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SESSÃO COORDENADA
Civilização e violência: o ponto de vista freudiano
Clara Virginia de Queiroz Pinheiro
Considerando o ciclo de debates sobre violência nos propomos aqui examinar o ponto de vista freudiano sobre as relações entre civilização e violência, situamos a questão de saber em que medida o processo civilizatório implica exclusão da violência Nosso ponto de partida é a interrogação freudiana estabelecida através da correspondência com Einstein: por que a guerra? Em 1933, Freud se corresponde com Einstein, atendendo aos interesses da Liga das Nações em promover discussões entre intelectuais acerca de assuntos importantes para a coletividade. Einstein apresenta a Freud a seguinte indagação: existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? Nesse colóquio com Freud, Einstein aponta a guerra como um problema urgente, que põe em risco a permanência da civilização, tendo em vista o progresso e o alcance da tecnologia bélica. Einstein, contudo, pondera sobre as limitações das medidas que objetivam legislar os conflitos entre as nações, tais como a instauração de uma instância legislativa e judiciária internacional. Isto porque, um organismo internacional pressupõe que cada estado abra mão de sua soberania o que vai de encontro com as aspirações expansionistas, que caracterizam a história das nações. Essa inclinação para o poder, aliada aos interesses econômicos envolvidos na produção de armas enfraquece os esforços de pacificação da convivência entre os povos. Outro aspecto, entretanto, chama ainda mais a atenção de Einstein a propósito da guerra, qual seja, as motivações que levam a maioria de um povo, fadada aos maiores sofrimentos sem as compensações de poder e de riqueza, a entrar em guerra. Daí a interrogação: se não é por interesse próprio, por que ir à guerra? O que está em jogo nesse questionamento? Podemos dizer que no cerne dessa indagação, está o estatuto do sujeito. Considerando que a modernidade se caracteriza por uma forma de sociabilidade fundada no interesse individual, i. é, o bem público resulta da convergência de interesses privados, visto que o desejo é o móvel da ação humana. Ora, na medida em que o desejo constitui fundamento da experiência do indivíduo, a sociedade assume o sentido de instância na qual os indivíduos se realizam, tornando-se, com efeito, meio de realização e não fim em si mesmo. Dessa maneira, quando não se vê por trás das atividades dos homens, a guerra, por exemplo - motivações subjetivas que as justifiquem, fica-se na dúvida acerca da especificidade do humano, levando-se em conta sua condição desejante, em relação à animalidade. Daí nosso interesse pelas formulações freudianas sobre a guerra e o mal-estar na civilização, visando a entrever condição humana a partir da natureza dos laços sociais. Assim, vejamos. Freud inicia sua palestra com Einstein considerando dois pontos, quais sejam, primeiramente o poder como sinônimo de violência e, em segundo lugar, não há descontinuidade entre relações de direito e relações de violência. Nesse sentido, podemos fazer uma articulação entre a concepção freudiana de poder e a tese de Foucault (1975-1976/2000), de que o poder se define mediante relações de força e não por meio de relação de soberania; ou seja, a matéria-prima das relações de poder é a força, i. é, a dominação. Isso quer dizer, conforme indicações foucaultianas, que o poder não tem como base o consenso dos indivíduos, mas a submissão. Assim, devemos desconsiderar a idéia de que as relações políticas pressupõem o sujeito, que, mediado pelo pacto social, renuncia ao seu direito natural e se constitui sujeito político. Em outros termos, as relações se definem como dominação-submissão e não como soberania-obediência. É preciso chamar atenção, todavia, para uma diferença crucial entre Freud e Foucault, qual seja, na visão freudiana, a repressão é o mecanismo de dominação, enquanto, para Foucault, a dominação se exerce com arrimo em normas de subjetivação. Com efeito, na perspectiva freudiana, a repressão é o mecanismo pelo o qual ocorre hominização, marcando a ruptura com a animalidade. Isso porque, segundo Freud (1930[29]/1976), a repressão é o meio de regular os relacionamentos humanos caracterizadores da civilização, “relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo, como fonte de auxílio, como objeto sexual de outra pessoa como membro de uma família e de um Estado” (p. 115). Desse modo, Freud refere-se ao momento zero do processo civilizador no qual se reúnem as condições necessárias para a instauração da ordem humana em detrimento do estado de natureza. Daí por que, Freud, em sua interlocução com Einstein no tocante à guerra, indica a horda como o protótipo das relações de poder. Trata-se de uma forma originária de convivência entre os homens marcada pela dominação pelo uso da força. O mais forte, seja pelo porte físico ou pelo uso de armas, detém o domínio sobre os mais fracos. Esse poder implica a posse das coisas e dos indivíduos. Esta foi, como garante Freud (1933[32]/1976, p. 247), “a situação inicial dos fatos: a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada no intelecto.” Esta relação de dominação se transforma pela união dos fracos contra a força superior de um só indivíduo. A união de todos passa a ser a força que regula as relações. A lei consiste na força de uma comunidade. Mesmo, porém, sendo referido à maioria, esse poder não deixa de se caracterizar pelos vínculos de dominação, ou seja, de violência, porquanto a função da lei continua sendo a repressão de qualquer força adversária. O poder da comunidade, portanto, se exerce pela força e visa à dominação do outro. Isso quer dizer que com a instauração da comunidade não se chega ao reino absoluto da paz. A