Quem foi Jerônimo de Ornellas?


    "Jerônimo, por ter sido o primeiro português (madeirense) a receber sesmaria no local em que futuramente se criaria a cidade de Porto Alegre, despertou a atenção desses estudiosos da História do Rio Grande do Sul.....

 

.....No Continente do Rio Grande de São Pedro teve sua sesmaria outorgada em 1740, na margem esquerda do Gravatahy (registro nos livros da Câmara da Laguna). Nesta sesmaria está incluído o Rincão de São Francisco, que é como se chamava a colina, parte mais antiga da cidade, Altos da Bronze. Vide: Troncos Seculares do Gen. Borges Fortes. Na encosta sul do Rincão de S.Francisco se situava o Porto do Dornelles na então chamada Lagoa do Viamão que já foi considerada rio, lago e estuário. Hoje (2000) voltou a ser denominado de Lago Guaíba e a Lagoa dos Patos passou a Laguna dos Patos -Ver Atlas Ambiental de Porto Alegre).

A sesmaria de Jerônimo de Ornelas se denominava Sesmaria de Santana e ia do Rio Gravataí até o Arroio Dilúvio que hoje está canalizado e é marginalizado pela Av. Ipiranga. Ia até o Morro Santana onde se situava a casa de Jerônimo. O Arroio passava sob a "Ponte de Pedra", hoje monumento histórico de Porto Alegre e desaguava logo adiante no Guaíba.

 

Teve, assim, Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos (com três mulheres) doze filhos e cem netos. Por isto dizem os genealogistas que a metade do Rio Grande do Sul descende de Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos. "

 

 

Anais da V Jornada Setecentista

         Autor: Fabio Kühn (Professor de História da UFRGS)       

"Foi um dos mais antigos povoadores dos Campos de Viamão, com sesmaria no atual Morro Santana, atualmente localizado nos subúrbios de Porto Alegre. Segundo o seu próprio depoimento estabeleceu-se em Viamão por volta de 1734, tendo constituído uma extensa família, com dez filhos legítimos, sendo oito mulheres. Para felicidade deste madeirense nascido nos finais do século XVII, o fato de ter tido muitas filhas foi decisiva na estratégia de reprodução deste grupo família. O casamento destas filhas com adventícios representou a possibilidade de alavancagem econômica e social deste núcleo parental, sendo que alguns dos herdeiros desta família serão proprietários de enormes fortunas nos princípios do século XIX.

            A  história da família de Jerônimo de Ornellas pode ser dividida em duas fases, uma ligada ainda a Laguna e outra já associada ao estabelecimento em Viamão. Apesar de suas ligações com a vila catarinense, Jerônimo passou apenas uma pequena fase da sua vida em Laguna (entre 1729-1734 aproximadamente). Antes disso, ele tinha residido na vila paulista de Guaratinguetá, onde se casou com Lucrécia Leme Barbosa e nasceram suas três primeiras filhas. Segundo Borges Fortes, a motivação desta mudança para Laguna teria sido a inconformidade da família de sua esposa com o casamento por eles efetuado. Se esta foi à efetiva razão da migração para o Sul, não temos como saber ao certo; porém, a escolha de Laguna estava fundamentada nas ligações de parentesco de sua esposa com o capitão-mor Francisco Brito Peixoto. Ambos eram descendentes de Pedro Leme, paulista natural de São Vicente e descendente da fidalguia madeirense. De acordo com as genealogias disponíveis, o capitão-mor brito Peixoto era primo em segundo grau da mãe de Lucrécia Leme Barbosa. Esta ligação parental teria sido uma das motivações da migração da família de Jerônimo, que contaria com a proteção da autoridade do capitão-mor. Todavia, uma motivação econômica também deve ter impulsionado a sua vinda para os campos sulinos. De fato, os matrimônios das três filhas mais velhas de Jerônimo indicam que ele se valeu, em um primeiro momento do seu circuito de relações ligado ao tropeirismo. José Leite de Oliveira, Francisco Xavier de Azambuja e Manuel Gonçalves Meirelles foram todos tropeiros, à semelhança do próprio Jerônimo, que teve filhos ilegítimos com mulheres oriundas da Mindas e de Curitiba, pontos cruciais da rota dos tropeiros de  gado. Esta filiação bastarda, aliás, nos revela um pouco a respeito dos caminhos percorridos pelo sesmeiro no Morro Santana. Jerônimo, depois de residir durante mais de duas décadas em Viamão, acabou se transferindo para a freguesia de Triunfo, juntamente com seus familiares, em 1757. As razões desta mudança de domicílio estariam associadas à insatisfação do antigo sesmeiro com a instalação dos casais açorianos no “porto de Dornelles”, região central da atual Porto Alegre. Provavelmente insatisfeito por ter sido expropriado de parte de suas terras, o suposto “fundador de Porto Alegre” mudou-se para a paróquia vizinha, onde seu filho José Raymundo também possuía uma fazenda.

