Um
“R” a mais na minha aula de Sintaxe![]()
![]()
Por Eliete Carvalho
Têm coisas que acontecem na vida da gente que nunca esquecemos, pode passar anos e anos, mas sempre que as procuramos pela memória, lá estão elas presentes e bem vivas na nossa mente. É como a história que eu passo a contar agora, pois depois de dez anos de magistério nunca imaginei que pudesse escrever sobre um dos meus primeiros dias de aula a respeito de uma aula que, para mim, ficou marcada e continua bem presente na minha memória. Escrever talvez seja a única forma de amenizar minhas lembranças, não que eu queira esquecê-las, mas porque escrever seja uma das maneiras que encontrei de falar comigo mesma sobre o início de minha carreira no magistério. É bom lembrar que eu estava recém-formada e havia passado no concurso para professora de Língua Portuguesa de uma escola pública municipal.
Tudo começou na sala de aula em uma turma de 2º ano de contabilidade. Eu nunca havia ensinado antes, porém assim que cheguei à escola fui direto lecionar no antigo 2º grau. Em uma das minhas aulas, fui eu ensinar um assunto da sintaxe - os termos integrantes da oração – na hora de escrever a palavra integrante, coloquei assim: intergrante. Aparentemente nada de anormal com a palavra a não ser um “R” a mais, todavia esse “R” me custou uma noite inteira de insônia e muita insegurança e tudo porque um aluno questionou o tal do “R” na palavra. O aluno dizia que não havia o “R” e eu insistia em dizer que havia. Tem “R” não tem “R” passou a ser o assunto da aula. Confesso que quando o aluno me questionou, tremi por dentro, não sabia como reagir diante daquela situação, a única maneira que encontrei foi não aceitar que o aluno dissesse que eu havia escrito a palavra errada. Estava naquele instante de sabatina, super nervosa, reproduzindo o que os antigos professores da casa recomendavam quando situação como essa acontecia. Os conselhos eram mais ou menos assim: “- olhe, não deixe aluno nenhum colocar você pra trás. Se errar alguma vez na sala de aula não dê o braço a torcer”. Essas palavras ficaram na minha cabeça. Não custou a situação acontecer. De repente, estava eu com aquele “R” indesejado na minha aula. Insisti com o aluno em mostrar que a palavra estava correta e foi ela que me fez tremer nas bases – pelo menos na época.
Mas a história não acabou na sala de aula. Eu fui para casa com o “R” na cabeça. E me perguntava no caminho da escola para casa: tem ou não tem “R”? De fato o “R” me incomodou bastante. Quando cheguei em casa, a primeira coisa a fazer foi pegar o dicionário Aurélio. Pronto. Fiquei pasma. Que surpresa desagradável. A palavra realmente não tinha o tal “R”. E agora o que fazer? A única coisa que senti foi uma tremenda angústia. Questionei, naquele exato momento, se eu deveria continuar dando aula. De tudo me passou pela cabeça. Sem falar que passei a noite toda sem dormir. A vontade que eu tinha era de nunca mais entrar na sala de aula. O meu maior medo era de ser estigmatizada pelos alunos de não saber ensinar.
No dia seguinte, fiz de conta que nada havia acontecido. A turma não questionou mais, o que me deixou mais tranqüila. Mas o tal “R”, por mim, jamais foi esquecido.
Eliete
Carvalho é professora de Língua Portuguesa em Palmares-PE.