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SESSÃO COORDENADA
Um discurso interrompido: Sobre o filme Tsotsi e o ato delinquente
Junia de Vilhena
Maria Ines Bittencourt
Introdução Em diferentes pontos do planeta, submetidos à violência dos conflitos políticos, das desigualdades econômicas e sociais, ou ainda, ao esvaziamento de sentido, decorrente da hegemonia dos valores do mercado nas sociedades contemporâneas, inúmeras crianças têm enfrentado precocemente e sem possibilidade de defesa experiências que, afetando os espaços externos, destroçam também as possibilidades de construção de um mundo interno pautado em alguma forma de esperança. Ficam assim impedidos de se desenvolver, ou são precocemente mutilados, os espaços simbólicos onde poderiam ser controlados os medos, sonhados os projetos e elaboradas as condições de um crescimento saudável. Trata-se de vivências muitas vezes determinadas pelas condições de vida em lugares precários e submetidos a ameaças constantes, ocasionando a destruição dos laços familiares e a substituição dos vínculos com pais afetuosos e firmes por maus tratos e abandono. Mas, se por um lado os fenômenos de “colapso simbólico” são frequentemente relacionados aos confinamentos decorrentes da miséria, é importante lembrar que eles podem ocorrer sempre que os valores de solidariedade e respeito desaparecem, independentemente das condições sócio-econômicas. Notícias assustadoras vêm sendo divulgadas com freqüência crescente, envolvendo tanto jovens oriundos de comunidades carentes como das classes economicamente mais abastadas, denotando a existência de algo em comum entre eles: um grande vazio interior povoado de “ameaças impensáveis” tal como as descreve Winnicott (1963), e o recurso à violência como forma de atuação frente ao desespero. Evocando lembranças e sentimentos que nos são estranhamente familiares, o filme sul-africano “Tsotsi”, dirigido por Gavin Hood (2005) e exibido no Brasil sob o título “Infância roubada”, é tomado aqui como ponto de partida para uma reflexão, com base em conceitos winnicottianos, sobre a experiência do desamparo e da ameaça de aniquilação do self e suas conseqüências.
Apresentando TsotsiInspirado em romance do autor sul-africano Athol Fugard, o filme tem como protagonista um personagem cujo apelido, “Tsotsi", significa "desordeiro" na linguagem de Soweto, gueto negro dos subúrbios da cidade de Joannesburgo. Tsotsi, recém-saído da adolescência, é líder de um pequeno grupo de jovens delinqüentes, Boston, Butcher e Aap. Sobrevivendo conforme as oportunidades, driblando os perigos, os quatro rapazes parecem reduzir suas vidas à satisfação imediata de impulsos, num mundo sem maiores perspectivas. Aos sentimentos de solidão, raiva e alienação que ameaçam acometê-lo, Tsotsi costuma contrapor atos de imensa crueldade, transformando sem necessidade um roubo banal no metrô em brutal assassinato, e espancando Boston até desfigurá-lo, quando este, enojado com a violência cometida, defende o valor da decência. Num dia de forte chuva, num bairro de classe média alta, Tsotsi atira numa mulher para roubar seu carro, com o qual sai em alta velocidade, logo batendo num barranco. Tsotsi então repara que há um pequeno bebê no banco traseiro. Tomado por um sentimento paradoxal, ele opta por levar o bebê para sua casa na favela, cuidando dele como pode, trocando sua fralda suja por um jornal velho, alimentando-o com uma lata de leite condensado. No dia seguinte, Tsotsi, ao