Ele que era ela

Por Eliete Carvalho

                  Nas as aulas de redação, que aconteciam todas as quintas-feiras, a professora sempre avisava:  -Coloquem seus cadernos em dia, pois passarei visto em todos quando marcar a data. Quero ver todas as anotações e redações.

Acontece que a maior parte dos alunos, principalmente aqueles desligados, distraídos, que se escorram, não estavam nem aí com os seus avisos. E ela sempre estava escutando:

-Não trouxe caderno. Esqueci de anotar. Não tenho caderno.

E ela continuava avisando.

                   O tempo foi passando. Muitos achavam que a professora não iria mais dá o visto. Assim não deram a mínima.

E ela continuava avisando.

Os seus avisos deixavam alguns incomodados, irritados, pois a professora sempre estava batendo na mesma tecla. De repente sai a pergunta:

-Professora, por que só existe redação com a senhora? Nas outras salas eu não vejo falar que tem?

A professora então explica tudo direitinho. Mas os alunos continuaram desinteressados. Ninguém ainda tinha sido obrigado, apenas avisado.

E ela continuava avisando.

Um dos alunos da sala que raramente acompanha as atividades e que tem o hábito de faltar quer ser compensado mostrando o seu caderno organizado. Faz de tudo para mostrar a professora que está mais atento às aulas, e avisa:

- Professora, estou atualizando meu caderno!

A professora desconfia do interesse repentino. Mas tudo bem. Ele então passa a atualizar o seu caderno. Como ele não tem anotação nenhuma, tomou emprestado o caderno de sua amiga. Até aqui tudo bem. Ninguém desconfiaria de que ele não tivesse feito as suas redações. Mas como mentira tem penas curtas, descobriu-se que ele não era ele, na verdade, era ela.

Numa das aulas, a professora resolveu dá os vistos mesmo sem marcar a data. E avisou: - quem estiver com o caderno, mostre-me. Começarei a dar os vistos. Assim o fez. A primeira redação solicitada foi uma autobiografia.

O aluno fez questão de mostrar o seu caderno. Colocou-o no birô junto a outros cadernos. A professora passa a corrigir. Na autobiografia nenhuma novidade se não fosse os dados trocados. Ela corrige achando que o caderno é de uma aluna. Folheando as outras folhas do caderno, a professora resolve chamar a dona do caderno e o nome era... Fulana de tal. E o aluno respondeu:

- Esse caderno é meu, professora.

E a professora não entendeu. Então falou:

- Eu chamei fulana de tal...

Foi aí que a professora descobriu que ele havia copiado todas as anotações do mesmo jeito que estava no caderno de sua amiga, inclusive, o seu nome com todos os seus dados autobiográficos.

A professora ficou surpresa e indagou:

- Quer dizer que você é fulana de tal...?

Ela fez questão de ler a autobiografia para sala toda. Fulana de tal, pai... mãe... nasceu... mora... Toda a turma caiu na gargalhada. E por uma noite ele virou ela. 

E a professora continuou avisando.

Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa na cidade dos Palmares-PE.

Hosted by www.Geocities.ws

1