A SAGA WAMPYROS XI

Prólogos

Dani Steele Pablo Lopes Radamés Vivi Sen-Nefer Lázaro
           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dani Steele

RESUMO DO PERSONAGEM

" Eu posso ser insano, mas eu não estou louco "

PARTE 1

Acenath foi uma criança albina nascida em uma família de escribas no Antigo Egito que acreditavam que seu nascimento fora uma benção dos deuses. Por pertencer a uma classe de prestígio, seu pai rapidamente se tornou muito mais reconhecido em seu meio tornando-se um excelente e reconhecido “Hesy-Ra” chefe dos dentistas e dos médicos em geral e chefe dos escribas do faraó. Podendo dar a Acenath uma maravilhosa educação, além de estudar. Naquela época não eram todos que possuíam esta dádiva de conhecimento. As profissões eram de hábito passado de pai para filho, e no caso, apesar de ser mulher, Acenath aprendeu com seu pai tudo o que ele sabia, ela era uma garota especial. Pelo menos era o que todos acreditavam quando olhavam para ela.
Aos 18 anos já era reconhecida por todos por ser uma `medica` que possuía elevado conhecimento sobre anatomia humana, além de magia e amuletos, o que fazia com que fosse uma das primeiras mulheres médicas, sendo muito popular em sua região, respeitada por muitos, porém, odiada por aqueles que acreditavam que sua pele fosse uma maldição e a até mesmo a reencarnação do Deus Apófis, a personificação do Caos. Por este motivo ela vivia em sua própria casa, sozinha, mudando-se constantemente, se escondendo para sua própria segurança, já que costumava ser perseguida por muitas pessoas. Com os anos ela sabia lutar e se defender, porém, evitava isto a qualquer custo, pois suas lutas acabavam sempre levando a morte daqueles que a enfrentava. Acenath sempre levava consigo uma pequena faca, um de seus instrumentos de trabalho, sabendo utiliza-la com maestria pois conhecia os pontos exatos do corpo que iria fazer parar ou matar um homem. A cada morte acabou despertando seu enorme e estranho prazer em presenciar a dor de alguém, assim como admirar a beleza do sangue que para ela significava a vida e a morte ao mesmo tempo.
Certa vez, foi salva por Jahi Sa-Malk, cujo nome significava, Jahi filho de Malk, pois ele era uma das crias mais estimada do tão amaldiçoado e adorado filho de Caim. Foi a primeira vez que a garota havia visto um vampiro. Curiosamente a jovem sempre mantinha contato com ele indo à sua casa para ajudar nos tratamentos de saúde de seus lacáios, assim como seu rebanho. Muitas vezes Acenath não ajudava somente na saúde, mas sim como ajudava na morte deles. Afinal, naquela época os tratamentos e cuidados médicos eram extremamente dolorosos, tortuosos e cruéis. E ela não percebia o quanto realmente gostava daquilo.
A garota de pele esbranquiçada começou a trabalhar por alguns anos para Jahi, até que após a queda da Segunda Cidade e a guerra, ocorreu a morte de muitos vampiros da 2ª e 3ª geração, parecia ser o fim de tudo. Jahi precisou fugir junto com Malk, seu criador. No entanto, o vampiro não poderia imaginar perder aquela garota de vista. Então ele descumpriu uma das principais regras que havia naquela época. Ele a transformou. Sua fixação levava crer que ela seria o seu “Sol da Manhã”, por este motivo sempre a chamava de “Khepri”. No entanto, ao ser descoberto por Malk, o mesmo imediatamente mudou sua ideia em fugir com Jahi. Porém, seu amor preferiu protege-lo de todo aquele caos, decidindo colocar os dois em tompor para acordar Jahi em uma época melhor e posteriormente pensar em um castigo adequado por ter desobedecido a suas ordens em ter transformado a garota. Na verdade, ele havia se irritado muito mais com a traição de ver o amor que ele sentia pela garota do que as próprias ordens em si. Contudo, Malk tinha algo mais importante do que tudo aquilo, se proteger da guerra e descobrir o que havia acontecido com Caim que havia desaparecido.

PARTE 2
O INICIO DE TUDO

“Decifra-me ou devoro-te”

Tempo Atual

Egito – Luxor |16:47|

Luxor, que significa Palácios, é uma cidade antiga egípcia, conhecida como o “maior museu ao ar livre” cheio de templos. Porém a muitos e muitos anos atrás, mais precisamente 3.000 a.c ela se chamava Tebas, a cidade mais dominante e sofisticada do mundo antigo. No entanto atualmente ela é macabra, cheia de tumbas espalhadas e assombrações e de fato um dos melhores lugares para escavações.
- Heeeiii!! Esse pilar vai...
- Cuidadoooo!
Naquele instante uma equipe de arqueólogo e escavadores podiam ouvir um enorme estrondo assim que o palácio antigo, o que sobrou dele, terminava de desmoronar e uma onda de poeira cercava todo o local. No entanto, havia algo que eles conseguiram salvar. Uma tumba feita de pedras, e assim que eles conseguiram abri-la puderam ver uma jovem que devia ter cerca de 18 anos. Assustadoramente não era um esqueleto, havia um corpo tão frio, como se ela tivesse acabado de morrer e em seu peito um enorme e afiado pedaço de madeira que por um descuido e erro da equipe de arqueólogo resolveram remove-la.
“Noticias urgente, uma equipe de 30 arqueólogos desapareceu sem deixar rastro. Existem rumores que eles foram mortos por uma maldição e seus corpos desapareceram ao descobrir uma nova tumba”.

Voo Destino — EUA – N.Y
A Egípcia de pele albina e longos cabelos brancos trajava ainda seu antigo e longo vestido branco em um tecido fino preso por um enorme colar de ouro por cima uma enorme túnica branca com um capuz. Ela permanecia inquieta na poltrona achando estranho aquele cavalo alado que era chamado avião. Não foi preciso dinheiro tão pouco de passaporte para que ela estivesse ali pois era protegida pelo seu poder de ofuscação. Ninguém conseguia enxergá-la, tão pouco notar sua presença ali se ela não quisesse. “Droga essa fome que não passa, ou isso seria apenas uma desculpa minha para matar? Para mim isso realmente não importa. Ha-Ha-Ha”. Era um momento tentador todos estavam praticamente dormindo. Sem resistir a vampira resolveu se mostrar sentada ao lado de um homem, pousando sua mão fria tocando-o suavemente a lateral do rosto do rapaz, acordando-o  e logo exibindo um sorriso misterioso que foi facilmente correspondido. Assim que o avião pousava em solo as comissárias descobriam o corpo do homem morto com a blusa rasgada e vários arranhões em seu peito, no pescoço, como se tivesse sido atacado por um animal. As últimas pessoas que restavam corriam assustadas para fora do avião, no entanto, um dos passageiros conseguiu fazer um vídeo do corpo que vazou rapidamente pela internet sendo noticia de mais um assunto jornalístico.