esbarrar num mendigo sentado numa cadeira de rodas, o insulta grosseiramente. O velho reage perguntando sobre quem poderia ser o pai de alguém que age daquele modo. Cheio de ódio, Tsotsi segue o homem no final do dia, disposto a se vingar. Entre ameaças, Tsotsi conta que certa vez chutou um cachorro, quebrando sua espinha e fazendo-o rastejar e uivar de dor, ameaçando repetir o ato. O mendigo então, depois de afirmar que já não pode mesmo usar suas pernas, pergunta: “que tipo de homem faz isso com um cachorro?” Tsotsi, perplexo, passa a conversar com sua vítima, que conta sobre um acidente nas minas em que teve as pernas esmagadas. Tsotsi pergunta como é que se poderia querer continuar vivendo daquele modo, ao que o mendigo responde que “ainda gosta de sentir no corpo o calor e a luz do sol”. Tsotsi desiste de matar o mendigo, mas pega as moedas que ele ganhou e as joga fora raivosamente. Mais tarde, no bar onde todos estão revoltados com a surra sofrida por Boston, Tsotsi é questionado sobre seu verdadeiro nome, que ninguém conhece, e permanece calado. Chegando em casa, Tsotsi encontra o bebê em péssimas condições, e se convence de que não poderá cuidar sozinho dele. Ele invade a casa de uma mulher que tem um bebê pequeno, ameaçando-a se ela o denunciar ou não concordar em alimentar também o “seu” bebê. Enquanto a mulher amamenta e brinca com o bebê, o bandido furtivamente emociona-se, e (advertindo que o bebê é dele) acaba por concordar em deixar o menino para ser cuidado pela mulher, cujo marido foi assassinado em um assalto antes do filho nascer. A mulher, costureira e artesã faz móbiles coloridos que Tsotsi acha caros, considerando-os como “cacos de vidro”. A mulher responde que “são pedaços de luz” que estão, naquele momento, iluminando o rosto do rapaz. A infância de Tsotsi surge em flashbacks cada vez mais precisos, que aos poucos esclarecem sobre as origens tanto do seu ódio quanto do crescente afeto que passa a sentir pelo bebê. Ficamos sabendo que ainda pequeno perdeu a mãe, que o amava, e que foi maltratado por um pai alcoolizado e violento, o verdadeiro autor da agressão ao cachorro de estimação do menino, então chamado David. Após sofrer esta agressão do pai enquanto ele se aproximava da mãe agonizante, David, tomado pelo pavor, fugiu de casa e se juntou a um grupo de crianças abrigadas em manilhas num terreno baldio. Na memória de Tsotsi perdura a imagem de David, um menino frágil, assustado, encolhido na manilha para se proteger de uma forte chuva. Porém, na preocupação em arranjar dinheiro para cuidar do bebê, que foi por ele nomeado “David”, Tsotsi resolve assaltar a casa dos pais da criança, provocando uma nova tragédia. Desta vez, porém, após contemplar longamente os brinquedos no quarto vazio do pequeno “David” e escolher um bicho de pelúcia, é um de seus próprios companheiros que Tsotsi mata para salvar a vida do pai do bebê. Ao levar a pelúcia para o pequeno “David”, Tsotsi é convencido pela cuidadora do bebê a devolver a criança aos pais. Sua decisão é dolorosa, pois vai entregar algo que considera como sendo “dele”. No caminho, após ter passado pelas manilhas da sua infância, ele procura o mendigo, a quem entrega dinheiro, compensando o que havia roubado. Tsotsi chega à casa da família do bebê, mas sua relutância em se separar dele acaba resultando na sua prisão. Na última cena do filme, Tsotsi-David (que entregou o bebê ao pai) deixa cair sua arma e levanta as mãos, rendendo-se aos policiais.
