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Ela guardou tudo em uma bolsa e me ajudou a preparar o enterro. Poucas
pessoas foram até lá, a mãe de Sylvia não apareceu para enterrar a filha.
Depois fiquei outra vez sozinho, talvez para sempre. O sentimento de culpa
não me abandonou. Lembrar de Sylvia me machucava. Não consegui trabalhar,
então tive que continuar morando lá e usufruindo o dinheiro dela. A filha
me dava plena liberdade para fazer isso. Nunca mais vi a jovem Sylvia, a
filha. Tornei-me um homem triste, a minha vida tinha ido embora. Sem
Sylvia eu não era mais nada. Mas nada a traria de volta à vida. Então
tentei assumir uma nova personalidade, ser um novo homem, um homem que
nunca conheceu Sylvia Thompsom. A única foto que restou eu guardei dentro
de um livro velho no canto mais esquecido da biblioteca. Percebi que seria
difícil esquecer tudo o que vivemos. Eu nunca saía de casa para nada.
Ficava apenas lendo, mudando as coisas de lugar, imaginando que ela nunca
tinha existido. E a foto caiu do livro, fazendo com que eu lembrasse de
toda a história. A história que eu lutei para esquecer. A mulher que eu
amei e que eu perdi. Talvez, se ela soubesse administrar a fama, se eu
tivesse a ajudado, nada disso tivesse acontecido. Mas era muito tarde para
voltar atrás. Pensei em destruir aquela última foto, mas não tive coragem.
Então a guardei no mesmo lugar e continuei arrumando os outros livros da
biblioteca.*
Terminada a leitura,
Brad apaga a luz do abajur, põe o livro na cabeceira e dorme de uma vez.
São duas horas da madrugada quando ele faz isso.
Ele estava realmente muito cansado. Havia passado a manhã inteira
em estúdio com o Aerosmith, almoçou e passou toda a tarde com os filhos
menores e só à noite teve um tempinho para si mesmo. E o dia seguinte não
seria diferente... Antes de se deitar para concluir a leitura do livro,
ele programou o despertador do celular para 6:30 da manhã. Ou seja, teria
míseras quatro horas e meia de sono...
Na metade daquele sonho lindo e maravilhoso (devia estar sonhando
com a autora desta fan fiction aqui... hehehe), justamente na melhor parte
do sonho, ele ouve uma música vindo lá de longe. É a música chegando e o
sonho maravilhoso se desmanchando que nem cubo de gelo em copo d'água. E a
música ia ficando mais alta... E mais alta... E mais alta! Foi aí que Brad
se deu conta de que já eram seis da manhã e ele precisava acordar, mas...
Cadê a coragem pra abrir os olhos?
- Jifnmasucubasdpoa,zzxasxkz. - Foi algo mais ou menos assim que ele falou
- traduzindo 'Vou dormir mais um pouquinho'.
Então Brad virou de lado e continuou dormindo. Só que o celular
dele é daquele tipo que não desiste nunca, nunquinha! Dez minutos depois,
o despertador volta a tocar.
- Iufrmsixuawekdoiciae! - Traduzindo 'Eu quero dormir mais, caramba!'
Dez minutos depois, adivinha só?
Exatamente, o celular voltou a tocar...
O que vem a seguir é o estrondo de um celular se espatifando na
parede. Agora só outro, legal.
E depois de transformar seu celular em sucata, Brad volta a dormir
sossegado. Agora são sete da manhã e ele deveria estar reunido com o
Aerosmith no estúdio. No estúdio...
Steven: Brad deveria estar aqui às sete da manhã. E sabe que hora é essa?
Tom: Sete e um...
Joe: Alguém liga pra ele pra ver o que aconteceu.
Joey: Não há motivos para se preocupar. Talvez ele já esteja a caminho!
Steven pega seu celular e liga para o celular de Brad. Mas como o
aparelho simplesmente não existe mais...
