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SESSÃO COORDENADA
Realidade Social e Violência
Ilka Franco Ferrari
A violência é considerada, com freqüência, um ato isolado do sujeito, ato irracional, impulsivo ou até mesmo voluntário. Considerá-la dessa forma tem como conseqüência a entrada no circuito do que se conhece como “ação-reação” 1, o que gera medidas de controle e segregação. Para a psicanálise, a segregação está intimamente associada ao processo de identificação. Há, nos processos identificatórios, uma fraternidade que se estabelece por meio de certos traços, constituindo o conjunto dos “bons”, dos “maus”, dos “ricos”, dos “pobres”, etc, que assegura aos seus elementos a vida em uma comunidade com certa paz interna, mas, em guerra permanente com aqueles que são “estrangeiros”. Há, inclusive, entre os membros dessa comunidade criada pelos processos identificatórios, a solidariedade quanto às formas de transgressão das regras. Exemplo atual pode ser visto nos recentes acontecimentos no Senado brasileiro, que acabou evitando a saída de seu presidente. Essa situação de deixar o “inimigo” do lado de fora favorece a evitação do encontro com a angústia, com aquilo que o sujeito não quer saber, ou seja, que a pulsão de morte ronda todas nossas ações, sejam elas altruístas e benevolentes. A tentativa dessa unificação dos sujeitos trará, no entanto, como retorno, o pior. No caso de nossa sociedade, com tanta exclusão, ai está uma das formas do pior que retorna: o crescente aumento da violência, com conseqüente crescimento da criação de instituições que zelam por calar os sujeitos. Isso porque, é muito comum, a essas instituições, a repetição da tentativa de uma unificação de condutas, com a justificativa de coerência interna, favorecida pela ilusão, pelo mito do “Um”. Nessa situação, não raro surgem sentimentos persecutórios, paranóicos, entre seus membros e, inquestionavelmente, nela há o apagamento do sujeito.
Sobre a realidade social Ao considerarmos a violência como ato humano, não a separamos do contexto da realidade social em que a ordem humana se insere. Miller e outros têm utilizado bastante a expressão “realidade social”, para aclarar que não a desconsideramos, pois as acusações de que a psicanálise não considera o social, que sempre existiram, tomam acento especial na atualidade. Utiliza o termo, por exemplo, no livro “O outro que não existe e seus comitês de ética” 2 (2005, p. 166), em referência clara ao que se discute na atualidade da filosofia Norte-americana, por meio do livro “The Construction of Social Reality”, do filósofo angloamericano, John Searle. Searle é representante da filosofia analítica, umas das principais correntes de reflexão no mundo atual e sua idéia do que é realidade social está estruturada na simbolização, algo que Freud já conhecia e que agora apresentam como novidade. Para os interessados no tema da filosofia analítica e aquilo que chamaram de “atos da fala”, fica a referência do livro “O Outro que não existe e seus comitês de ética”. Agora me interessa enfatizar que em Freud e Lacan o social está presente na forma de realidade social. O que isto implica? Implica admitir uma objetividade social, admitir que o social não é uma ilusão subjetiva, pois não se trata de uma trama de posições e decisões individuais. A realidade social é construída, é transindividual e se impõe ao sujeito. Desse modo, não sem razão, Lacan, leitor cuidadoso de Freud, foi contundente ao afirmar que deveriam desistir de praticar a psicanálise aqueles que não considerem a subjetividade de sua época (Lacan, 1953/1998, p. 322). Miller ensina que, se Freud partiu do “mental” (falando em sua linguagem) tendo referência na biologia, ele logo chegou ao grupo, ao coletivo. A partir do funcionamento do aparelho psíquico, como se pode ver no “Projeto para uma psicologia científica”, criou muitas “categorias” que só encontram sustentação na realidade social: identificação -como inscrição psíquica de uma realidade social, constituída na sociedade-, relação de objeto e transferência são bons exemplos. Há, em Freud, como diz Miller, uma pregnância do social sobre o mental, pois é em meio à oposição entre natureza e sociedade, entre o natural e o social, que ocorre a experiência