SESSÃO COORDENADA
Culpa no núcleo familiar: algumas considerações clínicas e teóricas
Thiago Sousa Felix - NAMI
Profa. Dr.a Júlia Sursis Nobre Ferro Bucher - UNIFOR
Resumo
Refletimos aqui as manifestações da culpa no contexto familiar. Entendemos
família como o núcleo primordial onde há o convívio íntimo entre seus
indivíduos membros. O sentimento de culpa surge nesse meio oriundo de conflitos
inconscientes que remontam a construções sociais e culturais, questões afetivas
e mesmo a eventos históricos e transgeracionais. A influência desses fatores
nos relacionamentos e na dinâmica familiar é decisiva.
Palavras-chave: Culpa e família, psicoterapia do núcleo familiar, relações
intrafamiliares.
Introdução
A culpa pode repercutir de várias formas na dinâmica familiar. Buscamos aqui
compreender quais fatores desencadeiam esse sentimento nos membros da família
contemporânea, especialmente naquela que recorre à clínica de família.
Objetiva-se, portanto, descrever percepções dos processos internos que produzem
o sentimento de culpabilidade no centro da família e compreender a influência
dessa no mecanismo psíquico dos seus membros.
Sua face mais conhecida se dá na clínica psicoterápica de crianças e se faz
notar no contato com os pais que, vez por outra, "confessam" atitudes
inconscientes, lembram condutas violentas ou imaturas no processo de criação e
educação de seus filhos.
Metodologia
Desenvolvemos leituras em referência bibliográfica especializada de
psicoterapia sistêmica da família, teoria da complexidade, psicanálise, em
influências transgeracionais, nos movimentos inconscientes do sujeito e da
família. Além da metodologia de pesquisa bibliográfica, nos baseamos na
experiência com casos clínicos de crianças, casais e famílias atendidos no
Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade de Fortaleza – UNIFOR.
O atendimento clínico e a pesquisa em família vêm se desenvolvendo com certo
crescimento no serviço de psicologia e na pós-graduação Strictu e Latu Sensu
desde a criação do Curso de Especialização em Abordagem Sistêmica da Família em
1991.
Vem sendo criado um espaço de encaminhamento entre a clínica individual e a
clínica de família o que demanda o cruzamento e o diálogo de abordagens como a
teoria sistêmica e a psicanálise. A primeira investiga os complexos e fluxos
grupais e a segunda toma os processos inconscientes como tema de estudo.
No caso do atendimento com criança, percebe-se que essa não tem escolha: está
emaranhada desde o momento de sua concepção num sistema complexo que o envolve
por parentesco e que consiste no seu primeiro vínculo com o outro. Muitos
autores entendem que é a convivência no núcleo familiar o momento primário do
desenvolvimento da pessoa e fase que precede o vínculo social.
Ao tempo que autores recomendam uma investigação das marcas psíquicas que
ficam entre uma geração e outra, os terapeutas buscam evidenciar aos seus
clientes a relação entre suas demandas, a queixa principal e os processos
psíquicos inconscientes que envolvem as famílias e os sujeitos.
Os membros da família e suas culpas
Quem apresenta constantemente na clínica o discurso culposo é a mãe: ela
carrega muitas das deficiências, problemas de caráter e doenças do filho. Isso
vem se dando, como podemos perceber, em estudos como os de Arries, nos quais
percebemos a construção da maternidade e da família burguesa na qual a mãe abre
mão, devido a conjunturas sociais, econômicas e culturais, do trabalho do campo
e dos salões da nobreza assumindo a posição de guardião do lar, da limpeza, da
educação dos filhos, da satisfação conjugal, dentre outras tarefas.
Esse modelo de mãe que assume a educação e o cuidado dos filhos se culpabiliza
por todos os problemas que venham ocorrer no processo de desenvolvimento do
filho e (nem sempre participa dos sucessos do mesmo).
Essa angústia ocasionada pela construção de um modelo maternal ideal vem, na
segunda metade do século XX, sofrer um forte revés com a entrada da mulher no
mercado de trabalho ocasionado pela 2ª Guerra Mundial e que repercutiria em
movimentos feministas. A figura da mãe santa, pura, caseira sofre revés
irreversível e se a angústia materna não desapareceu (pois a mulher não precisa
ser mais mãe) aumentou deveras para a mulher contemporânea que tem de assumir
novos espaços e papéis sociais (estudo, trabalho, assistência as pais idosos
etc).
Mas a clínica contemporânea não se constitui apenas de "mães burguesas" e aí
se incluem outros modelos, dentre os quais o da mãe pobre e/ou operária. Essas,
sem embargo, têem de criar muitos filhos e gerenciar situações de pobreza e
fragilidade extrema. Assim se escusam de maiores culpabilidades na criação
filial já que são poucas as possibilidades de êxito na formação do caráter e do
corpo sadio dos rebentos. Para essa mãe já é válido o filho ter sobrevivido às
atribulações de uma vida miserável.
