OS TEXTOS DA 5ª SÉRIE: UMA ANÁLISE DA ORALIDADE
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Através da oralidade ensinamos aos alunos as dimensões estéticas e semânticas do texto escrito.
Por Eliete Carvalho
A produção textual, nos primeiros anos do ensino fundamental, especialmente nas 5ª séries, apresenta notadamente a influência da língua falada sobre a escrita, demonstrando que a oralidade intercede o ato de escrever, concorrendo para isto, a presença de elementos conversacionais e de repetições nos textos escolares, opostamente às regras de estruturação do texto escrito, tais como o paragrafação e a pontuação pretendidas pelo currículo escolar, geralmente, a partir da 5ª série.
É muito comum observarmos textos sem parágrafos, pontuação, acentuação, além das repetições, revelando que os alunos não fazem distinção entre o texto oral e o escrito, principalmente, quanto ao modo como se estruturam e se efetivam ambas as modalidades. Por isso, os textos escritos costumam apresentar marcas que passam a orientar, segmentar e organizar o texto, na medida em que são auxiliadores à compreensão, como também ajudam no amarramento textual. Em nenhum momento, essas marcas estreitam ou prejudicam a visão que se tem da língua, antes ampliam as discussões em torno dos seus múltiplos empregos, conforme a intencionalidade de seus falantes.
Castilho (2000:55/56) diz: “quando produzimos textos, ativamos recursos lingüísticos adquiridos na infância: a LF em nosso meio familiar, e a LE na escola. A língua é uma atividade, uma forma de ação que se manifesta em toda sua plenitude no texto”.
“A gramática não é o lugar das certezas absolutas, e em classe não devemos transferir nossa capacidade de reflexão para o autor de uma gramática, por melhor que ele seja. É de todo inútil passar para os alunos o “pacote gramatical”, o famoso “ponto” de gramática cujo efeito prático será , infelizmente, afastar os educandos da reflexão. (id. ibid, pag. 22)”.
As crianças por não terem domínio suficiente das técnicas de elaboração dos parágrafos, da pontuação, da coesão e coerência textual, transportam da estrutura da fala para a escrita, os elementos interacionais que dão inteligibilidade ao texto, ou seja, a idéia de erro em virtude da presença desses elementos interacionais deve ser substituídos pela idéia de processo de aprendizagem das técnicas da escrita.
O que é visto como erro nos textos pode servir como ponto de partida, para que os professores possam ensinar aos alunos as regras de funcionamento tanto do texto escrito como do texto falado, mostrando que a língua compreende ambas modalidades.
Entre os gramáticos, a língua falada é subordinada à escrita, na medida em que somente as línguas grafadas merecem respeito. Historicamente, a fala antecede à escrita, aprendemos primeiro a falar, antes mesmo de escrever. Entretanto, a gramática ainda não reconhece os falantes como portadores de muitas das variáveis lingüísticas espalhadas pelo Brasil. O que importa para a gramática é o uso padronizado do idioma.
Os gramáticos versam o assunto oralidade e escrita de maneira dicotômica, preocupados em apresentar, esta última, como modalidade privilegiada, culta e uniforme, impingindo uma gramática codificada, que nos leva a pensar que o “saber português” requer do falante o domínio correto da língua escrita, excetuando-se outras possibilidades. O falante, portanto, corre o risco de não saber português se a fala não coincidir com a estrutura da língua escrita, conforme Cipro e Infante(1997:16):
“A gramática normativa estabelece a norma culta, ou seja, o padrão lingüístico que socialmente é considerado modelar[...]. As línguas que têm forma escrita, como é o caso do português, necessitam da Gramática Normativa para que se garanta a existência do padrão lingüístico uniforme[...]”.
Já os lingüistas vêem a língua falada e escrita como semelhante e indissociáveis, Marcuschi(1995:13) nos faz a seguinte citação: “As diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais e não na relação dicotômica de dois pólos opostos.”
Em Fávero (1999:75), encontramos:
“A respeito das distinções entre fala e escrita, verifica-se que elas revelam aspecto específico de um tipo de texto em comparação a outro e não propriamente diferenças entre as modalidades( fala e escrita)".
Fala e escrita coexistem simultaneamente, por meio da atividade interacional entre sujeitos, de onde concluímos que:
a) A língua falada e a escrita efetivam-se através do mesmo conjunto de signos lingüístico;
b) Os processos de produção textuais para a língua falada e a escrita podem ser formais e/ou informais;
c) Ambas concorrem para manifestar as relações sócio- interacionais entre indivíduos;
d) Fala e escrita representam nossa cultura, aprendidas de geração a geração e
e) Cada qual cumpre sua função comunicativa.
Apresentamos abaixo um dos textos dos alunos da 5ª série, analisado conforme a estrutura da língua falada:
( 1 ) “Um dia Dona Ana ganhou o concurso de croche aí neste concurso ela ganhou um vaso ela gostava muito do vaso, so que se o vaso caise se quebrava todinho se o vaso quebrasse Dona Ana era capaz de morre.
