LABIO

Laboratório Sobre as Novas Formas de Inscrição do Objeto



SESSÃO COORDENADA

 

O Discurso da Violência entre as Torcidas Organizadas

 

 

Dr. Henrique Figueiredo Carneiro (Mestrado em Psicologia/UNIFOR)
Maira Sampaio Alencar Lima (Mestrado em Psicologia/UNIFOR)
Márcia Batista dos Santos (Mestrado em Psicologia/UNIFOR)

Eixo Temático: Violência e Lei

 

Introdução

Este trabalho é fruto da pesquisa realizada com integrantes de torcidas organizadas e busca compreender o fenômeno da violência presente nos eventos esportivos de futebol.

No Brasil, a partir da década de 90, século XX, a violência nos estádios vai tomando uma proporção cada vez maior tendo como ápice o que ficou conhecido como a Guerra do Pacaembu onde mobilizou o Ministério Público de São Paulo sendo pedido na justiça o fechamento das organizadas.

A despeito de tantos discursos em torno da paz, dos direitos humanos, o que presenciamos é uma crescente banalização da vida, a presumir pelos altos índices de violência nos espaços públicos veiculados diariamente nos meios de comunicação.

Tal violência vem em nome do que? Contra o que e/ou contra quem o sujeito se revolta? Quais os motivos que sustentam esta posição de violência na qual o sujeito parece se ancorar? Podemos falar numa falha na construção subjetiva destes sujeitos daí, laços sociais enfraquecidos? Por qual lei está balizado o sujeito? Estas questões nortearam, a princípio, os objetivos propostos para esta pesquisa, onde procurou-se compreender as causas da violência nas torcidas organizadas a partir da análise sobre a formação dos laços sociais; os discursos que fundamentam os atos violentos entre eles e o que gera a passagem ao ato.

 

Metodologia

O trabalho foi definido como uma pesquisa qualitativa a qual procurou aprofundar-se no mundo dos significados das ações e relações humanas como considera Minayo (2002).

No período de elaboração do projeto foi restringido como universo de pesquisa integrantes das duas maiores torcidas do estado, pois segundo levantamento feito originava-se delas os atos violentos que eram destacados pela mídia. Durante a pesquisa de campo, os entrevistados relatavam com unanimidade que a origem da violência vinha das torcidas dissidentes. Portanto, para

obter dados mais fidedignos, optou-se por inserir membros destas torcidas para que fosse possível contrastar os achados.

As categorias eleitas foram: laços sociais, discurso e passagem ao ato na busca de compreensão dos fenômenos de violências.

Os entrevistados foram selecionados a partir dos seguintes critérios: jovens ou adultos membros das torcidas organizadas que freqüentam estádios de futebol e vivenciaram atos de violência entre torcidas. A partir de um contato inicial com um membro de torcida as pesquisadoras foram pedindo indicações de outros sujeitos que se adequavam ao perfil delimitado.

Participaram da pesquisa quatro entrevistados, todos do sexo masculino, na faixa etária entre 20 e 30 anos. Dois tinham o segundo grau completo, um com nível superior incompleto e outro completo. O método de coleta de dados foi a entrevista individual gravada com prévia autorização dos participantes.

Como modelo norteador para a interpretação dos dados coletados nas falas dos participantes foi considerada as "práticas discursivas", segundo denominação de Spink (2000).

 

Resultados

Um dos pressupostos iniciais da pesquisa era de que as torcidas organizadas se constituíam a partir de laços sociais. Esse dado foi confirmado no trabalho de campo. As palavras que mais se destacaram nesta categoria foram: grupo, amizade, reunião, paixão, vibração, proteção. Estes termos remetem-nos a Freud (1921) onde ali, ele destaca cinco pressupostos básicos que fazem com que seja possível considerar uma reunião de pessoas como grupo. Dentre estas características destacam-se três quais sejam: a) um ideal que os una, b) uma interação sob a forma de rivalidade com grupos semelhantes e c) uma estrutura hierárquica bem definida. Os integrantes das torcidas destacaram que o principal sentimento que os unia é a paixão pelo time. Para Freud, o sentimento que congrega os grupos é a libido, energia sexual que é desviada deste propósito.