Não obstante o homem também sofreu mudanças nessa nova conjuntura: passou a
ter de assumir uma paternidade antes pouco estimulada pela sociedade tendo e
dividir com a esposa certos cuidados com as crianças muitas vezes
substituindo-a.
Logo o pai também se culpa por certos acontecimentos com os filhos, pois ele
também foi participe de uma criação que deu errado, fracassou.
Já Hellinger (2004) vem nos adicionar um outro movimento de culpa, esse agora
nos filhos. Essa modalidade, apesar de ser pouco percebida na clínica, é
segundo o autor, causadora de grande sofrimento psíquico já que o filho se
enamora de uma pessoa (não aceita pela família, por exemplo) e tem de romper o
vínculo e a convivência com os pais. De um modo geral, então, dentro de um lar
onde exista amor e respeito, o rompimento do vínculo gerado pelo casamento é
traumatizante tanto para os pais como para os filhos. No segundo grupo reside a
culpa. Para esse autor o progresso sempre está ligado à culpa (Hellinger, 2004).
Em tempo consideramos que a culpa oriunda do descaso nos cuidados dos pais
idosos deve embalar a psique dos filhos dessa e da próxima geração. Esse é
apenas uma das conseqüencias para aqueles que usufruem das beneces do avanço
tecnológico na saúde e do bem-estar social.
Resultados
Nota-se que na clínica familiar repleta de segredos, alianças, projeções e
fantasias existe um esquema de culpabilidade recorrente que envolve
principalmente as relações parentais. É o processo de reconhecimento do sintoma
e a conscientização da transmissibilidade involuntária do sintoma o que pode
gerar e alimentar a culpa nos pais. Ao se reconhecer como causadores de
questões e dificuldades familiares, os pais demandam um processo (espaço)
curativo, onde possam assimilar as demandas projetadas na família que construiu
e na qual se originou.
Henrique et all considera a culpa como elemento comum entre a melancolia e o
ressentimento. Entenda-se a comunhão entre os referidos conceitos mais numa
dimensão de causalidade que mesmo numa linearidade. Desdobrando ainda mais o
debate a culpa habita onde provém atitude de prazer ou de um ato deliberado do
sujeito culposo.
Considerações finais
Em obras como "O mal-estar na cilização" e "Totem e tabu" Sigmundo Freud
analisa a culpa e suas influências no indivíduo e na sociedade na sua origem
primeira. Naquela obra é o próprio sentimento de culpa que está em questão e
que possibilita a entrada do sujeito no mundo social. Já na segunda percebe-se
com a criação do mito do pai da orda uma alegoria para explicar os
desdobramentos da construção da vida social e das relações entre pais e filhos.
Nela a figura paterna
A influência desses fatores na dinâmica familiar é decisiva e reverbera na
psicoterapia de família e na individual. É nesse momento que ela pode ser
trabalhada pelo terapeuta que percebe o esquema constituído entre o sintoma e
os sentimentos que o originam, alimentam e desenvolvem.
Fazendo uma análise da teoria da culpa freudiana, poderia se dizer que esse
sentimento no sujeito societário lhe permite a construção do laço social. Isso
se repete inversamente no laço familiar, pois o sujeito culposo (o pai) se vê
irremediavelmente ligado a sua vítima (o filho), ou seja, aquele que sofreu com
seu ato. Essa ligação pode se dá apenas afetivamente, por exemplo. Seu conteúdo,
no entanto, pode ser preenchido somente do sentimento de amor e não fruto de uma
ambivalência entre amor e ódio como faz crer o esquema parricida.
Os fluxos transgeracionais perpassam o sujeito, lhe cobram pesada taxa. Essa
dívida é percebida pela criança seja ela dita ou não. Consideramos a
conveniência da elucidação desses fluxos, pois já falava Freud da pertinência
que cada geração diga a posterior quais suas marcas psíquicas mais importantes.
Referências
Ancelin, Anne Angelin. (1997). Meus antepassados: vínculos transgeracionais, segredos
de família, síndrome de aniversário e prática de genossociograma. São Paulo: Paulus.
Arries, Phlilippe. (1981). A história Social da Criança e da Família. 2a ed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan.
Boechat, Paula. (2005). Terapia familiar - mitos, símbolos e arquétipos. Rio
de Janeiro: Wak.
Carneiro, Henrique Figueiredo et all. (2006). Melancolia, Ressentimento e Laço Social:
repercussões na clínica psicanalítica. Revista Mal-estar e Subjetividade
Fortaleza 6 (2), 450 – 471, set.
Hellinger, Bert. (2004). Constelações familiares: o reconhecimento das ordens do amor.
4ª ed. São Paulo: Cultrix.
Shazer, Steve de. (1986). Terapia Familiar Breve. São Paulo: Summus.