MANHATTAN

A jovem caminhava pela cidade completamente sem rumo, olhando para tudo atentamente sem ainda conseguir compreender que mundo novo era aquele, tendo apenas um único motivo, encontrar seu criador e ela podia sentir que estava agora bem mais perto.
Quando se deu conta estava em baixo de um viaduto onde algumas pessoas ouviam música, se aqueciam perto do fogo naquela noite fria, enquanto um grupo de jovens riam e se drogavam. - Hei... você... ! Se eu fosse você não ia até lá. Dizia uma mendiga velha, sentada no chão perto de uma caçamba de lixo. Porém a garota continuava a se aproximar do grupo de jovens.
- Olha que gracinha..
- Vem aqui boneca!

Eles a cercaram, quando tudo que ela fez foi abrir um sorriso hipnótico.
- Ana mish fahem. Ayez arrouh ella... (Eu não entendo. Eu quero ir a... ).

Quando tentou conversar com eles para pedir ajuda, os mesmos começaram a rir e chama-la de louca. Até que um deles tocou em seu braço e a puxou. Naquele instante a jovem falou com a voz séria: La! (Não) Seus olhos brilharam e eles podiam ver suas enormes presas. `Me mostre tudo que você já viu`. Dizia ela com seus pensamentos olhando fixamente para o rapaz, agarrando sua mão no seu pescoço dele, levantando-o do chão lentamente, enquanto os outros gritavam e começavam a correr, com sua outra mão ela arrancou um dos olhos do jovem e passou sua língua naquela pequena esfera rica em sangue, em seguida lhe tomava o outro olho para logo em seguida dar uma mordida no pescoço dele. Enquanto drenava o sangue do mortal Khepri, roubava as memórias de sua vítma, podendo ver e sentir tudo o que ela havia vivenciado. Os gritos de horror ecoavam alto enquanto ela jogava o rapaz ferido no chão. Em seguida a vampira utilizava de sua velocidade sobrehumana para pegar um a um. Primeiro mordendo-o, depois quebrando seu pescoço como se fosse uma cabra em um sacrifício para logo depois deixar o corpo cair no chão. Tudo feito com uma extrema velocidade deixando todos os oito jovens e mais quatro velhos mendigos largados no chão.
Agora eu entendo tudo... mas eu preciso de mais verdades.

Dizia finalmente ela em inglês voltando seu olhar rapidamente para a mendiga. - Por favor não me mate. __ Implorava a velha e a única sobrevivente, enquanto podia se ouvir os gritos de dor do jovem em pé com o rosto cheio de sangue sem os olhos. – Por favor, eu preciso que me diga um lugar que eu possa descansar. Aqui não é adequado para mim. ___ Perguntava a vampira com naturalidade e calma como se não houvesse feito nada de errado e o vestido branco coberto de sangue. Quando a velha apontava para um hotel. Antes que ela pudesse ir ao local, a garota passava sua língua lentamente em cada dedo saboreando com fervor os restos de sangue que havia em sua mão, caminhando até o corpo de uma das jovens mortas trocando sua roupa para uma mais atual e limpa, enquanto a velha corria daquele lugar assustada.

PRÓLOGO SAGA WAMPYROS XI

" A Loucura está nos olhos do Observador "

Caminhava em direção ao hotel a garota passava próxima de um beco escuro onde foi atraída por um grupo de pessoas a qual chamava sua atenção a fazendo desviar de seu caminho. A cada passo seu cabelo soprava com o vento frio da noite, enquanto seguia aquelas pessoas, mas logo elas desapareciam de vista ao entrar em uma agitada e comum casa noturna. A jovem vampira Khepri já tinha dado as costas voltando ao seu caminho quando sentiu a presença de alguém que a fez fechar os olhos por um breve instante para apreciar aquele agradável cheiro que lhe chamava tanto atenção, a fazendo passar a língua no seu próprio lábio inferior para depois morde-lo suavemente, abrindo seus olhos em seguida, voltando a entrar no beco, para logo em seguida ver ao longe um homem que saía do mesmo lugar onde as pessoas haviam entrado.
Ela olhava curiosamente para ele enquanto caminhava em sua direção, seu corpo era grande e forte, muito diferente do povo egípcio a qual estava acostumada, que eram menores. Então Khepri parou na frente dele com um sorriso malicioso, olhando minuciosamente para o corpo dele sem qualquer pudor.
-  Tesbah ala kheir! Perdoe-me… sou nova por aqui, eu quis dizer apenas boa noite.
Falava a jovem com o tom de voz baixo e provocante, mantendo o sorriso no rosto. O homem correspondia com o mesmo sorriso e olhar, no entanto, podia perceber que havia algo de estranho naquela garota que trajava um minúsculo vestido preto, por cima de um sobretudo. Afinal ele não era um simples homem qualquer, ele era Pablo Lopes. Um homem mortal, mas que já havia se tornado vampiro, devido toda sua vivência ele podia captar uma vibração diferente vindo dela. Ela não era somente uma mulher gótica, exotica e esquisita de cabelos brancos, tão pálida, ela parecia ser muito mais, mas logo seus pensamentos foram deixados de lado acreditando que fosse apenas o resultado de muito alcool que havia bebido naquela noite.
- Boa noite, posso lhe convidar para entrar comigo e lhe pagar uma bebida?
- Pode, ou podemos nos divertir aqui fora, agora mesmo.

Respondia a garota caminhando ao redor dele enquanto se aproximava bem mais perto do homem, podendo sentir melhor um misto de cheiros vindo do corpo dele, a qual fazia desejar loucamente o sabor de seu sangue a cada batida do coração que ouvia tão alto e pulsante despertando sua fome. Então a garota parou na frente dele e sorriu mordendo largamente, arqueando a sobrancelha esquerda, para logo em seguida dar um salto, subindo no colo dele, mantendo seus pés presos ao lado do quadril dele enquanto ela se segurava com as duas mãos e suas unhas afiadas no pescoço dele, e com uma das unhas raspava forte sua garra abrindo um enorme corte no pescoço dele fazendo jorrar seu sangue em cima do corpo dela que se mantinha preso nele.
- Geme para mim gatinho! Ha Ha Ha!

