Ascenso foi ao cinema
José Carlos Acre










Primeira Parte: Aníbal estava no cinema, no dia em que tudo desaconteceu.
Quando Ascenso Ferreira ainda não era Ascenso,
Aníbal se chamava.
Ele meio histérico controlado foi ao Cinema,
a coisa mágica!
Uns acendiam cigarros, outros suspiravam, outros vidravam cada detalhe
daquela estória de vingança, amor e sangue...
Ascenso, nosso herói, cosmopolita nas beiras do mundo,
assistindo aquele bang-bang mudo, provinciano soltava um flato
cor de chumbo,
que misturado à luz do cinema, na hora do enforcado, floria
posto que era poesia de tripas parnasianas...
Aptas ao insípido desafeto: para a glória de todos,
nem fedia, nem cheirava...
Ascenso desconfiado, açoite de sangue nas faces,
fixava os olhos naquele vaqueiro enforcado:
um inocente texano?
o responsável pelo tiro nas costas do xerife Jack Logan?
um trágico, tolo e covarde?
O cinema possuía uma linguagem,
enquanto Ascenso soltava gases discretos,
para transtornar seus vinte anos de idade.
Segunda Parte: No cinema, descobriu o Ascenso e transformou-se.
Ascenso, naqueles idos, um chato.
Pensava Parnaso, luxúria grega,
morbidez católica, sacarose romântica
de engenhos condados
e seus donos, uns loucos pelo progresso,
fechados em cismas anticomunistas:
“ Pedaço de chão?!
Essa gente precisa de uma surra!!!
Isso sim.”
No ritmo das máquinas da Western,
poderosas senhoras inglesas
rasgando o canavial...
O Moderno não sensibilizava,
os senhores da terra massapé!
Ascenso olhava o vaqueiro dependurado
e o verdadeiro assassino
com aquele leve e cínico sorriso!
O Cinema era movimento,
um Poeta poderoso,
cheio de luxúria insinuada, fetiches;
de morbidez pagã, diabólica;
de poesia muda
com frases curtas...
Sentindo corda, pescoço,
a inquietante angústia
de perder tudo!
Tesouros...
Que tesouros?
Haveria poesia muda
fora da película?
Película cinematográfica
do patrocínio de gentis senhoritas,
para fundos do Clube Literário...
onde Ascenso escondia
futuros arrotos
de um depravado Deus Baco...
Aquela película
pareceu-lhe despertar:
De gentis senhoritas, sem pudor o beijo.
Com pudor, o silêncio das anáguas
E a fricção dos joelhos...
Tudo adornava aquela imagem
em preto e branco,
saindo da luz sólida e enfumaçada !
Tudo... até que um dia...
Haveria tesouro de poesia
escondido aqui na província?
Interrogação que batia-lhe
o peito engomado de almofadinha...
Terceira Parte: Depois, Ascenso Ferreira transformou-se no modernista.
Dias depois, convicto da ignorância
de ficar escrevendo sem imaginação
e andar com titica na cabeça,
lembrava do flato sem graça,
das flores pálidas de Bilac,
dos contemporâneos do Clube Literário
fazendo do dicionário um Atlas,
para chegarem à ilha-palavra
de significado chamado “dínamo”,
idéia poética de acender o século...
Estrondoso raio azul, caiu-lhe na cabeça:
um choque térmico depois da febre,
a enchente do Rio Una na vazante...
Despertara depois de um eclipse
da lua segundo Júlio Verne...
É que a poesia muda estava ali:
o tesouro de gente comum,
situação comum, folguedos,
festas, novenas, causos, dramalhões,
cordéis, bichos exóticos e títeres do canavial...
O choque do moderno
e os tipos acostumados com o “já!”
de beber, comer e descansar
depois de safadezas sutis...
De safadeza em safadeza
tornou-se anti-herói,
histérico-histérico, gordo debochado,
de palavras e versos
“atores” de marca registrada.
Grande como uma lua
debaixo daquele sombreiro:
a pose de Baco
misturada com a de um xangô,
conhecedor das pancadas do frevo...
