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SESSÃO COORDENADA
A adolescente vítima de exploração sexual comercial sob o prisma da violência e da culpa
Francisca Helena Rocha - UNIFOR
A problemática da violência e da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes nas grandes cidades brasileiras vem suscitando debates e concentrando esforços de variados segmentos ligados à esfera jurídica, institucional, bem como a sociedade de forma geral. Com efeito, essa pesquisa pretende inscrever no rol das existentes em torno do tema, as instâncias da violência, da culpa, do mal-estar e da subjetividade, como forma de perceber alguns aspectos ligados à construção da subjetividade das “vítimas de exploração sexual”, que encontram no espaço físico da Avenida Beira-mar, um dos principais pontos turísticos da capital cearense, uma alternativa de vivência cotidiana. Para tanto, conhecer a dinâmica que move e dá sentido à vida das adolescentes vítimas de exploração sexual, nos territórios da casa e da rua, os sentimentos vivenciados diante de seu envolvimento com o aparato de prostituição naquela avenida, bem como os sonhos que projetam em relação ao futuro, foram os objetivos priorizados na pesquisa, por entendê-los imprescindíveis à análise e compreensão do fenômeno em foco. O contexto escolhido para a pesquisa foi a Av. Beira Mar na cidade de Fortaleza - Estado do Ceará - Brasil. A escolha desse território deve-se ao fato de ser o local onde a exploração sexual juvenil acontece de forma mais explícita e evidenciada. Ocupam esse espaço geográfico representantes dos mais diversos segmentos sociais: turistas, feirantes, praticantes de cooper, barraqueiros, turmas de jovens de classe média, jovens de periferia. Enfim, representa a Av. Beira Mar o local por excelência de exposição das desigualdades de toda ordem existentes na Cidade. É o lugar de convivência mútua, tanto de "pobres" como de "ricos". A suntuosidade dos prédios residenciais e a beleza arquitetônica dos hotéis de luxo denotam o afluxo de dinheiro que move a região, fato facilmente identificado pelos que ali circulam, o que vem favorecer todo o aparato da exploração sexual infanto-juvenil ali existente. A partir de então, foi iniciada uma série de visitas ao espaço delimitado para a pesquisa, onde se passava boa parte do tempo observando atentamente de que forma as relações sociais ali se estabeleciam. A única estratégia viabilizada para conseguir algum tipo de aproximação com os sujeitos da pesquisa foi contar com ajuda de alguns educadores sociais de rua, para que estes fossem uma espécie de mediadores entre o pesquisador e as adolescentes a entrevistar. Esse processo foi imprescindível para que se estabelecesse a confiança do entrevistado em relação ao entrevistador. Uma vez delimitado para a investigação pretendida o método de pesquisa qualitativa e de acordo com todas as informações obtidas no percurso empreendido, foi montado o roteiro de entrevistas semi-estruturado, uma abordagem com uma flexibilidade metodológica, propiciando ao mesmo tempo certa liberdade ao pesquisador no sentido de poder usar diferentes enfoques para atingir o objetivo proposto, de acordo com o tempo, recursos e situação disponível. Vale ressaltar que, através dos discursos das adolescentes pesquisadas, a análise tentou ir além da instância passiva que o discurso, como linguagem, podia representar. Foram ainda reforçados o aspecto relacional e dialógico das falas das adolescentes, bem como o contexto e as condições de sua produção. A impressão sentida era de que o discurso, por si só, não se fazia perceptível, fato que favoreceu a postura de quem, acima de tudo, ouvia através do olhar. Pesquisar aspectos inerentes à subjetividade exige do pesquisador, acima de tudo, sensibilidade para transcender aquilo que se apresenta no campo da visibilidade. Muitas vezes, o aparentemente irrelevante revela significativa importância diante de um cotidiano marcado pela fluidez e mutação. Essa pesquisa pôde conferir, diante da análise da trajetória empreendida pelas adolescentes, que a sua estrutura psíquica não deve ser definida apenas em função dos reflexos oriundos desses espaços. Isso nos permite reforçar a idéia de que não é procedente atribuir como justificativa ao fenômeno da inserção da adolescente na dinâmica da exploração sexual infanto-juvenil os aspectos ligados ao econômico, ao cultural de gênero, ou ao familiar, de forma individual ou exclusiva. Deve-se - isso sim - pensar a questão, a partir da maneira como se relacionam os diversos fatores apontados pela literatura sobre o tema, através dos quais a adolescente, em constante interação com estes atualiza, a cada momento, específico da vida suas potencialidades, sendo através desse processo que constitui e organiza sua subjetividade. Entende-se, ainda, que, debitar a opção da criança e do adolescente em permutar o mundo da casa pelo mundo da rua (e o seu conseqüente ingresso na delinqüência ou na exploração infanto-juvenil) exclusivamente a causas generalizantes, tais como a situação de pobreza e miséria, implica projetar o mesmo destino para significativa parcela da nossa população. Concordar com tal lógica seria basicamente negar o reconhecimento da singularidade do ser humano. Ao longo da pesquisa, procurou-se interrelacionar todos os aspectos que envolvem a trajetória cotidiana da adolescente em tal situação, seja no contexto de casa ou da rua, para tentar perceber de que modo se constrói a sua subjetividade nesses espaços. Buscou-se, para tanto, identificar o que move e dá sentido à vida dessas adolescentes como trilha a ser seguida para poder penetrar no universo subjetivo de cada sujeito pesquisado, com vistas a perceber por trás do manto, o estranho e o singular, diante do semelhante e do generalizado, tentando, ao mesmo tempo, desviar-se dos perigos de incorrer nas armadilhas que reforçam os estigmas e os preconceitos, demasiadamente explorados. Ao analisar os variados aspectos perceptíveis na pesquisa, procurou-se contemplar, prioritariamente, as falas e os silêncios, as peculiaridades e as diferentes construções subjetivas que acontecem em volta de um cotidiano marcado pelo mal-estar, contexto, portanto, em que se produz e reproduz os discursos das adolescentes. Assim procedendo, foi observado que a dinâmica familiar na qual convive a adolescente é por ela apontada como a responsável maior por seu distanciamento do ambiente doméstico. Ao aprofundar o assunto, verificou-se a existência do paradoxo entre a família ideal e a família real, o que trouxe a constatação da permanência de valores tradicionais numa sociedade envolta em tantas mudanças. No campo da família, apesar das transformações ocorridas em termos da constante formação de “arranjos familiares”, as expectativas criadas em torno dos papéis do homem e da mulher na esfera do lar não foram modificadas. Tais expectativas expressam, em relação à função paterna, uma imagem de provedor moral e material da família. Da função materna, por sua vez, é esperado o desempenho de uma postura generosa e conciliadora, aquela que une e congrega ao seu redor a família. Entretanto, bem distante do idealizado, situa-se a família vivenciada. Instala-se, então, um conflito entre essas duas instâncias, permeando toda a construção subjetiva da adolescente. A casa e a família transpõem-se para a rua e a turma de amigos como procura da tão propagada felicidade. Nesse sentido, verifica-se a convergência desses dois territórios, segundo as informações obtidas, como espaços de sociabilidade semelhantes, o que faz com que ambos se complementem mutuamente no contexto brasileiro. A rua, uma vez colocada nessa perspectiva, torna-se palco de ambigüidade similar à observada na esfera da casa. O sentimento de autonomia, brincadeira e união, que mobiliza e impulsiona a aproximação inicial da adolescente com o mundo da rua, transforma-se em pouco espaço de tempo em espaço de submissão, perigo e solidão. Novamente, o idealizado toma distância do experenciado. O sentimento de mal-estar mais uma vez comparece, desta feita deixando marcas mais profundas no universo subjetivo da adolescente, em função do estigma que permeia a sociedade entre o que representa ser menina de casa e menina de rua, o que justifica a sua intenção em preservar no mundo do lar os que ainda lá permanecem. Se na mendicância, no furto/roubo e no envolvimento com a droga o estigma e a vergonha se fizeram presentes, foi nas tramas que movimentam a dinâmica de envolvimento da adolescente com a prostituição que se observou veementemente a existência de tais sentimentos, apresentando-se aí a face mais dura e cruel de toda a realidade investigada. Diante de todo o contexto observado, o percurso empreendido pelas adolescentes que enfrentam o desafio de uma vivência cotidiana na rua é permeado de instâncias reveladoras de conflitos e os mal-estares. Verifica-se que o fenômeno da exploração sexual