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SESSÃO COORDENADA
A violência com paixão -- A perplexidade frente à violência na crônica “Mineirinho” de Clarice Lispector
Rafael Lobato Pinheiro
O objetivo deste ensaio é discutir acerca do horror e da perplexidade que a violência causa ao sujeito articulando-os com a maneira como Clarice Lispector escreve sobre seu próprio assombro frente a um ato de violência na crônica “Mineirinho”, bem como, fazendo uso de minha própria perplexidade frente à referida crônica, articular alguns temas de interesse da psicanálise. Neste trabalho também, desenvolvo alguns temas psicanalíticos relativos à violência articulando-os com a leitura do mito do Pai da Horda em Totem e Tabu. Clarice Lispector escreve a crônica, a meu ver, quase que psicanaliticamente, pois, se oferecermos uma leitura flutuante ao seu texto podemos ver seu inconsciente entranhado em sua escrita. Pode-se sentir sua intensa perturbação perante a morte de Mineirinho, criminoso assassinado com treze tiros. É tudo que sabemos de Mineirinho, além de que ele também era um assassino e fora morto por um vingador. O impacto que a brutal morte de Mineirinho causa sobre a escritora é marcante, e é exatamente esta perplexidade que abre as janelas para sua tentativa de dar sentido a esta experiência escrevendo a crônica. É o que ela chama de “o mal – estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las” (p. 123).A experiência de Clarice é da ordem do horror, não só frente ao real da morte – que aponta para nossa própria angustia perante ela- mas referente ao excesso de treze tiros contra Mineirinho. Ela inicia a crônica da seguinte forma: “É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora”. É interessante para a psicanálise o fato de Clarice escolher um homem perverso e perigoso para falar daquilo que ela mesma chama do abrir da vida na carne de Mineirinho, a matéria viva, placenta e sangue (Lispector, 1999; p. 124). Este questionamento, a meu ver, é o que baliza a interpretação de todo o restante do texto. A morte de um malfeitor, que normalmente satisfaz nosso senso de justiça, foi a escolha perfeita para questionar justamente que justiça é essa, e, mais importante ainda, a quem ela serve em nossa sociedade. O foco da autora não são os crimes cometidos por Mineirinho, ou seja, não é o fato de ele merecer ou não punição, mas sim, a forma como ele é punido – treze tiros- que para nós, aponta a uma dinâmica de vingança e controle da agressividade na sociedade. Clarice espanta-se com a veemência do ódio e castigo que recaem sobre o transgressor, tal espanto abre os olhos da escritora para a tênue teia dos laços sociais na qual vivemos-cada um na sua habitação, isto é, no lugar que lhe cabe e é possível na sociedade. Outro sentimento que brota em Clarice, e que está estreitamente ligado ao seu despertar existencial, é o que ela mesma chama de “violenta compaixão da revolta”. Parte de sua perplexidade vem do reconhecimento de sua própria agressividade, daí sua revolta com o crime ser não só violenta como apaixonada - plena de pathos; é o revelar do seu próprio apego ao gozo que a violência/agressividade causa nela e em cada um de nós. Sua violenta compaixão é um perfeito oxímoro para revelar o que nos interessa, aquilo que seja a inerente ambivalência estruturante do sujeito. Senão vejamos como Clarice se revela: “... sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e, no entanto nós o queríamos vivo” (p. 123). A fala de Clarice agora assume um significado como uma fala representante do “ nós”; daquilo que queremos proteger: nós os sonsos essenciais. “Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados” (p. 124). Percebemos como Clarice expõe de forma literária um importante conceito psicanalítico introduzido em Totem e Tabu (1912-1913): a ambivalência dos sentimentos na polaridade amor/ ódio. Mineirinho funciona como um emblema daquilo que em nós é furtivo. Como criminoso ele não só leva ao ato aquilo que em nós é violência, mas também é um mártir de uma vingança que vigia os laços sociais. Clarice acorda para a força do “não matarás” como garantia de sustentabilidade das relações sociais. Basta lembrar que em Totem e Tabu os filhos do chefe da horda após o terem assassinado, em perplexidade diante de sua própria violência e o caos que o liberar de sua revolta traria para sua comunidade, elegem a primeira lei - não se pode matar o próximo, não se pode tudo - o que, se levarmos às últimas conseqüências quer dizer: não se pode ser feliz completamente. A escritora nos remete diretamente ao nosso desamparo primordial, conceito chave para a teoria freudiana. Clarice escancara a trágica história da humanidade como uma de eterna ambivalência afetiva (amor/ ódio) apontando assim para o “im anfang war die Tat’”- no princípio foi o Ato de Freud, revelando que é justamente o ato violento aquele fundador do sujeito e dos laços sociais. É como se antes dos treze tiros desferidos contra Mineirinho ela estivesse cega em relação ao outro. É no reconhecimento da alteridade que Clarice se depara com seu próprio desamparo. “Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam , porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim” (p. 