Cidadezinha
palmarense
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Por Eliete Carvalho
Quero
começar minha crônica dizendo que às vezes penso alto e que quando estou à
frente de um computador sinto um desejo enorme de desabafar, de escrever. São
várias as noites que sinto esse desejo. Hoje senti mais um. Pediria, portanto,
ao leitor, desta crônica, que respeitasse o meu ponto de vista sobre o olhar da
cidadezinha palmarense.
Primeiro começaria explicando o título “Cidadezinha palmarense”, que me lembra muito um poema de Drummond, chamado “Cidadezinha qualquer”. O poema faz exaltação à monotonia da cidade e à falta de acontecimento. Tudo nela caminha muito devagar. Lendo o poema chegamos até a imaginar o tédio que é morar em cidade do interior. A vida chega a ser besta, uma pasmaceira total.
Na cidadezinha palmarense, acontece a mesma coisa, ou melhor, não acontece nada. E não me venham pedir para tirar os óculos da cara porque respeito é bom e eu gosto. Nada mudou. Tudo continua como antes. Melhor dizendo, como nunca se viu antes. Parece até que na cidadezinha não existem mais pessoas que pensam, que têm sonhos, que têm vontades, que têm o direito de concordar, discordar, de ir e vir, ou, até mesmo, o direito à liberdade de expressão. Se alguém se manifestar contrário à cidadezinha, corre o risco de desobedecer a sua majestade, o Rei.
Mas tudo na cidadezinha palmarense é um disse-me-disse, é um leva-e-traz. É porque fulano disse isso e sicrano disse assado. Aí começa a caça às bruxas. Ai daqueles que não concordarem com o rei. Vão direto ao purgatório sem chance de defesa. Como se as pessoas não pudessem pensar diferente. Sem falar ainda dos pequenos reizinhos espalhados pela cidadezinha, todos com plenos poderes do rei. Isso, diriam os mais antigos, só pode ser coisa de cidade pequena mesmo. Eu, particularmente, desconheço alguma cidade grande em que haja reis. O tempo da monarquia já passou. Já estamos a mais de cem anos do sistema monárquico. Mas por que será que a cidadezinha palmarense ainda não acordou? Será que o reinado é bom? Penso, cá comigo, que não encontrarei resposta tão cedo para a pergunta, pois, na cidadezinha, as pessoas têm medo de falar.
Assim, caro leitor, acontece também em outras cidadezinhas por aí afora, o cenário catatônico é sempre o mesmo: existe um rei, o rei é o detentor da verdade. Ele está acima de qualquer suspeita. Só ele faz, só ele desrespeita, só ele manda e desmanda, e a cidadezinha vai, infelizmente, caminhando... caminhando... caminhando, como se nada acontecesse.
A cidadezinha palmarense não é diferente das demais. É incrível a cidadezinha palmarense. Ela está sempre pronta para receber um novo F U X I C O. Aguarde o próximo.
Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa em Palmares-PE.