Remus, pode deitar comigo até Severus voltar? Eu quero esperar por ele.
– Claro que sim. Veja, aqui tem televisão. Quer ligar?
– Não. Pode me contar uma história? Não para dormir. Só até Severus chegar.
– Peter Pan?
– A gente já viu o fim dessa história. Não tem uma historinha nova?
Remus sorriu para ele e perguntou:
– Você sabe o que é um hobbit?
– Não.
– Então pega mais um travesseiro que essa vai ser uma história beeeem comprida.

Severus chegou quase de manhã ao hotelzinho onde eles iriam passar a noite. Ele aparatou no quarto, arrependendo-se quando viu Harry adormecido na cama, temendo acordar o garoto, que estava agarrado a Remus.
O lobisomem se levantou e beijou Severus. Mas o outro estava preocupado com o menino.
– Ele está bem?
– Esperou você até dez minutos atrás. Não queria dormir longe de você.
– Como ele está?
– Conversamos bastante. Ele está mais calmo, mas ainda ficará assim assustado por algum tempo. – Remus olhou para Severus. – Contei a ele sobre nós.
– Entendo. Nesse caso, acho melhor me afastar um tempo.
– Severus, do que está falando?
– Ele ainda está construindo sua relação com você, de pai e filho. A última coisa de que ele precisa é mais alguém para competir pelas atenções do pai. Ele pode me odiar por tentar afastar vocês dois ou ele pode se sentir rejeitado, indesejado.
– Isso é bobagem, Severus. O menino adora você. Ficou perguntando por você o tempo todo, queria dormir junto com você. Ele precisa de você nesse momento. Está se sentindo culpado pelo que aconteceu.
– Você explicou para ele?
– Sim. Ele precisa processar tudo isso na sua cabeça. Mas no momento ele precisa muito de nós. E digo de nós dois.
– Eu não quero prejudicá-lo.
– Ele gosta muito de você. Sei que você também gosta muito dele.
Um movimento na cama chamou a atenção dos dois. Harry estava se mexendo, e Remus correu para o lado dele. Logo começou:
– Não...! Meu papai...! Me solta...!
Remus o abraçou:
– Shhh... Harry, é só um pesadelo. Vamos, acorde!
Ele abriu os olhinhos, ofegando. Então ele olhou para cima:
– Papai Remus!...
– Estou aqui, Harry.
– E o Papai Severus? Eu sonhei que eles estavam batendo no Papai Severus!...
Uma sobrancelha de Severus se ergueu. Remus simplesmente abraçou o garoto semiadormecido, dizendo:
– Severus está aqui, veja só. Está tudo bem. Tudo bem. O pesadelo já foi embora. Por que não tenta dormir um pouco?
– Fica comigo, por favor.
– É claro. Pronto. – Ele se deitou junto com o garoto. – Estou aqui e não vou sair. Pode dormir agora.
– Papai Severus também. Fica aqui.
Severus subiu na cama e Harry se abraçou a ele também, deitado e meio dormindo. Os três ficaram juntos na cama, e o menino se ajeitou todo, aninhado entre os dois, suspirando, quase num sussurro:
– Meus dois papais...
Alarmado, Severus olhou para Remus, que sorriu e cochichou:
– Acho que você foi oficialmente adotado...
Capítulo 17 – Legendas são criadas
Nos próximos dias, eles simplesmente curtiram o resto das férias. Com a mudança toda magicamente acondicionada na malinha surrada de Remus, eles pegaram um trem direto para Londres, onde se alojaram para fazer todos os programas que tinham imaginado: zoológico, circo, cinema infantil...
Remus estava atento às reações de Harry. O garoto ainda estava muito nervoso, mas parecia estar se divertindo, especialmente no zoológico. Remus notou que ele estava particularmente hipnotizado no Ofidiário, mas Severus identificou algo ainda mais alarmante: ele era ofidioglota.
– Tem certeza?
– Foi o que pareceu. Mas a serpente estava separada por um vidro, então não pude detectar se ela estava respondendo.
– Acho melhor perguntarmos.
– Isso não vai assustá-lo?
– Por que o assustaria? Ele não sabe das implicações deste talento.
– Papai Remus! Papai Remus! – O menino voltou correndo. – Ali tem uma família de cobras vermelhas! Cobra coral.
– Uma família inteira?
– É, sim! Acabaram de ter uma ninhada.
– E elas gostam daquele lugar? Parece frio.
– Não, é bem quentinho. É parecido com o lugar de onde elas vieram.
– Mas será mesmo? Se a gente pudesse falar com elas...
– Ela falou comigo, Papai Remus. Você não ouviu a gente conversando?
– Não, Harry, eu não ouvi porque eu não falo a língua delas. Mas você fala, não é mesmo?
– Eu? Não, papai, elas falam nossa língua.
Severus disse:
– Eu sei que elas soam como nossa língua, Harry, mas só você pode entendê-las. Isso é um talento muito raro entre bruxos.
– É mesmo?