A paixão é um sentimento de cunho amoroso, mas que pode ser revertida em ódio desde que frustre a possibilidade de satisfação do sujeito, dessa forma, o ódio também pode unir pessoas em um grupo, fato que pôde ser comprovado pelas entrevistas, quando foi relatado que as músicas do CD da torcida eram, na sua maioria, de insultos à torcida rival. Assim, no grupo, há a possibilidade dos sentimentos de aversão e hostilidade, que foram reprimidos no indivíduo, emergirem.

Durante a análise dos dados duas novas dimensões emergiram do campo, que foram: a relação com a lei e o papel do líder. Desta maneira, foi possível averiguar que a violência nas torcidas estava intimamente relacionada com estes dois aspectos.

Os dados apontaram que o papel do líder estava associado diretamente à transformação das torcidas em instituições onde nos fazem lembrar do tipo de organização pesquisada por Goffman, (2005).

Freud (1921) fala que ao líder é atribuído um poder "misterioso e irresistível" que desperta a fé do grupo fazendo com que as falas do líder ganhem um poder mágico de incentivar as disputas ou a trégua. Assim, a concretização da violência está diretamente ligada ao desejo do líder e a postura deste diante da torcida, dado este confirmado nas falas dos entrevistados.

Em relação às instituições, foi possível averiguar que, segundo relato, cada vez mais as torcidas têm procurado espaços físicos maiores de modo que possam oferecer aos seus membros várias atividades do dia a dia, como academia de ginástica, lan-house, lojas e até mesmo emprego. Dessa forma, os participantes encontram nas sedes das torcidas tudo que possam precisar e assim se afastam cada vez mais do contato com pessoas de grupos diversos. Ora, para Goffman (2005), uma das principais características de instituições totalizantes é reunir num mesmo espaço opções de lazer, trabalho e moradia. Esse fechamento gradativo das torcidas pode levar a um acirramento ainda maior da rivalidade com os demais torcedores e agravam a situação, pois para Freud (1921), o modo como os grupos são estruturados elevam o padrão moral estabelecido entre eles e reduzem a capacidade intelectual, com isso uma posição crítica de seus membros é cada vez mais rara. Então como será possível questionar o porquê da violência?

A partir das entrevistas realizadas alguns discursos surgem, dentre eles: festa, violência, impunidade.

A princípio têm-se a festa, o incentivo aos jogadores, como o grande objetivo das torcidas organizadas: “O objetivo maior da torcida organizada é fazer realmente uma grande festa no estádio [...] é incentivar o clube dentro do campo da melhor forma possível” (entrevistado). Contudo, percebe-se que no decorrer das entrevistas, a temática festa fica embotada pelo discurso em torno da violência.

A violência, como eixo deste trabalho, é justificada entre os entrevistados como: a) rivalidade; b) impunidade: “A justiça hoje é muito frágil, então se ele mata uma caradaqui a pouco ele ta solto” (entrevistado); c) briga de gangue; d) briga de bairros; e) impulsividade; f) efeito do álcool e drogas entre outras.

O ato de quebrar, bater, roubar a faixa, e até matar, relatado pelos sujeitos da pesquisa, é vivenciado como uma forma de ostentação de um poder sem limites onde há uma predominância da imagem sacrificando-se os ideais estabelecidos pelo social: “Isso é muito triste pra se falar, mas é uma realidade, uma torcida só tem uma moral se já tiver roubado faixa de alguém, se já tiver matado; é um negócio muito triste falar isso, mas é uma realidade” (entrevistado).

A lei que orienta o sujeito parece estar elaborada na forma de um eu posso tudo, onde este mandato de poder não coincide com o poder do outro. Não há uma uniformização da lei, fato este que parece gerar uma panacéia social, que se manifesta a partir das tensões nos relacionamentos. O sujeito que antes se valia das estruturas simbólicas da sociedade para conduzir-se nas suas relações sociais, parece não encontrar mais os parâmetros necessários que o norteie (Cf. Lacan, 1950).