freudiana. Lacan, por sua vez (o estruturalista Lèvi-Strauss é, na vida de Lacan, uma segunda edição de Durkheim), desde sua Tese de doutorado já distinguia as relações sociais como construtoras de uma ordem original de realidade, na prevalência das instâncias culturais sobre as naturais. Suas formulações sobre o Outro socializou o mental, diz Miller. Isso porque, no lugar do Outro há muitas instâncias: o lugar da palavra, da linguagem, do discurso universal, da realidade social, cultural e institucional. Assim, surge sua primeira definição do inconsciente como transindividual, ou seja, como discurso do Outro, fórmula que se transformou na noção de que a linguagem é a condição do inconsciente, levando-o, mais tarde, a dizer que a psicanálise, “como prática, é da ordem do social, é um laço social” (Miller, 2005, p. 166). A localização do sintoma em uma relação com o Outro da transferência (toda formalização sobre o SsS), sua forma de pensar a família como uma instância social, a ênfase no complexo como sendo algo da instância da cultura, são exemplos clássicos do que se afirma. Suas formalizações sobre os discursos, sobre o sinthome, ai já mais ao final de sua vida, estavam na mesma trilha onde o social é considerado parceiro. O que dizer sobre nossa realidade social? Sem esgotar a questão, José Ramón Ubieto 3, em debate sobre a violência, ocorrido em Barcelona, aponta, fazendo eco ao que muito se discute no Campo Freudiano: no lugar antes ocupado pela autoridade, está o assegurador da segurança que, como tal, é paranoizante; proliferam-se os vitimados e, portanto, os reinvidicadores de direitos; o gozo além de prevalente necessita ser público, em cena onde há o “dar-se a ver”, forma de uma satisfação a mais; as crises de identidade sexuais são, cada vez mais, construídas por traços de gozo e não por ideais; presença de solidão exacerbada, mostrando modos de satisfação sem laço social, onde o que se compartilha, muitas vezes, não é um vínculo, mas, um espaço onde convém não ficar fora, por isso aplaudindo ou se calando, para evitar ser vítima. Nesse mesmo debate, Francesc Vilà propõe que, contra o vento que sopra, convém sentir nosso corpo. Ante as cenas da vida contemporânea, que nos mostram, cada vez mais, os sujeitos no lugar de objetos, aqueles que se vêem invisíveis tendem a fazer fogueiras, iluminado seus corpos como forma de voltarem a integrar a sociedade, a exemplo dos ônibus queimados em nossas cidades. Observa-se, portanto, que nossa sociedade está orientada, pode-se até dizer que de forma perversa, para um gozo desenfreado, onde imperam as exigências sem Lei. Lacan já dizia, no Seminário “RSI”, que o gozo é aquilo que não se submete à Lei. Falou, também, no Seminário 4, “A relação de objeto”, que a frustração é o domínio das exigências desenfreadas e sem Lei.
Violência integrada no discurso Se em todos os tempos houve violência, por outro lado, o que caracteriza nossa época é a existência de um discurso que lhe é próprio. Ela está integrada na ordem discursiva e esse fenômeno, que parece ser tão anti-social, tornou-se forma de estabelecer laços sociais. Considerar o ponto de sua origem e o discurso que a orienta é fundamental. Estabelecer que ela acontece em uma determinada realidade social e que esta não existe fora de contextos de laços sociais é reconhecê-la comportando uma lógica a decifrar. Nessa concepção, podemos entendê-la como interrupção da ordem discursiva, ou, dizendo de outro modo, como modo de minar a ficção (a narrativa simbólica) que garante a coerência da comunidade. Em sua vertente real, a violência é um “culturocídio” 4, uma forma de dizer que a vida em comunidade está em perigo. Isso porque, o conceito de discurso e, lógico, de laços sociais, comportam ideais, ficções que têm efeitos, tanto positivos quanto negativos, nas ações ou modos de pensar. Em sua vertente imaginária é onde a encontramos, bem localizada, tanto em Freud quanto em Lacan, com a denominação de agressividade. É verdade que a agressividade aparece com estatuto de conceito na psicanálise, mas, a violência não. Na verdade, hoje em dia a violência é um significante onde cabe tudo e mais alguma coisa, o que torna esta concepção pouco precisa. No nível imaginário Freud e Lacan colocam a