123). É chegada a hora de tratar dos treze tiros. Como afirmei anteriormente, aquilo que chama a atenção de Clarice, e o que a impulsiona a buscar um sentido para sua violenta revolta são os treze tiros. Penso que este processo de despertar que os tiros iniciam em Clarice reforça a interpretação que estamos construindo. Para ela há alguma coisa, além da lei, que faz com que possa ouvir o primeiro tiro. É a esta “coisa” que sugeriremos um significado. O primeiro tiro tira Clarice do torpor de seu sono. O segundo tiro lhe dá um alívio de segurança (o tiro não foi nela); o terceiro tiro a deixa num estado de alerta (“mas o próximo pode ser em mim” ou “ eu posso dar o próximo tiro);o quarto tiro a deixa desassossegada; o quinto e o sexto a cobrem de vergonha; o sétimo e o oitavo ela diz ouvir com o coração batendo de horror (tanto medo que ela sente quando lançada ao real da morte); no nono e décimo sua boca está trêmula (Clarice começa a ver algo que antes não via); no décimo primeiro, espantada, clama pelo nome de Deus (onde estará a Lei?); no décimo segundo chama pelo nome do seu irmão. Sintomaticamente Clarice escolhe chamar pelo irmão. O lento revelar do Outro como alteridade toma ritmo desvendando o laço social que une Mineirinho a ela: são irmãos na violência. “ o décimo terceiro tiro me assassina –porque eu sou o outro. porque eu quero se o outro ( p.124). É no encontro com o Outro que Clarice se vê confrontada com seu próprio desamparo e estranheza frente à dureza da vida. Clarice reconhece assim, a sustentação dos laços sociais na ambivalência afetiva, como esclarece Teixeira (2002, p. 196): É o ódio compartilhado e o desejo de matar,juntamente com a culpabilidade e o arrependimento,que geram a irmandade como possibilidade de alguma coesão grupal”. Clarice sustenta que foi em Mineirinho que se “ rebentou seu modo de viver”, pois ele viveu até o último tiro o que ela dormia. Mineirinho ,quando contemplado, descortina a violência estruturante não só do sujeito como da coletividade. É o que Jerusalinsk (1996 apud Teixeira, 2002, p 196) chama de “ agressividade primordial”. Clarice depois de um vislumbre desta agressividade em si e na estruturação da coletividade, sente-se angustiada ao identificar-se com Mineirinho, tal qual os filhos do chefe da horda se identificam depois do assassinato como irmãos. Parece-me que Clarice vê-se perplexa quando assiste ao caráter paradoxal da cultura como provedora subjetiva do sujeito através dos vínculos que promove, ao mesmo tempo em que se configura na maior ameaça a ele próprio por dosar e tolher seus desejos e esforços para a coesão. Ao reconhecer a alteridade em Mineirinho, Clarice toca então, em um ponto crucial para a manutenção dos laços sociais pra a psicanálise: a solidariedade como fraternidade. A própria Clarice explica: “tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro par anão corrermos o risco de nos entendermos” (p. 124). Com muita propriedade a escritora elucida a necessidade de nos reconhecermos como irmãos, cúmplices de uma mesma violência e culpa, ou seja, autores de um mesmo crime. A meu ver, em Clarice Lispector a pulsão de vida parece sempre superar a pulsão de morte; Eros está sempre a impulsionar a escritora para fora de si mesma na busca incessante de afirmar a vida. A crônica, ao aproximar-se do fim, não nos deixa no desespero e desamparo. Clarice escreve “ Mineirinho” também como um alerta à perda da perplexidade. Perplexidade esta não só perante a violência, mas também diante do outro como aquele que de fato deve receber um olhar que lhe doe alteridade. Talvez, seja nesta perplexidade e reconhecimento da fraternidade (no sentindo psicanalítico do termo) que habita uma leve possibilidade de fortalecimento dos laços sociais. Não podemos jamais esquecer que a mesma Lei que instaura o “não matarás” também institui o “ amar ao próximo como a si mesmo”. A mais radical alteridade é ser reconhecido no outro. Penso que Clarice propõe situar o sujeito no campo da ética, proposta semelhante à construção que busca fazer a psicanálise. Teixeira (2002, p. 199) mais uma vez coloca de forma clara nosso pensamento, o que justifica a longa citação:
“Mineirinho” ainda deixa caminhos abertos para muitas outras articulações e interpretações, esta foi a opção que minha própria perplexidade me ofereceu. As idas e vindas que o texto de Clarice oferece abrem margem para infinitas elaborações, já que sempre que nos deparamos com ele estamos face-a-face com um saber que não sabíamos antes possuir. Talvez nem a escritora tenha ambicionado tanto, contudo, seu estilo de escrita nos presenteia com um prato cheio de elaborações simbólicas. Remete-nos ao Saber doloroso e assombroso, nossa singularidade mais assustadora – ler Clarice Lispector é ler nosso próprio inconsciente.
Referências Freud, S. (1912-1913). Totem e tabu . ( Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 13). Rio de Janeiro: Imago. Lispector, C. (1999). Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco. Teixeira, L. C. ( 2002). Função paterna, fratria e violência: sobre a constituição do socius na psicanálise freudiana. Psico-USF 7 (2), jul.-dez., 195-200. |
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