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SESSÃO COORDENADA
Reflexões sobre as dimensões de ação dos jovens
Susane Vasconcelos Zanotti (UFAL) Eixo temático: Acting-out e passagem ao ato
“A ação humana está muito especialmente, ali onde se pretende designá-la, de acordo com a história” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 445).
A busca empreendida pelos pais por um tratamento para seus filhos jovens ocorre, na maioria das vezes, como resultado das ações que estes últimos praticam. As ações dos jovens apresentam as mais variadas formas e recebem as seguintes nomeações dos adultos que os cercam: mudança de comportamento, dificuldades eproblemas de aprendizagem e de relacionamento, fugas (de casa) e/ou ameaças de fuga, comportamento promíscuo, falta de limites, agressividade, desobediência, mal-criação e mentiras. Nesse trabalho, nosso objetivo é considerar, a partir da definição do conceito de ato, o modo como o jovem responde ao mal-estar que desperta com a puberdade. Abordamos um caso clínico de um jovem de dezessete anos e sua resposta a esse mal-estar a partir de uma metodologia de investigação própria à pesquisa teórica. O surgimento de um real próprio à puberdade é evocado por Freud em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Lacan evoca o encontro com o real do sexo, para descrever a relação sexual como impossível (Cottet, 1996). Entre os casos freudianos clássicos, os da jovem homossexual e o de Dora ajudam-nos a avançar em nossa reflexão. A tentativa de suicídio da jovem homossexual demonstra que as fortes medidas disciplinares impostas por seus pais não conseguiram impedir seu inconveniente comportamento com a dama. No caso Dora, sua bofetada no rosto do Sr K foi uma reação ao que este lhe dissera sobre sua mulher “ela não é nada para mim”, que atingiu Dora no âmago de sua problemática de identificação feminina.
Jovens e análise: uma dificuldade A chegada dos jovens ao programa “Situações Limites na infância e adolescência: clínica, ensino e pesquisa” remete à afirmação de Fausto 1: “No começo foi a ação”. A demanda de atendimento decorre de uma ação praticada pelos jovens e o encaminhamento a esse Programa, de atendimento público, é norteado pela definição do conceito de situações limites, estas, entendidas como situações marcadas por envolvimento direto ou indireto com experiências que colocam em risco não só a integridade psíquica, mas também a física e social 2. Paulo tem 17 anos e é encaminhado para o “Programa Situações limites na infância e adolescência” pelo Juizado de Menor do Rio de Janeiro. A situação limite é com a lei: ele está em Liberdade Assistida por causa de um delito. Como punição, pela infração da lei, eleé obrigado a comparecer a esse serviço de atendimento psicológico, durante o período que cumpre a pena. Fazer um tratamento que se apresenta como punição está longe de ser a situação ideal, pois nesse caso, o sofrimento do sujeito não é o motor da demanda. Para Freud, a “[...] a situação ideal para a análise é a circunstância de alguém que, sob outros aspectos, é seu próprio senhor, estar no momento sofrendo de um conflito interno que é incapaz de resolver sozinho; formula sua queixa e pede auxílio ao analista ” (Freud, 1920/2001, p. 143). Na ocasião, Freud acreditava que era somente nessa situação que a psicanálise poderia ser eficaz. A essa afirmação, ele acrescenta outra, com a qual concordo: “não é indiferente que alguém venha à psicanálise por sua própria vontade, ou seja, levado a ela, quando é ele próprio que deseja mudar ou apenas seus parentes” (Freud, 1920/2001, p. 144). Assim, em cada caso, é importante sublinhar em que circunstâncias se chega a um tratamento, uma vez que algumas situações acrescentam dificuldades ao trabalho analítico. O fato de Paulo não ter vindo por “ livre eespontânea vontade” configura uma dificuldade ao trabalho analítico: ele não traz uma queixa, não chega com nenhum sofrimento. Freud demarcou essa dificuldade em relação à jovem homossexual – “o fato de a jovem não estar de modo algum doente (não sofria em si de nada, nem se queixava de seu estado)” (Freud, 1920, p. 144) era um aspecto desfavorável para o tratamento. Os adolescentes, hoje, na maioria das vezes, não vêm em busca de um saber sobre seu sofrimento. No caso de Dora há queixa, ela relata a Freud a sua versão dos fatos que incomodavam seu pai, mas não se implica neles. A primeira manobra clínica de Freud foi perguntar, exatamente, o que ela tinha a ver com tudo aquilo do qual se queixava, e, assim, tentar implicá-la em sua própria fala. Lacan (1956-1957, p. 103) diz que Freud expõe com muita pertinência as dificuldades que podem se apresentar na clínica, quando as exigências do meio familiar se fazem presente. Dito de outro modo, quando o sujeito é encaminhado pela família, como acontece freqüentemente com os adolescentes. Não se faz uma análise por encomenda. (ibid.). Paulo não se apresenta angustiado, seus pais sim. A angústia está do lado dos pais. Ante as ações do filho, não sabem mais o que fazer com ele. As ações de Paulo são: o roubo e as fugas. Comecemos pelo roubo.
