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SESSÃO COORDENADA
Os fios invisíveis da violencia familiar e conjugal
Christina Sutter
IntroduçãoDe todas as relações que estabelecemos na vida, as familiares são, de longe, as mais importantes. Paradoxalmente, sua importância em termos de núcleo primário que favorece o desenvolvimento emocional e o sentimento de confiança básica no mundo, nem sempre corresponde à sensação de segurança e de proteção. A família, palco preferencial dos conflitos humanos, é onde freqüentemente somos mais vítimas de maus tratos, físicos e psicológicos. Conforme vários cientistas sociais apontam, a família é possivelmente um dos lugares mais perigosos da sociedade moderna (Fuster 2002), o que é uma contradição com a imagem idealizada do lar como fonte de proteção. Segundo as estatísticas mundiais, é mais provável que uma pessoa seja assassinada, atacada fisicamente, golpeada ou ameaçada em seu próprio lar do que em qualquer outro lugar da sociedade. Estas estatísticas também apontam que a violência intrafamiliar é certamente agravada pela pobreza, pela exclusão social, pelo abuso de drogas e álcool, mas não determinada por estes fatores. Outros aspectos como os socioculturais, a dinâmica interpessoal da família e da relação entre gêneros são igualmente relevantes. Devido a isto, focalizamos a violência no âmbito das dinâmicas interpessoais, comuns a todas as famílias, assinalando, a título de ilustração, os múltiplos níveis que estão implicados no surgimento da mesma. Na organização do meio humano, conforme descreve Dessoy (1999), três dimensões interagem entre si: a dimensão ética, com seu código normativo, comunicado de forma analógica ou digital; o sistema de crenças, comportando os mitos e os valores fundamentais, que se comunica através do discurso; e a ambiência, onde ocorre a expressão dos afetos, cuja comunicação se dá através do contato. A violência pode ser gerada em qualquer uma desses dimensões, lembrando que todas se articulam entre si e cada uma com um elemento da cultura.
DesenvolvimentoPara se pertencer a um grupo é preciso mostrar que se crê nos mitos fundadores desse grupo e participar de seus rituais (Neuburger, 1995). Em troca, este garante um sentido de pertencimento, de proteção, que se expressa por diversas formas de solidariedade. Na base da noção de pertencimento, existe a estrutura invisível de lealdades, feita de expectativas mútuas – com as correspondentes noções de compromisso, confiança e mérito (Boszormenyi-Nagy & Spark, 1983) . A fim de se tornar um leal membro de um grupo, deve-se internalizar o espírito das suas expectativas e obedecer às injunções a elas relacionadas. Na família, como nos outros grupos, o compromisso de lealdade mais fundamental corresponde à manutenção do grupo em si, à conservação de sua integridade. Por outro lado, somos leais àqueles que assim o merecem. Paga-se o sacrifício do outro com lealdade. Tudo é contabilizado: as ações, os gestos, a generosidade ou a falta dela, a confiança depositada, o sacrifício em nome do amor. No grande livro da família, credores e devedores sabem exatamente o quanto foi dado e o quanto se recebeu. Não pagar a dívida ou o fracasso em obedecer às injunções internalizadas é uma falta imperdoável, vivida como traição e leva ao sentimento de culpa, que constitui um segundo sistema regulador de forças. Os membros da família se encontram, dessa forma, atados pela lealdade e pela culpa. Como diz Hellinger (1998), culpa e inocência são os dois movimentos da consciência pessoal, que nem sempre nos impelem para valores morais superiores. Mas ambos os sentimentos estão a serviço da preservação do grupo:
Se a estrutura de lealdade se encontra no subsolo das relações e das alianças familiares, os pactos são a expressão mais visível dessa estrutura. Não há possibilidade de viver uma relação sem pacto, que subentende regras a serem seguidas. O pacto é um acordo de partes em torno de certos objetivos, que inclui o direito ao castigo no caso que não se cumpra com o pactuado. Pacto, transgressão, traição e castigo são as seqüências de um processo que podemos encontrar em muitos relações familiares em que predomina a violência (Loketek, 1997). O que se sente traído necessita satisfazer um desejo de castigo, como um ato reparador. Para além da raiva que o castigo canaliza, este tem sempre uma função homeostática para a relação, como um regulador de forças, tentando restaurar um antigo equilíbrio. A fantasia é voltar a um pacto anterior à transgressão, ainda que isto signifique, e paradoxalmente, a destruição ou a exclusão do outro. Com a transgressão, esbarramos na interface entre uma dupla ameaça: aquela que recai sobre a identidade do que foi traído e aquela que recai sobre a estabilidade do sistema. Com o castigo, a ofensa ao traído é punida e a sua identidade é restaurada. Por isso, em muitos contextos de violência familiar é preciso se perguntar: Qual pacto foi rompido? Quem se sente traído? Que regras da relação foram desrespeitadas? No concernente também às crenças e mitos familiares, fatores socioculturais internalizados podem favorecer a violência doméstica, tais como alguns pressupostos implícitos que predispõem o abuso físico e sexual. Grosman e Mesterman (1992) contrapõem os pressupostos explícitos e o pressupostos implícitos, enquanto conjuntos ideológicos que circulam na formação das famílias. Os pressupostos explícitos correspondem a concepções culturais atuais que aparecem explicitados na linguagem social, que favorecem a igualdade entre gêneros, a liberdade de escolha, o direito das crianças à proteção. Os pressupostos implícitos correspondem àqueles não verbalizados que expressam conceitualizações arcaicas, mas que sobrevivem a despeito do que é oficialmente preconizado. A família, como toda organização social, está estruturada hierarquicamente, o que constitui, por princípio, uma configuração desigual de poder, baseada nas diferenças entre os membros da família. Nesse sentido, a conformação de hierarquias em função do gênero encontra sua estruturação em um conjunto definido de valores e crenças acerca do comportamento esperado de homens e mulheres, de suas particularidades e da específica relação entre eles. Baseado nisto, encontramos os seguintes pressupostos implícitos:
outorga superioridade ao homem.
