LABIO

Laboratório Sobre as Novas Formas de Inscrição do Objeto



SESSÃO COORDENADA

Apesar da Violência, a fala

 

 

Marina da Cunha Pinto Colares
Técnica do “Programa Fica Vivo!”, Superintendência de Prevenção à Criminalidade da Secretaria de Defesa Social/ MG. Autora do texto que é baseado em Monografia de Conclusão de Curso, em 2007, título: “A violência entre jovens em um aglomerado de Belo Horizonte: um estudo da clínica do acting-out”.

Bernardo Micherif Carneiro
Diretor de Medidas em Meio Aberto, da Subsecretaria de Atendimento Sócio-educativo da Secretaria de Defesa Social/ MG. Acompanhou o trabalho que resultou na Monografia e co-autor deste texto.

Ilka Franco Ferrari
Professora no curso de Graduação e Pós-graduação em Psicologia, na PUC Minas, membro da Banca da Monografia realizada e co-autora deste texto

Suzana Faleiro Barroso
Professora no curso de Graduação e Diretora da Clínica de Psicologia, na PUC Minas, orientadora da Monografia realizada e co-autora deste texto.

Eixo Temático: Acting-out e Passagem ao Ato.

 

 

Na contemporaneidade a violência ganha espaço e isto também acontece nas vilas e favelas. Cada vez mais os jovens se lançam para a morte, nesse mundo em que Outro não existe como orientador, onde acting-out e passagem ao ato preponderam em detrimento à linguagem e afeta os laços sociais. Os jovens matam, morrem, de forma crescente, mergulhados no mar de gozo próprio da época decadente de ideais. O acting-out e a passagem ao ato preponderam, em meio a uma prática clínica onde a fala está dificultada, dando lugar a mostração.

A Monografia surgiu, exatamente, em função de uma prática com estas características realizada com dados obtidos no cotidiano do “Programa Fica Vivo!”. Buscou-se elucidar a possibilidade de recorrer ao conceito de acting-out, para dizer de algumas situações, de alguns jovens, bem como constatar a possibilidade de intervenções a partir da psicanálise lacaniana, na prática ali realizada, com jovens envolvidos com a criminalidade.

O “Programa Fica Vivo!” faz parte da Secretaria de Defesa Social de Minas Gerias, e objetiva intervir para reduzir o número de homicídios e a criminalidade das favelas mais violentas de Belo Horizonte. Oferece oficinas de esporte, arte, música, por meio de oficineiros da própria região, já que estes são os pontos de ligação entre os técnicos (psicólogos, assistentes sociais e outros) e os jovens. Moradores do próprio aglomerado, eles inauguram novas formas de lideranças comunitárias junto aos jovens, por meio do diálogo, durante as oficinas, além da mediação de conflitos entre gangues rivais e polícia, entre outros.

 

O desenvolvimento do estudo

Para fazer uma análise clínica de uma das intervenções do “Programa Fica Vivo!”, e pensar se o conceito do acting-out pode ser aplicável nessas situações de violência entre grupos de jovens ligados à violência, a teoria de referência foi à psicanálise lacaniana. Duas vinhetas práticas são utilizadas:

 Vinheta 1:Em julho de 2006 os jovens estavam iniciando uma nova “boca de fumo” em um dos becos do aglomerado. Como modo de intervenção, alguns oficineiros propuseram fazer barraquinhas de artesanato, comidas, em uma rua próxima. Alguns dias depois, certos jovens passaram pelas barraquinhas desfilando com armas. De acordo com a comunidade, esses jovens não são acostumados a saírem de seus “postos” e, se estavam passando por lá, armados, é porque estavam em busca de alguém. Dessa forma, a comunidade se calou, esvaziou a rua e as barraquinhas foram recolhidas na expectativa de que o pior pudesse acontecer. Os jovens desfilaram, pela segunda vez, e fizeram o que a comunidade já esperava: entraram na casa de um jovem, nessa mesma rua, e o mataram.