infanto-juvenil se expressa de uma forma bem mais acentuada, principalmente pelo modo como tal fato é visualizado pela sociedade vigente. Para que se possa melhor entender a sociedade contemporânea, torna-se necessário enfocar mais uma vez a moral do trabalho, inserindo-a, desta feita, na discussão do fenômeno da prostituição na atualidade. O pano de fundo dessa moral do trabalho se encontra numa espécie de mecanização e uniformização que impõem limites ao potencial criativo do homem, passando o próprio corpo a ser “disciplinado” e “ordenado” basicamente para o trabalho. Fazendo-se uma analogia com a sociedade burguesa do século XIX, é como se pudesse supor que todo o aparato educacional direcionado para o servilismo do Estado, naquela época, houvesse sido transportado aos dias de hoje para uma moral do trabalho, que, por sua vez, passa a direcionar a vida dos indivíduos rumo ao que se considera produtivo, ou seja, rentável, do ponto de vista econômico. O que de diferente surge dessa moral passa a ter uma conotação de “estranheza”, de “marginalidade”, o que induz os diversos segmentos da sociedade a se guiarem por uma moral, que torna praticamente impossível, articular numa mesma plataforma, a esfera do trabalho e o âmbito do prazer. Diante disso e seguindo a linha de pensamento da filósofa Hannah Arendt (1987), de que só adquire visibilidade o que se explicita na esfera pública, o prazer, ao ausentar-se do mundo público, viabiliza-se no mundo do privado, submetendo-se, então, ao espaço da ocultação, da invisibilidade, da inexistência.
A prostituição, por contrariar todo esse quadro, surge como um segmento que precisa ser “banido”, “segregado”, uma vez que teria toda uma possibilidade de desordenar as relações sociais estabelecidas por essa moral. De acordo com esse pensamento, as cidades passaram a seguir uma espécie de zoneamento, de forma a destinar determinados lugares para os segmentos considerados “nocivos” à ordem da sociedade vigente. Uma pesquisa realizada com mulheres que atuam nos prostíbulos da Capital cearense ressalta que
Dentro da perspectiva de uma sociedade regida por uma moral que inviabiliza a conciliação entre o trabalho e o prazer, onde o primeiro assume lugar de destaque em detrimento do último - tido como transgressor da normalidade - a prostituição vem romper com o arraigado pensamento dominante. Diógenes (1998) ressalta que o grande incômodo causado pela prostituição é que ela, ao “tornar-se campo de explicitação do caráter mercadoria do corpo e do prazer”, “vitriniza” o que deve ser escondido para não perturbar a ordem social. É como se pudesse supor sobre um mesmo campo uma sociedade funcionando como uma máquina de unificação poderosa e a prostituição, segmento considerado “maldito”, atuando num sentido inverso, como uma espécie de força dispersiva, em contrapartida à homogeneização que se pretende instaurar. O estigma que permeia o mundo da prostituição adulta, fazendo com que os seus modos de subjetivação sejam o tempo todo delimitados entre dois tipos distintos de territórios simbólicos de conduta moral, ou seja, a nítida divisão entre o que representa ser prostituta no “mundo de fora” e o no “mundo de dentro” (Castro, 1993), como mecanismo de defesa ou estratégia de sobrevivência quanto ao mal-estar que experienciam, também se faz presente na adolescente em situação de prostituição. Habita o espaço subjetivo da menina envolvida com a exploração sexual um arraigado conceito de desvalor, de vergonha, de baixa-estima ao deparar-se com o seu envolvimento em tais atividades. Nesse estágio entra em cena “o sentimento de culpa”, advindo de sua duas fontes: o sentimento de culpa originado pelo medo da autoridade externa, representado nesse contexto pela figura da sociedade, e o derivado do medo do superego, através do que foi subjetivado individualmente como conduta desviante, pecaminosa.
Os depoimentos reforçam, com muita nitidez, o aspecto do sentimento de culpa advindo da repressão do mundo exterior, há pouco focalizado nesse estudo. Entretanto, o fato de sair com um desconhecido nem por isso atenua o mal-estar sentido diante da inserção da adolescente no mundo da prostituição. A referência à ausência total de prazer, quando ‘’transam’’ por dinheiro, foi um fato identificado em todas as adolescentes entrevistadas, o que pode ser interpretado como uma forma de autopunição, advindo do sentimento de culpa originado pela força de uma censura interior, ou seja, do superego.