maternidade, e os homens são feitos para dominar, por meio da ação e da força.
econômica para os homens e cuidado da casa e das crianças para a mulher).
direitos.
propósito de discipliná-los, o que autoriza o uso de castigos, inclusive corporais.
Dessa forma, os pressupostos explícitos convivem com os implícitos em maior ou menor grau nas famílias, dando margem a muitas formas de abuso legitimadas pelas noções de hierarquia e poder, heranças da tradição patriarcal. Embora uma das mudanças mais significativas do século vinte tenha sido a perda da legitimidade do patriarcado, com afirma Flaquer (1999), isto não significa que tais conteúdos ideológicos tenham desaparecido da maioria das famílias. Nas famílias em que circulam fortemente os pressupostos implícitos encontramos uma organização que facilita o surgimento da violência relacional, organização esta que se caracteriza pelos seguintes aspectos:
Os episódios de violência também podem ser observados nos ciclos da ambiência, na qual se alternam momentos de proximidade/fusão com momentos de separação/ruptura. Podemos perceber duas dinâmicas conjugais que se encaixam neste movimento oscilatório, em que a reconciliação é vivida como proximidade e a violência é vivida como ruptura e ameaça da abandono. No vai e vem deste ciclo, com momentos de atenuação e reafirmação do laço conjugal, a situação de abuso é perpetuada explicando porquê certas relações destrutivas são longamente suportadas. a) Mesterman (1995) detecta o que ela chama de "ciclo da violência”, em que episódios de agressão alternam com momentos de proximidade afetiva entre o casal, marcados pela idealização do outro, para logo em seguida vir a frustração pelo não cumprimento das expectativas, recomeçando o ciclo violento. Neste caso, tais expetativas geralmente se relacionam com o cumprimento de funções estereotipadas de gênero, afins com os pressupostos implícitos já analisados. b) Outro fator presente na dinâmica oscilatória entre casais, é observado por Serra (1993), como forma de equilibrar a assimetria entre homens e mulheres perante a uso da força física. Partindo do princípio que uma mulher que apanha é ao mesmo tempo ferida e humilhada, submetida física e psicologicamente, quando o agressor se arrepende, com medo de ser abandonado, e expressa a dependência dele pela mulher, esta mudança de conduta a reabilita como ser humano, que agora tem o poder superior de perdoar e até de “salvar” seu agressor. Ela sai de seu lugar de subordinação e ele fica no lugar da dependência e da culpa, pedindo pelo perdão e pela sua reabilitação também. É essa mudança psicológica que tira a vítima da humilhação e que faz com que ela permaneça ao lado dele. O casal oscila assim entre violência/ruptura e perdão/reabilitação/fusão.
Conclusão Apontamos alguns aspectos interpessoais relacionados com a dinâmica da violência na família e no casal, bem como com sua perpetuação, em que contribuem tanto fatores relacionados com a preservação da integridade do grupo quanto fatores de ordem sociocultural, que se expressam nas crenças e regras familiares.
É preciso que se compreenda a violência intrafamiliar e conjugal como a expressão da tensão entre o pertencimento e a diferenciação, entre consciência grupal e consciência pessoal, em cuja manifestação observamos as múltiplas dimensões que organizam o sistema familiar, que se entrelaçam como fios invisíveis dando coesão ao grupo, mas também possibilitando rupturas e, em conseqüência, a punição e a exclusão.
Referências Boszormenyi - Nagy, I. & Spark, G. M. (1983). Lealtades Invisibles. Buenos Aires: Amorrortu. Dessoy, E. (1999). L’Homme et son Milieu. Études Systémiques . Louvain: UCLA. Flaquer, L. (1999). La Estrella Minguante del Padre. Barcelona: Icaria. Fuster, E. G. (2002). Las Vítimas Invisibles de la Violencia Familiar. Barcelona: Paidós. Grosman, C. & Mesterman, S. (1992). Maltrato al Menor. Buenos Aires: Editorial Universidad. Hellinger, B. (1998). A Ordem Oculta do Amor. São Paulo: Cultrix. Loketek, A. (1997). Microviolências Familiares. In: Droeven, J. (Org.), Más Allá de Pactos y Traiciones. Buenos Aires: Paidós. Mesterman, S. (1995). Mesa Redonda: Família e Violência; apresentação oral. III Congresso Brasileiro de Terapia Familiar, Gramado. Neuburger, R. (1995). Le Mithe Familial. Paris: ESF. Serra, P. (1993). Physical Violence in the Couple Relationship: A Contribution toward the Analysis of the Contex. New York: Family Process 32 (1).
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