Do grito de apelo à quase desesperança: Agressividade e tendência anti-social Freqüentemente associamos o ato delinqüente à pobreza, criminalidade e carência material. Ainda que estejamos muitas vezes bem intencionados, redunda, deste tipo de raciocínio, uma ligação da pobreza com a ilegalidade, quando não com a barbárie. Falar da agressividade da infância, de crianças cada vez menores assusta -, mas é preciso indagar: qual é o lugar da trama social nesta criança que agride? Qual o endereçamento desta violência? Aonde buscar uma compreensão do comportamento cada vez mais violento de tantas crianças e jovens? Estamos falando de uma patologia da cultura? De jovens psiquicamente comprometidos? Como entender o ato agressivo, violento, delinqüente e anti-social, em uma perspectiva sócio-psicanalítica? Como não psicologizar o social, retirando de nós a responsabilidade pela sociedade que estamos construindo e, paralelamente, não reduzir o psíquico a uma patologia social? Restringir nossa compreensão apenas a uma perspectiva significa empobrecê-la, uma vez que a compreensão do outro remete-nos sempre a diferentes registros. Como em qualquer produção, uma escolha se faz necessária. No presente trabalho, optamos por um aprofundamento da relação entre agressividade e delinqüência enquanto respostas a um meio que fracassou, tomando como referência a teoria winnicottiana. Se em trabalhos anteriores priorizamos a dimensão sócio política enquanto agenciadora da subjetividade, no presente artigo buscamos explorar uma outra vertente, deixando claro, desde já, que ambas não são excludentes, mas sim complementares. É sempre preciso lembrar que a mãe suficientemente boa, a mãe ambiente, está ancorada em uma cultura, e não podemos deixar de lado suas inscrições simbólicas no sujeito. Segundo Cyrulnik
Falando a respeito das relações entre privação e delinqüência, Winnicott (1987) nos diz que “de todas as tendências humanas, a agressividade em especial, é escondida, disfarçada, desviada, atribuída a agentes externos e quando se manifesta é sempre tarefa difícil identificar suas origens” (p.89). Mas qual a relação da agressividade com a violência? Uma das primeiras questões que se coloca ao falarmos de violência é a sua freqüente equiparação à agressividade e a atribuição de um caráter naturalista, inerente a todo ser humano, em sua “violência instintiva”. É de Jurandir Freire Costa (1984) um dos trabalhos mais pertinentes no tocante a esta distinção. Relendo o texto freudiano, ao mesmo tempo em que traz as concepções de Hanna Arendt sobre a relação da violência com o poder, Costa nos conduz ao caminho da violência como desejo, jamais como algo “irracional” ou da “natureza humana ”. Para o autor, violência é, então, o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos. A irracionalidade do comportamento violento deve-se ao fato de que a razão desconhece os móveis verdadeiros de suas intenções e finalidades. Isto fica extremamente claro no filme em pauta. Não há nada de “impulsivo” na violência de Tsotsi - há sim uma repetição de uma situação vivida, porém não elaborada, porque não simbolizada – Tsotsi repete a violência sofrida sem, contudo, se dar conta do quanto seus atos estão inscritos em sua infância. È neste sentido que percebemos os atos de Tsotsi, em um primeiro momento, como violentos e não como agressivos, do lado da delinqüência, como aponta Winnicott, e não da agressividade que cria. Winnicott (1987), que sempre enfatizou a importância da provisão ambiental satisfatória, apontava dois riscos possíveis, e não excludentes, para as crianças que sofriam privações precoces. Uma direção era representada pelo roubo e a outra pela destrutividade. Durante um certo tempo estas manifestações podem representar uma forma de solicitar uma mudança no ambiente. Contudo, elas só acontecem se e enquanto a criança tiver esperança. Esperança não só de ver suas necessidades atendidas, mas, também, de poder contar com o outro, de poder ser amada, de poder construir projetos de vida. Depois de um tempo, se não há respostas favoráveis, a esperança desaparece e a situação se cronifica tornando o seu manejo muito mais difícil. Para Winnicott a agressividade que gera um gesto espontâneo, levando o bebê a acreditar que criou seu mundo ou o próprio mundo porque está envolto em um círculo de confiança, previsibilidade e limite, é a mesma agressividade que, ao destruir o que encontra pela frente, gera uma comunicação e um apelo. Este círculo da confiança, previsibilidade e limite é construído na relação com a mãe e seu ambiente. É neste espaço da ilusão, possibilitado pelo olhar da mãe, que a criança emerge com a possibilidade de construção de um próprio Eu –, mãe e bebê, constroem um mundo só deles, no primeiro momento, para que haja a possibilidade de separação posterior calcada na confiança e na possibilidade de desilusão. (Vilhena & Maia, 2003) Mas, e quando este círculo materno-infantil se desenvolve de forma precária, ou mesmo ausente? Neste sentido o caso de Tsotsi é “clássico”: menino negro, que se criou na rua, num país onde o apartheid foi durante décadas a política oficial -, e que, extra-oficialmente, conserva todos os traços de uma sociedade racista, colonizadora e com profundas desigualdades sociais.