 Vinheta 2: No aglomerado a guerra entre duas gangues rivais havia sido anunciada após um homicídio. O jovem que matou outro, na fuga trocou tiros com a polícia, foi atropelado pela viatura, foi levado para o Pronto Socorro e morreu em seguida. No final de semana, após esse homicídio, aconteceu o aniversário de uma jovem em um sítio fora do aglomerado. A festa iniciou na parte da tarde e o oficineiro, Marcos, chegou meia noite, em uma moto. Ao chegar, os jovens envolvidos com o tráfico do aglomerado que estavam presentes abriram o portão da garagem para que a moto fosse guardada. Tanto os jovens quanto o oficineiro se surpreendem ao verem uns aos outros. Os jovens pedem permissão para dar uma volta na moto e o oficineiro não deixa, por não ter gasolina suficiente. Após algum tempo da chegada do Marcos, ele observa uma movimentação diferente dos jovens e quando se levanta para ver o que está acontecendo, os jovens saem correndo. Ele vai até os jovens e pergunta:

“- Por que vocês estão correndo de mim? É porque estão fumando maconha? Já estou cansado de ver vocês fazerem isso!”.

“- Não, Marcos! Nós estamos correndo por causa disso...” Dois jovens levantam a camisa e expõem as armas. “A gente vai acertar contas com aquele menino ali! Olha só! Ele quebrou as coisas do sítio, está aprontando, e a gente é do aglomerado X e não podemos deixar passar isso não! Vamos pegar ele! Ele é um cara muito folgado! E não adianta você vim botar pano quente para ele não! A gente vai pegar ele sim!”.

“- Eu? Colocar pano quente? De jeito nenhum! Vocês querem saber de uma coisa! Eu estou aqui curtindo a festa, tem mulher, cerveja e vocês aí querendo criar tumulto! A gente não está no aglomerado X! Vocês fazem o que quiserem! Agora vocês têm de pensar em umas coisas... Vocês vão dar tiro nos outros, machucar pessoas, podem matar alguém. Vai ser uma correria danada! Aqui não é o aglomerado X! Vai chegar polícia, a festa vai acabar! Vocês fazem o que quiserem aí! Eu vou assentar ali, tomar a minha cerveja, tranqüilo e nem quero saber o que vocês estão decidindo aí! Cada um faz o que quer e é responsável pelo o que cria! Tchau para vocês!”.

“- Colé que é Marcos! Agora você vai ficar tirando a gente aqui?”.

“- Eu não estou tirando ninguém! Se vocês quiserem ficar aí planejando podem ficar, mas se quiserem tomar cerveja, podem assentar lá comigo! E nada de ficar falando na minha orelha em dar tiro nos outros não, porque eu não estou nem aí para vocês!”.

O oficineiro se retira e assenta à mesa. Depois de um tempo os jovens vão até ele e perguntam se podem assentar ali, com ele. Ele diz que sim, conversam um pouco sobre a guerra do aglomerado, sobre o último homicídio e a festa termina sem brigas e sem homicídios.

 

Algumas considerações

 Pensar se as atitudes destes jovens podem ser vistas à Luz do acting-out supõe considerações sobre este conceito. O acting-out é relativo ao efeito de curto-circuito, da colocação em ato da realidade inconsciente, perturba o sujeito, é enigmático, está sempre acompanhado da angústia e é a tentativa de solucionar a questão da demanda e do desejo.

