LABIO

Laboratório Sobre as Novas Formas de Inscrição do Objeto



SESSÃO COORDENADA

 

A violência na mídia e os efeitos subjetivos em crianças em situação de risco

 

 

Martha Regueira Alves
Prof. Orientador: Henrique Figueiredo Carneiro

Eixo Temático: Violência e Lei

 

 

  

Introdução

 Este artigo busca analisar os sentidos atribuídos pelas crianças em relação à violência na mídia. Muitos trabalham se tem produzido a respeito dos desenhos e filmes que passam na televisão e quais as representações que crianças e adolescentes fazem sobre a questão da violência em torno destas programações.

Este trabalho não se propõe a trazer uma classificação generalizada daquilo que é bom e ruim na televisão, o que se deve ou não assistir, mas refletir sobre estes aspectos de forma mais específica, em como este público é afetado subjetivamente através da exposição demasiada a este tipo de filmes.

Estas observações têm sido feitas em um grupo de crianças, atendidas pelo projeto NAVIA – Núcleo de Atenção à Vítima da Violência Urbana. A faixa etária compreende crianças entre 7 a 10 anos, moradoras de bairro com alta incidência de violência, além das precárias condições de vida, principalmente em relação aos laços familiares.

Entre os vários problemas presentes neste contexto estão; o abandono por parte de pai e mãe, histórias de abuso sexual, etc. Em sua rotina estas crianças passam parte do tempo na televisão, antigamente brincavam na rua, mas com o aumento da violência, brigas entre gangues, tiroteio, elas são obrigadas a ficarem mais tempo dentro de casa.

Carentes de referenciais e em busca de identificações, procuram nos filmes personagens que possam se identificar. Observamos que esta busca encontra-se nos heróis e que para isto não precisam ser bons, mas tem que ser dotado de poder. Os “heróis violentos” causam um impacto em crianças que estão dentro deste contexto do qual foi exposto. A criança buscará modelos fora do âmbito familiar para construir algo em que possa se identificar, já que há falta de referências no ambiente onde estão inseridos.

No texto Totem e Tabu (1913), Freud explora a questão da identificação no processo de construção dos laços sociais. O totem era transmitido por herança e todas as obrigações sociais vinham desta subordinação, isto é havia o discurso que circulava o totem, trazendo sentido à tribo. O totem funcionava como significante, ou seja, o próprio falo.

Fazendo uma analogia deste contexto com o grupo de crianças do projeto NAVIA foi observado, que buscam nos filmes os seus heróis, fazendo associações destes heróis com a questão do poder, além de associarem o poder à violência.

Ao compartilharem os desenhos com os outros colegas, seus personagens preferidos, e como agem, as crianças irão construindo laços sociais, assumindo algumas características dos seus personagens e assim, identificando-se uns com os outros.

Esta busca incessante do mundo infantil por um significante, ocorre pela ausência do Outro que não comparece. É como se este lugar estivesse vazio, não há um discurso (Lacan, 1958), que traga segurança e os amparem. Em todos os sentidos estas crianças estão desamparadas; pela família, pelo Estado, que não cumprem a função da proteção da lei, da regulação.

Lançados ao abandono, irão em busca de novos significantes. Neste contexto a mídia comparece para ocupar um lugar, do qual não há o Outro para dar parâmetros. É de lá que a criança irá tentar construir novos sentidos para suportar o desamparo.

Este espaço tem sido ocupado pelo discurso tecnocientífico e este por sua vez não podem produzir amor, pelo contrário comparece de forma excessiva, anulando as diferenças, abafando a subjetividade e afetando os laços sociais.

Portanto o objetivo deste projeto é de propiciar as crianças e adolescentes que são atendidos no grupo, à construção de novos paradigmas subjetivos diante dos impasses sofridos no seu meio social, evitando assim uma saída do mal-estar através do uso da violência e da passagem ao ato, possibilitando que se dê um sentido à culpa como conseqüência dos atos de violência.

 


Metodologia

Esta é uma pesquisa de natureza qualitativa por se priorizar os sentidos que cada sujeito irá dar em resposta aos problemas sociais, realizada com um grupo de crianças atendidas pelo projeto NAVIA – Núcleo de Atenção à Vítima da Violência urbana, amparado pelo Lábio – Laboratório sobre as novas formas de inscrição de objeto, sediado pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR.

A escolha das crianças se deu através de uma triagem feita na escola Matos Dourado, no bairro Edson Queiroz, por pesquisadores do Lábio. O perfil de atendimento no grupo é que estas crianças tenham sido afetadas de alguma forma pela questão da violência.

O trabalho se dá pelo atendimento psicanalítico às vítimas da violência e pelo levantamento constante das causas e efeitos subjetivos da violência trazidos pelo grupo, para que se possa dar conta do projeto de pesquisa.