Um ambiente nada facilitador Segundo Winnicott, o destino de um sujeito que se constitui pode ser referido à interação de dois aspectos fundamentais: a herança biológica (o corpo) e a presença, desde o mais remoto início da vida, de um ambiente facilitador, onde as técnicas maternas de handling e holding permitem que o bebê (que "não existe") vá podendo gradativamente se transformar em "um ser que experimenta a si mesmo", o que implica uma progressiva integração dos aspectos corpo, psique e mente. A presença de uma figura segura e viva (mãe), inspirando ao bebê a “fé em si mesmo", é condição necessária e essencial para que se desenvolvam os mecanismos mentais. Neste processo a mãe gradativamente apresenta o mundo ao bebê, por meio das técnicas da alimentação e outros cuidados. O ambiente facilitador pode ser resumido nas palavras de Winnicott:
Na sofrida transição para a maturidade, que envolve aceitação e relação com o mundo do não- eu , haverá a necessidade de estabelecer-se uma ponte entre a realidade e a fantasia, de modo que o indivíduo possa lidar, segundo as palavras de Winnicott, com o "insulto" do princípio de realidade, com seus limites, sua lei. O que é vital no caminho em direção à independência, não é uma continuação da experiência de onipotência, mas uma continuidade da capacidade criativa. A experiência da criatividade é definida por Winnicott (1975, p. 95) como uma sensação de que "a vida é digna de ser vivida". Em contraste existe um relacionamento de submissão à realidade externa em que o mundo é reconhecido apenas como algo a exigir adaptação. Quando o ambiente, por alguma razão, fracassa em dar força ao ego incipiente, surgem as condições impositivas que possibilitam uma submissão à realidade externa, em vez do desenvolvimento da capacidade de uma abordagem criativa dos fatos. Esta é a origem de modos de ser marcados pela agressividade patológica, como as condutas anti-sociais e a delinqüência. Não há, nestes casos, a possibilidade de uso de um espaço simbólico (o espaço transicional, nos termos de Winnicott), pois este só pode ser construído com base num sentimento de confiança relacionada à fidedignidade da figura materna. Quanto à delinqüência, Winnicott (1987) é enfático quanto à importância do lar na constituição do sujeito:
A tendência anti-social é um sinal de SOS (esperança) ao meio que se encontra em débito para com a criança. Ela não é um diagnóstico, podendo ser encontrada tanto em indivíduos normais quanto em neuróticos ou psicóticos. Na tendência anti-social há uma necessidade que se exprime em uma externalidade, a culpa é do ambiente. Caracteriza-se por um elemento que compele o ambiente a tornar-se importante. Par a Winnicott (2000), a agressividade pode tomar vários caminhos, e estes caminhos estarão em estreita relação com a resposta ambiental: o desenvolvimento normal da capacidade de inquietude e duas alternativas patológicas, que seriam a não-capacidade para a inquietude e a questão da formação do falso-self, ligado à questão da tendência anti-social. Certamente podemos afirmar que o meio ambiente onde Tsotsi se desenvolveu nada tinha de facilitador conforme nos é mostrado. Fica, contudo uma indagação acerca de um possível olhar, um provável cuidado, por mais incipiente que tenha sido que resgata em Tsotsi a resiliência ali presente, permitindo a revivência de um cuidado materno muito primitivo, ao mesmo tempo em que o preenchimento imaginário da vacância paterna, simbolizado na figura do mendigo. Lembremo-nos que se o roubo está associado à figura da mãe, a destrutividade, para Winnicott remete ao pai. Por isto propomos a hipótese de que em Tsotsi ainda perdura um fio dessa esperança, reavivada em algumas experiências como o encontro com a mulher-mãe, que ao cuidar do bebê cuida, vicariamente, do bebê David que ele foi um dia. Ressaltamos, ainda a importância do encontro com o velho mendigo, representando uma figura paterna que o confronta com os limites da sua destrutividade. Na gênese dos comportamentos anti-sociais, ocorre uma falha no desempenho das funções da mãe, do pai ou da sociedade, ocasionando uma falha na construção do sentimento de confiança e uma ruptura na continuidade da vida. Como conseqüências de uma separação insuportável, surgem o ódio e o desejo de destruição. Podemos agora compreender melhor como, frente à violência da imposição da realidade, o frágil David se transformou no temível Tsotsi, passando a atuar com crueldade a violência sofrida, usando-a como um escudo protetor que o aliena da sua existência anterior. Quando o pai de David impede que ele se aproxime da mãe agonizante e chuta violentamente o cachorro de estimação do menino, ele dá na criança o golpe que “quebra sua espinha”, pois nesse momento ocorre uma brutal intrusão da realidade na experiência da criança, que perde não só a mãe mas sua possibilidade de transitar por um espaço simbólico, destroçado pela bárbara invasão do real. Ao encontrar o velho mendigo capaz de sobreviver ao seu ataque, um eixo parece começar a se reconstruir.