A violência não é uma matéria de estudo recente no âmbito da psicanálise se tomamos como referência o texto Totem e Tabu (1913), onde Freud aponta a violência, através do parricídio, como o meio de fundação da civilização. Tal ato instaura uma Lei, a proibição do incesto, e já apontava para o que Freud viria a desenvolver mais tarde como conceito de castração entendida não como a mutilação dos órgãos sexuais, mas uma experiência psíquica vivida na infância a qual remete às diferenças sexuais. Ou seja, a criança vive a dor dos limites no âmbito do corpo.

Uma ordem é instaurada, a qual o sujeito, na busca de sua sobrevivência, mantém-se submetido a um Outro que o barra, ou seja, que põe limites aos seus desejos, limita a satisfação plena de seus impulsos. O sujeito, então, se vê solicitado a fazer uma renúncia, de ordem pulsional, como forma de permanecer vivo entre os seus iguais e diante de si mesmo, amenizando assim seus conflitos internos. Entende-se, portanto, que o cumprimento da lei tem como função a manutenção dos laços sociais desta sociedade, evitando uma ruptura dos alicerces que sustentam os referidos laços. Há desta forma uma herança ética que põe termos às ações do sujeito onde este se depara com limites nos seus relacionamentos.

No entanto, vemos que hoje há uma primazia do gozo 1, como uma forma de minimizar o mal-estar advindo desta relação com os diversos objetos ofertados, simultaneamente, pelo mercado, que incentiva o consumo incessante: “São verdadeiras instituições que movimentam milhões por ano” (entrevistado) e ainda: “Não vamos só criar um público consumidor não cara, vamos criar, vamos conscientizar cada pessoa” (entrevistado). Isto como que ecoa a visão lacaniana sobre a sociedade moderna:

 

Uma civilização cujos ideais sejam cada vez mais utilitária, empenhada como está no movimento acelerado da produção, nada mais pode conhecer da significação expiatória do castigo. [...] esse novo homem, abstraído de sua consistência social, já não é digno de crédito (LACAN, 1950, p. 139-140).

 

Diante deste novo contexto, o sujeito inclina-se a perder a noção de responsabilidade pelos seus atos. Desta maneira, não há responsáveis; a culpa por um delito não cabe a ninguém. O sujeito constrói como chama Carneiro (2005), pseudobarreiras para enfrentar a realidade ficando, assim, mais exposto a passagens ao ato, que segundo Lacan (1962, p. 129), “o sujeito aparece apagado ao máximo pela barra [...] ele se precipita e despenca fora da cena”. É o momento o qual o sujeito não pode mais simbolizar, não há um significante operando, não porta mais uma fala, emudece: “Era mais por impulso, mais por impulso. Não tem muito que pensar, quer dizer, a gente pensa, mas vem a cachaça na cabeça...” (entrevistado).

A violência, neste contexto, parece surgir como uma saída do sujeito frente aos seus impasses diante de uma realidade social que valoriza a autonomia, a satisfação pessoal, a busca de prazer, a realização de desejo em detrimento de uma ordem, de uma lei, onde, em determinado momento se é o agressor e noutros, vítima. “É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir” (Freud, 1933, p. 246).

O limite à manifestação da violência do sujeito torna-se um ato de grande renúncia que a sociedade exige deste onde, segundo Freud (1930), o supereu 2 seria a instância que conformaria o homem a se submeter à lei social por esta ter-se tornado uma lei internalizada. No entanto, através desta pesquisa, com relatos envolvendo casos de violência que chegaram inclusive à morte, torna-se relevante pensar nos operadores que barram o sujeito na contemporaneidade.

 

Conclusão

Concluímos este trabalho com um questionamento. Se os homens aspiram à felicidade como Freud (1930) nos apresenta, como justificar a crescente onda de violência a qual nos vemos submetidos nestes dias, e mais especificamente no âmbito desta pesquisa, a violência entre as torcidas organizadas? Uma compreensão possível é a existência de um sujeito que, na contemporaneidade, apresenta dificuldade em conciliar seus impulsos internos com as exigências de sua realidade social e que mantém uma relação de alteridade caracterizada por transgressões sem interdições onde a renúncia ao gozo é a princípio ignorada.