Dizia ela passando sua língua no corte que fazia ouvindo o som de seus gritos, apoiando sua mão ensanguentada nos longos cabelos do rapaz, levando sua outra mão no peito dele puxando e rasgando sua blusa, para em seguida voltar sua mão no peito dele para arrancar seu coração, tomando-o com voracidade, sentindo ele ainda pulsar forte em sua mão, levando-o na lateral do seu ouvido, adorando ouvir o som que vinha dele, quando derrepente sentiu alguém tocando em seu braço e uma voz tão distante ficando cada vez mais alta. - Hei, você vai entrar comigo ou não?
Era Pablo falando com ela que estava parada olhando para ele em estado meio catatonico, pois havia se perdido por um breve instante em seus pensamentos insanos.
- Ahm, sim.. Claro. Melhor dizendo. Não!
- Ahm?

A garota levou suas mãos fortemente sobre o peito dele o empurrando jogando-o para longe, fazendo com que seu corpo batesse contra a parede enquanto ela caminhava lento indo na direção dele. Quando ela chegava perto, Pablo que permanecia ainda em pé apesar do forte impacto, estava acostumado a sentir dor, e não seria aquilo que iria fazê-lo se render. Esperava ela estar mais perto para puxar com firmeza seu braço para baixo, ao mesmo tempo que suas pernas iam de encontro com as dela com tanta brutalidade fazendo a pequena garota de um metro e meio e tão magra cair no chão. Ela caia esparramando seus longos cabelos brancos pelo chão sujo, permanecendo no chão deitada e gargalhando alto. Apesar de não conseguir compreender quem era aquele homem que havia chamado tanta atenção, ela tinha certeza que poderia dar conta dele.
- Quem você é? Ha-Ha-Ha! Prefere falar agora ou depois de morrer?
Perguntava a vampira mostrando finalmente suas presas enquanto permanecia no chão, ficando sentada mexendo em alguns fios dos seus cabelos.
- Isso era para me assustar? Sério, mesmo?
A garota franzia a testa ainda deitada no chão, e usando sua velocidade sobrehumana ela se arrastava pelo chão e com sua enorme força puxou ele pela pernas fazendo-o cair, subindo em seguida em cima dele, mas rapidamente Pablo conseguia segurar nos braços da garota, torcendo-o, prendendo ela de costas para ele.
- Eu nem sou imortal e peguei você tão facilmente duas vezes. Caia na real! Você tem muito o que aprender garota.
- Você…
Dizia ela puxando forte seus próprios braços conseguindo se soltar dele. Ambos ficando em pé um de frente para o outro.
- …um simples mortal também não. Felizmente ou talvez infelizmente você faça agora parte dos dois. Eu posso sentir a vida e a morte dentro dos seus olhos. Definitivamente você é saborosamente instigante.
- Talvez esteja certa, mas a parte do saborosamente com certeza está.
- Talvez você possa me ajudar. Eu procuro uma pessoa. Jahi Sa-Malk, meu criador. Conhece? Ah… permita-me! Eu me chamo Khepri Ain-Sat. Mas… acho que esse meu nome vai causar problemas por aqui, então apenas me chame de Dani Steele.
- Conheço um lugar que talvez tenha alguém que possa ajuda-la. Eu sou Pablo Lopes.

 

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Pablo Lopes

 

Rio de Janeiro, a data não importa, nem o ano.

 

Carta aos meus amigos.

 

Mortal e amigos, queria ter coragem de lhe dizer pessoalmente tudo isso, porém me faltou, nunca fui bom com despedidas, então resolvi escrever, espero que compreendam.
Durante o coma, todo dia tive sempre o mesmo sonho, na verdade achava que era um sonho. Estava em Helheim ou em algum lugar muito parecido, acorrentado à uma pedra pelos quatro membro, formando um xis. Acima da minha cabeça tinha uma grande arvore desfolhada, com seus galhos secos e enormes, em um dos seus galhos havia uma grande serpente e de sua boca gotejava seu veneno no meu rosto, sempre que tocava meus olhos, uma ardência acompanhado de uma forte dor, tomava meu corpo.
Neste pesadelo estava completamente despido, meu ventre aberto na altura do figado, e todos os dias um abutre vinha devorá-lo. Aquilo me pareceu meses, anos ou até décadas, tamanha dor que diariamente eu sentia. Eventualmente ouvia uma risada feminina que congelava minha alma. Mas um dia acordei.
Sei que vocês, meus amigos da mansão, não economizaram esforços para transformar meu antigo quarto em uma UTI, e foi assim que descobri que após os últimos confrontos, eu acabei ficando em coma por 9 meses. Soube também que neste meio tempo, vocês se revezavam para cuidar de mim, curioso imaginar que em meio a tantos vampiros, um mortal em situação de fragilidade foi zelado com tanto cuidado. E por isso me faço grato a todos.
Ah, sim….como sabem, ainda sou mortal e para azar de Hella, não morri e para o meu azar ainda permaneço efêmero no caminhar desta nova existência. Claro que com isso, a mansão teve que fazer pequenas adequações, como por exemplo uma geladeira para colocar comida, um freezer para deixar minhas bebidas, uma iluminação melhor, pois agora não vejo tão bem como um imortal. Aliás, outra mudança foi o comportamento de vocês, imagina que agora ao lado, todos os dias, uma picanha assada, ou uma lasanha deliciosa passa, te abraça. Pensa no olhar que vocês fazem ao me ver passar. Afinal eu era a lasanha ao molho vermelho, e gostam muito disso, sei que sou gostoso. Ou seja, sabia que alguns ficavam sem graça, evitavam estar por perto, mas eu entendia que agora não sou mais caçador, mas sim a caça.
Frente a tudo isso, enquanto dormiam eu finalmente, após seculos, pude sentir novamente o toque quente do sol no meu corpo, e nos primeiros dias eu tive queimaduras, fiquei vermelho como um pimentão. Lembram? Apesar de tudo, gostei de sentir a dor da queimadura, a minha fragilidade foi sentida como um novo recomeço, parecia uma criança, estava revivendo, empolgado com tudo a minha volta.
E com esta oportunidade única na vida de um vampiro, voltei a viver, saia de segunda a segunda, viajei e conheci praias, lugares, mulheres, tudo. Conheci até um tal de techno viking, que ficara famoso devido a um vídeo no youtube, cara legal. Algumas vezes eu acompanhei vocês, meus amigos, em suas caçadas, mas me sentia um fardo, era mais lento e o pior, comecei a não gostar de ver os humanos servindo de comida, pois agora, EU era um deles, e isso foi me afastando dos imortais e me aproximando mais dos mortais.
Churrasco!!! Isso, adorei faze los, e graças a uns amigos mortais, fizemos vários nos fundos da mansão, e sei que a Mortal odiava acordar e ouvir aquela algazarra, isso quando conseguiam dormir de dia. Horas, me desculpem, mas estava vivendo!!! Ps. Se serve de consolo, prefiro a carne mal passada.
Bom, é por isso que agora eu me despeço, não precisam se preocupar, estarei bem. Vou viver um tempo sozinho, estarei por perto, logo ali em NY, aluguei um apartamento mais para o centro, sabe aquele prédio todo de vidro azulado ao lado do banco central? Estarei na cobertura, vou usufruir todo o dinheiro que acumulei nesses últimos seculos. Talvez agora, eu não viva muito tempo. Gripe é um negocio ruim demais.
Alias, não vou mais dar trabalho para vocês, chega de festas na piscina da mansão (deu muito trabalho para limpa-la, nunca usaram), chega de churrascos e bagunça. Agora podem dormir de dia em paz. Se precisarem de mim, estarei por perto.

