DESMISTIFICANDO O PRECONCEITO:

PORTUGUÊS É MUITO DIFÍCIL

                                         A língua é também nossa cultura (Grimm)

                                                                                                                                                              Por Eliete Carvalho

  O mito reproduzido pela sociedade de que português é muito difícil cada vez mais se prolifera, ganhando adeptos por todos os lados, principalmente entre alunos e professores. Essa concepção preconceituosa reflete muito bem a visão que se tem da língua, pois ela emerge da lógica de um outro preconceito o de que brasileiro não sabe falar português. Daí a necessidade de justificação, não se sabe falar português porque é uma língua muito complexa, cheia de pegadinhas, enfim de que português é muito difícil. Será mesmo? Será que não se confunde língua com gramática?

     Quando falamos de língua, temos que ter todo o cuidado para não fazermos confusões entre língua e gramática, pois a língua que falamos, aquela que aprendemos desde cedo com os nossos pais, e a que aprendemos na escola continua sendo a mesma: a portuguesa. Mas, para muitos, a confusão é feita por conta da ditadura da norma culta, cultivada pela escola e reproduzida pelos diversos manuais de gramáticas, na medida em que são as gramáticas que distanciam as reflexões em torno da língua, ou seja, para se aprender bem português o cidadão tem de conhecer de gramática. Caso contrário, estará sujeito às piadinhas maldosas daqueles que, simplesmente, usam a língua para excluir, tachar ou mesmo discriminar. Esses comentários desnecessários não se fundamentam em nenhuma teoria, que prove que a língua portuguesa é difícil. Sendo assim, como explicar que uma criança antes mesmo de freqüentar a escola já domina tão bem a sua língua materna, na medida que constroem frases ordenadas, interagem com os outros, isto é, já sabem as regras básicas de funcionamento dela. Ninguém pode discordar que uma criança nascida no Brasil não fale português, o que está em jogo não é a língua e sim a dicotomia entre língua e gramática.

       Marcos Bagno (1999:36) nos alerta:

      Toda e qualquer língua é fácil para quem nasceu e cresceu rodeado      por ela! Se existisse língua difícil, ninguém no mundo falaria húngaro, chinês ou guarani, e, no entanto, essas línguas são faladas por milhões de pessoas, inclusive criancinhas analfabetas!

       Nessa citação, encontramos a razão de ser do título, visto que não tem razão de existir, pois, apesar das crenças populares, é notório que todo brasileiro é conhecedor de sua língua mãe. Desse modo, fica evidente que não se pode discriminar um falante da língua portuguesa em detrimento do uso padrão do idioma.

       Mas, infelizmente, é no universo escolar onde o preconceito cresce. Os alunos esbarram-se com a ditadura da norma culta, e de uma hora para outra, têm de abandonar sua linguagem, refutando a linguagem de seu grupo social, de sua comunidade, enfim sua identidade lingüística. Muitos preferem nem falar no espaço escolar com medo de que sua linguagem seja estigmatizada como incorreta ou feia, sendo corrigido na frente de outros colegas, além de serem tachados de que não sabem português.

       O mito português é muito difícil não é fácil de combater, pois, basta apenas conversar com qualquer pessoa, inclusive, professores, ou pessoas de renome, a respeito da língua portuguesa que a resposta é a mesma: poucos sabem, é preciso estudar muito para dominá-la. Se fôssemos considerar tais respostas quem nunca estudou não mereceria respeito algum a sua cultura. Essa cultura preconceituosa sempre existiu, desprestigiando ou negando aqueles que são usuários natos da língua. Bagno chega a falar que existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso à língua padrão, por não terem oportunidade de estudar, ou seja, seria no dizer dele, os chamados de sem-línguas. Se não têm acesso à norma culta, portanto, não sabem português. As próprias gramáticas normativas enfatizam o preconceito. Nelas, encontramos uma série de definições que cultuam o mito do português difícil, só quem tem cultura é quem merece confiança, respeito, por conseguinte, sabe português.

      Em Cegala (1998:16), encontramos em sua introdução a seguinte definição: Este livro pretende ser uma gramática da Língua Portuguesa do Brasil, conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na época atual.

       O falante tem de falar e escrever corretamente a partir da gramática. Concepções desse tipo, a maioria das gramáticas reproduz constantemente. Não sabemos quem são as chamadas pessoas cultas. É de se questionar tal definição, pois imagino que concepção desse tipo tenha contribuído e se reproduzido ao longo do tempo, criando adeptos de geração a geração.

    As gramáticas, ao meu ver, tornaram-se um instrumento de poder nas mãos daqueles considerados cultos, que se valendo das concepções trazidas por elas, alimentam o mito do português é difícil. E o interessante é que muitos nem sabe por que o fazem, traduzem apenas o que lhes foi ensinado. Desta forma, o mito encontra raízes e cada vez mais se multiplica.

       Existem vários tipos de preconceitos como o social, racial e cultural, mas o lingüístico, sem dúvida, é o que mais fere, pois ele nega a cultura do indivíduo, melhor dizendo, sua própria identidade cultural. Muitas vezes passa até despercebido, inclusive, entre aqueles que trabalham com a língua materna.

       A escola deve se livrar do mito do português é muito difícil, haja vista que esse tipo de mito leva muitos jovens e adolescentes a perderem o interesse pela sua própria língua.  O que a escola não admite, muitas vezes, é que está contribuindo com o preconceito lingüístico, desconhecendo os vários níveis da língua e afastando as verdadeiras discussões acerca da língua. Assim, os alunos são discriminados como detentores da chamada linguagem deficiente ou deselegante, como nos diz Soares (1999:38).

       O preconceito lingüístico, portanto, deve ser evitado, pois se alimentarmos esse mito, estaremos contribuindo com a ideologia da classe dominante, ou melhor, com aqueles que detentores da norma padrão da língua discriminam o falante nato. A questão não é discutir se o português é difícil, mas de como ensinar aos seus falantes a valorizar, defender e cultivar o seu idioma enquanto instrumento de cultura. Ora, se cada vez mais acharmos que a nossa língua é difícil e que ninguém sabe falar, então estaremos negando nossa história. Não é a língua que tem armadilha, mas sim a gramática normativa tradicional que as inventa precisamente para justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável (Bagno, 1999:39).

 

BIBLIOGRAFIA

CEGALA, Domingos P. Novíssima gramática da língua portuguesa. 33ª ed. , São

      Paulo, Cia. Editora Nacional,1990.

BAGNO, Marcos. preconceito lingüístico. O que é, como se faz.  2ª ed., São

      Paulo,  Edicões Loyola, 1999.

SOARES, Magda. Linguagem e Escola. 16ª ed. , São Paulo, Ática, 1999.

PERINI, Mário A . Sofrendo a Gramática. São Paulo,  Ática, 1997.

 Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa na cidade dos Palmares-PE.

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