Conhecedor dos ensinamentos
de um sabido mestre Carlos!
Quarta Parte: Assim, Ascenso Ferreira descobriu o nordeste.
Assim, Ascenso tornou-se Ascenso,
Ascensão meio tonto voltado à rapsódia.
Meio lúdico, voltado à sonoplastia...
dos movimentos bruscos!
Meio devaneio, voltado à percussão!
Invisíveis tambores na aba daquele chapéu,
Para revelar nome conhecido
da gente desconhecida dos cafundós do nordeste:
xenhenhém, xiquexique, oxente!
Carnaval na deselegância da cintura.
Criatura inventada no batuque deletério,
assistiu outras farras, outros vôos do irmão cinema,
acalentando seus inventários da aldeia nordestina...
Já havia sinais de morte no bumba, bumba-meu-boi.
Morte no pastoril, na cantoria, na ingênua quermesse.
Havia sinais de uma draga
para devorar os acontecimentos bestas.
Máquina de desacontecer besteira,
acontecendo outras coisas no ritmo da novidade tecnológica:
O cinema ganha fala-linguagem,
fala em língua enrolada,
com legenda rápida,
capaz de desacontecer
o pensamento inteiro
e a imagem vorazmente vencer...
A maior idade da sétima arte de convencer:
Tudo pode o Cinema,
tudo faz acontecer
quando reinventa o som,
o inesperado, o susto...
O mocinho, a heroína;
o boi derrotado;
todo pálido, resignado
para sofrer...
a cantoria, bocejo de sapos
diante da word music:
A Poesia de Ascenso,
uma alegoria nordestina
para registrar detalhes
à tristeza e à alegria
dessa gente desconhecida
da celestial poesia
de Camões aos novos dias,
antes da morte anunciada da cantoria!
Por isso, a fama mundana;
o cristão profano
e aquela fala ofício,
pela fala irônica...
O contido, agora o incontido,
deixaram o crasso das tertúlias
do Clube Literário,
um maldito, um incômodo
homenzarrão aos rasgos,
na cidade dos donos,
das famílias de alta devoção
à hipócrita acolhida
dos ricos costumes;
maldito na plebe-chique
dos filões de puxa-sacos;
desconhecido onde cultivava
sempre-vivas, sempre-vivas
capazes de descreverem
gírias, palavrões e piegas do Zé povinho!
Conhecido mesmo, por tudo, o todo...
O jeito, a voz-locução, o exagero,
o charme de senhor de engenho sonho,
capataz dele mesmo,
com o chicote-língua na mão
amedrontando, molestando as normas
de uma bem comportada platéia,
desejando o néctar e o maná
de uma suposta poesia celestial...
Que ele preferiu
Pei! Pei! Dar-nos!
com amor doendo de trem passando,
danado, danado, danado,
para nos trair cedo:
Catende tem seu legado, além do anonimato!
E sua infantil aldeia desacontecendo,
Na lápide de seus ossos desenterrados
No solo do Recife...
A infância das folhas verdes,
a adolescência dos medos contidos,
a explosão dos gases lúdicos
de um poeta do tamanho,
do tamanho de um tempo
chamado esquecimento, moderno,
pavoroso e rápido...
Sobrevivendo o mote,
a Poesia grande
sobre um pedaço do mundo
chamado Palmares,
que Ascenso pisou gigante
e pôde sentir na carne
o quanto de madrasta tem a cidade
onde tudo desacontece,
apagando traços, rastros, detalhes,
atalhos, histórias, retalhos,
mortalhas, hóstias, pecados, crimes,
homens e mulheres...
Quando Ascenso foi ao cinema,
descobrindo a arte de olhar
e escutar... escutar...
as imagens de um tempo
com cem anos de idade,
ele descobriu o fermento da poesia:
vou danado, vou danado, com vontade de chegar!
"A Tertúlia" (2004)
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Ascenso
Ferreira (1895-1965)
Sobre a vida e a obra do Poeta modernista, leia "Ascenso, o Nordeste em carne e osso" , Edições Bagaço, 2001, do Poeta Juareiz Correya.