ONDE ESTÁ O SUJEITO OCULTO?

                                                                   Por Eliete Carvalho

                 Nas gramáticas tradicionais e nos livros didáticos, aprendemos desde cedo a fazer sintaticamente a classificação do sujeito em simples, composto, oculto, indeterminado ou inexistente. Muitas vezes, nem nos questionamos sobre tal classificação, o que vale é o que está nas gramáticas. Mas uma das classificações, trazida pela maioria das gramáticas, chamou-me atenção: o sujeito oculto.

                Segundo as gramáticas, a definição de sujeito oculto é aquele que não aparece escrito na frase, mas vem subtendido na oração. Muitas gramáticas definem também como sujeito desinencial. Exemplos como:  Fomos ao supermercado. Sem preconceito, lutemos por um mundo melhor. Oh!, querida, és minha musa inspiradora. Sabe-se quem é o sujeito, porém ele não está grafado na frase. Essa, pelo menos, é a resposta trazida por muitas gramáticas. Esses exemplos e vários outros nos dado como referência para o estudo do sujeito oculto, infelizmente, deixa muito a desejar. Primeiro as frases têm sujeito; segundo, sabemos quem praticou a ação; terceiro, o sujeito está claro (nós) e (tu). Mas o que quer dizer está oculto? O sinônimo de oculto é: escondido ou camuflado. Não há razão para defender esse tipo de sujeito, pois algo que está escondido não aparece, o que não é o caso dos exemplos acima.

                Ora, só há três tipos de sujeito: o sujeito determinado (simples e composto), o indeterminado e o inexistente. Onde está o sujeito oculto? Esta é uma pergunta que me faço desde o tempo em que estudava na Faculdade. Até hoje eu procuro entender por que os gramáticos insistem com esta classificação, que, no meu entender, não tem consistência alguma. Por que o sujeito é oculto? Como pode ser oculto se o identificamos na oração? Perguntas como estas, as gramáticas não estão aptas para responder, e o professor muitas vezes não tem onde recorrer, pois a maior parte das gramáticas traz as mesmas definições como também os mesmos exemplos. Isso implica dizer que são verdadeiras réplicas. Neste sentido, as gramáticas tende a ser exaustivas, mais ainda, fazem uso de classificação duvidosa, como é o caso do sujeito oculto. 

                 Nas frases acima, verificamos que o sujeito está claro. Ele mereceria, sem dúvida, ser classificado em sujeito simples. Até porque o sujeito está presente na frase. Quando fazemos perguntas para descobrir quem é o sujeito, não há dúvida alguma. O sujeito aparece. Mas quantos de nós, professores, ajudamos os nossos alunos a refletir sobre o que está sendo ensinado pelas gramáticas? Acredito que quase nenhum. O que fazemos infelizmente é mostrar ao aluno o chamado “pacote gramatical sem nenhuma reflexão. Como se a gramática fosse o lugar absoluto das certezas.

                O que estou discutindo aqui muitos professores podem até questionar, mas a intenção é mostrar que há muitas definições e exemplos de natureza duvidosa nas gramáticas. Portanto, cabe ao professor, usuário assíduo das gramáticas, o papel de investigador. Só assim faremos de nossas aulas de português, o ponto de chegada para o exercício do pensar crítico.

Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa em Palmares-PE.

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