Além do relatado por ocasião das entrevistas, percebeu-se com ênfase o sentimento de culpa que permeia a constituição da subjetividade das adolescentes, através da constante negação de sua participação na atualidade, com o mundo da prostituição. Sempre se referiam a tais experiências como pertencentes a um passado, um passado, entretanto, que lhes traz muitas marcas dolorosas, necessitando, por isso mesmo, ser negado o tempo todo como possibilidade presente e futura. Entretanto, o prazer que afirmam não sentir nos relacionamentos com estranhos é enaltecido nas trocas afetivas existentes as adolescentes e os rapazes que normalmente moram em áreas próximas às suas casas.
O sentimento que o aspecto afetivo proporciona, segundo a adolescente, é de uma intensidade incalculável, mas, a certeza de sua inadequação para o menino que não é “errado” como é ela atesta o aspecto da reciprocidade de sentimentos da adolescente para o que sabe ser o pensamento da sociedade a seu respeito. A representação que faz de si própria, a partir da visão que o outro tem dela, também impede de levarem à frente os relacionamentos amorosos com aqueles que participam da mesma dinâmica de rua que vivenciam.
Costa (1999), em recente estudo sobre o amor romântico na atualidade, observa que o “selo cultural não anula o aspecto involuntário do amor. O impulso amoroso se acomoda, certamente, ao universo de objetos e valores ao redor do sujeito” (Costa, op.cit.:18). Segue uma linha de pensamento que redunda numa articulação do amor com a felicidade. Assim, o romantismo amoroso ainda continua a ser uma marca no mundo ocidental. Entretanto, diante das mudanças e contradições culturais, não poderia o amor permanecer imune diante de movimentada teia de acontecimentos. O amor então, “deixou de ser um meio de acesso à felicidade para tornar-se seu atributo essencial” (Costa, op.cit., p. 19), diante da atual conjuntura. O romantismo passou a assumir “a forma de moeda forte da felicidade junto com o sexo e o consumo” (Costa, op.cit., p. 19). Ressalta, no final, que o mais importante em toda essa dinâmica é observar o que ocorreu com o amor quando se deslocou para o “centro imaginário do ideal de felicidade pessoa” (Costa, op.cit.:20), o que evoca a percepção de que o amor passou a ocupar um lugar intermediário entre “a saudade dos sentimentos” estruturantes do romantismo de outrora e a “sedução dos sentimentos” da contemporaneidade. No caso pertinente ao universo investigado, verifica-se que o amor ocupa em sua subjetividade um lugar que pode ser pensado na mesma dimensão do que Costa (1999) revela existir. Reforça, também, a pertinência do que Freud (1930) enunciava naquela época acerca do sentimento de culpa como empecilho maior para a obtenção da felicidade tão procurada. Nas duas situações ora relatadas, observa-se a existência de tais sentimentos, impedindo as adolescentes de lutar para a continuidade dos relacionamentos prazerosos. Dando seguimento à reflexão em torno do sentimento de culpa na subjetividade da adolescente, percebe-se ser, também, esse sentimento o que vem tornar possível a forma natural como encara a situação de suboordinação em que se coloca, diante do aparato da prostituição infanto-juvenil de rua. Na verdade, não se sente presa a um agenciador determinado, embora admita que todos os que a rodeiam são agenciadores natos (taxistas, ‘’topiqueiros’’, barraqueiros, garçons, porteiros de hotéis de luxo), principalmente, a “amiga”, personagem que mais intermedeia os “programas”, justificativa plenamente aceitável para o repasse de parte do valor que é obtido na ‘’jornada’’.
