Impressão
Sobre Mãe e Filho Saindo do Corte de
Cana
Vilmar Carvalho
“A velocidade nada nos rouba dos olhos
Nem do coração, nem do sentimento.
Mãe e filho caminhavam de enxada nos ombros.
Família sem terra, o canavial na porta da cozinha,
consumindo tudo, se alastrando pelas mãos
vazias, mãos cheias de calos
amargos para fazer açúcar;
pelo semblante da mãe sem esperança,
pelo rosto do filho, perdido num país sem fábulas,
e não tinha ele mais que dez anos!
O carro passa ligeiro. Ficou a imagem.
Além da imagem, a verdade num poema;
Que fotografa o momento: mãe e filho
Em pleno meio dia. Quando poderiam
viver aquele papel reservado para mãe e filho?
Existe entre eles ternura? Porém o sofrimento
não lhes deixa confessar o amor,
este que admitimos repartir diariamente.
Mais que isso, mãe e filho se complementavam:
ele andava na sua sombra, ela, um passo que dava,
sentia cumprir a sina de se saber mãe”.
Comentário
Os versos que aqui lemos transcendem a própria alma do poeta para nos revelar o outro lado da vida: a do inconformismo. Numa imagem quase que fotográfica, mas carregada de verdade e de realismo. Trata-se de uma poesia de caráter social, pois o poeta comunica-se com o povo, representando seus problemas. O poeta passa a ser o porta-voz do mundo, por isso, sofre, grita e denuncia as injustiças. Seu antilirismo é pujante e chega a impressionar a quem ler por sua linguagem simples e direta, além de usar o cotidiano como motivo poético. Antilirismo, versos livres, linguagem simples, direta e cotidiana são características que marcam a poesia de Vilmar neste poema.
Sem dúvida, o poema “Impressão sobre Mãe e Filho saindo do Corte de Cana” despreza o romantismo e nos leva a questionar a condição humana, principalmente, daqueles menos favorecidos e sem oportunidade na sociedade. O realismo é tanto que chega a ser confundido com a própria realidade. Assim, observa-se que a própria estética do poema caracteriza o poeta como um escritor moderno, que rompe com padrões pré-estabelecidos em troca do dizer novo e transparente.
Vilmar não é apenas um poeta de sua terra, mas um poeta do mundo, universal. O poeta e o mundo se misturam. Como neste poema que acabamos de ler, ultrapassando limites e fronteiras. Não resta dúvida que esse é um dos poemas considerado, na opinião de muitos, obra-prima do poeta.
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Eliete Carvalho é professora em Palmares-PE.