- Oi! Esta é a caixa postal de Brad Whitford. No momento eu não posso te
atender, mas se for coisa urgente, pode deixar um recado que eu retornarei
o mais rápido possível.
Steven: Em todos esses anos de estrada, é a primeira vez que eu ouço a
mensagem da caixa postal do Brad.
Joey: E como é?
Steven: É ele mesmo falando.
Joey: Agora sim, fiquei com medo.
Tom: Acho que agora temos um bom motivo para ficarmos preocupados...
Steven: Não, não! Vou tentar a casa dele.
Steven tira novamente seu celular do bolso, mas a bateria
descarregou e não deu pra fazer mais nada...
Steven: Joe, me empresta o seu?
Joe: Bem que eu gostaria, mas meu telefone não funciona por essas bandas.
Steven: Ah, é, esqueci que essa sua operadora porcaria não funciona em
lugar nenhum... Joey?
Joey: Tá na assistência.
Steven: Tom?
Tom: Toma.
Steven: Ah! Alguém com um celular que funcione!
Tom entrega o telefone para Steven, que procura o número de Brad na
agenda. Então...
- Seus créditos passaram da validade. Por favor recarregue seu aparelho!
Steven: Pô, Tom! Ficar sem crédito no celular é demais, não acha?
Joe: Steven, você devia saber que o Tom não tem amor pelo celular! Ele até
já perdeu as contas de quantas linhas perdeu...
Tom: Se não quer usar meu celular, então devolve, caramba!
Steven: Brad recebe ligações a cobrar?
Tom: Recebe.
9+0+[insira aqui o código de área]+[insira aqui o número da
residência de Brad Whitford]+[insira aqui um monte de paciência porque vai
precisar].
Tuuuuu
Tuuuuu
Tuuuuu
Tuuuuu
Tuuuuu
Tuuuuu
Steven: Aaahhh não!!
Joey: Giiiigante!!
Steven: Joey, sem brincadeira. Ninguém atende na casa do Brad!
Tom: Quem mais concorda comigo que temos um real motivo para ficarmos
preocupados?
Joe: Eu.
Enquanto isso, Brad segue na árdua missão de permanecer dormindo.
Nisso são 7:28 da manhã. Dois minutos depois, o telefone volta a tocar.
Ele levanta como se seu corpo equivalesse a uma bigorna de vinte
toneladas, e estica o braço até o telefone. Retira o fone do gancho e o
traz até si como se fosse um guindaste carregando um bigorna de vinte
toneladas. Apesar de estar mais dormindo que acordado, Brad identifica a
musiquinha da chamada a cobrar, e sabe que a única pessoa sem noção que
liga pra ele a cobrar é Tom. A música acaba.
- Que é, Tom?
- É Steven!
- Sim, Tom. O que você quer?
- Eu já disse que aqui é o Steven! Que é que você tem, Brad? Bebeu?
- Tá, Tom, eu chego aí já, já. Tchau.
Brad vai colocar o telefone de volta no gancho. Na frente do
estúdio...
Steven: Gente, ele me confundiu com o Tom.
Tom: Que é que deu nele, véio?
Steven: Sei lá! Vou ligar de novo.
[insira aqui... é, vocês entenderam.]
Brad atende mas não fala nada - toca a música da chamada a cobrar -
acaba a música da chamada a cobrar.
- Brad, é o Steven de novo!
Brad continua não falando nada. Ele está dormindo.
- Brad? Brad! Diz alguma coisa!
E o Brad nada... Joe pega o telefone da mão de Steven.
- Brad, movéi**! Cê tá vivo?
Depois virando-se para os companheiros.
- Respirando ele tá.
Agora é a vez de Joey pegar o telefone e ficar apenas ouvindo.
- Roncando ele tá, isso sim. Brad está dormindo como um neném!
Steven: Dormindo a uma hora dessas? Era pra ele estar aqui com a gente!
Joey: É, mas a cama é muito atraente. Sei exatamente como ele se sente.