agressividade entre o a à a’, posição especular do eu com sua imagem ou com a imagem do outro. É onde o outro aparece como rival, ou seja, lugar de luta entre o eu e o outro que ameaça o lugar do sujeito no Outro. Ela seria, portanto, constitutiva do sujeito, o que fez Freud e Lacan marcarem uma hostilidade própria à condição humana, levando-os a buscarem o que poderia funcionar como apaziguador dessa agressividade ou paranóia constitutiva. É o simbólico, a via da linguagem, que aparece no papel de mediador, apaziguador. Ele é o que possibilita vivermos juntos, estando separados. Vale ressaltar, no entanto, que Lacan, de forma clara, coloca outro lado do simbólico: seu lado de promotor de agressividade. Há o lado do significante em seu efeito de violência para o vivente, efeito mortificante, já que a estrutura da linguagem exige que o sujeito sacrifique algo de si, mas, principalmente, em seu efeito de vida para o falasser 5. Foi, por exemplo, a partir da noção do simbólico como pacificador de um imaginário paranóico, que Lacan pode abordar o peso das palavras violentas, a exemplo do insulto ou injúria, como ponto limite da relação simbólica com o outro. Pensar a violência no registro simbólico é indagar-se sobre uma violência que está na base do laço social, ensinada por Freud em “Totem e Tabu”. É constatar que a própria noção de contrato social, ato simbólico, supõe uma violência ao real, pois seu princípio é o de uma ordem universalizante. É considerar sua incidência sobre o vivente que, ao nascer, encontra o Outro do discurso. Nesse encontro, ocorre a violência de alienar-se na lei dos significantes que são, sempre, do outro, e aquela própria à separação do Outro, que o afasta da alienação significante. A partir dessas construções sobre o imaginário e a tensão agressiva que lhe é característica, mas, também as distorções que pode provocar o lugar que ele ocupa no Outro, que resulta fácil entender o acting - aut e a passagem ao ato, duas formas distintas de constatar que ali há um sujeito que pergunta: o que valho para você? No acting-aut ocorre uma atuação inconsciente, sob o olhar do Outro. Nele há um endereçamento ao Outro, uma necessidade de que a mensagem chegue a algum lugar e seja significada. Já a passagem ao ato diz de um não ao Outro, modo de separação radical desse Outro que aprisiona o sujeito. O sujeito está à mercê de um Outro completo e, assim, qualquer palavra ou olhar desse Outro absoluto leva o sujeito a um imperativo de resposta, com um ato radical, sem cálculo, mas, forma de separação.
O que nos resta, nesse tempo que anula a função da vergonha e da honra? Como cidadãos resta-nos, entre outras soluções, o esforço de fugir à cumplicidade na banalização da violência que nos assola no dia a dia, recusando a postura de Otto Adolf Eichmann, tão bem comentada por Hannah Arendt em “A banalização da violência”. Resta-nos o esforço da luta contra o “efeito sapo”, comentado por Maurício Tarrab, em conferência em Belo Horizonte. Efeito retirado de um cruel experimento onde se comprovou que o sapo salta imediatamente fora, quando colocado em uma vasilha com água quente. Mas, se a água quente for adicionada aos pouco, o sapo vai se acostumando até morrer. Resta-nos pensar que ainda se pode morrer de vergonha e sustentar o valor da honra. Como praticantes da psicanálise, Lacan nos advertiu que a psicanálise não pode se prestar a ser uma espécie de remédio social, mas, diante do desaparecimento da vergonha na sociedade, não podemos ser indiferentes. Miller 6, ao repassar as considerações lacanianas sobre a vergonha, enfatiza que o desaparecimento da vergonha deve mobilizar os analistas, porque seu desaparecimento muda o sentido da vida, já que muda o sentido da morte. A morte pela honra deixa de acontecer e se instaura o primum vivere, a vida pura e simples, onde se trata de primeiro viver para depois se ver por quê. Daí a vida ignóbil, sem honra, ocupa os espaços, dado que o sujeito já não se representa por um significante que valha. Quando Lacan utiliza a expressão heidggeriana “ser-para-morte”, ele o faz mostrando o valor do simbólico. É importante que um significante, tal como cartão de visita, represente o sujeito para outro significante (S1). Ai haverá uma morte condicionada a