A partir dessa clínica do ato, do real, Lacan (1963) elucida que o acting-out se destaca por ter orientação para o Outro e pode acontecer fora do tratamento. A mostração do acting-out é velada, mas não velada em si. É velada para o sujeito do acting-out, na medida em que poderia ser verdade, mas a verdade não é da natureza do desejo por ser articulado com o objeto que Lacan o nomeia de causa do desejo. Assim, a mostragem é antes visível ao máximo e por isso que, num certo registro, é invisível, mostrando a sua causa. Tudo o que é mostrado é o resto, a marca encontrada no acting-out é o resto, o objeto a. O sujeito pode fazer todas as buscas para tamponar os furos do desejo, que sempre terá um resto, algo sobrará e sempre estará no acting-out. O acting-out clama pela interpretação. Lacan (1963) o nomeia de “transferência selvagem” e elucida que não é necessário estar em análise para que ocorra a transferência. Contudo, afirma que a transferência sem análise é o acting-out e o acting-out sem análise é a transferência.

Uma mensagem quando transmitida pelo sujeito apenas tem sentido se o Outro a entende. Sendo assim, o Outro é o provedor que atribui uma significação à fala que lhe foi endereçada pelo sujeito. A fala é um apelo ao Outro e se dá por intermédio da linguagem através do sistema de significantes, não pelo fato de ser um sujeito que se dirige ao Outro. O desejo, por sua vez, é a busca do objeto perdido desde a primeira experiência de satisfação, que na verdade nunca existiu, mas é necessário constituir esse objeto e o sujeito ir à sua procura. Assim, encontramos um sujeito desejante, um sujeito marcado pela falta. O desejo só pode ser inferido a partir do momento em que a demanda se manifesta através da fala. O seu silêncio dá espaço para a atuação que no caso do acting-out é endereçado para o Outro e que permite a entrada desse Outro nesse sistema “circuitizado”.

Para relembrar coisas de evidência primária, a violência é de fato o que há de essencial na agressão, pelo menos no plano humano. Não é a fala, é exatamente o contrário. O que pode produzir-se numa relação inter-humana são a violência ou a fala (Lacan, 1958, p. 471).

 

O homem é um ser falante e mergulhado em um mar de significantes, cuja significação última sempre lhe escapa. Pelo fato de falar, sua existência se diferencia do animal em seu meio natural. Seu corpo só é vivo quando é falado e tocado pelo significante. Lacan, no Seminário “As formações do inconsciente” (1957-1958), lembra que no início de seu ensino dizia que o sistema narcísico era fundamental na formação das reações agressivas. Essa agressividade, provocada na relação imaginária com o pequeno outro, não se pode confundir com a totalidade do poder agressivo.

A fala e a palavra violenta estão dentro do discurso e foram significadas pelo sujeito. Tanto o acting-out quanto a passagem ao ato estão fora do campo da palavra. Sendo assim, é importante estudar esse momento em que Lacan traz ou a violência ou a fala. Pois, tanto o acting-out, passagem ao ato e esse conceito da violência estão fora do discurso, da dialética.

Se a violência distingue-se em sua essência da fala, pode colocar-se a questão de saber em que medida a violência como tal – para distinguí-la do uso que fazemos do termo da agressividade – pode ser recalcada, uma vez que postulamos como princípio que só pode ser recalcado, em princípio aquilo que revela ter ingressado na estrutura da fala, isto é, a uma articulação do significante. Se o que é da ordem da agressividade chega a ser simbolizado e captado no mecanismo daquilo que é recalque, inconsciência, daquilo que é analisável, e até, de maneira geral, daquilo que é interpretável, é por intermédio do assassinato do semelhante que está na latente na relação imaginária (Lacan, 1958, p. 471).

 

Lacan ensina, nesse trecho, que a violência distingue-se da fala por escapar ao recalque, não ser analisável. A fala está no campo do Simbólico, na medida em que tem sentido. Através da associação livre, em análise, inicia a fabricação de cadeias de significantes que dá para iniciar os sentidos. Se a violência não passar pela palavra, prevalece o não sentido convocando o sujeito a atuar. Mas a violência for própria do significante e passa pela fala o sujeito não irá atuar. Assim, as formas de manifestações do inconsciente podem ser pela fala ou pela atuação.