As técnicas utilizadas no grupo de crianças são: produções de desenhos, jogos, brinquedos, que as levem através da representação simbólica, construir um sentido em relação àquilo que são afetadas, como a questão da violência e outros pontos que acabam surgindo por se trabalhar com a subjetividade de cada um, porém articulando-se o grupo em um laço social.

 

 

Resultados

Este trabalho revelou através das produções por desenhos que as crianças associavam a questão da violência ao poder. Inicialmente foi solicitado que desenhassem aquilo que representava a violência, em seguida perguntou-se para cada uma o que significava aquele desenho e o que tem a ver com a violência. As crianças foram fazendo associações entre o que desenhavam e o poder.

Um dos desenhos que chamou atenção foi o desenho feito por um menino de 9 anos de idade. Ele desenhou o faraó e as pirâmides, o menino disse que viu na televisão, era o filme de Moisés. “O faraó colocava o pessoalpara trabalhar; fazer pedra de mato para construir pirâmide e o pessoal não ganhava nada”. Isto era a violência para ele.

A questão da violência passa por uma identificação com o poder, sendo que muitas vezes estas crianças também estão buscando estes heróis violentos em uma tentativa de se protegerem.

Estas crianças expressão falta de limites, e no início do grupo trouxeram este tipo de conduta. Através do fortalecimento dos laços sociais que têm se formado no grupo, elas construíram outros espaços para buscarem novas vias simbólicas de lidarem com o mal-estar.

O que faz uma pessoa passar ou não para um ato violento é a relação com as normas culturais, os limites que se estabelece para o sujeito e os laços sociais que ele estabelece. Essa noção se constrói dentro da relação com outros sujeitos que já tem internalizado este conceito e que estabelecem para a criança o permitido e o proibido.

O texto O Mal-Estar na Civilização,Freud (1930), aponta que a própria cultura tem mecanismos de regulação e que o homem se constitui enquanto um ser cultural através das gerações, ele não se constitui só. A vida civilizada requer restrições das pulsões, a idéia do “tudo pode”, é, na verdade, impossível. Em uma situação de violência, o que comparece é a falta de limite entre um sujeito e o outro.

Ainda para o autor, o homem tem dificuldades em compartilhar com outros homens uma vida comum, sendo necessário para isto o estabelecimento de leis e regras para o convívio de um grupo, isto é; a vida social requer limites.

Todos os dias há inúmeras reportagens de fatos que dizem respeito a uma desagregação social, alguns indivíduos não são capazes de reconhecer as leis sociais enquanto limite na sua relação com a sociedade a que pertence, não porque falte uma lei (ainda que enfraquecida), mas porque falte a esses indivíduos a referência a uma lei maior que é a Lei Simbólica.

 

 

Conclusão

A violência na televisão sempre existiu, atravessa vários gêneros de filmes, inclusive de desenhos animados, porém o discurso vigente na nossa sociedade não é o mesmo, as famílias não são mais as mesmas, a educação dos pais mudou. Hoje o pai e a mãe têm medo de assumirem o lugar de autoridade, existindo muita insegurança em relação a esta posição. O discurso dos pais nas escolas é; o que eu faço? As crianças reinam em suas casas e estão totalmente sem referencial de identificação do que seja uma autoridade.

Antigamente, a família tinha a função ou a responsabilidade pela formação ética do sujeito, e à escola cabia a transmissão da cultura, a formação de hábitos e atitudes. Nos dias de hoje, a família transmitiu esta formação ética para a escola, pois até mesmo a família também é afetada na sua constituição ética, e a escola onde foi depositada a função de educar também não consegue dar conta, pois o lugar do professor enquanto autoridade é ameaçada todos os dias.

Dentro deste quadro carente de referenciais é que a criança tenta dar uma resposta insistente em busca de um significante. Elas têm associado autoridade a questão do poder e violência, e internalizado conceito de que “o mais forte se dá melhor.”

Diante destas reflexões, podemos perceber a seriedade desta temática na formação de nossas crianças diante do desamparo. É necessária uma discussão sobre o tema de forma séria e sem superficialidade, tendo como prioridade a formação destas crianças que ficam expostas a todo tipo de consumo, sem nenhuma proteção.

A geração atual tem sofrido um preço alto. Estas crianças e jovens ficaram sem noção de padrões de comportamento e limites, usufruindo da liberdade, porém sem responsabilidade.

 


Referências

Freud, S. (1999). Totem e Tabu. (Obras Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Editora Delta,. (Originalmente publicado em 1913).

Freud, S. (1980). O Mal-Estar na Civilização. (Obras Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1930).

Lacan, J. (1978). A Significação do Falo. In J. Lacan Escritos. São Paulo: Editora Perspectiva. (Originalmente publicado em 1958).

 

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