As ações e suas nomeações Paulo foi pego quando tentava, com um amigo, roubar uma casa na favela. Cabe ressaltar que tal ação foi cometida sem o uso de armas. No período em que esteve em atendimento, Paulo fugiu de casa duas vezes. Que leitura é possível fazer da tentativa de roubo e de suas fugas? Como nomear tal ação infratora? Paulo cometeu um delito. Podemos considerá-lo uma passagem ao ato ou como um actingout. No entanto, encontramos em seu delito o valor de ato: há uma transgressão da lei e a conseqüente fundação de algo novo. O ato define um antes e um depois. Lacan se vale da travessia do rio Rubicão para demonstrar o que é um ato e diferenciá-lo da ação. Entendo que é preciso percorrer o caminho da contextualização, da história, os aspectos que estão envolvidos no antes e depois de uma ação, para discriminá-la como ato ou ação. Não podemos afirmar a priori se tal fato se caracteriza como ação ou ato, é preciso investigar o que tal fato representa para cada sujeito, em sua história de vida. O delito, ato cometido por Paulo, teoricamente, condiz com a passagem ao ato. Entretanto, esse estatuto não condiz com o lugar que o roubo tem na história de vida desse sujeito. A infância de Paulo ocorreu na favela. Seu pai era guardador de carros e sua mãe, enfermeira. O pai conseguiu uma Kombi e passou a trabalhar em um mercado, entregando frutas e verduras de madrugada, antes da venda ao público. Quando Paulo tinha nove anos, a família se mudou para um apartamento. Essa mudança foi atribuída por Paulo à vida: “ai começou nossa vida”. Aprendeu muitas coisas ruins na favela, e nessa época seu pai brigava muito com a mãe. Paulo é obrigado pela justiça a comparecer aos atendimentos durante o tempo em que cumpre sua pena. Na ocasião em que cometeu o delito, ele havia fugido do apartamento dos pais e trabalhava no tráfico de drogas, vendendo-as. O mundo do crime, do tráfico, exerce, nele, um grande fascínio: é um modo de conseguir dinheiro fácil, mas ele sabe que, nisso, está incluído um grande risco. Seu tio é gerente geral do tráfico de drogas em uma favela do RJ. Paulo abandona o tráfico de drogas porque sua mãe estava muito triste, chorava todos os dias e pedia constantemente isso para ele. Ele precisou negociar com seu chefe, explicar a situação de sua mãe, que estava bebendo mais por causa disso, que estava tendo muitos problemas em casa, então, seu chefe entendeu e permitiu que ele saísse do tráfico. Quando perguntei sobre o roubo que praticou com um amigo em uma casa da favela, disse apenas que surgiu a possibilidade de fazê-lo e o fez, mas que foi um fato isolado. Ele reclama que após o roubo, e seus problemas com a justiça, sua mãe não acredita mais no que ele diz, desconfia dele e mexe nas suas coisas. Como está em Liberdade assistida, além de comparecer ao atendimento com a assistente social, ele faz cursos profissionalizantes: de informática à tarde e de refrigeração no fim de semana. Ele estuda de noite e de manhã ajuda o pai no trabalho. Paulo expressa seu desejo de fazer vestibular para medicina ou enfermagem. Os membros de sua família são todos enfermeiros, inclusive sua mãe. No início, os pais o levavam a cada sessão e fizeram isso por muito tempo. Não acreditavam que Paulo pudesse ir sozinho; ele não o faria, mentiria. Após algumas poucas entrevistas com Paulo acompanhado de seus pais, estes, concordaram em deixá-lo vir sozinho. Contudo, eram tomados pela angústia e me telefonavam para saber se Paulo havia comparecido ou não. Em uma entrevista com seu pai, este diz estar incomodado com as mentiras de Paulo e insiste que “falta melhorar nisso”. Ele se mostra preocupado com a cultura, com os modos e com a educação de seu filho. Diz que Paulo é sem limite. O pai se situa na constelação familiar com a função de contornar as situações seja com Paulo, seja com sua mulher. Segundo ele, sua mulher, tal como Paulo procura más companhias para conviver. Muitas vezes, mãe e filho se unem para burlar as regras impostas pelo pai. Por exemplo, um dia a mãe saiu para beber com a namorada de Paulo, escondida do marido. Ela pede a Paulo que minta para seu pai, dizendo-lhe