Com amor,
Pablo Lopes

 

N.Y - 23hs

            Pablo está se arrumando para outra noite na esbornia, hoje escolheu uma boate mais “dançante”, queria ver se conseguia encontrar aquela morena baixinha que em outro dia ficou observando. Vestiu seu melhor terno, arrumou seu cabelo e borrifou duas vezes seu perfume preferido, ligou pedindo um Uber e desceu para o hall de entrada do hotel. Disse boa noite ao porteiro que brincou com ele dizendo:

- Vai sair de novo “seu Pablo”? A noite promete de novo?

- Opa!!! Enquanto eu estiver vivo, todas as noites prometem.

            O carro chega, Pablo entra e diz o nome da boate, em poucos minutos no destino, paga o motorista deixando uma farta gorjeta. Passa por entre os seguranças da boate sem pegar a fila e entra ao recinto que toca uma musica eletrônica alta e começa transitar pelo local, procurando sua presa.
            Bilontra por natureza, passa a noite flertando, afinal só se vive uma vez. Um pouco cansado do barulho, resolve sair para tomar um ar e pensar na vida. E assim a noite segue.

 

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Radamés

Um salto na Escuridão



Ponte do Brooklin – Manhattan

- Humanos. Sempre em busca do que é imediato, do perecível.  Das sensações potencializando outras sensações. Sempre os mesmos. Posso sentir cada um deles como uma gota correndo em minhas veias. Hoje me sinto enojado em ter sido parte deles há muito tempo atrás. – Radamés divagava, sentado no alto do primeiro pilar, tinha um cadáver em seus braços.
- Dizem que esta ponte foi a primeira a ser construída no novo continente. Por que os humanos tem essa necessidade de se destacar perante seus semelhantes, de se elevarem e se proclamarem pioneiros de algo quando na verdade, não passam de meros cordeiros, prontos para o abate? Cordeiros colocados aqui nesta terra para comerem ração, berrarem uns para os outros, e depois, simplesmente saírem de cena? – concluiu se levantando, os ventos de East River invadindo e estufando seu sobretudo, reluzindo ainda que por segundos o dourado da espada solar, sua própria bomba relógio, sua única ligação com algo que jamais poderá cortejar novamente: o olhar e a graça de Rá-Horakty, o próprio deus da luz. Parte do cadáver rolou durante o movimento, caindo macabramente em direção ao rio, se perdendo na escuridão de suas águas.
- Humanos também constroem sepulturas, para enterrar seus mortos. Verdadeiras prisões. Eu gosto delas, nos remetem ao silêncio interior de nossa existência.  Alguns pensam na morte como uma libertação. Pois eu digo que talvez a verdadeira sepultura seja este crânio – prossegue, erguendo a cabeça ensanguentada do homem o qual acabara de se alimentar algumas horas antes – que com a morte, libera os pensamentos e desejos antes aprisionados nessa esfera óssea. Libera o verdadeiro ser, o imortal. – termina, com um ultimo olhar enigmático sobre as órbitas arrocheadas, o leito de olhos que jamais deveriam ter pousado sobre a sombria silhueta do egipcio naquela noite. Após isso, seus dedos se afrouxam, deixando também a cabeça macilenta seguir seu rumo para as profundezas, fazendo por alguns instantes o ambiente ao redor de Radamés se transformar.
Apertando firmente os globulos no fundo das pálpebras, quase não acreditando, o rio logo abaixo de seus pés tinha se modificado, suas águas enegrecidas davam lugar a uma superfície translúcida, suavemente decaindo para um tom esverdeado, dado a densidade de juncos e flores de lótus em suas margens. Era possível sentir o cheiro. Não. Na verdade não poderia ser possível. Levou uma das mãos à fronte, tentando conter uma leve vertigem, e rapidamente levantou de forma sutil o rosto, tentando fitar o horizonte, e lá estavam elas, as montanhas do poente, o imponente Vale dos Reis, o lugar de descanso eterno de todo aquele que subia a barca de Rá rumo à cidade dos mortos, o Duat, o reino de Osíris.
Depois de tanto tempo, seus lábios petrificados se esfarelaram num tímido sorriso, algo no interior de seu cadáver se sobressaltara de tal forma que quase poderia se confundir com um coração. Um vento forte vindo do delta irrompeu, arrancando minúsculos pedaços de calcário logo abaixo de seus pés, o que o fez perceber que estivera o tempo todo no topo da faixada principal do templo de Karnak, na antiga cidade das cem portas!
- Ah Tebas... Tive dias felizes aqui antes de voltar para o templo de Onnu* e ser abraçado por Atonnemheb. Tudo poderia ter sido tão diferente. O destino não quis que eu subisse o Nilo rumo a Philae, e tomasse para mim o coração de Iset-Nefret para todo sempre, unindo o nosso *Ká num só. Quis o deus Thoth que meu *Bá fosse devorado pelo demônio, e meu *Khat caminhasse vazio por sobre estas areias escaldantes desde a Núbia até Amarna por intermináveis noites. Fiquei sem o olhar piedoso de Hórus, sem a face morna de Aton, sem o justo julgamento de Osíris. Tornei-me o próprio vazio do deserto. – diz Radamés contendo uma lágrima de sangue – Por que faz isso comigo? Como pode tentar me enganar colocando minha maravilhosa *Khemi ao meu redor, quando sabe que este Sol que queima brilhante acima de mim não poderia me manter “vivo” neste instante? Por acaso acha que sou algum idiota?!?? – blasfema Radamés apontando seus olhos faiscantes para o grande círculo de luz, quase a pino, a escalada final de Khepri para se transformar em Rá.