Olhar, ser visto, ser contido A memória de uma existência esquecida, para ser reativada, demanda o esforço de criar e sustentar condições facilitadoras, seja no setting analítico, seja na vida cotidiana. Destaca-se nos dois casos, além das funções de holding e da construção de limites, a importância da função especular como um importante fator de resgate. Este conceito implica um aspecto primário, a serviço da integração somato-psíquica e do narcisismo normal, quando o bebê, inicialmente, se identifica e aprende a se reconhecer na sua imagem projetada na mãe e refletida por ela; de forma lenta e oscilante a criança desenvolve a auto-percepção e auto-estima, autenticando o que é "eu" num processo de relação objetal em que ambos são ativos (Winnicott, 1967,1975). Winnicott marca as repercussões da função especular na vida do indivíduo:
Segundo Winnicott, na fase da dependência absoluta, nenhuma mãe perceberia o gesto espontâneo do bebê como um gesto intencional e, portanto, violento a ela. E, se a mãe não percebe esse ato como tal, o bebê não se perceberá como agente violentador. Nesse primeiro momento não há como associar agressividade primária com violência, por não haver intencionalidade no gesto do bebê, este é pura motilidade, pura manifestação do instinto.
Quando Tsotsi se aproxima da mulher que alimenta “seu” bebê, emociona-se ao observar que ela, olhando carinhosamente o bebê, fala e brinca com ele. A memória da relação com sua própria mãe começa a despertar. Ele parece nesse momento adquirir (embora ainda precariamente) condições de se identificar com a pessoa que poderia ter sido se a continuidade da sua existência não tivesse sido abruptamente cortada com a perda da mãe. Ele pode então lembrar-se da cena do pai quebrando a espinha do cachorro, enquanto sua própria “espinha” começa a se regenerar, eixo da possibilidade de resgate da função simbólica e de relações mais construtivas com o mundo. Vários percalços ainda surgirão no seu caminho na direção da redenção: após colocar-se numa situação de violência sem saída ao invadir a casa do bebê roubado, ele ainda precisará matar um dos seus companheiros para salvar o pai do menino. Mais tarde, porém, conseguirá devolver ao velho mendigo o dinheiro roubado, e finalmente, devolve o bebê aos pais. A agressividade que cria o mundo, e também cria a destrutividade, não pode ser categorizada como saúde e doença e, sim, como um deslizar entre saúde e doença. A agressividade que destrói, destrói dependendo dos olhos de quem a vê. Assim como a agressividade que cria, cria também dependendo do olhar de quem vê criação naquilo que seria somente um movimento a esmo de um bebê. De um descobrir e não descobrir o mundo surge o bebê-sujeito, rumo à individuação, desde que o objeto sobreviva a seus ataques. Winnicott (2000) nos alerta que os comportamentos anti-sociais começam muito cedo a aparecer. São sinais comuns, que passam por normais, e que são os primeiros sinais de (de)privação, como a sofreguidão, com seu correlato oposto, a inibição do apetite. Para ele há sempre duas vertentes da tendência anti-social: aquela representada tipicamente pelo roubo, e a outra representada pela destrutividade, mesmo que a ênfase recaia por vezes mais sobre uma do que sobre a outra. No roubo, dentro do entendimento winnicottiano, há a procura de algo, em algum lugar, por parte da criança – o que importa não é o objeto que é roubado e sim o que esta criança procura quando rouba, e ela procura sua mãe, a qual ela se sente no direito de usar. Se há o fracasso em achar o objeto (e normalmente há esse fracasso, porque não é o objeto em si que é importante, ainda), essa criança irá procurá-lo em outro lugar, enquanto tem esperança. Para Winnicott (1983) o roubar está relacionado