que ela não estava bebendo na casa da namorada de Paulo. Porém, o pai descobre e eles brigam. O pai diz que é muito rígido, que sempre quis impor um modo de ser para Paulo e que existem valores diferentes entre ele e seu filho. Segundo seu pai, os problemas começaram quando Paulo começou a namorar uma garota que mora na favela, é isso que fez seu filho andar com más companhias, fez ele ter facilidade com a venda de drogas, e tudo que uma vivência na favela pode proporcionar de pior para um jovem. Ele justifica as ações de Paulo por ele ter sido criado dentro de um conflito familiar muito grande “nós não demos a ele uma atenção devida”“eu não culpo ele não, nós deixamos ele de mão. Quando nós abrimos os olhos, já era tarde”. Sem desconsiderar isso, privilegio o encontro de Paulo com a namorada. O encontro com sua namorada é marcado por discussões, porque ela morre de ciúmes dele. Paulo diz bater nela para ela acabar com o ciúme. Ele relata que seus pais sempre tiveram problemas de relacionamento e que no momento atual não estão se entendendo mais. Lembra-se de uma vez, quando era pequeno, em que o pai bateu em sua mãe, mas não lembra o motivo. Paulo se identifica com seu pai, diz parecer com ele, define-o como divertido, mas também bravo, quando precisa: “é ele quem tem mais cabeça láem casa, ele não bebe, não fuma, ele é na dele, ele tenta analisar as coisas para falar. Tudo que ele fala é certo”. O pai já usou drogas, mas esse fato que não é comentado. A mãe bebe muito e há muito tempo. Segundo Paulo, não bebe mais todo dia, só no final de semana, porque seu pai conversou com ela.
Perde-se uma criança? Segundo o contexto da história de vida de Paulo é possível afirmar que roubar é um ato, não uma passagem ao ato. É o enquadre da fantasia desse jovem que faz com que não consideremos o roubo como uma passagem ao ato. .O contexto no qual ocorre o roubo, a fala de Paulo a esse respeito, não configura a saída da cena fantasmática. Cabe lembrar que Lacan considera a evasão da cena como o traço pelo qual podemos reconhecer a passagem ao ato e diferenciá-la do acting out (Lacan, 1962-1963, p. 130). O caso de Paulo apresenta uma questão muito sutil: Lacan considera que a fuga está do lado da evasão/saída de cena, da passagem ao ato – “o sujeito se encaminha para se evadir da cena” (ibid). A questão é de que cena se trata? Claro, trata-se da cena da fantasia do sujeito, logo, o inclui.
Defendo que a fuga, no caso Paulo, pode ser compreendida como acting out. Para isso foi preciso construir, mesmo que minimamente, a fantasia de Paulo e verificar seu lugar de endereçamento. De onde ele diz, eu não sou isso! Só podemos julgar se as “situações limites” são passagens aoato se construirmos os dados fundamentais da cena fantasmática. No caso de Paulo, a fantasia explorada por Freud “bate-se em uma criança” pode ser substituída por “perde-se uma criança”. Vejamos! O pai de Paulo é fornecedor de frutas e legumes, de madrugada, aos mercados, antes deles abrirem, e a sua mãe é enfermeira. Paulo é filho único, mora com os pais, que são casados há 20 anos. Paulo ama ser filho único: “quero ser só eu mesmo, quero ser dono de tudo”. Uma leitura possível da fala de Paulo “ ser só eu mesmo” poderia ser esta: “ só, sozinho”. Quando a família morava na favela, até os oito anos de idade de Paulo, os pais saiam para trabalhar e Paulo ficava sozinho, deixado, trancado em casa, abandonado. Ele lembra que acordava, muitas vezes, chorando com fome, querendo seus pais, e não encontrar ninguém. Quando ele tinha doze anos sua mãe perde um filho e, talvez, esse “abandono” tenha colocado a pergunta: perde-se uma criança? Aborto! Porque essa história é “tabu”? Ninguém, nem Paulo, nem os pais, sabem contar ao certo o que aconteceu. Parece haver uma culpa dos pais – por que eles não falam disso? No mito familiar há uma mentira que retorna nas mentiras de Paulo, das quais seus pais se queixam. Um dia Paulo chega angustiado e diz que ele não é a coisa mais importante para seus pais. Isso porque seus pais pagam 300 reais para o seguro do carro da família (que já pegou fogo, na garagem da casa, e como eles