Uma vez Dona Ana saiu e deixou sua filha em casa, o nome da filha dela é Aparecida, quando Aparecida viu que sua mãe tinha saído, ela chamou as suas amigas pra dança, so que uma das amigas de Aparecida quebrou o vaso, Aparecida perguntou “Quem quebrou o vaso? Lúcia disse foi eu, aí Aparecida disse que iria dizer que quem quebrou foi Eduardo, so que Aparecida não sabia que Dona Ana estava olhando da janela é viu que quem quebrou foi Lúcia. Depois que todas as meninas foram embora Dona Ana chegou e disse quem quebrou o meu vaso? Aí Aparecida disse foi Eduardo, aí dona Ana disse senta aqui eu vi tudo quem quebrou foi Lúcia ela quebrou não foi Aí Aparecida disse como a senhora sabe? Aí dona Ana respondeu eu estava olhando tudo, olhe filha nunca mais minta porque isso e feio.
( L. M. S., redação da 5ª série).
No texto acima, observa-se a presença do marcador simples “aí”, que vai, progressivamente, seqüenciado a narração. Ele também vai fazendo o encadeamento das ações contidas no texto. Na mesma proporção, encontramos o marcador “só que”, funcionando como um elemento conectivo, tendo o mesmo valor da conjunção adversativa “mas”, usado para expressar uma opinião contrária sobre o “vaso”.
Notamos no texto, a repetição dos verbos “quebrar”, “disse”, “foi” e do nome “vaso”, o que nos remete dizer que o locutor foi construindo a redação tomando como referência dois termos: um verbo e um nome para sustentar o assunto explorado. Nesse caso, as repetições podem ser classificadas em alo-repetições, que por falta de outro termo para substituir ou empregar, as mesmas palavras foram retomadas, funcionam como elementos coesivos, na medida em que o que já foi dito está sendo retomado, para que o texto se desenvolva significativamente. O uso das repetições não interferiu na mensagem do texto, antes serviu para sustentá-lo. Há ausência de parágrafo e pontuação, deixando intervir a marca da oralidade no texto.
Na escola, esse texto poderia ser visto de forma negativa, pois se observa que ele foge às regras de estruturação do texto escrito, principalmente quando não aparecem parágrafos, e há a presença de repetições, como também marcas típicas do texto oral; isto porque a escola apenas valoriza o idioma culto. Qualquer influência da língua falada passa a ser erro grave, como é o caso das repetições, contudo, foram elas que legitimaram a coesão do texto.
A repetição é um excelente ponto de partida para as discussões acerca da língua, onde as marcas do texto oral podem servir de canal para as orientações sobre a estrutura do texto escrito. A escrita influenciada pela oralidade servirá também como uma atividade de reformulação textual, por intermédio dela ensinamos as regras de funcionamento do texto escrito, mostrando ao aluno, escritor ainda inexperiente, como se estrutura o parágrafo, dando importância à pontuação, à acentuação, além de irmos, aos poucos, sugerindo a redução das repetições no texto sem descaracterizá-la ou refutá-la, mas assumindo, acima de tudo, uma prática pedagógica que respeite, contemple e valorize a oralidade na sala de aula.
A respeito das repetições (Marcushi, 1996 apud Fávero) nos alerta:
“A repetição é uma das estratégias de formulação mais presentes da oralidade, podendo assumir um variado conjunto de funções. Dentre elas, podemos destacar a sua contribuição para a organização tópica e a geração de seqüência mais compreensível”.
Em um mundo polvilhado de informação através da música, da propaganda, dos bordões de programas de televisão e das emissoras de rádio, a oralidade absorve expressões, neologismo e gírias. Por isso, o professor não pode apenas corrigis esse “erro” do texto ou mesmo desprezá-lo, em nome da bela e sagrada norma culta.
Nesse sentido, Os Parâmetros Curriculares Nacionais avançam na proporção que contemplam o fenômeno da fala em diversas situações de uso da língua. É explorando a oralidade que ensinamos aos alunos as dimensões estéticas e semânticas do texto escrito. Assim, o professor pode transformar a língua num excelente ponto de partida para as discussões e reflexões em torno do universo da língua e da linguagem.
É fato, também, que quanto mais se amplia a comunicação, a interação, mais se aprende. A questão não é de oposição entre fala e escrita, mas de como ampliar e desenvolver a capacidade comunicativa do aluno. Por isso, entender isso, é condição primeira para as mudanças de posturas em relação a verdadeira concepção de língua.
Portanto, a fala é utilizada amplamente e de diversos modos pelos alunos. Cabe à escola oportunizar situações didáticas que contemplem, respeitem e acolham a fala no espaço da sala de aula, adequando-a, sobretudo, às diferentes necessidades da comunicação escrita, oral e visual do mundo moderno. Levando os alunos ao desenvolvimento de suas competências, sem que isso implique na “perda da linguagem”, visto que falar bem não significa falar adequado.
BIBLIOGRAFIA
ANAIS, do 6º Congresso Brasileiro de Língua Portuguesa. São Paulo IP – PUC, 1996.
BAGNO, Marcos. preconceito lingüístico. 2ª ed. São Paulo, Edições Loyola, 1999.
CASTILHO, A .T. A . Língua Falada no Ensino de Português. 2ª ed. São Paulo, Contexto, 2000.
CIPRO Neto, P & INFANTE, U. Gramática da língua portuguesa. São Paulo, Scipione, 1997.
FÁVERO, Leonor Lopes. Oralidade e Escrita; perspectiva para o Ensino de Língua Materna. São Paulo, Editora Cortez, 1999.
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Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa em Palmares-PE.