A difícil arte de ensinar o português no Brasil

 

                                                                                                                            Por Eliete Carvalho

 

                         Outro dia, estava na sala de aula, aplicando uma daquelas chamadas  “provas’ de final de bimestre, quando fui abordada por duas moças, estudantes da FAMASUL, que vieram consultar e entrevistar professores que lecionavam língua portuguesa.  Elas queriam saber o que pensava sobre o idioma português no Brasil. Estavam com as devidas perguntas e, inclusive, com gravadores.  Nada mais óbvio do que perguntar a quem trabalha com a disciplina. – Confesso que não falo sem me preparar antes, mas tudo bem. Antes de começar indaguei:

                   - Acho que preciso rascunhar alguma coisa. E elas:

                   - Não precisa, será rápido.

                   Fiquei atenta. Logo veio a pergunta...

                  - É fácil falar  o “português” no Brasil?

                  Pensei, pensei, pensei... Sim, porque por mais que você seja um “expert” no assunto, é preciso estar consciente do que vai dizer, principalmente, se for gravar. Ensinando língua portuguesa tinha o dever de responder. Respondi então:

                 - Claro. O brasileiro tem por  obrigação falar o idioma português. Até porque, a língua é  a sua cultura. Agora  pergunto:  E por que não é fácil?

                - Acho que não tem justificativa nenhuma achar que o português é difícil. Basta a gente ver exemplos práticos como, por exemplo, uma criança de apenas quatro, cinco anos de idade já domina perfeitamente a língua. Se não dominasse, não seria capaz de se comunicar. O que não acontece. Portanto, é fácil sim.

                  Depois da resposta. Foi então que lembrei de minha filha Maysa, que com apenas cinco anos de idade já sabe falar fluentemente o português, inclusive, fazendo algumas concordâncias perfeitas. Então disse-lhes: - É lógico que é fácil! E digo-lhes mais os alunos de 5ª e 6ª séries têm bastante domínio do idioma, ainda que conheçam apenas suas estruturas mais básicas. Portanto, já dizia Grimm: “A nossa língua é também nossa cultura”.  

                  Disse-lhes continuando a conversa...

               - Há concepções erradas acerca da língua, isto porque se criou um rótulo de que o “português” é difícil. Observamos isso nos rostinhos dos alunos. Ou seja, a concepção de língua ainda hoje trabalhada na escola, muitas vezes, reforça a idéia de que é complicada, difícil... E por que digo isso? Porque se dá maior ênfase à gramática. Não que eu condene, mas a história tem provado que o ensino da língua a partir apenas de regras gramaticais não tem dado muito resultado. Mas não é fácil acabar de uma hora para outra com alguns conceitos e práticas que foram fabricados durante anos para a escola. Acho apenas que o método de se ensinar a língua em algumas escolas está errado. Estudar língua portuguesa não é apenas decorar regras e mais regras e, pronto. É essa visão acabada e pronta que devemos questionar sempre.

                   É preciso, pois, inverter o método. A gramática precisa ganhar outra conotação, ou seja, talvez  até de papel secundário, uma vez que, é necessário acabar com o rótulo de que “português é difícil”.  E o que é pior, ouvimos até pessoas dizerem que não sabem falar o português. Isto prova que a concepção de língua é que está errada, e não em dominá-la gramaticalmente.

                    Como professora de língua portuguesa tento resgatar a autoconfiança dos alunos, mostrando-lhes que são capazes de falar sem preconceito e escrever com eficácia e originalidade. Mas continuo afirmando que a escola tem que valorizar mais o texto como ponto de partida para o ensino da língua. Mas isso só será possível, se todos da/na escola começarem a falar a mesma linguagem. Quem sabe assim abominaríamos o preconceito de que o “português é difícil". Acho que já está na hora de valorizar o que é nosso. Vocês não acham?

 

 Eliete Carvalho é professora de Língua Portuguesa em Palmares

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