- Meça suas palavras, criatura vazia – algo resplandeceu no alto, fazendo Radamés sobressaltar, queimando-lhe levemente as pálidas maçãs do rosto – Não lhe passou pela cabeça de que tudo isso é real, e que eu esteja permitindo-o neste momento caminhar sob a luz do dia?
O vampiro mal pôde acreditar na gigantesca barca de junco, descendo do céu, flutuando sobre vapores luminosos, com centenas de remos em suas laterais, ecoando uma infinidade de vozes assombrosas no interior de seu casco. Seus olhos se arregalaram quando reconheceu dentre os muitos defuntos desolados o seu próprio rosto, com um olhar perdido, tal qual o que ele lançava minutos atrás nas montanhas do poente.
- Vejo que encontrou algo precioso na minha carga... – debochou o deus solar, refletindo seu disco sagrado logo acima de seus chifres diretamente nos olhos vítreos de Radamés. – eu poderia cegá-lo se eu quisesse, desprezível filho de Seth...
- Não tenho a carne de Seth em minhas entranhas...
- Que seja, bastardo de Onnu. Não importa... Mas quero que saiba que tenho algo que lhe é precioso, e que lhe pertenceu por um breve tempo. Ainda me faltam dois pertences. Um deles, você acaba de me entregar, pois pertence ao filho do deus da luz por direito...
- O quê? – Num sobressalto o vampiro confere o interior do sobretudo, a bainha estava vazia, a espada sagrada havia sumido.
- E com ela – ele continuou, materializando misteriosamente a espada Hórus em sua mão esquerda e erguendo-a aos céus – deceparei a cabeça da vampira que tanto ama, e passarei com meu barco sobre suas cinzas ainda crepitando. Somente assim, a razão de sua vil existência terá o verdadeiro sentido, o verdadeiro propósito: o completo vazio.
Os braços e pernas de Radamés ardiam de dentro pra fora, sentia sua pele em brasa, uma febre infernal consumia cada parte de seu cicatrizado cadáver, subindo por seu pescoço, e fazendo seus caninos eclodirem como indestrutíveis arpões, abriu os olhos incandescentes como duas esferas vermelhas pulsantes – DEUS MALDITOOOOO!!!!!!! – e se lançou no espaço entre o topo do templo e a barca, num vôo sobrenatural, com as garras proeminentes e estendidas para frente, quase em câmera lenta, suas roupas iam queimando no trajeto, logo todo o vampiro era uma flecha incendiária e...
- Calminho aí rapaz... Onde você está indo? – uma voz feminina freou seu movimento, travando sua queda rumo às águas do rio que separava Manhattan do Brooklyn.
- Nossa... Não entendo... Tudo parecia tão real... Tive minha mente usurpada por algumas horas...
- Não me pareceram horas... Não tem nem um minuto que você jogou aquele infeliz lá embaixo. E olha que estou te fitando aqui já tem um tempo.
- Espere aí... Como você me encontrou aqui?
- Segui o cheiro da desolação total... E aí está você Radamés, o novo sanguinário do pedaço!
- Não é sempre... Acontece de tempos em tempos, quando...
- Eu sei, eu sei, as lembranças do seu mestre traidor e blá blá blá, conheço bem o estopim da sua besta interior...
- Então veio aqui me impedir? Ou se juntar a mim?
- Isso você vai me dizer... Estou de saída meu caro... Só vim fitar seus belos olhos egipcios novamente um pouquinho mais... A gente se esbarra... Ah, e se eu fosse você conferia vez por outra seu app de mensagens...
- Hã o quê? Mensagem não lida. Um velho amigo da mansão. Ah mas o que será que já aprontaram dessa vez? O que falta acontecer? – eu sussurrei, quase como um pensamento. Virei meu olhar para a ponte, no sentido Manhattan. Aquela sillueta esguia em roupas negras de látex já ia bem longe, se jogando a uma parede e rapidamente ganhando o topo dos prédios. Telhados... Por um momento me veio à cabeça uma antiga amiga que tinha por habitat natural os telhados. Tempos antigos. Caminhos diversos. Para um humano as mais variadas direções de estradas sempre tem seu fim, mas para um vampiro não. Tanto o tempo quando o espaço são intermináveis. Nada os prende. Nenhum túmulo, nenhum crânio. O eterno vazio.
- Eeeeei!!!!! – ele gritou em direção à vastidão de prédios e arranhacéus da grande metrópole, fazendo a pequena vampira estacionar e languear o quadril em sua direção, atendendo à sua audição sobrenatural – Hoje lhe faço companhia, garota. – terminou, com um abismo no olhar, e dentes levemente pontiagudos, lançando seu cadáver do topo do pilar, correndo sobre os cabos, ganhando velocidade, para no fim executar um salto, e deixar o vento gelado de Nova York encher o interior do sobretudo, planando pelos vapores noturnos de uma cidade infestada de nebulosos pensamentos.

*Onnu – A cidade de Heliópolis, em egipcio antigo.
*Ká – o duplo astral. O espírito.
*Bá – a alma
*Khat – o corpo físico
*Khemi – Egito, em egipcio antigo.

 

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Vivi

- Ei, alguém em casa?

Eu olhei para a vampira à minha frente. Tão jovem ainda, dava para perceber os resquícios da humanidade recém perdida. Provavelmente a razão de tantos outros seres em torno da mesa em que estávamos. Carne fresca...

Aliada à sua juventude, havia sua beleza oriental. Depois de ser obrigada comprar o passe de Sakura no restaurante em que trabalhava, não sabia muito o que fazer com ela, então perguntei o que ela queria, imaginando que seria liberdade, depois de passar toda sua vida à serviço de outros. 

Para minha surpresa, ela quis se tornar uma vampira. Após anos sendo uma presa, queria se tornar uma predadora. 

Não pude. Mesmo com a bênção do Príncipe e tudo mais, não consegui fazer dela uma cria minha. Então a honra foi dada a outro, mas uma grande parte da responsabilidade pelos seus primeiros passos nesta nova vida, seria minha. Karma...

