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SESSÃO COORDENADA
A capacidade de estar só versus a violência da intrusão
Karla Patrícia Holanda Martins. Doutora em Teoria Psicanalítica (UFRJ), Professora Titular dos Cursos de Psicologia e Comunicação Social da UNIFOR. Psicanalista. Maria Regina Maciel. Doutora em Saúde Coletiva (IMS/UERJ), Psicanalista, Professora Adjunta da UERJ.
Discutiremos o tema da solidão e da violência em uma dupla vertente: associando-os aos modos de subjetivação na cultura contemporânea e ao setting analítico. Winnicott pensará a capacidade de estar só como fruto do amadurecimento de si e da possibilidade de resguardar um espaço privado na presença do outro. Esta vertente pode ser sustentada a partir do seu conceito – “capacidade de estar só” – em que o self, elemento dinâmico da cultura, pode estar com o outro numa comunicação sensível, sem ser invadido. O autor pressupõe condições fundamentais para o amadurecimento, entre as quais a experiência de continuidade vivida pelo bebê no momento de dependência absoluta, momento em que as fronteiras entre o eu e o não-eu estão diluídas. Ou seja, inicialmente o bebê é com o outro e processualmente ele vai conquistando a capacidade de estar só. Por outro lado, a ausência da experiência de continuidade, devido à ameaça de invasão ou ao abandono, leva, por defesa, a uma experiência de fechamento sobre si mesmo. No caso da primeira possibilidade, podemos estar frente ao outro em silêncio, sem negá-lo. O self pode reconhecer a dependência sem negar sua autonomia. Winnicott enfatiza uma onipotência narcísica que é fundamental para a experiência de ilusão presente, por exemplo, na brincadeira. O brincar está ligado a uma experiência ilusória que vai da onipotência ao jogo compartilhado. O self pode brincar sem ser invadido por regras. Pode haver aí uma comunicação anterior à comunicação por símbolos. Com a experiência de continuidade do sentimento de ser, o bebê pode experimentar a não-integração inicial num movimento criativo. Nesta concepção, a alteridade pode ir se instalando processualmente. Podemos indicar que as repercussões clínicas destas considerações já havia sido vislumbradas por Freud. Senão vejamos.
A violência na clínica: solidão e medo do colapso Freud, nos seus artigos sobre a técnica, propõe uma virada no trabalho com a resistência do paciente. A transferência é colocada no centro do trabalho de manejo do analista e da produção de novos sentidos do analisante. Recomendações explícitas: as regras não antecedem ao jogo, cada um decidirá, a cada jogada, o próximo lance. Assim, a transferência pode ser pensada como um espaço intermediário de circulação dos objetos criados pelo paciente na relação com o analista, espaço da brincadeira, o playgroud (Freud, 1914, p. 201). Aqui aprendemos que o brincar está na raiz da temporalidade em jogo no processo de subjetivação: a transferência poderia se apresentar numa aliança com as experiências do sentir e da criação, mas poderia também resvalar para os domínios da morte e do vazio. O manejo do analista seria fundamental na escolha do destino do “circuito pulsional”. Em “Recordar, Repetir e elaborar” (1914), um texto sobre a compreensão do tempo para comunicar algo ao analisante, Freud nos alerta que a condição número um para uma experiência não-intrusiva na análise é o respeito ao tempo de elaboração (ducharbeiten) do paciente. Com Winnicott aprendemos a radicalidade do respeito à não comunicação, sob pena de violar o ser com seus segredos e silêncios. Freud (1912b) recomenda que o analista seja “opaco aos pacientes e, como um espelho, não mostre nada além do que lhe é mostrado” (p. 157). No texto “O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil”, Winnicott nos propõe o rosto como metáfora da presença de uma alteridade criativa. Neste ponto podemos indicar que com sua obra fica claro que o analista terá um papel ativo na criação dos novos sentidos. Guardadas as diferenças de ambas as proposições, insistiremos nestas duas metáforas para pensar no papel de rosto do analista no percurso de uma análise, sem nos esquecermos que “a significação do espelho real está principalmente em seu sentido figurativo” (Winnicott, 1975/1967a, p. 162). No texto “O medo do colapso” (Breakdown) (1963b), Winnicott apresenta algumas variantes na clínica das agonias primitivas de determinados pacientes, entre elas: a perda da capacidade de relacionar-se com os objetos, do senso do real, do conluio psicossomático, do retorno a um estado não-integrado e da queda. Neste texto nos adverte que não são todos os pacientes que sentem o medo do colapso. O colapso se acha relacionado às experiências passadas do indivíduo e aos caprichos do ambiente. Os pacientes não se queixam deste medo desde o início do tratamento até que se estabeleça a dependência. É nesta área que os fracassos do analista desencadeiam o medo, posto que o eu pode se organizar contra a sua própria precariedade, mas não consegue se organizar contra o fracasso ambiental. Deste modo o medo clínico do colapso é um medo que já foi experimentado. Mesmo considerando que em alguns momentos precisa se dizer isto ao paciente, a experiência original da agonia primitiva só pode cair no passado (ser integrada) com a condição de que o eu possa reuni-la dentro de sua própria e atual experiência temporal, fato que dependerá do bom desempenho do analista. Em outras palavras, o analista pode possibilitar que o paciente experimente a não-integração sem que isto desencadeie o medo da desintegração. O