Retornando mais uma vez ao mito construído no texto Totem e Tabu, pode-se estabelecer mais um paralelo com a realidade enfocada, na seguinte dimensão: diante de todo um contexto permeado de sentimento de culpa ou mal-estar a que está submetida a adolescente, a figura do “pai” primordial, que deveria apenas ser rememorado como lembrança pela forma despótica de autoridade que representava, pode ser reeditada e convocada a se fazer presente no pai biológico que a abandonou ou não cumpriu com as funções que dele eram esperadas, na condição de naturalidade com que encara e se submete à exploração dos agentes intermediadores da prostituição infanto-juvenil de rua, no medo do inimigo mais próximo, enunciado pelos “amigos” e no pavor repassado pelo policial de rua, de outro modo, é como se pudesse supor que, para a adolescente, a tentativa frustrada de busca de felicidade na rua, a partir da ausência de fraternidade entre os “amigos” da rua, da revolta para com o policial que, como o pai, não desempenha a contento suas funções, se expressasse na submissão às normas e leis da esfera pública como um apelo de retorno do “pai primitivo”. Ou, ainda, somente após o reconhecimento das regras de convivência cruéis e desumanas no mundo “civilizado” da rua, é que o pai biológico, tão “cruel” quanto o chefe morto, é reconhecido como pai e convocado a comparecer em presença, na condição de restabelecer a ordem e preservar a natureza, diante do estado de barbárie que a sociedade contemporânea oferece. Diante do exposto, percebe-se que a perspectiva inicial que a rua oferece à adolescente, como liberdade e autonomia para lidar com o tempo, o espaço e com o próprio corpo, poderia tornar-se um campo produtor das mais variadas formas de sociabilidade e, conseqüentemente, possibilitar diversificadas formas de construções subjetivas, podendo atender ao potencial criativo e à singularidade de cada criança e/ou adolescente que naquele espaço se encontra. Entretanto, diante do envolvimento com a prostituição, observa-se que tal fenômeno passa a ocupar um lugar de submissão, de alienação, na constituição da subjetividade da adolescente, encaminhando tal contexto a um nível elevado de insuportabilidade e, possivelmente, o desencadeamento de patologias mentais. Porém, após toda essa trajetória empreendida na esfera da rua é no recesso da casa e da família que a adolescente projeta os seus sonhos.A partir da trajetória de vida da adolescente (que perpassa a ruptura com o mundo da casa, adoção da turma na tentativa de estabelecimento das funções não desempenhadas pela família, o difícil cotidiano vivenciado nas ruas, os conflitos e rivalidades entre os companheiros, o pavor da polícia, a inserção no mundo das drogas e da exploração sexual), verifica-se que a família se reveste de um valor fundamental na subjetividade dos sujeitos pesquisados. Ao indagar a cada adolescente entrevistada, acerca dos sonhos que projetam, foram identificadas algumas aspirações como vontade de estudar, trabalhar, obter bens de consumo, viajar, deixar as drogas, dentre outros. Entretanto, observou-se a presença generalizada do desejo de mudar de vida e de pertença a uma família. Uma família, porém, inserida nos parâmetros de um grupo familial nuclear. Imaginam uma casa onde possam viver com o companheiro e os filhos. Uma casa sem conflitos, onde o conforto e as relações afetivas predominem. Um pai provedor, que represente moral, proteção e segurança. Uma mãe que oriente, seja econômica, responsável e conciliadora da família. Enfim, uma família em que o bem-estar esteja acima de qualquer coisa.
Em seus sonhos, as adolescentes idealizam o pai numa versão oposta ao que tiveram oportunidade de vivenciar, avessa ao que, diante do comportamento que lhes foi repassado acerca de tal pai, apesar de sua ausência física, evitassem até mesmo imaginar o que diante de sua presença poderiam experenciar. Um pai circunscrito aos valores que a nossa cultura oferece, ou seja, que represente proteção, estabeleça regras, lugares, contrapondo-se, de certo modo, ao que também culturalmente se desenha em torno da “generosidade materna”. Segundo Figueiredo (1999), essa “generosidade”, historicamente se origina da tentativa da mãe em proteger os filhos diante do poder tirânico do pai. Entretanto, “neste caso, a generosidade deve ser contida, para não esvaziar demais a força já atenuada do pai na cultura” (Figueiredo, op.cit., p. 04). Afirma, ainda, o autor que esse sentimento, em sua incontinência, pode se constituir numa das principais fontes de desagregação da vida social e mental dos indivíduos. A partir do que se expôs e dos depoimentos colhidos, entende-se que, para a adolescente, a família sonhada é retomada dentro de duas visões: uma, de procura de um pai, que possa vir a se diferenciar da postura que envergonha a adolescente de falar, um pai protetor, que possa vir a salvá-la da situação de desamparo que a dinâmica da rua propicia.