Então aqui estávamos nós, em uma mesa em uma casa noturna qualquer, procurando sua refeição entre a multidão que se balança ao som da música. Estava distraída, procurando um rosto no meio do mar de corpos. Sempre estava procurando, mesmo sabendo que não iria encontrar.

- Desculpe Sakura, o que estava dizendo?

- Deixa pra lá. Você estava perdida olhando para o nada de novo. Está tudo bem? Podemos fazer isso outra noite, ou eu posso....

- Não - eu a cortei - é minha responsabilidade, e você precisa manter a sede controlada agora no início, e por isso estamos aqui. Vamos, escolha alguém.

Ela olhou em torno, indecisa. - Não consigo escolher...

Eu ri. A musculatura do rosto repuxou pela falta de uso - Muitas opções? Eu escolho então. Passei o olho e avistei um cara grande, braços tatuados à mostra na camiseta de manga curta, encostado numa parede olhando para nossa mesa. Eu sorri, ele sorriu de volta e trinta segundos depois ele estava sentado conosco. Quinze minutos depois, estávamos saindo do lugar e indo para a casa dele. Ele com sorriso de quem se deu bem, e a pequena japonesa com um olhar de fome. 

Depois, quando ele já estava no sofá da sua sala, sem a camisa e totalmente entregue, eu olhava enquanto Sakura montada em seu colo se alimentava do pescoço dele lentamente, cada pequeno gole ressoando pelo lugar silencioso.

- Não beba muito garota, você não precisa de tanto e não vamos deixar ele fraco, certo?

Ela soltou a boca da pele dele, os lábios vermelhos do sangue que bebia, os olhos dilatados e vermelhos pela Sede. Fechou os olhos e gemeu extasiada. - Mas é tão bom! A vontade de beber até não sobrar nada...

- Sei que é bom, mas se você não aprender agora vai se perder e começar a matar sem necessidade. E já expliquei o que acontece com neófitos que começam a matar, não foi? - Ela concordou com um gesto. - Aprenda agora, usufrua depois. Controle é tudo, ou a besta te domina quando é ao contrário que deve acontecer.

Ela choramingou, dando uma lambida no pescoço que já estava cicatrizando. – É difícil! 

- Escute! - A puxei pelos cabelos para levantar o rosto e olhar em seus olhos. - A escolha foi sua, poderia ter tido uma vida livre e mortal, com todo dinheiro que conseguisse gastar, e você preferiu se tornar um de nós! Aguente as consequências ou vou dizer ao Príncipe que você é um problema e vai ser destruída. Posso não ser sua criadora, mas com certeza vou ser o carrasco! A soltei e levantei do sofá, passando as mãos pelo rosto - Meus deuses, não consigo fazer isso!

- Você lembra dela, não é? - ela perguntou baixinho. Se levantou do sofá e estava logo atrás de mim.

Não consegui nem fingir que não sabia de quem ela falava. - Sim, eu lembro de Laila

- Ela... foi mais forte que eu?

Eu ri. De novo. - Não, ela era impulsiva e tão sedenta quanto você. Mas não seguíamos regras de uma sociedade vampírica quando nascemos. Era tudo muito selvagem. Matávamos pela sede, pela vingança, por qualquer coisa. E por isso mesmo, foi muito mais difícil depois, dar os pequenos goles, se esconder no meio deles, se adaptar e usar a máscara. Por isso – me virei e a olhei – é importante para você aprender a controlar a fome e sua besta agora pois quando ela toma conta de nós... é difícil voltar.

Pensei por dois segundos no que ela me disse antes – Como você sabe sobre Laila?

- Bem, digamos que os vampiros falam tanto quanto os humanos. Fofocas correm soltas por aí.

- Ah sim? E o que dizem?

- Sobre ela? – Deu de ombros - Que era sua cria, que administrava aquele lugar que explodiu... coisas assim.

- E sobre mim? – Perguntei

- Basicamente? É louca. Instável. Ainda mais depois da última batalha...

- Já amou alguém antes Sakura? – Perguntei olhando pela janela do apartamento, para a rua – Algo tão forte, tão absoluto, que quando você fica só, sente que sua alma nunca mais ficará completa, sentirá sempre um vazio e um desespero dentro de si.... Talvez, seja mesmo uma forma de loucura, porque o mundo não faz mais sentido e você luta, dia após dia, para encontrar um caminho no meio da bruma que se torna sua vida. – Me volto para ela, deslizo a mão pelo rosto macio e agora quente pelo sangue – Sou um cadáver andante criança.... Quando a noite surge, eu levanto, eu bebo, eu mato, eu falo..., mas não sou totalmente eu. Não mais, nunca mais. E sabe porquê? Porque você sabe que nunca mais conseguirá ser feliz, ser completo como quando o objeto do seu amor caminhava ao seu lado pela Terra.

- O problema, talvez, de se viver indefinidamente, é a busca incessante de propósito na vida, de matar o tédio que a vida imortal se torna depois de um certo tempo. Você verá. E tudo acaba se tornando superlativo. O amor, a dor, o vazio, a fome, o ódio. É preciso cuidado para não nos perdermos nesse mar de sensações.

- Mas...nada mais te importa no mundo? – Ela me pergunta – Nada te motiva, você não busca nada mais? Vai simplesmente vagar pelo mundo como um fantasma, esperando sua hora chegar?

- Sim, existem pessoas e coisas que me importam e sim, existem motivações, mas entenda pequena, perder partes de você quando as pessoas se vão não é fácil. E por isso, controle é tudo nesse negócio, pois então quando a dor se torna insuportável, a loucura se torna sua amante e companheira de cama, e nada mais te resta a não ser esperar a misericórdia daqueles que talvez se importem com você. Se quer viver, primeiro controle a besta dentro de você e talvez tenha alguma chance. Nada, fora isso, dependerá de você, não importa o quanto lute, sangre ou chore.

A garota ficou parada no meio da sala, com um olhar perdido no rosto.

- Já terminou? – Perguntei.

Ela olha para o homem encostado no sofá desacordado, com um suspiro de pena – Acho que sim.

- Vamos embora – digo saindo pela porta. – Amanhã será outra noite.