medo do colapso encontra correspondentes no medo da morte, no medo da loucura e do vazio. Ao longo do trabalho com esses pacientes, caberia ao analista permitir, por exemplo, que o vazio – neste texto considerado, por Winnicott, como sinônimo de “nada acontecendo quando algo poderia proveitosamente ter acontecido” (1994/1963b, p. 75) – tenha a possibilidade de se transformar em algo positivo, criativo. Afinal, o vazio, segundo o autor, pode ser tomado também enquanto “um pré-requisito para o desejo de receber algo dentro de si” (idem, ibidem). De forma a ilustrar que a experiência da não-integração, nem sempre é utilizada adequadamente no setting analítico, Winnicott descreve o caso de uma jovem paciente que “deitava-se inutilmente no divã e tudo que podia fazer era dizer: ‘Nada está acontecendo nesta análise’” (p. 75). Em alguns momentos da clínica nos deparamos com a recusa de determinados pacientes de utilizarem o divã, sob a alegação do medo da solidão ali experimentado. Como dito anteriormente, é necessário que o analista compreenda o tempo de cada paciente. Levando-se em consideração esta variável, pode-se indagar sobre o papel do rosto do analista na elaboração criativa deste momento de encontro com o temor do colapso. Winnicott nos diz que, quando a criança olha o rosto da mãe, o que normalmente o bebê vê é ele mesmo. É estabelecida assim uma continuidade entre a apercepção criativa – registro de uma troca sensível com a mãe – e a percepção, como se o bebê assim dissesse: “Quando olho, sou visto; logo, existo. Posso agora me permitir olhar e ver. Olho agora criativamente e sofro a minha apercepção e também percebo. Na verdade, protejo-me de não ver o que ali não está para ser visto (a menos que esteja cansado)” (1975/1967a, p. 157). Mas pode também acontecer que a mãe reflita apenas seu próprio humor ou, pior ainda, a rigidez de suas próprias defesas. Assim muitos bebês têm uma longa experiência de não receber de volta o que estão dando; experiência que se traduz em vazio enquanto um dos possíveis nomes da solidão. Ele conclui: “Eles olham e não vêem a si mesmos” (op. cit., p. 154). Embora os bebês procurem outras maneiras de obter de volta algo de si mesmos, a ausência da troca significativa atrofia a capacidade criativa do bebê e ele se acostuma com a idéia de que o que é visto é o rosto da mãe, não é um espelho. Assim, a percepção toma o lugar da apercepção – toma o lugar do que poderia ser uma comunicação sensível e silenciosa entre ambos; neste caso, ao invés de usufruir da experiência de sentir-se real, tornando-se espontâneo, o bebê se preocupará em conhecer o objeto e pensar acerca das suas ações. E assim, alguns destes sujeitos, constroem estratégias intermediárias, por exemplo: não abandonam a esperança e passam a estudar o objeto na tentativa de predizê-lo (estudam os seus movimentos, humores, etc.), fazem tudo o que é possível para torná-lo significativo, o que não ocorreria se este apenas pudesse ser sentido; “(...) estudam as variáveis feições maternas, numa tentativa de predizer o humor da mãe, exatamente como todos estudamos o tempo” (op. cit., p. 155). Deste modo, o bebê aprende a fazer uma previsão, afastando-se do contato com suas necessidades e da espontaneidade, previsibilidade que é precária e que força o bebê aos limites da sua capacidade de permitir acontecimentos, elegendo uma defesa ao caos, organizará uma retirada e não mais olhará, “exceto para perceber como defesa” (idem, ibdem).
Também em 1963, Winnicott faz uma descrição clínica da experiência de uma paciente sua que, na infância, teria tido o seu caderno secreto violado por sua mãe. Toma este exemplo como ilustração de um tempo de amadurecimento desta paciente onde ocorre um sofisticado jogo de esconder: “é uma alegria estar escondido mas um desastre não ser achado” (op. cit., p. 169, grifos do autor). Em outras palavras, há um self que remete à solidão essencial do sujeito que, se por um lado, necessita permanecer incomunicável, por outro, precisa ser reconhecido. Na rica manutenção dos seus paradoxos, encontramos na obra winnicottiana a proposição de que na mesma área em que são vividos os equívocos e as falhas do analista o paciente é apresentado às qualidades do objeto. Se o analista sobrevive, pode obter êxito mesmo quando falha. Progressivamente, a dependência pode se tornar um fato de vida. O modelo clínico de Winnicott segue o processo por ele proposto: da dependência absoluta à independência, evoluindo do manejo para a apresentação de objeto. Deste modo, afirma: Psicoterapia não é fazer interpretações argutas e apropriadas; em geral, trata-se de devolver ao paciente, a longo prazo, aquilo que o paciente traz. É um derivado do complexo de rosto que reflete o que há para ser visto. (...) Sentir-se real é mais do que existir; é descobrir um modo de existir como si mesmo, relacionar-se aos objetos como si mesmo e ter um eu (self) para o qual retirar-se para relaxamento (1975/1967a, p. 161). Seus textos nos alertam para trabalhar além da narratividade, a sensibilidade. Uma sensibilidade criativa. O silêncio - do paciente ou do analista - por exemplo, pode dizer respeito a uma relação que é condição de possibilidade da existência de um self criativo. Se o analista viola a zona de silêncio pode lançar o paciente na experiência de intrusão, contrária às possibilidades processuais de integração. Nesta perspectiva a solidão vivida reproduz a eminência do colapso e o paciente passa a agir como se antecipasse novamente a possibilidade do desastre.