Este sujeito, na busca de um apaziguamento de suas tensões internas pode encontrar, no grupo, um espaço em potencial para desenvolvimento de laços sociais que o ampare, o que corrobora com falas dos entrevistados que apontam para o estado de desamparo, vendo-se desprotegidos pelo Estado, pela polícia, entregues a si mesmos. Portanto, as torcidas organizadas podem aparecer neste contexto como um possível espaço de identificação, não só por uma perspectiva da negação do outro através da violência, da passagem ao ato, mas também, como espaço de lazer, da profissionalização, espaço de ação social como já desenvolvem entre eles.

Contudo, não podemos deixar de destacar algo que emerge no discurso dos sujeitos da pesquisa. Um pedido pela Lei, como podemos perceber na fala: “nós da torcida temos de ser cobrados” (entrevistado). Talvez esta fala revele mais aproximadamente não uma negação da lei, mas um pedido, que se manifesta através da violência, para que a lei opere.

 

Notas

1 “Termo utilizado por Jacques Lacan para designar um lugar simbólico – o significante, a lei, a linguagem, o inconsciente, ou, ainda, Deus – que determina o sujeito, ora de maneira externa a ele, ora de maneira intra-subjetiva em sua relação com o desejo. Pode ser simplesmente escrito com maiúscula, opondo-se então a um outro com letra minúscula, definido como outro imaginário ou lugar de alteridade especular. Mas pode também receber a grafia grande Outro ou grande A, opondo-se então quer ao pequeno outro, quer ao pequeno a, definido como objeto (pequeno) a” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 558).

2 Roudinesco e Plon (1998) assim definem gozo: “Inicialmente ligado ao prazer sexual, o conceito de gozo implica a idéia de uma transgressão da lei: desafio, submissão, ou escárnio. O gozo, portanto, participa da perversão, teorizada por Lacan como um dos componentes estruturais do funcionamento psíquico, distinto das perversões sexuais. Posteriormente, o gozo foi pensado por Lacan no âmbito de uma teoria da identidade sexual, expressa em fórmulas de sexuação que levaram a distinguir o gozo fálico do gozo feminino (ou gozo dito suplementar)”. (Roudinesco & Plon, 1998, p. 299).

3 Roudinesco e Plon definem: “Conceito criado por Freud para designar uma das três instâncias da segunda tópica, juntamente com o eu e o isso. O supereu mergulha suas raízes no isso e, de uma maneira implacável, exerce as funções de juiz e censor em relação ao eu. No Brasil também se usa “superego”. (Roudinesco & Plon, 1998, p. 744)

 

Referências

Carneiro, H. F. (2005). Do delírio quixotesco à alucinação contemporânea: as novas formações de sintomas e a época. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro. v. 17, n.1, p. 49-63, ago. 2005.

Freud, S. (1980). Totem e Tabu. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1913).

Freud, S. (1980). Psicologia de Grupo e Análise do Ego. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago, 1980. (Originalmente publicado em 1921).

Freud, S. (1980). O Mal - Estar na civilização. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago,1980. (Originalmente publicado em 1930).

Freud, S. (1980). Por que a Guerra? (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1933).

Goffman, Erving. (2005). Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva.

(1998). Escritos, Introdução teórica às funções da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Originalmente publicado em 1950).

Lacan, J. (2005). A angústia. (O Seminário, livro 10). Rio de Janeiro: Jorge Zahar,. (Originalmente publicado em 1962-1963).

Minayo, C. de S. (Org.) (2002). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 21 ed. Petrópoles, RJ: Vozes.

Roudinesco, E & Plon, M. (1998). Dicionário de Psicanálise . Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Spink, M. J. (Org.) (2000). Práticas Discursivas e Produção de Sentido no Cotidiano. 2 ed. São Paulo: Cortez.

 

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