            Através dos registros notarias, podemos reconstruir um pouco das redes comerciais e de sociabilidade de Jerônimo de Ornellas. Em janeiro de 1764, o estancieiro apresentou-se “em pousadas” do tabelião Ignácio Osório Vieira, onde registrou uma procuração, nomeando representantes seus em diversas localidades: na própria freguesia de Viamão, na freguesia nova (Triunfo), em Rio Grande, na ilha de Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Dos dezessete procuradores que nomeou, quatro eram seus genros, o que demonstra a importância dos maridos de sua vida, aparecem ligações com outras regiões, especialmente cidades portuárias, diferentemente das regiões interioranas anteriormente citadas e percorridas pelo sesmeiro de Santa Anna, na fase tropeira de sua vida.

            Jerônimo de Ornellas casou suas filhas, na sua maior parte, com tropeiros e fazendeiros, o que indica que esta família aparentemente não fez uma opção preferencial por genros comerciantes, embora um deles fosse negociante indubitavelmente. Era o caso de Luís Vicente Pacheco de Miranda, natural de ponte de Lima, no Arcebispado de Braga, em Portugal, que se casou no ano de 1755 com Gertrudes Barbosa de Menezes, filha de Jerônimo. No depoimento para o seu casamento afirmou “que terá ao presente 25 anos e sempre vivera na companhia de seus pais até a idade de 20 anos e dela saíra para o Brasil, onde tem andado sem ter domicílio em parte alguma, tratando de seu negócio no qual se tem ocupado 5 anos pouco mais ou menos”. Estas atividades mercantis deram lugar à atividade de criação de animais, evidenciando mais um caso de transformação de comerciante em fazendeiro, atividade considerada mais nobre e distintiva. Mas apesar desta conversão, é importante ressaltar que este ramo familiar acabaria dando origem a uma das maiores fortunas do século XIX, assentada no comércio de animais. Este Luís Vicente tinha um irmão, que viera junto com ele de Portugal, José dos Santos Pacheco, que na ocasião do matrimônio disse ser “casado em Curitiba”. José foi o avô de David dos Santos Pacheco, que se tornou o riquíssimo Barão dos Campos Gerais. David dos santos Pacheco foi introduzido no comércio das tropas por seu padrinho, João da Silva Machado, o futuro Barão de Antonina, oriundo do Continente e estabelecido nos Campos Gerais. Assim, quando olhamos de perto o funcionamento do comércio de animais na região sulina e as famílias que atuavam nele, encontramos redes parentais como a derivada de Jerônimo de Ornellas, exercendo por um século e meio as variadas atividades envolvendo o negócio de tropas de gado muar.

