CONTRIBUIÇÃO À PEDAGOGIA DE PROJETO

 O que cria de fato um projeto é a discussão, o debate coletivo, e,

 no meio do debate, a ação.                                                                                                                            Por Eliete Carvalho

          As mudanças ocorridas no sistema educacional brasileiro têm nos levado a pensar e discutir sobre os novos desafios que a escola terá de enfrentar nesse início de milênio. Para isso, vêm contribuindo incisivamente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e os Parâmetros Curriculares Nacionais, abrindo caminhos para as inovações, tendo como meta um projeto de educação inserido no contexto internacional da chamada globalização.

A escola, ao longo desses últimos anos, tem discutido sobre sua autonomia como também redefinindo o seu papel, na perspectiva de adequar-se às novas exigências de sociedade e de mercado. Nesse sentido, é imprescindível pensar a educação situada a um contexto sociocultural, econômico e político.

A pedagoga Sônia M. Bitencout (Exame, 2001) nos alerta sobre o grande papel da educação hoje, quando diz: “O grande desafio da educação é ensinar a pensar”. Assim sendo, precisamos de uma escola que ensine a pensar, formando cidadãos críticos capazes de interagir com o mundo, mas, principalmente, que arrisque, tente e busque novos conhecimentos, enfim, que atue de fato e que exerça sua cidadania.

Para isso, é necessário construir uma escola que leve os adolescentes a sentirem prazer em estar nela, mas, sobretudo, que eles possam construir seus próprios conhecimentos, mais ainda que sejam autônomos. Assim, oportunizar as crianças e os jovens ao conhecimento, a reflexão e a participação interativa é tarefa da escola. Se pararmos para pensar um pouco mais sobre o que nossos jovens andam fazendo quando estão na escola, sem dúvida, a resposta será imediata: quase nada. Quase nada porque lêem pouco, pesquisam muito, mas de forma dispersa, não aproveitada, não planejada. Isso tem gerado muita polêmica entre os professores, isto porque, alunos desinteressados, que não realizam atividades ou mesmo que são incapazes de aprender, geralmente são “mal vistos” dentro do próprio espaço escolar. Por que nossos alunos não querem nada? Será que a escola não está atendendo às suas expectativas?

O modelo de sociedade que está aí, desenhado com todos seus entraves, decorrido de um processo de globalização que cada vez mais leva os jovens ao desespero e a não terem perspectivas de futuro, na medida em que não consegue resolver a questão do desemprego, da fome, da moradia e tantos outros problemas sociais gritantes que afligem a maioria da população brasileira, tem, sem dúvida, contribuído para o insucesso de muitos estudantes. Essa agressão social é uma das causas principais da crise educacional de nossos dias. Chegamos até a pensar que a escola está significando muito pouco para os jovens, visto que muitos dos problemas surgidos na escola transcendem ou extrapolam seus limites.

Pensando nisso tudo, e depois de ter participado do 1º encontro sobre Pedagogia de Projetos, encaminhado pela Secretaria Municipal de Educação, resolvi pensar e repensar mais um pouco sobre o que de fato significava para mim, como professora de Língua Portuguesa, do ensino fundamental, esse projeto. Na  perspectiva de contribuir para as discussões em torno da Pedagogia de Projetos.

A Pedagogia de Projetos tornou-se nesses últimos anos uma das alternativas viáveis para as reais necessidades de aprendizagens do educando, isto porque se tem levado um maior número de professores a rediscutir sobre sua prática pedagógica, questão que considero primordial para todo educador. Lendo Freire (1997:44) encontramos: “É pensando criticamente a prática de hoje e de ontem que se pode melhorar a próxima prática”.

Partindo dessa citação, tornar-se fácil compreender por que a prática pedagógica é objeto permanente de discussão. O professor que ensina deve compreender que sua prática pedagógica só será verdadeiramente útil se for capaz de estimular a inteligência coletiva de seus estudantes, mais ainda, deve sentir-se sujeito da ação pedagógica. O educador conscientizado do seu papel re-direciona suas atividades pedagógicas quantas vezes forem necessárias.

Como bem sabemos a Pedagogia de Projetos não é de hoje, desde o início do século XX, que se discute a respeito de sua contribuição ao processo de ensino-apredizagem. Surgiu com o educador e filófoso Jonh Dewey, com a chamada “Pedagogia Ativa”. Ele foi o introdutor e responsável por uma nova concepção pedagógica que considerava, já no século passado, o aluno como sujeito de seu próprio conhecimento. É dele esse pensamento:“A educação é um processo de vida e não uma preparação para a vida futura. A escola deve representar vida presente. Tão real e vital para a criança como o que ela vive em casa, no bairro ou no pátio” (1964 p.430).

