CHÁ DE BÚSSOLA

POEMAS FEITOS NO OCIDENTE

EPICURO SOARES

NÁRTEX 

 Repousa a angústia na minha face.

 Uma arquitetura me socorre.

 Palmeiras riscam as janelas,

enquanto balem os sinos dessa igreja! 

Onde estou, meu Jesus?

Mulheres me fazem perder.

Não consigo atravessar o pórtico,

a tempo de segurar seu braço! 

Mais uma vez estou perdido...

O rosto completamente esquecido;

somente a lembrança de um lenço! 

Ele aflora em meu cérebro,

a impaciência

que sustenta a lembrança

de toda ruína e desgraça...

E pergunto: 

Por que estás à deriva, amiga criatura...

Além desse vestíbulo escuro?

Mas não há resposta, não há tempo de viver.

 

SIGNA

Jamais estive em um campo de guerra,

 Mesmo empunhando algumas

 bandeiras.

Caminhei por cadáveres e incêndios,

buscando nosso País chamado Você! 

Uma terra que avança e se afasta.

Uma campina que ilumina e escurece,

onde milhares de pássaros flanam

uma aquarela que parece com o céu! 

Na brincadeira de nossas mãos delicadas,

cruzam-se os raios de uma bandeira

onde a estrela sempre está encarnada... 

E Você assume muitas formas de paciência,

é o País das grandes caravelas no porto,

uma aquarela que parece com o mar! 

O desencanto avança sobre os marujos;

empunho a flâmula que os convida a navegar...  

Uma aquarela que parece com o céu!

Uma aquarela que parece com o mar!

 

VIXIT

 O grande poeta morreu.

 Descem seu corpo na tumba.

 Catam seus versos

nos aposentos do Liceu.

Naves se esgotam de espaços; silêncios avisam:

O grande poeta morreu! O dia transborda... 

Raízes tremem profundas; relíquias adormecem.

Um amigo cai na calçada. A amada perdida

ronrona como uma felina nos tapetes da Pércia...

Sem saber que solidão toma suas garras: 

Elas não podem prender o vento do Atlântico! 

O grande poeta morreu. Reinam os caprinos.

Suas flautas, cascos e intrigas...

Derrubam o dourado do sol nas folhas de uva! 

Cai no canto remoto do jardim uma chuva;

pequenas pedras finalmente se deslocam

e sabem que séculos admirarão essa viagem: 

Elas não esqueceram os versos de Epicuro Soares.

v


Chá de Bússola: Poemas Feitos no Ocidente  (2005)

Epicuro Soares ( Vilmar Carvalho)

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