A solidão e a violência na cultura As reflexões acerca da possibilidade de experimentar a solidão sem isolamento têm fortes implicações tanto para a clínica psicanalítica quanto para a compreensão das relações entre os modos de subjetivação e a cultura. Terminaremos este artigo explorando as relações entre a solidão do ser e a contenção advinda da cultura. Para Winnicott, a contenção é apresentada progressivamente e estabelece relação com o ser. Em outras palavras, é suposto aqui um outro que não vem em oposição assimétrica, mas que dá forma ao ímpeto da criança. Afinal, como já afirmamos no início deste texto, o self é dinâmico e potencialmente criativo. Assim, necessita resguardar um espaço em que não seja “invadido”. No texto “A localização da experiência cultural” encontramos a afirmação de que a cultura não é só aquilo a que nos subordinamos. Afinal, também não criamos sem ela. Podemos dizer que o sentimento importante do sujeito para com a cultura e para com o outro e que o impede de sucumbir à desintegração é o de responsabilidade, que vai se tecendo com a contínua “sobrevivência” ao ímpeto da criança. Quais conseqüências trazem essas afirmações? Primeiro: a relação com a cultura não depende de nada transcendente ao próprio homem, e sim é fruto de interações concretas entre ambos. Segundo: não depende tampouco de um único momento estruturante, posto ser uma relação que se dá num processo. E, por fim, não há um movimento em si contrário do indivíduo para a cultura e vice-versa. Para Winnicott, ter atingido o status de um self unitário não significa que o processo de integração chegou ao fim. Do mesmo modo, a independência almejada, nunca é absoluta. O indivíduo sadio nunca passa da dependência absoluta para o isolamento. Ele se relaciona de tal modo com o ambiente que ambos se tornam interdependentes. Se, por um lado, há uma espécie de solidão inerente ao self que não se comunica, por outro, a solidão fruto de um amadurecimento de si, depende que o agir humano, construído nas relações de reciprocidade do eu com o outro, seja reconhecido na cultura no qual se insere. Uma das formas de testemunho dos efeitos do não-reconhecimento na cultura é a violência. Em outros termos, o sentimento de solidão frente à intrusão pode gerar a violência e o isolamento; mas se o gesto é contido na cultura e ao ímpeto original da criança somamos a “tradição” (Winnicott, 1975/1967b, p. 138) e o reconhecimento, a solidão poderá expressar a conquista da confiança e o amadurecimento de si.
ReferênciasFreud, Sigmund (1984). A dinâmica da transferência. (Edição standart brasileira das obras completas, 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1912a). Freud, Sigmund (1984). Recomendações aos médicos que exercem psicanálise. (Edição standart brasileira das obras completas, 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1912b). Freud, Sigmund (1984). Recordar, repetir e elaborar. (Edição standart brasileira das obras completas, 14). Rio de Janeiro: Imago. Phillips, A. (1988). Winnicott . Cambridge, MA: Harvard University Press. Szpacenkopf, M. I. (2004). Violência: a quebra do reconhecimento entre estado e cidadão e o efeito de duplo em C. A Peixoto Junior (Org.) Formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Contracapa,. Winnicott, D. W. (2000). Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão no contexto analítico. In D. W. Winnicott Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1954). Winnicott, D. W. ( 1983 ). A capacidade para estar só. In D. W. Winnicott O ambiente e os processos de maturação. (pp. 31-37). Porto Alegre: Artmed. p. 31-37. (Originalmente publicado em 1958). Winnicott, D. W. ( 1983 ) Comunicação e falta de comunicação levando ao estudo de certos opostos. In D. W. Winnicott O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed. (pp. 163-174). (Originalmente publicado em 1963a). Winnicott, D. W. (1975). O papel de espelho da mãe e a da família no desenvolvimento infantil In D. W. Winnicott O brincar e a realidade. (pp. 153-162).Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1967a). Winnicott, D. W. (1975) A localização da experiência cultural. In D. W. Winnicott O brincar e a realidade. (pp. 133-152). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1967b). Winnicott, D. W. (1994). O medo do colapso (breakdown). In D. W. Winnicott Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas,. (Originalmente publicado em 1963b). |
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