Em Off
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Entrevista com Bernardo Ajzenberg - ombudsman da Folha de São Paulo - janeiro/2004
Em Off
- Bernardo, desde a criação do cargoo de ombudsman pela
Folha, em 1989, o que mudou nos que passaram pela função, na
redação, na direção da empresa e no leitor?
Bernardo Ajzenberg - Essa pergunta é ampla
demais. Não saberia responder diretamente. O que me parece claro
é que mudou muito, no sentido positivo, a idéia de que os
jornalistas são passíveis de cometer erros e de que uma cultura
de permanente autocrítica é necessária. Dela faz parte, creio,
o ombudsman.
Em Off - Apesar de ser uma atividade
essencial e bastante salutar, saudável para o jornalismo, a idéia
de instituir um ombudsman não "seduziu" a maioria dos
jornais impressos brasileiros. A quê você atribui esse fator?
As empresas e os profissionais de imprensa não são simpáticos
à essa idéia? Em sua avaliação, por qual motivo a figura do
ombudsman não foi assimilada e aceita pela maioria da imprensa
brasileira?
Bernardo Ajzenberg - Isso ocorre no mundo todo,
não só no Brasil. Vejo três motivos básicos, em ordem
decrescente de importância; 1) é muito grande o risco que um veículo
assume ao criar o cargo de ombudsman (se este for independente e
livre, claro). Esse risco, o da transparência, poucos veículos
se considerarm realmente capazes de assumir, devido, suponho, a
possíveis vinculações, mesmo que pontuais, com interesses que
não sejam os do jornalismo; 2) ter ombudsman inpolica um
investimento (departamento novo, salário no mínimo acima da média
etc), o que não é fácil em tempos de cacas magras; 3)
ombudsman de imprensa é algo ainda novo historicamente. Trata-se
de uma função que ainda precisa ganhar espaço e conhecimento
para disputar mais de perto as verbas disponíveis no orçamento
das empresas.
Em Off - Somente agora, depois do episódio
com o jornalista "Forrest Gump" Jason Blair, o New York
Times resolveu instituir um ombudsman, como forma de tentar
recuperar a credibilidade abalada por causa das reportagens
inventadas pelo ex-funcionário. Afinal, credibilidade e criar
uma aura de modernidade são os únicos motivos para que as
empresas instituam ombudsman?
Bernardo Ajzenberg - É difícil falar pelos
outros, claro. Mas acredito que, além da credibilidade, o
ombudsman ajuda também a incentivar a reflexão dos próprios
jornalistas a respeito daquilo que produzem e, nessa medida, em
tese, a melhorar o jornalismo servido aos leitores.
Em Off - Os erros cometidos pelos
jornalistas avolumam-se a cada dia, desde os mais simples, de
digitação, passando pelos mais preocupantes de concordância até
os inaceitáveis, como, por exemplo, um jornalista cearense que
"ressuscitou" o Superior Tribunal Federal de Recursos,
extinto com a promulgação da Constituição de 1988. Onde está
a raiz desse problema? O "boom" da criação de cursos
de jornalismo verificado nos últimos anos contribui para isso?
Bernardo Ajzenberg - Há vários fatores: formação
frágil, pressão do horário de fechamento, acúmulo de trabalho
(devido à redução dos quadros nas redações), falta de
fiscalização e de discussão interna sobre o resultado do
trabalho.
Em Off - Segundo Cláudio Abramo, jornalismo
é um exercício diário de inteligência e uma prática
cotidiana de caráter. Infelizmente, porém, ainda existem muitos
colegas que agem de forma anética. Como o jornalista pode evitar
cometer erros dessa natureza? Ética se ensina na faculdade ou
está diretamente ligado à formação do caráter do
profissional de imprensa?
Bernardo Ajzenberg - Á pessoa ou é ética ou não
é. Não há meio termo, e isso não se aprende na escola. Mas
diferente é a concepção de deontologia, certos princípios
que, de alguma forma, "traduzem" praticamente e
tecnicamente o que é ser ético em termos de jornalismo,
independentemente dos princípios e das avaliações subjetivas,
pessoais.
Em Off - A luta desenfreada pela obtenção
de bons números no Ibope vem provocando episódios grotescos,
como o verificado no Domingo Legal, através da veiculação da
entrevista forjada com falsos integrantes do PCC. Existe
possibilidade de haver um equilíbrio entre essa necessidade de
sobrevivência comercial e a ética jornalística? A queda nos índices
do programa significa que o brasileiro está menos passivo no
processo de comunicação?
Bernardo Ajzenberg - Há possibilidade, sim, de
sucesso comercial e ética jornalistica conviverem. O que não
significa que não possa ocorrer deslize aqui ou ali, ao contrário.
Quando isso ocorrer, o importante é assumir a responsabilidade
com transparência. Enquanto isso, sem dúvida, a sociedade está
cada vez mais vigilante.
Em Off - Aqui no Ceará temos o jornal O
Povo, que forma com a Folha o seletíssimo grupo de jornais que
conta com o cargo de ombudsman, criado há dez anos. Alguns
jornalistas que passaram pela função tiveram sérios problemas
no retorno à redação, pois a maioria dos jornalistas ainda não
entende ou não aceita o trabalho do ombudsman. Você sentiu
algum tipo de reação mais exacerbada por parte dos jornalistas?
Bernardo Ajzenberg - Isso ocorre algumas vezes,
quando a postura de um colega criticado é por demais defensiva,
preocupada não com a discussão colocada mas com a defesa de seu
posto, vamos dizer. Mas isso é excepcional, ao menos na Folha. Há,
já, uma cultura implantada há vários anos que preserva um espaço
saudável de debate.
Em Off - Quais os questionamentos, ponderações,
expectativas, planos, metas passaram pela sua cabeça quando foi
convidado para ocupar o cargo de ombudsman da Folha de São
Paulo? E qual a avaliação você faz no momento?
Bernardo Ajzenberg - Hesitei quanto a estar à
altura do cargo, que implica grande responsabilidade, transparência,
persistência e um nível no mínimo bom de conhecimento em
diferentes áreas e da mídia em particular. Foi um grande
desafio, o de produzir diariamente algo útil, em termos de crítica,
para a Redação, além da coluna dominical. No momento, não
tenho uma avaliação acabada... Genericamente falando, creio que
atinge a maior parte dos meus objetivos na função..
Em Off - A função de ombudsman, para quem
a exerce com toda sua plenitude, demonstra ser bastante
desgastante em todos os sentidos. Em algum momento você pensou
em pular fora ou se arrependeu de ter aceitado a missão?
Bernardo Ajzenberg - Não. Apesar do desgaste,
que é forte,. real, há muitas compensações.
Em Off - Depois da instituição da figura
do ombudsman no jornal impresso outros veículos de comunicação
também entenderam a importância dessa função e também a
adotaram, como emissoras de rádio. Na sua opinião, por qual
motivo as emissoras de TV nunca sequer cogitaram a adoção de um
ombudsman? Como meio de maior penetração social, além de ser
uma concessão do Poder Público as emissoras de TV não deveriam
contar com mecanismos de controle social ou isso seria censura?
Bernardo Ajzenberg - A ausência de ombudsman
nas TVs obedece, creio, a mesma lógica da ausência nos jornais,
como expliquei acima resumidamente. Com uma diferença: o risco
da transparência ocorre em escala muito superior.