não tinham o carro no seguro, perderam tudo) e não querem pagar 160 reais em plano de saúde para Paulo. Podemos considerar as fugas de Paulo como uma encenação da pergunta: pode o Outro me perder ? Paulo se questiona: sou ou não sou um filho que se perde ? Ao colocar essa questão ele pensa, e recusa ser. A fuga, no caso de Paulo, não pode ser considerada como evasão da cena, ao contrário, trata-se de um acting out. Um comentário do Lacan a respeito do acting out da jovem homossexual confirma a consideração das fugas de Paulo como acting out: “Quanto mais escandalosa se torna essa publicidade, mais se acentua sua conduta. E o que se mostra essencialmente como diferente do que é. O que é isso? Ninguém sabe, mas que é outra coisa, disso ninguém duvida” (p. 137). Se a fuga tem uma relação quase automática com “sair de cena”, com uma separação, no entanto, no caso de Paulo ela parece exercer uma função contrária. Ele foge, mas quer que seus pais saibam onde está, ele deixa rastros e “quer” que os pais compareçam, que o procurem e o tragam de volta para casa. Configura-se a vertente da mostração. As fugas são “arquitetadas”, pensadas e endereçadas a seus pais. No período em que esteve em atendimento, Paulo foge de casa duas vezes. Na primeira, passa vinte e um dias fora de casa. Segundo relata, um dia estava ajudando seus pais com uns móveis, e de repente foi para a casa da namorada. Sua mãe foi buscá-lo e “arrumou a maior confusão”: “todo mundo lá na favela ficou olhando” “No outro dia de manhã, fugi”. Ele foi chamado pelos responsáveis pela Liberdade Assistida, conversou com uma mulher que lhe disse para ele voltar pra casa, foi por isso que voltou. Quando chegou, conversou com seu o pai e foi ele que contou para a mãe de Paulo, o porquê dele tinha fugido e as casas em que ficara morando (de um amigo e de uma tia, casada com o irmão do pai). Seus pais não deixam ele ter a chave de casa. A mãe da namorada descobriu que ele estava com a chave e devolveu-a para os pais de Paulo. Foi também por isso que ele fugiu. Paulo foge novamente no dia de seu aniversário de dezoito anos. Seus pais descobriram que ele estava na 8ª série (pensavam que ele já estava no segundo grau) e também que não estava freqüentando o colégio. Não há argumentação, porque Paulo não fala nada, seus pais brigam com ele, seu pai quis lhe bater, mas não o fez. Paulo quer sair com a namorada e não voltar mais. Seus pais não sabem onde ele está, mas sabem que ele está por perto, pessoas conhecidas o viram no bairro. Dias depois, volta para casa e pede 200 reais para alugar uma casa – quer morar com a namorada. A resistência de Paulo em comparecer ao atendimento insere-se no campo da transferência. Suas faltas, incluídas em sua história, orientaram-me para, a cada vez, lhe telefonar, marcando, assim, que ele não seria abandonado. A experiência infantil que ele vivenciou de ser deixado sozinho pelos pais, sentida como abandono, é repetida, no campo da transferência: falta ao atendimento, abandona o tratamento, abandona a analista. Por outro lado, outros aspectos também podem ser contemplados: de que a repetição pode se dar em outros aspectos da situação atual, não apenas na relação com o analista. O abandono dos pais é repetido também em suas fugas de casa. É ele quem, agora, abandona. É o que Freud já indicava a respeito da repetição – agieren – a lembrança é substituída pela compulsão à repetição, não apenas na transferência, mas em cada diferente atividade e relacionamentos que podem ocupar a vida do paciente, durante o tratamento (Freud, 1914, p. 153).“Quanto maior a resistência, mais extensivamente a atuação (acting out) (repetição) substituirá o recordar, pois o recordar ideal do que foi esquecido, que ocorre na hipnose, corresponde a um estado no qual a resistência foi posta completamente de lado” (ibid.). A dificuldade que encontramos nesse caso, uma vez que Paulo apresenta resistência a comparecer ao atendimento, pode ser pensada pelo seu avesso: o que resiste não é o sujeito, e sim o discurso. A repetição – agieren – deriva de dois questionamentos, e o sujeito vai responder de um desses lugares.