 

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Sen-Nefer

 

"Mansão Wampyros uma semana depois do último ocorrido

            - Você está certo disso meu irmão da noite? - pergunta Radamés.
            - Sim. Estou certo. Estou cansado de travar as batalhas dos outros, preciso travar as minha próprias batalhas. Não estou dizendo que estou indo embora, apenas seguindo meus instintos. Estarei por perto, observando e ajudando      quando precisarem.
            - Então porque não fica, este também é seu lar?
            - Sim eu sei. Estarei por perto pode ficar tranqüilo.           
            - A Mortal vai ficar fula! Você sabe disso...rs
            - Ele manda me caçar!
            - E quem vai ficar no seu lugar?
            - Porque não o Pablo quando ele acordar do coma.
            - Mas nem sabemos se ele vai acordar.
            - Ele vai..."

            Três anos se passaram desde a última batalha. Assim como eu havia prometido a Radamés, eu segui meu caminho. Vez o outra eu passeava pelos arredores da mansão.
            Por muitas vezes senti saudade dos amigos e de tantas batalhas que travamos juntos. O tempo passou tão rápido que nem me dei conta de como havíamos mudado.
            A promessa de Odin, sobre os deuses não interferirem mais, havia se cumprido até o momento. Também não era preciso os deuses interferirem. Os humanos estavam cada vez mais se aniquilando. A violência e o caos se espalham pelo mundo num piscar de olhos. Basta ligar a tv e zapear os canais. Atentados, balas perdidas, assaltos... Pessoas perdendo a vida por nada. Os valores humanos estão se perdendo cada vez mais rápido. As pessoas tem medo de sair de suas casas... elas não sabem se voltam. Alguns diriam que isto é o mal agindo. Para mim, isso é a essência natural do homem aflorando.
            Regras, valores, religião e poder mantém a ordem. O falso senso de moralidade, mantinha o lado animal do homem aprisionado. Estamos vivendo o tempo da impunidade, em que as leis existem para serem quebradas.
            Eu vivi no anonimato durante este período. Vagando pelas cidades, oculto nas sombras apenas observando. Ainda sinto atração nos antigos protocolos. Chegar numa cidade, apresentar-me ao príncipe, ficar por ali algumas noites. Beber um bom vinho, um cigarro, uma boa refeição. Algumas cidades ainda me surpreendem com sua beleza natural e seus costumes...antigos. É como se o tempo não tivesse passado. Vida simples, casas rústicas, pessoas rindo alto sentados em mesas de carvalho com suas canecas altas espantando o frio entre um gole e outro.
            Embora o mundo tenha evoluído muito, o ser humano não evoluiu. Os mesmos temores de sempre. A velha nova canção. Caminhando a passos lentos pela madrugada fria que começara, ouço os passos apressados de uma bela jovem. O cheiro do medo denuncia para onde ela vai. Apenas sorrio levemente e sigo o seu  rastro. 
            - Eles desejam ver o oculto, mas quando estão diante dele, se desesperam.  - penso colocando as mãos dentro dos bolsos.
            É possível ouvir o barulho do coração batendo acelerado e forte. O arfar de sua respiração pesada como uma canção antiga. Ela olha para trás ao ouvir o som de uma garrafa rolando pela rua basicamente, deserta enquanto aperta as mãos cobertas pelas grossas luvas que aquecem suas mãos delicadas. Ao virar-se para frente ela grita ao se deparar com uma figura que segundos atrás não estava ali.
            - Ai meu Deus! Que susto. O senhor me desculpe eu não vi.. eu estava...
            - Não tem problema senhorita! Eu também estava distraído. - digo olhando firmemente em seus olhos.
            Ela contornou-me, apressou o passo e olhou para trás novamente para certificar-se que eu não a seguia. Permaneci parado alguns segundos, tempo suficiente para ela ter a certeza que tudo estava "bem". Virei-me e olhei para ela e segui meu caminho.
            Chegando na avenida principal, ela fez sinal desesperado para o táxi que vinha entre os carros que passavam apressados. Entrou, fechou a porta apressadamente e deu as diretivas onde queria ir. O táxi partiu no mesmo instante. Ela respirava aliviada, sentia-se segura agora, indo rumo ao hotel onde estava hospedada.
            Entrou, fechou a pesada porta, acendeu a lareira, conferiu as mensagens e enviou um email informando que o relatório estava pronto e organizado em cima da mesa de seu patrão. Entrou no banheiro, colocou a banheira para encher, retirou a roupa, pegou uma taça de vinho, o maço de cigarros e o celular. Depositou os itens em cima de uma mesa redonda de vidro ao lado da banheira, deu um gole longo repousou a taça e entrou na banheira com água quente.
            Suas mãos passeavam suavemente, esfregando a espuma pelo corpo. Ela pensava nos olhos que havia visto há pouco e sorriu. Pegou a taça deu mais um gole e falou consigo mesma.
            - Uma pena que o senhor misterioso não está aqui. Eu dava um jeito nele rapidinho. - Deu mais um gole, e suas mãos deslizavam agora de forma sensual passeando pelos seios e descendo entre suas pernas que estavam levemente abertas. - Ah como eu queria que estivesse aqui agora - sussurrou enquanto se mexia dentro da banheira entre gemidos abafados.
            Ela podia sentir as mãos dele passeando pelo seu corpo, o beijo quente e finalmente o ápice do prazer.
            As velas decorativas tremularam no banheiro, as cortinas finas e brancas balançaram.

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            -  A hora do óbito foi aproximadamente 01:45am. - Disse o detetive observando o corpo nu e pálido da jovem na banheira do hotel.
            O fotógrafo legista busca os melhores ângulos e detalhes. A taça de vinho, o cigarro queimado no cinzeiro como se tivesse sido deixado ali e queimado até o fim.
            Os olhos da mulher estava arregalados com se tivesse visto o próprio demônio antes do fim. Retiraram o corpo enrugado da banheira. O legista procurou por evidências que pudessem comprovar agressão ou algum tipo de queimadura, que justificasse o fato da pele estar daquele jeito, mas não havia nada.
            - Cara! Eu nunca vi isso na minha vida. Parece aquelas múmias secas que eu vejo nos documentários. - disse antes de tirar uma foto do rosto seco da vítima.
            - Chequem as câmeras do hotel, quero saber que horas ela chegou, se estava acompanhada.  O telefone dela?! Quem foi o último a ligar e pra quem ela ligou? Mas que merda. Já vi que hoje não vou pra casa tão cedo. Diz o inspetor chefe, enquanto observa a cena do crime.