Joe: Putz, que rima podre!
Steven: Ele não pode dormir. Não agora! Ele está com as chaves do estúdio,
aliás, porque não temos cópias?
Tom: Porque eu esqueci de mandar fazer.
Steven: É demais... Aí é demais! Tom esquece de pôr créditos no celular;
Tom esquece de providenciar cópias das chaves do estúdio; Tom derruba o
celular na privada!
Tom: Eu nunca derrubei o celular na privada!
Steven: Mas do jeito que você anda cabecinha de vento, é só isso que falta
acontecer! E sabe o que eu vou fazer pra acordar esse preguiçoso?
Nenhum dos três responde nada. Steven pega o telefone e põe em
prática seu recém-inventado e teoricamente infalível Método Tyler para
acordar guitarrista dorminhoco: dá um belo de um berro que faria Brad
levantar da cama e no mesmo pulo estar no estúdio, prontinho da silva.
Só que não adiantou nada. Brad continuou dormindo como uma pedra.
Steven: Tsc tsc... Isso é que eu chamo de sono, viu?
Joe: É. Pro grito do Tyler não funcionar, ele deve estar dormindo por
todos nós!
Tom: Ok, já vimos que ligar não adiantou. Grito do Tyler deve ter soado
aos ouvidos do Brad como uma canção de ninar da mãe dele. O que faremos
agora?
Steven: Apelar!
Joey: Como assim?
Steven: Não sei, mas vamos apelar.
Steven entra em seu carro e ruma pra casa do Brad. Joe, Joey e Tom
o seguem, meio descrentes sobre a 'apelação do Steven'. Chegando lá...
Steven: E aí, que acham?
Joe: Ô, Steven! É apelar pro Brad acordar ou apelar pra ele ficar surdo?
Explica-se: enquanto ia para a casa de Brad, Steven chamou uma
banda marcial, uma banda de metal pauleira, uma escola de samba, um grupo
de tocadores de fole da Escócia, uma banda de brega, um trio elétrico de
Salvador, um carro de telemensagem e conseguiu até transferir uma
manifestação de um sindicato em greve pra frente da casa do nosso
guitarrista sonolento!
- Ta aí o apelo! Se eles não despertarem o Brad, eu não sei mais o que vai
despertar!
Tom: Eu é que não vou conseguir dormir à noite depois de ouvir um barulho
desses!
Todos os 'despertadores' que Steven chamou começam a
tocar/cantar/falar/fazer um barulho medonho ao mesmo tempo. Mais ou menos
uns cinco minutos depois, o que Steven mais queria aconteceu: Brad acordou
(revoltado, mas acordou), foi até a janela e gritou:
- Ora durma-se com um barulho desses!!
Steven, Joe, Tom e Joey: Aleluias! Ele acordou!
Brad: Tirem já essa bagunça daqui! Já, já e já, que eu vou voltar a
dormir.
As bandas, o carro de telemensagem e o sindicato em greve voltam a
fazer barulho na mesma hora.
- Paaaarem!
Steven: Eu mando eles embora se você for com a gente pro estúdio.
Brad: Tá bom, tá bom! Eu já vou.
Então Steven agradece a colaboração dos 'despertadores' e os
dispensa. Logo Brad está pronto e eles seguem para o estúdio, para
finalmente iniciar mais um dia de gravação. Às 9:15 da manhã.
E tudo vai muito bem, até que na metade da segunda música eles
sentem a falta de uma guitarra. Olham para Brad e... Surpresa! Ele está
dormindo...
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* O trecho em itálico que inicia esta fan fiction é o parágrafo final do
conto 'Sylvia e eu', de minha autoria. Você pode achar o texto inteiro neste site
aqui. (porque a
propaganda é a alma do negócio, hahaha)
** Movéi = meu velho. Este é um VLA (Vício de Linguagem Adquirido) que eu
adquiri de uma amiga que adquiriu do namorado, e assim por diante. Minha
velha é 'mavéia'.
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