Eu queria ter um pai que, sempre que precisasse contasse com ele, para poder pedir alguma coisa, ter ele do meu lado para me entender, me escutar, conversar comigo (adolescente, 13 anos). A outra diz respeito ao encontro com a projeção de uma mãe carinhosa, mas com uma “generosidade materna” atenuada.
Entretanto, a função paterna e materna necessita, para se fazerem reconhecidas, da “solidariedade fraterna” (Figueiredo, 1999).
De acordo, ainda, com Figueiredo (1999), a solidariedade fraterna representa importância fundamental para o reconhecimento das figuras paternas e maternas. Salienta que, no mito, o poder hierárquico dos “pais” para com os filhos estabelece o que denomina “eixo vertical”, e no cenário histórico, a solidariedade fraterna denota o “eixo horizontal”. Na realidade vivenciada pela adolescente, o eixo vertical advém da família, na forma como se expressa, e o horizontal, na busca de estabelecer vínculos de amizade na esfera da rua. Ambos os eixos se entrelaçam, necessariamente, têm relevâncias semelhantes.
Assim sendo, a partir de todo o contexto histórico da adolescente em situação de prostituição, conclui-se que o retorno projetado à família, lugar de origem, presente nos sonhos, tornou-se imprescindível para o entendimento de como se tecem os fios que compõem essa trama cotidiana na contemporaneidade. Pode-se, também, apreender que a dimensão utópica do estabelecimento de uma “solidariedade fraterna”, o ideal de busca da felicidade no espaço da rua, vem a cada dia sendo minada pela dura realidade com que se confrontam tais adolescentes. Assim sendo, é como se delas estivesse se apoderando um certo desencanto, diante do mal-estar que o mundo civilizado oferece. Observa-se, também, que, para muitas delas, os sonhos têm se tornado bem mais modestos, enquanto para outras, já não é permitido nem sonhar, o que nos permite perceber a importância destes na construção subjetiva da adolescente vítima de exploração sexual. O mal-estar, signo da cultura atual, também se encontra cercado por ambigüidades. É a partir dele que a adolescente busca saídas ou estratégias para dar seguimento à sua vida. Se, por um lado, ele contribui para a construção de subjetiva marcada pela impotência e negatividade, por outro pode vir a ensejar opções criativas, motivadoras de novas formas de existência. Ao analisar a fala das adolescentes acerca do amor e dos sonhos que detêm em relação ao futuro, observou-se que estes evocam a presença de um desejo de encontro com o bem-estar. Sentiu-se, também, que, por esse prisma, talvez surja outro modo de ver e pensar o tema, que há muito se encontra na ordem do caminho sem volta.
Nesse momento passa-se a recordar uma canção que ilustrava repertório infantil de uma época, cuja letra assim versa:
Como o autor dessa letra reeditaria hoje tal estrofe, relacionando-a com o movimento de crianças e adolescentes vítima de exploração sexual que percorrem o calçadão da Av. Beira-Mar, cuja natureza do olhar que lhes é direcionado as impede de pedir amor?
ReferênciasArendt, Hannah. (1987). A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Castro, Ricardo Vieira Alves. (1993). Representações Sociais da Prostituição na Cidade do Rio de Janeiro. In Mary Jane Spink (Org.). O Conhecimento no Cotidiano – As Representações Sociais na Perspectiva da Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense. Costa, Jurandir Freire. (1999). Sem Fraude Nem Favor – Estudos sobre o Amor Romântico. Rio de Janeiro: Rocco. Diógenes, Glória. (1998). Prostituição Feminina. Palestra Preferida no III Fórum – Mulher e AIDS. Fortaleza. Não Publicado. Figueiredo, Luís Cláudio. (1999). Sobre Pais e Irmãos – Mazelas da Democracia no Brasil. Seminário Inédito – Curso de Leitura - Clínica do Social e Subjetividade. UNIFOR, Maio. Freud, Sigmund. (1972). O Mal-estar na Civilização. (Edição Standarddas Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. 21). Rio de Janeiro: Imago, 1972. Sousa, Francisca Ilnar. (1996). O Cliente – O Outro Lado da Prostituição. Fortaleza – Ce. UFC, 1996. (Dissertação de Mestrado em Sociologia ). |
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