Freud ensina que a lei do Simbólico é dialética, no sentido de que é a lei do deslocamento. Essa é a lei que permite desenvolver as conversas, as substituições do objeto perdido, é o que deixa o sujeito fazer seus pactos e negociações. É a lei do desejo. Já o Real é aquilo que não desloca, está sempre no mesmo lugar. Lacan traz que o Real é o impossível. Impossível, no sentido da impossibilidade de escritura de algo, de dizer, e resiste à simbolização. Percebe-se, então, que a violência quando está no campo do Real pode apresentar tanto no campo do acting-out como da passagem ao ato.

 

Para concluir

 Nas duas vinhetas apresentadas, os jovens montam uma cena, cada um com seu papel, direcionam para o Outro a ação e buscam uma intervenção. Saem de seus “postos”, desfilam com suas armas, ou ainda, saem correndo quando olham para o oficineiro. As duas situações têm um caráter deliberadamente público e mostram atos dirigidos ao Outro, o que permite a pensar que se constituem em acting-out.

Lacan, em seu Seminário sobre a Angústia (1962-1963) pensa em três formas de respostas do acting-out: interpretar, proibir e reforçar. Proibir é impossível já que é impossível proibir o que se coloca além dos limites da lei e por ninguém pensar em fazer o acting-out por ser algo inconsciente. Reforçar, no sentido de educar, também não se obtém um resultado que se deseja. Na primeira situação, os jovens desfilam com suas armas pelas barraquinhas, a comunidade toda assiste a cena e ninguém faz nada. Entendem que os jovens querem matar alguém, desmontam as barracas, se angustiam e os jovens desfilam pela segunda vez, acontece a ruptura com o Outro o sujeito rejeita a cena e qualquer apelo ao Outro acontecendo, então, a passagem ao ato.

Na segunda vinheta prática, o oficineiro é incluído na cena, os jovens clamaram a entrada do Outro. O oficineiro se colocou como endereço da violência, entra na cena incentivando a conversa, o diálogo, implicando os jovens no próprio discurso, introduzindo a dialética. Assim, o oficineiro não respondeu do lugar que os jovens esperavam, não se intimidou e acabou por desmontar a cena. Isso torna a segunda vinheta em outra dimensão, já que a primeira onde a comunidade se intimida, silencia e acontece então a passagem ao ato: um homicídio.

Os jovens estão em um mar de gozo próprio da época decadente de ideais, em um mundo em que Outro não existe como orientador, atuam no lugar de dizer. É difícil falar, significar por poder aparecer a falta, a castração. Esses jovens aparentemente, nada lhes faltam e não se configuram na lei do desejo. São enrijecidos de uma tal forma que é preciso intervir na tentativa de provocar uma rachadura, um diálogo. Esses jovens não supõem um saber, se mostram conectados a um Outro por clamarem por uma intervenção. Assim é possível a entrada de um Outro desejante, mesmo sendo tão difícil de falar.

Os oficineiros com a sua liderança, presença, escuta e diálogo colocam para os jovens que existe a possibilidade de falar e endereçar a angústia para outros locais de uma forma diferente da que eles estão acostumados a fazer: matando ou morrendo. O oficineiro busca apoio e orientação na equipe técnica do Núcleo de Referência. Dessa forma, com essas intervenções o Programa inaugura uma nova política, possibilitando apoiar-se no estudo da clínica do acting-out, promovendo um deslocamento, delimitar o campo do real a partir do simbólico e dialetizar ao redor do impossível de se inscrever.

 

Referências

 Freud, Sigmund. (1920). A Psicogênese de um Caso de Homossexualismo numa Mulher. (Edição Standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. 17). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, Jacques. (1999). Os circuitos do desejo. (O Seminário As Formações do Inconsciente, Livro 5). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1957- 1958).

Lacan, Jacques. (1999). O obsessivo e o seu desejo. (O Seminário As Formações do Inconsciente, Livro 5). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1957- 1958).

Lacan, Jacques. (1999). Passagem ao ato e acting-out. (Seminário a Angústia, Livro 10). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1962-1963).

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