            Ao que parece, foi a segunda geração desta família que passou a investir na atração de genros comerciantes. Um último exemplo vem a demonstrar bem esta estratégia, o caso de Antônio Ferreira Leitão, natural da vila de Peniche, cidade litorânea da Estremadura portuguesa, onde nasceu em torno de 1730, tendo iniciado sua vida como marinheiro na frota que fazia a rota Lisboa – Rio  de Janeiro. Em uma destas viagens, acabou ficando na futura capital do Vice-Reinado, onde “se pôs a navegar para a vila do Rio Grande e para a dita cidade [do Rio de Janeiro] e algumas vezes para esta freguesia de Viamão, onde está morador nesta freguesia nova...”. Acabou se estabelecendo em Triunfo, onde já em 1760 tinha “sua casa com vários gêneros de fazenda” e acabou se casando neste mesmo ano com Maria Meirelles de Menezes, filha de Manuel Gonçalves Meirelles (um dos genros tropeiros de Jerônimo). Mas como muitos outros comerciantes setecentistas, Leitão acabou gradualmente abandonando os “negócios de fazenda”  e dedicando-se à atividade de estancieiro, que lhe conferia um status social mais elevado. Assim, na Relação de Moradores de 1784 ele constava como fazendeiro, dono de mais de sete mil animais e grande criados de mudas, pois possuía 48 burros echores. No seu inventário datado de 1810, consta um monte-mor de mais de 43 contos, sendo que ele possuía 50 escravos. Um perfil sem dúvida representativo do topo da escala social, que seria considerado membro da “elite” em qualquer lugar do Brasil colonial.  

            Jerônimo de Ornellas morreu em 1771, mas o inventário foi aberto somente no ano seguinte por sua viúva, Lucrécia Lemes Barbosa. Neste documento, constava um modesto patrimônio de apenas sete escravos e um ínfimo rebanho – para os padrões locais – de 250 cabeças de gado. Vista por reste ângulo, a fortuna deste pioneiro não causa grande impressão. Todavia, uma informação interessante do inventário refere-se aos dotes dados às suas filhas: todas teriam recebido, por ocasião de seus matrimônios, “um casal de escravos”, no valor de 204$800 réis, além de 100 vacuns e 50 cavalos. Como eram oito filhas, mais o filho José Raymundo, que também  recebeu idêntico dote (com exceção do gado vacum), pode-se perceber que ao longo de sua vida, Jerônimo foi distribuindo seu patrimônio, constituindo um pequeno pecúlio inicial para seus descendentes. Assim, embora nunca tenha passado de um fazendeiro de porte médio, Jerônimo teve recursos para ao menos possibilitar o estabelecimento dos novos núcleos familiares que se formaram através do casamento de suas filhas com seus genros. Na verdade, “doar escravos, por si só, constituía um ato diferenciado de um restrito grupo de famílias perante o todo da sociedade colonial.(...) Efetuar o dote através de escravos não estava ao alcance de qualquer cidadão”. Nestes dotes não apareciam terras, como no caso dos genros de Pinto Bandeira. A explicação mais plausível neste caso é que Ornellas não dispunha efetivamente de terras para dotar os seus genros, pois havia vendido a sua estância do Morro Santana em 1762, alguns anos depois de ter se mudado para Triunfo. Nesta freguesia viveu na fazenda dos Três Irmãos, uma sesmaria concedida em 1758 a seu filho primogênito, José Raymundo, o que indica que ele não tinha mais terras. Alguns dos seus genros, como o afortunado Francisco Xavier de Azambuja já tinham concessões de terras anteriores ao casamento, mas nem todos tinham esta condição. Somente metade de seus genros (quatro de um total de oito) obteve sesmarias ate a década de 1750. Todos eles eram homens da primeira geração de povoadores, que ocuparam os Campos de Viamão em um momento de plena disponibilidade de terras apossáveis. Os demais obtiveram terras somente depois de 1760, através de diversas formas, que não passaram necessariamente pelo dote. Observamos neste caso, uma diferença em relação ao padrão das estratégias familiares verificadas entre os senhores de engenho paulistas, por exemplo. Diferentemente das famílias da elite canavieira, que acabavam privilegiando determinado herdeiro na hora da partilha, nesta família de estancieiro a partilha foi, ao menos em tese, rigorosamente igualitária entre os herdeiros."

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