– É, sim – reforçou Remus. – Mas eu acho que por enquanto, não é bom ninguém saber disso. Como eu disse antes, é um dom muito raro e alguns bruxos têm medo dele.
– Medo? De cobras?
– É, mais ou menos. Vamos combinar o seguinte: quando você quiser falar com as cobras, fale comigo ou com Severus antes, está bem? Vai ser nosso segredo.
– Segredo! – fez Harry, animado. – Combinado!
– Você está com fome? Podemos ir comer panquecas para o jantar, se quiser.
– Oba, panquecas. Mas nós já vamos embora?
– Não, podemos ficar mais um pouco. Mas já está ficando tarde, viu? Amanhã temos que pegar o trem cedinho.
– Tá. Vou só dar tchau para as cobras então.
E saiu correndo. Com o feitiço de Seveus renovado para localizar Harry, eles ficaram muito mais tranqüilos, embora continuassem a manter um olho no garoto. De qualquer forma, Remus e Severus mal conseguiam namorar, pois estavam dedicados a Harry.
– Desculpe.
– Pelo quê?
– Poderíamos estar aproveitando os últimos dias de férias para outras atividades. – Remus olhou para Severus, os olhos faiscando obviamente se referindo a atividades nada indicadas para a família toda. – Mas agora Harry precisa muito de mim. Na verdade, ele precisa de nós.
– Não me importo de ficar sem as outras atividades. Você tem razão: Harry precisa de nós.
– Aliás, eu também queria pedir desculpas por Harry. Ele vive chamando você de pai.
– Eu não me importo com isso.
– Só não quero que você pense que eu o encorajo a fazer isso.
– Eu sei que não faria isso.
Os dois ficaram em silêncio no meio do Ofidiário, um tanto embaraçados. Severus baixou a voz ao perguntar:
– Você nunca me disse o que acha disso.
– De Harry chamar você de pai?
– A idéia é tão... absurda assim?
Severus parecia um tanto enrubescido. Remus achou aquilo tão adorável que tocou-lhe o braço:
– Não, claro que não. Eu só não quis parecer estar pressionando, ou coisa assim. Eu sei que nós já começamos meio embolados com Harry, mas não quis confundir as coisas. Você e eu juntos, bom, somos separados da relação com Harry.
– Mas... e se quisermos embolar tudo, como você disse? – Severus estava tão envergonhado que mal podia olhar para Remus. – O que você acha?
– Virar uma coisa só? Como, er, uma família? Fiquei com medo que você achasse ser cedo demais para pensar nisso...
Severus ergueu um canto da boca, o que equivalia a um sorriso:
– Parece que tudo conosco é acelerado. A gente não conseguiria ir devagar nem se fizéssemos um esforço consciente para isso.
Remus sorriu também.
– Acho que tem razão. Devagar não é com a gente.
– Então, você não faz objeções?
– Se você não tiver nenhuma, por que eu teria? Você foi aprovado por Harry em pessoa, a quem eu considero um excelente controle de qualidade.
Severus queria apertar Remus em seus braços e beijá-lo até o lobisomem ficar sem ar e roxo. Melhor ainda, queria arrastá-lo para o hotel mais próximo e trepar feito dois adolescentes – ainda mais agora que ele sabia que Remus não tinha qualquer objeção a fazer uma família de dois papais.
Pena que eles estavam no zoológico cheio de Muggles preconceituosos.
– Então... – começou Severus, ainda incerto.
– Então eu acho que você deve se preparar para ter mais dois habitantes nas suas masmorras... Papai Severus.
Severus sorriu, e Remus acrescentou:
– Mais do que isso, eu quero que você peça a Dumbledore para oficializar a união. Ele está oficialmente na minha lista negra desde que tentou insinuar que eu não deveria ficar com Harry, mas sim os Weasley. Mas não consigo pensar em ninguém melhor para conduzir a cerimônia.
– Agora ele terá que ver seu precioso menino ser criado por um lobisomem e um Death Eater. Eu adorei quando Harry o desmascarou.
– Aquilo foi ótimo, Severus. Mas Harry precisa confiar em Dumbledore. Ninguém pode protegê-lo melhor do que o velho... depois de nós, é claro.
– É claro.
Os dois ficaram em silêncio, os ruídos do zoológico cheio os distraindo um pouco. Remus suspirou:
– Então vamos nos unir, é isso?
– Aparentemente.
– Não pode demorar muito, porque as aulas começam logo.
– E tem Lua Cheia em poucos dias.
– Quase me esqueci disso. Obrigado por me lembrar.
– Deve ter sido a emoção.
– Bom, eu estou emocionado, sim. Ainda não acha muito cedo?
– Tempo é uma mera cronologia. Estamos entrando nisso por um motivo maior, não é verdade?
– Pelo amor de Harry.
– Sim, pelo amor de Harry.
– Então vai dar certo.
– Sem dúvida.
Disfarçadamente, Remus pôs sua mão entre as de Severus. Os dois trocaram um olhar, talvez aproveitando a distração dos Muggles.
E tudo daria certo. Pelo amor de Harry, daria.
The End
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