à interação com a mãe, ao desempenho de sua função materna primária, ao fato de ela exercer um holding que teria falhado. No roubar, a criança estaria “apresentando exigência no tempo, preocupação, dinheiro, etc das pessoas (manifestadas pelo furto)” (p.188). Esse tipo de exigência se relaciona ao suporte materno ao bebê, já que o que a criança exige, em forma de roubo, é a disponibilidade da mãe (exigência no tempo) e a sintonia desta com o bebê em forma de um “adoecimento sadio” (preocupação). Já a destrutividade estaria relacionada à interação com o pai. A função paterna, em Winnicott, é ser o ambiente indestrutível, aquele que sustenta a mãe, que sustenta o bebê. Por isso Winnicott nos diz que este aspecto da tendência anti-social está relacionado não com todas as crianças em geral, como o aspecto do roubo em si, mas ao menino e ao menino que existe na menina. O que a criança busca são limites. Segundo Rassial, delinqüente, é:
O conteúdo do filme nos remete exatamente a estas questões, dramatizadas na perda da mãe, na agressão sofrida por parte do pai, fuga para o terreno baldio, com todas as carências que daí decorrem: falta de um teto, falta de proteção de um adulto, etc. Tsotsi agredido pelo pai e abandonado à própria sorte, “se esquece” do seu lugar, identifica-se com seu agressor e transforma-se num ladrão e assassino, até que o bebê roubado reacende a lembrança da mãe e a esperança de, revivendo a situação traumática de (de) privação, poder supera-la e dar oportunidade ao ressurgimento do self criativo. A última cena do filme, com a rendição aos policiais, sugere o começo de um caminho de redenção.
Conclusão De acordo com o dicionário “Aurélio”, o verbo render-se possui diferentes sentidos, que deslizam da idéia de capitular, entregar-se, para a idéia de substituir, ocupar o lugar de -, como em “render a guarda”. Por outro lado, a palavra redenção refere-se a uma ajuda ou recurso capaz de livrar alguém de uma situação aflitiva ou perigosa (Ferreira, 1986). A cena da rendição de Tsotsi poderia então ser compreendida como a oportunidade extrema (mencionada por Winnicott quando este se refere ao último limite encontrado pelo delinqüente nos muros da prisão) de uma “redenção” na substituição de Tsotsi por David. Assim, podemos ver que o comportamento anti-social, que questiona, pela atuação, um direito a um lugar, o colo e atenção da mãe, e um limite e significação para os seus atos na figura do pai, pode, caso não seja atendido, aumentar a sua área de ação e passar a ser destrutivo. Fraga, ao discutir a relação entre juventude e violência, aponta para alguns aspectos que consideramos importantes para a articulação com a questão da subjetividade. O autor refere-se à existência em nossa sociedade de um “modo específico de afirmação do indivíduo sob a vigência de determinadas formas de sociabilidade” (Fraga, 2002, p. 46), isto é, a “continuidade da sobrevivência pela violência” (Ibid, p.4 9). O autor, portanto, aponta para um padrão de sociabilidade que permeia toda a sociedade contemporânea, especialmente a juventude, e que tal forma de sociabilidade, marcada pela violência, modela e afirma determinadas subjetividades. Ampliando tal discussão, Diógenes (1999) ressalta que tal padrão de sociabilidade está ancorado em três eixos, a saber: individualismo e intolerância à diversidade; disposição subjetiva favorável à violência e busca de reconhecimento pela violência. Em outras palavras, a autora toma “a violência como forma ”muda” (Arendt) de afirmação da invisibilidade e da exclusão compartilhada por jovens de várias esferas culturais” (ibid, p. 169). Tal compreensão nos ajuda a desmistificar a relação entre violência e juventude concentrada nas camadas pobres, com base no estereótipo que liga