Ensino de Língua Portuguesa para quê?

                                                                                                                    Por Eliete Carvalho

                    Como professora de Língua Portuguesa do ensino Fundamental e Médio, venho, ao longo do tempo, questionando-me sobre a veracidade do ensino de Língua Portuguesa nas escolas. Percebo que o ensino da língua materna continua ainda centrado no ensino na gramática, completamente distanciado das reflexões, das análises e das reais necessidades dos alunos, onde são dados conceitos, regras e mais regras, exemplos que muitas vezes nem são questionados, nem mesmo contextualizados e, na maioria das vezes, eles não contribuem em nada para despertar o raciocínio crítico dos alunos. O que normalmente se vê, é o ensino de português desvinculado do exercício do pensar. Isso tem levado uma legião de estudantes a não compreender o porquê do ensino de português durante sua trajetória escolar. Muitos têm pavor à disciplina como também ao professor que a leciona, afinal de contas, é ele que termina aprovando ou reprovando o aluno no final do ano, ou seja, toda responsabilidade a respeito do sucesso ou insucesso fica nas suas mãos, quando outras disciplinas se ausentam. Cria-se um pânico ao ouvir falar da disciplina, todos têm medo.

                 Essa relação conflituosa entre professor/aluno que se cria na escola a partir do método de como é ensinada a língua portuguesa é tão frustrante que a cada dia que passa os alunos vão acreditando que, de fato, não sabem português e, por isso, terminam negando sua própria identidade lingüística, principalmente, quando não são capazes de se reconhecerem como falantes natos do idioma

                 Quando escuto um jovem ou uma jovem dizendo que não consegue aprender português porque é uma língua muito difícil ou que não se sabe falar português, fico preocupada com suas declarações, pois por trás de seus discursos (mesmo que o jovem ou a jovem não saiba) está toda uma ideologia dominante e preconceituosa que vem sendo reproduzida na sociedade sem nenhum critério.

                   Ora, pra que serve o ensino de língua portuguesa? Para aprendermos gramática apenas? Para nos afastarmos daquilo que somos? Ou para negarmos nossa identidade? É assim que se repete a cultura detentora do poder, aquela que acredita, infelizmente, que uma minoria no país é que sabe português e, que, por isso é culta ou letrada.

                   À medida que o tempo passa o preconceito cresce mais. Já virou até lugar-comum, ninguém mais se incomoda ao ouvir, por exemplo, que “português é difícil”, “poucos sabem”, ”que o Sul fala melhor o português”, “que nordestino não sabe falar”, etc.

                   É preocupante a visão que se tem da língua. Vejo que o ensino da língua portuguesa nas escolas pouco faz para esbarrar muitos dos mitos no tocante à língua, antes contribui para sua proliferação. Desse modo, os alunos absorvem o preconceito muito facilmente, sem refletirem o que estão dizendo.

                 É bom lembrar que os alunos,de certa forma, estão apenas reproduzindo o que lhes foi ensinado, quando tais equívocos prevalecem. E aí me preocupo muito com esta questão, uma vez que os alunos não estão sendo preparados para valorizar a língua enquanto como instrumento de cultura. São seres passivos do preconceito lingüístico. Se alguém lhes disser que não sabe português, não acontece absolutamente nada. Ou seja, nenhuma manifestação de defesa da língua, seria como se os alunos não se considerassem usuários dela. Isso, ao meu ver, é que está errado. Aprender só gramática não basta, é preciso ensinar aos alunos a importância que tem a língua para a construção e transmissão de nossa cultura, porque ela é a própria cultura. É por meio dela que nos identificamos, diferenciamo-nos de outros povos. Desta maneira, a língua precisa ser valorizada, defendida enquanto instrumento cultural de um povo. Compreender isto, significaria uma mudança de postura em relação à maneira como a língua deve ser tratada. Quem nasceu no Brasil e não se reconhece falante da língua portuguesa, está, naturalmente, negando a sua história, desconhecendo sua identidade lingüística, negando ainda a si próprio.

Há concepções erradas acerca da língua, isto porque se criou um rótulo de que o “português é difícil”. Essa visão errônea, muitas vezes, reforça a idéia de que é complicada, difícil, que ninguém consegue aprender e, por aí vai crescendo o círculo vicioso. Noto que o estudo da gramática é o que prevalece, enquanto que as reflexões sobre a língua são deixadas de lado. Desta forma, fica difícil fazer os alunos entenderem a sua importância, como também, saberem porque estudam e porque têm que defendê-la. Vale salientar que o ensino da língua portuguesa não deve baseasse apenas na memorização de regras gramaticais, como se ela fosse um produto acabado. É essa visão acabada e pronta que devemos questionar sempre.

Neste sentido, faz-se necessário resgatar a autoconfiança dos alunos e desafiá-los a pensar, requisitos importantes e prioritários dentro de ensino da língua materna, pois só assim conscientizaremos os jovens de que são eles os verdadeiros usuários da língua e que são capazes de falar sem preconceito e escrever com eficácia e originalidade. Mais ainda, precisamos incentivá-los a valorizar a língua, porque é através dela que conseguiremos nos entender no mundo enquanto sujeito, compreendendo melhor a realidade a nossa volta, caso contrário não valerá a pena estudar a língua pelo prazer de decorar regras. Ninguém aprende a dominar uma língua por imposição, principalmente se não tomar consciência de que ela é um instrumento poderoso na luta contra as desigualdades sociais. 

                  Por isso, proponho que o ensino da língua antes que se prenda a regras gramaticais seja libertador, que, de fato, possa contribuir para que os jovens reflitam sobre o seu papel na sociedade enquanto fazedores do mundo. Para isso, precisamos  torná-los seres atuantes, críticos e independentes, mostrando, acima de tudo, que no dia em que eles forem capazes de se reconhecerem falantes natos, e que a língua é um instrumento de poder. Aí, sim, estaremos todos prontos para enfrentarmos a luta contra qualquer tipo de preconceito. Por isso, o ensino da língua portuguesa deve considerar, antes de tudo, a riqueza de nossa identidade lingüística, e é na sala de aula que devemos discutir sempre sobre nossas raízes; a língua é uma delas.

Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa na cidade dos Palmares-PE.

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