Há também a dimensão da transferência presente no acting out. “as etapas do tratamento, longe de serem interpretáveis no sentido de uma melhora, de uma normalização das relações com o outro, são escandidas por explosões bruscas que assumem formas variadas, dentre elas o acting out” (Lacan, 1957-1958, p. 459). Paulo responde ao mal-estar com as fugas. Vimos, nesse caso, a dificuldade de simbolização que a puberdade comporta. Dificuldade em relação à angústia onde a ação rouba a cena no lugar da palavra. A tendência a agir atribuída aos jovens está intimamente ligada a puberdade. Essa tendência existe porque, diz Stevens (1998), “a puberdade é um dos momentos onde reaparece para o sujeito mais do que nunca a não relação sexual” (p. 82). Ante a falta de saber sobre a relação sexual, resta a cada um inventar sua própria resposta, afirma Lacadée (2001), em seu trabalho sobre a prática do CIEN, mostrando-nos algumas soluções inovadoras dos jovens. No lugar da toxicomania, da delinqüência, da morte e do suicídio surge a cultura do hip-hop, que nos indica “uma nova forma de apreensão do gozo do corpo que não passa pela maneira habitual da fala, nem pelos usos habituais do diálogo” (Lacadée, 2001, p. 97). No caso Dora e da jovem homossexual, o fato dos pais procurarem um médico com o pedido de ajuda para algo que se passava com suas filhas e desafiava os valores familiares e burgueses da época, já prenunciava uma vacilação da função paterna. Esses pais não tiveram autoridade suficiente para sustentar o ideal que deveria nortear suas filhas e recorreram a um tratamento para se situarem. Na época de hoje, o declínio da função paterna e a queda dos ideais alcançou o zênite: vivemos a era do Outro que não existe 3. A maior parte dos pais não exerce sua função e, esta, se torna uma atribuição da escola, do conselho tutelar, etc... O caso de Paulo é um exemplo disso: um jovem de dezessete anos, que é encaminhado para atendimento pelo Juizado de Menor do Rio de Janeiro.
Notas 1 Goethe, parte I, cena 3), (1829 [1801]), p. (69). 2 Projeto Programa: “Situações Limites na infância e adolescência: clínica, ensino e pesquisa”. Inédito. 3 Op. cit. LAURENT, E. & MILLER, J.A. O Outro que não existe e seus comitês de ética. In: Curinga. Belo Horizonte, n. 12 , p. 4-18, set. 1998.
Referências Alberti, S. (1999). Esse sujeito adolescente. Rio de Janeiro: Relume- Dumará. Besset, V. L. (2002). A clínica da angústia: faces do real. V. L. In Besset (Org.) Angústia. (pp. 15-29). São Paulo: Escuta. Besset, V. L. (2005). Ato e angústia. Latusa digital 2 (19), out. Disponível em: http://www.latusa.com.br/latmartex19 _1.htm. Acesso em 18/11/2005. Brodsky, G. (2004). Short story: os princípios do ato analítico. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. Carneiro, H. F. (2005).... E no começo era a fome: três movimentos da dietética na criação do homem. Disponível em: http://www.estadosgerais.org/historia/60-e_no_comeco.shtml Acesso em: 10/11/2005. Freud, S. (2003). Estudios sobre la histeria . (Obras Completas, Vol. 2). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 1895[1893]) Freud, S. (2002). La etiologia de la histeria . (Obras Completas, Vol. 3). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 18951896). Freud, S. (2000). La interpretacion de los suênos . (Obras Completas, Vol. 4). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 18951900). Freud, S. (2001). Psicopatología de la vida cotidiana . (Obras Completas, Vol. 6). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 18951901). Freud, S. (2003). Fragmento de análisis de un caso de histeria (Dora) . (Obras Completas, Vol. 7). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 18951905 [1901]). Freud, S. (2001). Recordar, repetir y reelaborar (Nuevos consejos sobre la técnica del psicoanálisis) . (Obras Completas, Vol. 12). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 1914). Freud, S. (1985). Pulsiones y destinos de pulsión . (Obras Completas, Vol. 14). Buenos Aires: Amorrortu. CD-ROM. (Originalmente publicado em 1915). Freud, S. (2001). Sobre la psicogénesis de un caso de homosexualidad femenina . (Obras Completas, Vol. 28). Buenos Aires: Amorrortu. (Originalmente publicado em 1920). Lacan, J. (1999). Transferência e sugestão. (O Seminário, Livro 5). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Originalmente publicado em 1957-1958). Lacan, J. (2005). A angústia. (O Seminário, Livro 10). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. ( Originalmente publicado em 1962-1963). Lacan, J. (1986). La Lógica del Fantasma . (O Seminário, Livro 14). Buenos Aires: Paidos. CD-ROM. (Originalmente publicado em 1966-1967). Lacan, J. (1986). El Acto Psicoanalítico . (O Seminário, Livro 15). Buenos Aires : Paidos. CD-ROM. (Originalmente publicado em 1967-1968).
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