um valor que a torna superior. Ela já não é mais pura e simplesmente. Supõe outra morte, uma segunda morte que implica relação com o que o sujeito é, representado por um significante, no universo simbólico. Quando se chega a um ponto onde quase todos rasgam seu cartão de visita, a vida na civilização tende a se dissolver. Morrer de vergonha se torna praticamente impossível no sistema que produz a impudência e anula a função da vergonha, esse afeto primário da relação com o Outro, o mais íntimo do sujeito, diferentemente da culpabilidade, um efeito, sobre o sujeito, de um Outro que julga, já que guardião de valores que o sujeito transgride. Perder a vergonha não é, portanto, sem conseqüências. E, diferentemente de Freud, em Moisés e o monoteísmo, que dizia que só a morte é sem conseqüências, Lacan nos ensinou que viver e morrer supõe conseqüências e não isenção de responsabilidades. A experiência analítica supõe um mais além do primum vivere e, como se observa, tem o que dizer. Conhecemos que modelar o eu ou querer restituir suas funções de controle e domínio, a partir de posição de mestria, é um fracasso. Apresentar-se como modelo de identificação não é a melhor saída profissional, principalmente porque posicionar-se como aquele que sabe o que interessa ao sujeito significa retirar-lhe a responsabilidade de suas decisões. Preferir o caminho do “não saber”, que implica não ser agente de discurso instituído e, conseqüentemente, de juízo prévio diante do outro, é o que possibilita localizar a verdade do sujeito, na psicanálise pura ou aplicada. Hanna Arendt, ao seu estilo, também ensinou que as crises são oportunidades para que se aumente a quantidade de saber e não de mal-estar. Elas são oportunidade para que sejam destruídas as aparências e esquecidos os pré-juizos, ou seja, precipitações que anulam o tempo de compreender. As crises são ocasiões para explorar o que estava velado da essência do problema e não dispensam juízos diretos, ou seja, que cada um se situe frente aos fatos, pois elas só serão um desastre quando as respostas exigidas surjam dos prejuízos que impedem a reflexão sobre a nova realidade. Na atualidade, por exemplo, se cada vez mais os praticantes da psicanálise se deparam com sujeitos sofredores que não dispõem de um sintoma que se presta ao trabalho de decifração, nos moldes freudianos, eles fizeram disto uma invenção. Encurralados pelo sintoma como real, disjunto de uma suposição que faça existir o Sujeito suposto Saber (SsS), não desistiram da tarefa da experiência analítica, embrenhando-se em campos antes tão adversos como favelas, periferias da cidade e instituições variadas. Deparam-se com os sujeitos desta realidade social violenta, sem a dimensão sacrifical ou humanitária, sem saudosismos, mas, na convicção de que o desejo do analista que os move pode ter efeitos que façam com que o sujeito se responsabilize por seu gozo e possa encontrar outras formas, novas soluções, novos modos de fazer com o sintoma. Não se trata de mágica ou de onipotência, mas, da humildade própria de uma ignorância sábia, que pode servir para que alguém tenha idéia do enredo que tece em seus modos de funcionamento, gozando ativamente de sua desgraça. E, assim, diante da pergunta que é própria do sujeito, “o que quer de mim?”, esse alguém possa encontrar outra resposta diferente daquela que o obriga a um gozo mortífero.
1 Fenômenos de violência y clínica psicoanalítica, escrito por Pedro Grãs e outros e publicado em Cuadernos de Psicoanálisis, nº 28. 2 Seminário realizado em colaboração com Eric Laurent. 3 Aconteceu em janeiro de 2006. 4 Expressão de Slavoj Zizek, no texto La violencia entre ficción y fantasma. Hacia uma teoría lacaniana de la ideologia, em Freudiana nº 23. 5 Quando Lacan desenvolveu sua formulação sobre o parceiro-sintoma, substituiu o termo sujeito (marcado pela falta-a-ser) por falasser, para introduzir o sujeito mais o corpo vivo, substância gozante, o que supõe que o corpo é sexuado. 6 No texto Nota sobre a vergonha, publicado na revista Opção Lacaniana nº 38.
Referências Lacan, J. (1998). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In J. Lacan. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1953).
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