A INDISCIPLINA NA ESCOLA
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Vale
a rebeldia como sinônimo de protesto, coragem e ousadia.
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Por Eliete Carvalho
"Disciplina
é liberdade”. Já dizia o cantor e compositor Renato Russo em uma de suas músicas
bastante conhecida da população brasileira. Esta afirmação revela que quando se
tem disciplina a liberdade é conquistada, não a disciplina rígida, castradora,
opressora, mas aquela que seja dialética, consciente, fruto do desejo de todos
de conviverem em harmonia, onde o respeito seja mútuo, enfim, aquela que deve
ser vista como um processo de conquista na relação aluno/professor.
Mas, infelizmente, esta disciplina tão sonhada está longe de ser compartilhada na escola, isto porque já não se tem mais controle dos atos de vandalismo, da falta de respeito, do mau comportamento dos alunos em relação à escola e aos professores. Assim, todos os anos diretores, coordenadores e professores buscam encontrar respostas para uma das questões intrigante e constrangedora: a indisciplina.
Reclamações, queixas, expulsões e até mesmo
violência têm sido presenciada no espaço escolar. E cada vez mais se procuram as
razões que têm levado crianças e adolescentes a praticarem tantos atos de
vandalismo na escola. Aparentemente não se sabe a causa, o motivo ou mesmo as
razões que têm levado crianças e adolescentes a praticarem tanta insubordinação
- o que se sabe é que a indisciplina, nos
últimos anos, passou a ser objeto de discussão mas também de preocupação para a
escola.
O que se vê constantemente na escola é que o problema da
indisciplina parece não ter solução, principalmente, quando vemos jovens que se
revelam insubordinados, não aceitando o que a escola propõe. São capazes de
desconsiderar quaisquer tipos de regra, acordo, contrato. Muitos são oriundos de um
ambiente familiar desequilibrado, onde seus pais os maltratam, castigam e
ameaçam, praticam, na escola, o que muitas vezes não fazem em casa. Suas atitudes revelam
uma espécie de autodefesa, pois a intenção é justamente chamar a atenção. Eles
estão sempre em evidência, ou melhor, destacam-se como “perturbadores” da ordem.
Ou mesmo aqueles que têm pais separados, desempregados, alcoólatras; estes
desafiam a tudo e a todos com seus comportamentos subversivos. Para esses
jovens, a escola parece não ter importância alguma. Estudar passa
ser monotonia ou até mesmo perda de tempo. E ainda aparecem aqueles que segundo
Os Parâmetros Curriculares Nacionais apontam:
“Alunos
com histórico de diversas reprovações são encarados como alunos fracos e aceitar
essa condição significa construir uma auto-imagem negativa, uma identidade
inferiorizada. Muitos desses alunos não aceitam tal condição, recusam-se a
assumir uma postura humilde, de quem se reconhece como um “fracassado” e, por
meio da indisciplina, buscam afirmar uma identidade insubmissa”.
Deste maneira, a escola vai convivendo com crianças e adolescentes que transgridem
suas normas. A impressão que dá é que os alunos estão cada vez mais
insatisfeitos com a escola. E a cada dia que passa, diretores, coordenadores e professores se vêem
ameaçados com suas insatisfações. É daí que vemos constantemente acontecer a
desordem, na medida em que paredes são riscadas, bancas aparecem quebradas,
prédios são depredados, bombas e mais bombas explodem dentro dos banheiros,
chutes, pontapés nos cestos de lixo e nas portas.
Não adianta ficar se queixando ou se lamentando
pelos cantos. A indisciplina virou uma bola de neve. Ninguém mais controla, mas
uma coisa é certa: quanto mais
punição mais agressões irão acontecer, visto que os alunos já não temem mais ao
professor, nem ao coordenador, nem mesmo ao diretor.
Diante desta questão, percebe-se a falta de sentido da
escola. Infelizmente, ela representa,
para muitos, a
chatice e a monotonia na proporção que os alunos se vêem obrigados a cumprirem
tarefas sem sentidos, a ficarem sentados do primeiro ao quinto horário vendo “conteúdos" isolados e pouco interessante.
Muitas vezes, esses conteúdos não contribuem em nada com a sua realidade, ou
melhor, não preparam para vida. Outras vezes, o desestímulo é tanto nenhum aluno aceita mais aula de quinto
horário, eles são capazes de expulsar o professor da sala de aula só para não
assistirem às aulas. Quando não
fogem ou escondem-se nos banheiros.
É como se a escola tivesse situada na música do
cantor Gabriel o Pensador quando ele diz:
“Estou aqui pra quê?”.
Será que é pra aprender?
Ou será que é pra aceitar
me acomodar e obedecer?”
Diante deste refrão, vemos uma crítica acirrada à escola no que diz respeito a sua função. São desses questionamentos que podemos verificar até que ponto a escola está ou não cumprindo com o seu papel social que é o de educar. Ou ainda está sendo capaz de superar suas crises e seus desencontros. Caso contrário, corre-se o risco de se criar uma geração de revoltados ou indiferentes, pois o mundo lá fora é muito mais atraente e estimulante.
Acredito, sinceramente, que nada acontece por acaso. Os nossos jovens não têm culpa de ser o que são, até porque a chamada “crise” da juventude é um reflexo da sociedade. Eles estão sem perspectivas, não sabem o que são valores, muito menos direitos e deveres. Desta forma, a escola termina deixando de ocupar o lugar do conhecimento e do sonho, na proporção que não consegue educar para o presente.
Neste sentido, o problema da indisciplina não
pode ser deixado de lado. A escola deve procurar entender as causas e os motivos que
levam os jovens a praticarem tanta insubordinação, deve ser ainda condição primeira para que
se compreendam as razões não explícitas da indisciplina na escola. Por outro
lado, a escola é desafiada a encontrar caminhos que visem atrair os jovens a
respeitarem o ambiente escolar. Uma coisa é certa: uma vez estabelecida uma
relação de confiança entre aluno/professor pode-se romper barreiras antes mesmo
inatingíveis. Mas isto só não basta, o problema da indisciplina não se recupera apenas por uma
relação de confiança. É preciso (re) significar o espaço escolar, propondo
atividades que, de fato, favoreça a integração do jovem à escola. É necessária
uma mudança de postura em relação ao que chamamos de “educar”, pois de nada
adiantaria ensinar e ensinar se nossos alunos ainda não aprenderam uma das
coisas que considero básica e fundamental na vida de cada pessoa: o respeito ao
outro. É urgente a (re)signação do espaço escolar, mais urgente ainda é dá vida
ao projeto político-pedagógico da escola. Acredito que sem o diálogo e com a falta de
projeto, a escola não resolverá o problema da indisciplina.
Portanto, a escola necessita estar aberta ao diálogo com os seus alunos e com a comunidade, precisa sair do anonimato de suas ações, de seus projetos, enfim precisa ser mais incisiva quanto a sua real função. Caso contrário, estará exposta às críticas de que é desinteressante e desorganizada. Mais ainda de que seus alunos e professores se sentem perdidos ou mesmo sem ideais.
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Eliete Carvalho é professora
de Língua Portuguesa na cidade dos Palmares-PE.