violência à miséria, pois se trata, na verdade, da nossa imersão em uma cultura cujos produtos são formas de relações sociais e subjetivas específicas. De acordo com Novo, esse processo social, marcado, segundo a autora, pela “solidão da falta de confiança, da impossibilidade do encontro, do reconhecimento no outro, da ação solidária, da negociação verbal dos conflitos, da busca coletiva” (Novo, 2001, p. 69), tem afetado não só jovens das camadas pobres, mas também aqueles pertencentes às camadas privilegiadas economicamente, enclausurados nos grandes condomínios fechados, que se encontram também “esvaziados em suas possibilidades de ação e de reconhecimento social de tal forma que simetricamente buscam afirmar-se de forma destrutiva e excludente no espaço urbano, seja atraindo atenção pelo medo seja pela perplexidade que causam no meio social” (ibid.,p.68). Ou seja, tal padrão de sociabilidade é engendrado por todos. Em trabalhos prévios (Vilhena, 2002b; Vilhena & Maia, 2003a, 2003b; Vilhena, Zamora & Dimenstein, 2003; Bittencourt, 2004, 2006), foi postulado que em grupos que têm a violência como sua raiz fundadora, os mecanismos de identificação têm três matrizes de apoio: a procura pela visibilidade e endosso público; a coesão de grupo que a maior parte do tempo exacerba a hostilidade e, finalmente, a falta de referentes simbólicos e culturais que lhes proporcionariam um sentimento de pertença. Há, por assim dizer, um certo desenraizamento cultural que atinge as populações moradoras de favelas e periferias no que diz respeito aos seus costumes, tradições, crenças e outros aspectos de seu patrimônio cultural, gestado ao longo de muitas gerações e herdado de seus ancestrais, sejam negros, sejam nordestinos. Sociedades complexas e extremamente desiguais freqüentemente promovem não somente os socialmente excluídos, mas também os "não-afiliados", os desenraizados. Em tais situações, estes grupos podem ser descritos geográfica e psicologicamente como estando nos subúrbios da cidadania. Sem esta dimensão de afiliação o processo de afirmação identitária pode ficar comprometido ou ancorado em valores que não os da coletividade, podendo, inclusive ser fonte de sofrimento e loucura. Em tais situações nós poderíamos pensar na violência como uma marca que permite ao sujeito emergir de um lugar não escolhido por ele, à procura de afiliação e reconhecimento - um lugar em uma pólis que o rejeitou (Vilhena, 2002b). Por isto enfatizamos que a questão da delinqüência não pode ser circunscrita a uma classe, nem reduzida à uma patologia social. O ato delinqüente é, muitas vezes, uma busca de filiação, de reconhecimento – ato fadado ao fracasso - uma vez que a busca em questão é por um objeto simbólico e não por um objeto real e concreto. A história de Tsotsi nos remeteu a questões muito próximas da experiência que vivenciamos na prática clínica cotidiana, tanto com crianças e jovens vivendo em lugares de risco, quanto com aqueles que, embora não tenham sofrido privações materiais, mostram os efeitos das (de)privações de ordem afetiva igualmente nocivas. Na ficção de Tsotsi, assistimos à re-encenação da violência sofrida na infância por um jovem que perdeu precocemente o apoio ambiental, tendo sido jogado brutalmente no mundo real sem ter tido a possibilidade de desenvolver um mundo interno capaz de prover condições para uma vida social e afetiva construtiva. Podemos chamar de Tsotsi todas as crianças solitárias, soltas demais ou confinadas, testemunhas da violência banalizada como parte do cotidiano, desprovidas da espinha sustentadora do simbólico, tomadas pelo desespero, pela impotência, pelo ódio, decorrentes de condições da vida em lugares onde não há espaços favoráveis à experiência de simplesmente ser criança.
