1 570 000 votosEnéas, eleito com votação recorde, gaba-se da fama de conquistador e ri de si próprio
Thaís Oyama
É um espanto. O acreano Enéas Ferreira Carneiro, de 63 anos, foi eleito deputado federal por São Paulo com 1,6 milhão de votos, em números redondos. Com esse recorde, graças ao critério de representação proporcional imposto pela legislação, o barbudão conseguiu puxar para a Câmara outros cinco candidatos de seu Prona, Partido de Reedificação da Ordem Nacional. Um desses novos deputados está rindo à toa: mudará para Brasília, como representante do Estado mais populoso e rico do país, levando na bagagem apenas 275 votos realmente seus. Em muitos conjuntos residenciais, essa quantidade não daria para eleger o síndico. Enéas e o Prona são fruto de uma distorção circunstancial e de uma característica nacional. A distorção é do sistema político brasileiro, que transformou a representação proporcional em alavanca para agremiações parasitárias. A característica é o deboche cívico – o mesmo que, na época da cédula de papel, "elegeu" um rinoceronte de zoológico, o "Cacareco", vereador paulistano. Mas vá alguém sugerir a Enéas que sua eleição tem algo a ver com a propensão brasileira à zombaria. Ouvirá em resposta adjetivos como "pacóvio", "pascácio" e "mentecapto" – os preferidos de um vasto arsenal de impropérios que ele costuma proferir com expressão furibunda. Fúria amainada, surge um Enéas bem diferente do carrancudo da televisão. Fora do alcance das câmeras e do embate político, o fundador do Prona gaba-se de ser um conquistador de corações femininos, revela que não sai de casa sem passar perfume e não só tem bom humor como é capaz de gargalhar de si próprio. Ele aperta os olhos míopes de tanto rir quando conta sua piada preferida, da qual é protagonista: uma nave extraterrestre aterrissou em Brasília. Seu comandante, interessado em conhecer os problemas do planeta, exigiu falar com o líder local. Fernando Henrique Cardoso foi até sua presença, mas, depois de uma breve conversa, acabou dispensado pelo ET: "Esse aí acha que está tudo bom", disse. Convocaram, então, Luís Inácio Lula da Silva, que se viu igualmente desprezado: "Esse acha que está tudo ruim". Alguém, então, se lembrou de chamar Enéas. "Só que, quando me aproximei da nave, saiu dela uma porção de etezinhos gritando: 'Papai, papai!'." Enéas é mesmo um ser de outro mundo. Ou alguém mais neste planeta tem o hábito de dormir de calça e camisa sociais? O ex-sargento do Exército, defensor ardoroso da ordem e da disciplina, o faz: "Não gosto de pijama nem de calça curta", explica. Antes de virar militar, o filho de um barbeiro e de uma dona-de-casa foi ajudante de açougueiro e auxiliar de almoxarifado. Sustentado pelo soldo de sargento, estudou na então Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e, na mesma época, cursou as faculdades de matemática e física. Era um aluno brilhante e, dizem os amigos, já naqueles dias um dom-juan para lá de competente. "Ele sempre foi bom de conversa. Vivia embandeirado de mulheres", conta o ex-colega e engenheiro Osório Alexandrino de Souza. Enéas não esconde o orgulho: "Sempre gostei do sexo oposto. Sou um estudioso, um entusiasta, um admirador do gênero – e dou-me muito bem com ele", garante. Tanto assim que até hoje não lhe faltou companhia feminina nem mesmo na hora de tratar da barbona, cuidadosamente pintada. "Tenho amigas, uma aqui, outra acolá, que me auxiliam nessa tarefa", conta, entre risinhos.
Enéas tornou-se um especialista em eletrocardiografia. Os cursos que dá sobre o tema, hoje sua única fonte de renda, lotam nos primeiros dias de matrícula. As aulas são cronometradas. Faz parte da coleção de excentricidades do professor consultar compulsivamente o relógio para que elas não comecem um minuto atrasadas nem terminem um segundo além do previsto. Enéas arregimentou boa parte do Prona entre seus pupilos. Dos fundadores do partido, quatro são ex-alunos seus. O Prona nasceu em 1989 de um típico diálogo que casais costumam ter na hora do jantar. A então mulher de Enéas, a hoje subprocuradora-geral do Ministério Público Militar, Adriana Lorandi, cansada de ouvi-lo vociferar contra as desgraças do país, disse-lhe: "Se você tem solução para tudo, por que não se candidata a presidente da República?". Atípico foi o desfecho da conversa: o marido achou que era uma boa idéia. Concorreu pela primeira vez em 1989, quando os exíguos quinze segundos a que tinha direito no horário eleitoral ajudaram-no a criar o bordão mais bem-sucedido da propaganda política brasileira: o Brasil inteiro ficou sabendo que o nome dele era Enéas. Em 1994, terminou a corrida presidencial em terceiro lugar, com 4,6 milhões de votos, à frente de Leonel Brizola e Orestes Quércia. Caiu para a quarta posição na campanha de 1998, da qual saiu praticamente reduzido à bancarrota. Já havia fechado sua clínica de cardiologia e, em 1994, perdera o emprego de médico da rede pública – descobriu-se que contratava uma colega para exercer a função que era sua. Para agravar a situação, Enéas caiu em diversos contos-do-vigário. "Ligavam de Rondônia, por exemplo, dizendo que queriam fundar um diretório do Prona. O doutor Enéas mandava dinheiro, passagem e o sujeito nunca mais aparecia. Ele confia demais nas pessoas", afirma um de seus assessores. Resultado: dois carros, algumas jóias e um apartamento em Ipanema viraram santinhos de campanha ou sumiram no bolso de espertalhões. "Em treze anos de vida pública, perdi tudo o que construí", diz ele. Hoje, seu patrimônio se resume ao Monza 85 que dirige. O apartamento em que fica quando está no Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras, está no nome da ex-mulher. Quando fala dela, Enéas chega a verter lágrimas. "Adriana não suportou o processo infernal que é uma campanha. Foi minha maior perda. Era uma esposa extraordinária." Foi sua última mulher e a terceira de uma série. Com cada uma teve uma filha: Janete, de 35 anos, funcionária do Itamaraty, Gabriela, de 30, estudante de história, e Lígia, de 17, estudante de medicina. A última campanha eleitoral custou-lhe 60.000 reais, tomados emprestados em um banco. Somadas todas as aparições na TV, Enéas teve nove minutos para apresentar suas idéias, baseadas na luta contra um certo "plano diabólico" que, segundo ele, prevê a destruição do Estado por meio de uma estratégia que inclui a desmoralização das Forças Armadas e o uso da imprensa para divulgar "só o que não presta". Dessa forma, acredita, o povo ficaria convencido de que "o Estado não serve para nada" e estaria aberto o caminho para a grande desgraça que se avizinha: a entrega do patrimônio nacional aos articuladores do tal plano diabólico, quem quer que sejam eles. Parece confuso? Bem, Enéas Carneiro, o deputado federal mais votado da história nacional, talvez tenha vindo para confundir, e não para explicar.
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