   Seu pensamento muito contribuiu com o movimento de educação progressista. Já nessa época, foram feitas as primeiras referências ao trabalho de projeto como postura pedagógica inovadora. Nessa perspectiva, a postura pedagógica utilizada e realizada a partir da pedagogia de projetos dá legitimidade às práticas pedagógicas, na medida em que tudo parte da situação problema para busca de situações didáticas que vise solucioná-la. Para isso, todos dentro da escola vão desejar envolver-se com o projeto. O aluno é o condutor do processo, pois é através dele que a escola projetar-se-á para resolver as situações problemas, considerando e respeitando o que os alunos desejam saber, conhecer e descobrir. 

“A Pedagogia de Projetos visa à re-significação desse espaço escolar, transformando-o em num espaço vivo de interações, aberto ao real e às suas múltiplas dimensões. O trabalho com Projetos traz uma nova perspectiva para entendermos o processo de ensino-aprendizagem”. (Leite,1996: 8).

 Em Almeida (2000:22) encontramos: Os projetos são assim porque abrem uma brecha naquela coisa meio morna do dia-a-dia da sala de aula. Criam possibilidades de ruptura por se colocarem como espaço corajoso, no qual é possível unir a Matemática à Biologia, a Química à História, a Língua Portuguesa à formação de uma identidade cultural”.

No meu entender, a Pedagogia de Projetos oferece ao professor condições para que ele revitalize o cotidiano escolar materializando e sistematizando coletivamente as atividades escolares, entendendo que o aluno é a coisa mais importante no processo de ensino-apredizagem. É ainda a forma de se valorizar a criatividade dos alunos, resgatando a identidade tanto do aluno como do professor, já que são sujeitos de todo processo de ensino. Mas para que tudo isso aconteça, é preciso mudar a postura da escola em relação ao modo como pensa suas atividades pedagógicas. Isso também implica na mudança de postura do professor. Ele precisa estar aberto às discussões, às trocas de experiências e envolver-se com o trabalho interdisciplinar, sem esse tripé fica difícil qualquer tentativa de mudança. O que cria de fato um projeto é a discussão, o debate coletivo, e, no meio do debate, a ação. Deve ser entendido como processo, nunca como um fim, pois pode ser repensado e modificado de acordo com as necessidades da escola, da turma, dos professores, enfim da comunidade escolar.

Ainda com relação a Leite (1996:9) ela nos fala: 

“Um projeto gera situações problemáticas, ao mesmo tempo, reais e diversificadas. Possibilita, assim, que os educando, ao decidirem, opinarem, debaterem, construam sua autonomia e seu compromisso com o social”. 

O que é interessante ressaltar nessa citação é o envolvimento do aluno no projeto, visto que eles tomam decisões, fazem escolhas, executam e vão adotando estilos, comportamentos de acordo com seus gostos e interesses. Os alunos são capazes de perceber-se como sujeito. Nessa perspectiva, o projeto nada mais é do que uma atividade direcionada, onde se acompanha passo a passo toda produção dos alunos.

As experiências pedagógicas divulgadas por escolas que trabalham com a pedagogia de projetos revelam muita autenticidade, criatividade e transparência, tudo que é projetado passa a ter um significado novo, isto porque, a forma como se realizam as atividades não são individualizadas. Os conteúdos trabalhados ganham vida, porque não são vistos isoladamente, mas integrado a um conjunto, ou seja, conectados a outras disciplinas, gerando um esforço coletivo na construção do conhecimento.

Portanto, inovar, criar, experimentar é, pois, desafio importante para a construção de uma escola que seja capaz de perceber que o trabalho em conjunto pode gerar sua autonomia. Os projetos criam possibilidades para a escola, evitando que o cotidiano escolar não seja engolido pela mesmice do dia-a-dia. E o mais importante é que ela estará preparando não apenas para vida futura, mas para a vida presente, real. Percebe-se, assim, a importância da Pedagogia de Projetos não só como inovadora, mas como possível de acontecer. Basta que se tenha o olhar sensível do educador, projetando-se para um novo jeito de caminhar.

 Bibliografia

ALMEIDA, Fernando José de. JÚNIOR Fernando Moraes Fonseca. Projetos e      Ambientes   Inovadores. Ministério da Educação. Brasília, 2000  

DEWEY, John Democracy  and       Education.  N. York: Macmillan.1916/1964. 

EXAME, Revista. OLIVEIRA,  Sônia  Maria  Bittencourt de. Escola serve para  quê? Texto xerocado. 2001. p. 134 . 

FREIRE,  Paulo. Pedagogia   da  Autonomia:  saberes  necessários  à   prática educativa. São Paulo, 1997.

 Eliete carvalho é professora de Língua Portuguesa na cidade dos Palmares-PE.

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