Referências Bittencourt, M. I. G. F. Sobre o movimento criativo: espaço e brincadeira no atendimento a crianças em instituição. In: Vilhena,J (org) A Clínica na Universidade.S. Paulo, Loyola, 2004. pp 141-151 Bittencourt, M. I. G. F. Invasões bárbaras: espaço real, espaço simbólico e os medos infantis . In: Anais do II Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental www.fundamentalpsychopathology.org/anais2006/4.5.3.3.htm Costa, J.F. (1986) Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal. Diógenes, G. (1999). Grupos identitários e fragmentação social: A violência como “marca”. In: SANTOS, José Vicente T. (org): Violências em tempo de globalização. São Paulo: Hucitec, p. 164-182. Ferreira, A. B. H (1986) Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira Fraga, P. D. (2002). Violência: forma de dilaceramento do ser social.In: Serviço Social & sociedade. Ano XXIII. n. 70, p.44-58. Freud, S. (1974). Sobre o narcisismo: uma introdução. (Edição Standard Brasileira das obras de Sigmund Freud, vol. 16). Rio de Janeiro, Imago. (Originalmente publicado em 1914). Freud, S. (2000). O futuro de uma ilusão. (Edição Standard Brasileira. Edição Eletrônica, vol. 21). Rio de Janeiro.Imago. (Originalmente publicado em 1927). Freud, S. (2000). O Mal-Estar na Civilização. (Edição Standard Brasileira. Edição Eletrônica, vol. 21). Rio de Janeiro.Imago. (Originalmente publicado em 1929). Novo, H. A. (2001). Construindo implicações: (des)caminhos de uma sociedade democrática. In Novo, H.; Souza, Lidio.; Andrade, Angela. N.(Orgs): Ética, Cidadania e Participação: debates no campo da psicologia. Vitória: Edufes: CCHN Publicações, p.61-70. Rassial, J.J (1999) Da delinqüência In J.J. RassialO adolescente e o psicanalista Rio de Janeiro: Companhia das Letras. Vilhena, J (2002). A Arquitetura da violência.Reflexões acerca da violência e do poder na cultura. In: Cadernos de Psicanálise. Rio de Janeiro, SPCRJ. Vol.18. N.21. pp 181-200 Vilhena,J. & MAIA, M. V. M. (2003a) Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. reflexões sobre agressividade, comportamento anti-social e violência na cultura contemporânea. In: Revista Eletrônica de Psicologia da Faculdade de Ciências da Saúde - FASU, FASU, Santa Catarina, v. I, n. 1. http// www.revista.inf.br/psicologia. Vilhena, J. & MAIA, M. V. M. (2003b) Agressividade e violência. Reflexões acerca do comportamento anti-social e sua inscrição na cultura contemporânea. Revista Mal-Estar e Subjetividade 2 (2), UNIFOR, Fortaleza, 27-58. Vilhena, J. Zamora,M. H. & Dimenstein, M. (2003) Infancias robadas. La vida de los jóvenes em las favelas de Rio de Janeiro. In: Psicoanálisis y el Hospital 12 (23), Buenos Aires, Psichos, 35-40. Sousa, E.L.A. AEloquência da agressividade e o silêncio da violência. pp 2 (cópia mimeo) Winnicott, D.W (2000). A tendência anti-social In D.W. Winnicott, Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1956). Winnicott, D.W (1994). Observações adicionais sobre a teoria do relacionamento parento-filial. In Clare Winnicott, (Org) Explorações psicanalíticas: D.W. Winnicott Porto Alegre: Artes Médicas Sul. (Originalmente publicado em 1961). Winnicott, D.W (1996). A delinqüência como sinal de esperança In D.W. Winnicott, Tudo começa em casa São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1967). Winnicott, D.W (1994). Raízes da agressão In Clare Winnicott, (Org) Explorações psicanalíticas: D.W. Winnicott Porto Alegre: Artes Médicas Sul. (Originalmente publicado em 1968). Winnicott, D.W (1971). A criança e seu mundo. Rio de Janeiro, Zahar. Winnicott, D.W (1975). Objetos transicionais e fenômenos transicionais In D. W. Winnicott, O brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago. Winnicott, D.W (1987). Crianças sob estresse: experiência em tempo de guerra. In D. W. Winnicott, Privação e delinqüência São Paulo: Martins Fontes. Winnicott, D.W (1987). Natureza e origens da tendência anti-social In D. W Winnicott, Privação e delinqüência São Paulo: Martins Fontes. Winnicott, D.W (1987). Psicoterapia dos distúrbios de caráter In: D. W. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed. |
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