 

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Lázaro

 

Mais uma batalha havia chegado ao fim. O grupo formado por várias classes de seres, reunidos com o propósito de um combate em nome de sua própria sobrevivência, agora desfazia sua aliança. Cada um seguia por caminhos diferentes.
Segui em direção de minha fria mãe Rússia. Local onde fui criado por humanos, sem ser descriminado ou mesmo condenado por ser diferente, apesar de minha cultura ser muito descriminada pelas sociedades por onde passava.
 Ainda lembro das noites junto com meu povo, como assim gosto de dizer. Do som dos violinos tocados, acompanhado por violões e pandeiros nas noites estreladas, banhadas pela mãe lua. O fogo crescia cada vez que alimentado, tornando se mais mágico ao balançar das saias coloridas das mulheres, que com um sorriso estampado no rosto rodopiavam e bailavam ao harmônico concerto perante a natureza.
Eram aberto vários barris de rum e vodca. Ainda sentia o doce cheiro da carne sendo assada no braseiro retirado da fogueira.  Não comia, pois não me dava prazer. Mais ficava encantado com a magia.
 Algumas mulheres que visualizavam a passagem da caravana, logo procuravam aonde acampávamos. À noite apareciam para ver a sorte nas cartas das anciãs, para adquirir sortilégios e magias para o amor ou ainda caiam encantadas pelos belos rapazes ciganos.
Meu doce retorno ao passado foi quebrado com a chegada em minha pátria. Um carro me aguardava e rapidamente fui em direção de minha morada.
Nicolai me aguardava na entrada do prédio da mansão, com uma recepção majestosa, como tudo que foi designado de sua responsabilidade.
 Na mesa de meu escritório uma garrafa de vinho da adega particular do ex dono da propriedade. Não sabia a data origem daquela iguaria, mais pelo tipo de conservação e do invólucro, era bem antigo.
 Nicolai encheu minha taça ate a metade. Conduzindo em seguida uma ânfora pequena, com sua base e hastes em ouro, e o corpo de cristal em um azul escuro com um desenho de uma rosa pintada a mão. Banhava agora minha taça, completando com sangue fresco.  Girei minha taça com delicadeza realizando a fusão perfeita e apreciei cada gole.
Na terceira rodada, comecei a lembrar o ocorrido com os filhos de Nosf. Sabia que havia a interferência do pó da pedra Obsidiana (1). Mas no fundo de meu ser, aquilo havia me dado prazer. Começava a achar que a influência paterna vinha a aflorar.

Um certo momento fui em direção ao meu quarto.  Passei próximo ao quarto de hóspede e notei uma linda morena adormecida, a fonte do paladar em meu vinho. Apresentava alguns curativos compressivos e adormecia.
Cheguei até a sacada e olhei para o cemitério. Mirei na lápide de Layla. Olhei por alguns minutos e retornei para o aposento. Estava na hora de descansar.

No outro dia comecei a explorar novamente a biblioteca de Edgar.  Muitos livros e pergaminhos.
 Sabia que dentro daquela propriedade havia muitas coisas. Talvez passagens secretas e objetos antigos e perigosos.
 Um pequeno mapa achado dentro de um livro com data de 1872 me guiou até uma sacada da parte leste da propriedade. Notei após apalpar toda a área que um tijolo estava mal rejuntado.
 Raspei com um abridor de carta. Escavei toda a lateral do tijolo massudo, e notei que era um tijolo falso. Dentro havia uma caixa de carvalho pequena, bem talhada à mão, em seu interior um saco de tecido. Fui até o escritório e ao abrir, uma pedra alaranjada transparente que rolou na mesa. Ao tocar, um grande brilho invadiu o local.

Nicolai correu até o escritório e ao chegar nada encontrou. Gritou por vários cômodos e notou que não me encontrava no local. 
 Correu até seus aposentos e procurou por um localizador. Ligou e começou a rastear. Pegou o telefone e fez uma ligação.

 

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Em menos de 24 horas uma equipe estava pronta para viajar. Equipada com trenós e aparatos para o frio. O destino, a direção norte da Rússia. A viagem demorou por volta de 8 horas. Ao chegar retiraram todo o material e começaram a viagem nas camadas de gelos. Os motores das motos da neves cortavam o silêncio da manta branca. E rumavam cada vez mais para o interior gélido.
 A cada momento Nicolai observava o rastreador. Em uma determinada região a equipe parou. Olhando em volta notaram que não podiam mais avançar.
Desmontaram de suas motos e com equipamento, avançaram a pé pela camada grossa de um lago. Caminhavam rápido e com cuidado, pois, em algumas partes ocorriam rachaduras.
O rastreador continuava a sinalizar o local, mas Nicolai via a dificuldade de chegar. 
O silêncio é quebrado por uma rachadura, elevando parte de uma placa. Não chega a atingir a equipe, mas abala parte da estrutura do lago e o psicológico de alguns membros.
Nicolai começa a se aproximar do ponto e outra placa se eleva, jogando-o para dentro d'água. A equipe se aproxima e arremessa uma corda, conseguindo retirar o líder. Molhado e tremendo, recebe logo uma pequena garrafa com rum e um cobertor.
– VAMOS CONTINUAR. Grita Nicolai, trepidando os dentes.
– NÃO SOU EU QUE IMPORTA. Cadê o rastreador. Olhando de lado e vendo que está próximo. 
Com a mão molhada pega o rastreador. O local está cada vez mais próximo. Alguns passos e o local é encontrado. Logo um aparelho de ultra-som portátil em forma de esteira é fixado na placa de gelo e monitorizado.
  – ALGUMA COISA?  Grita Nicolai. 
- Não senhor.
- CONTINUE A PROCURAR, ESTÁ AQUI.
- senhor não tem nada aqui!
- CONTINUE A PROCURAR. DOBRO O SALÁRIO COMBINADO. MAS PROCUREM!
A busca continuava, e após uma hora e meia, um grito de raiva rasga o silencio.
Gotas de sangue originadas da mão de Nicolai tingem o gelo após um soco na geleira.
O rastreador não marcava mais nada, não havia nenhum ponto aonde pudesse continuar. A busca havia sido em vão.
Havia passado um ano e Nicolai continuava a busca em todo e qualquer lugar que pudesse levar a algum ponto. Tudo em vão.

 

Um corpo repousava em cima de um bloco de gelo, coberto com manta que impedia que a pele fosse queimada pelo gelo.  Um silêncio que dominava a caverna próximo a uma nascente é quebrado pelos passos femininos firmes e delicados.
Aproxima-se e um carinho com o dorso da mão percorre a face gélida. Surge um beijo nos lábios solitários, e percorre até a orelha.
- Acalma-se Lázaro. Sou eu Layla, cuidarei de você meu amor. 

 

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