vida em comunidade não se caracteriza pela harmonia, como se os vínculos entre os homens obedecessem à ordem natural dos fatos, tal qual a respiração, a digestão etc. Trata-se de um processo que se realiza na contramão da natureza humana. Assim, podemos dizer seguramente, com esteio em Gabbi Jr. (1991) que para Freud civilização é repressão. Nesse ponto, Freud assevera a impossibilidade de pensar civilização como expressão da tendência humana de viver socialmente. Não se trata na civilização de “sentimento oceânico”, como acreditava seu interlocutor, amigo e escritor, Romain Rolland, em O mal-estar na cultura, mas de situações irredutíveis de conflitos entre forças contrárias que ameaçam infinitamente a convivência em coletividade. Ora, é exatamente nesse caráter anti-social do homem que Freud (1930[29]/1976), reconhece a especificidade do humano, pois, segundo ele, o homem sempre reivindicará sua liberdade individual contra os interesses da sociedade, nenhuma força poderá “transformar sua natureza na de um térmita”(P.116). Portanto, considerando o ponto de vista freudiano, devemos entender a tendência à existência grupal como traço de animalidade. Se é assim, por que a civilização? Esquematicamente, podemos dizer que, para Freud (1930[29]/1976), civilização diz respeito a condição de convivência entre o maior números de indivíduos. Em outros termos, trata-se da possibilidade de se constituir uma extensa rede social. Portanto, civilização não é progresso, desenvolvimento material e espiritual do homem, mas, fundamentalmente, o processo que transforma as tendências pulsionais dos seres humanos, possibilitando a formação de laços sociais. No suposto de que o homem se defronta com duas tarefas na vida as quais constituem a razão de ser de sua existência - quais sejam, obter de suas vivências o máximo de prazer e evitar o desprazer. Essas razões para existir estão na base da indisposição do homem para a experiência social. Em primeiro lugar, no que dizem respeito às satisfações libidinais, os indivíduos tendem a se acomodar aos mesmos objetos, resistindo direcionar seu amor a um número maior de pessoas. Daí por que, de acordo com as análises freudianas, têm curso as intervenções repressoras da sexualidade - tais como a proibição ao incesto, monogamia, heterosexualidade - e, a pior de todas, a máxima segundo a qual “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (p. 130). Tal exigência é inviável, pois, não só não podemos amar a todos indiferente, incondicional e indiscriminadamente, como, na verdade, tendemos a exercer sobre o outro um ódio feroz. Quão longe estamos dos contos de fadas que alimentaram nossas quimeras, nos quais o ódio era um sentimento atribuído aos lobos maus e às bruxas! Em razão dessa tendência primária do homem de destruir o outro, a civilização se insurge com o propósito - consoante as teses freudianas - de reunir o maior número de indivíduos, constituindo a humanidade una. Essa luta entre vida e morte subjacente ao processo civilizador atende ao princípio biológico de preservação da espécie humana. Eis a nossa diferença radical em relação aos animais, pois a convivência entre os animais não pressupõe, por parte de cada individuo, uma luta contra sua própria natureza para suportar a existência do outro. Vejamos as ponderações freudianas acerca da nossa especificidade em relação ao animal:
Para terminar, sem, contudo, poder nos estender, devemos acrescentar a idéia de que a civilização se desenvolve por intermédio da instauração da relação severa do indivíduo consigo mesmo, cuja função é deter a agressividade direcionada para o mundo. Tal desconforto resulta de um processo - podemos dizer - de autodestruição, na medida em que consiste em voltar para si toda a agressividade, originalmente dirigida aos outros e às coisas. Essa transformação da relação do homem com os outros e consigo mesmo é o que possibilita a reunião de um grande número de pessoas. Trata-se da constituição da dimensão psicológica como dispositivo de auto-regulação, que implica divisão da subjetividade. Assim, podemos dizer que para Freud (1930[29]/1974) o processo civilizador, na medida em que consiste em auto-regulação, se encaminha para um estranhamento irredutível do indivíduo consigo mesmo. Tal é fator de civilização, contudo, à custa de muita infelicidade para o indivíduo. Desse modo, vemos, com Freud (1930[29]/1974), estabelecer-se uma contradição irredutível entre felicidade e coletividade. O objetivo da vida em sociedade não é a felicidade dos homens, mas somente a convivência do número cada vez maior de indivíduos. Esse é o sentido próprio de processo civilizador. Por isso mesmo, i. é, por essa incompatibilidade entre felicidade e civilização, é que Freud perquire até que ponto os homens se encaminham para a humanidade.
Referências Freud, S. (1974). O mal-estar na civilização, (Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume, 21). Traduzido do Alemão e do Inglês, sob direção-geral de Jaime Salomão, Rio de Janeiro, Imago. (Originalmente publicado em 1930[1929]). Freud, S. (1976) Por que a guerra? (Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume, 22). Traduzido do Alemão e do Inglês, sob direção-geral de Jaime Salomão, Rio de Janeiro, Imago. (Originalmente publicado em 1933[1932]). Foucault, M. (1991). As palavras a as coisas, 7. ed. Trad. de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 1995. (Originalmente publicado em 1966). Foucault, M.(2000). Em defesa da sociedade. Curso no Collége de France, Tradução Maria Ermantina Galvão, São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1974-1975). Gabbi Jr. (1991). A Origem da Moral em Psicanálise.In: Cad. Hist. Fil., Campinas, série 3, 1 (2), jul.-dez., 129-168. |
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