Madrugada, no em que se ia partir dali, eu acordei ainda com o escuro, no amiudar. Só assim acordei, por um rumor, seria o Simião, que estava dormindo no mesmo cômodo e tacteando se levantava. Mas me chamou. � "A gente vai pegar a cavalhada. Vamos?" � ele disse. Não gostei. � "Estou enfermo. Então vou?! Quem é que rala a minha mandioca?" � repontei, áspero. Virei para o canto assim eu estava apreciando aquele catre de couro. O Simião decerto ia, mais o Fafafa e Doristino, estavam bons para o orvalho dos pastos. Diadorim, que dormia num colchão, encostado na outra banda, já tinha se levantado antes e desaparecido do quarto. Ainda persisti numa madorna. Aquela moradia hospedava tanto � assim sem donos � só para nós. Aquele mundo de fazenda, sumido nos sussurros, os trastes grandes, o conforto das arcas de roupa, a cal nas paredes idosas, o bolor. Aí o que pasmava era a paz...
trecho do capítulo A Matança dos Cavalos, in Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa.
Nasceu em Codisburgo (Minas Gerais) no ano de 1908 e morreu no Rio de Janeiro em 1967. Formou-se em Medicina, clinicou no interior do seu Estado, de cuja Força Pública foi médico, e a seguir entrou na diplomacia, chegando a embaixador. A sua carreira literária teve como prólogo o prêmio a um livro de versos que não publicou. Mas começa realmente com Sagarana (1946), livro de contos que lhe deu renome e se caracterizava por um tipo diferente de regionalismo, no qual a invenção, inclusive lingüística, sobrepujava de muito os valores locais. Isso foi confirmado de maneira triunfal dez anos depois, quando publicou simultaneamente um livro de novelas (Corpo de Baile) e um romance (Grande Sertão: Veredas), que formam o bloco central da sua obra. A obra-prima é sem dúvida o romance, que a princípio deveria ser uma das novelas da coletãnea, mas que se ampliou até às dimensões atuais. Graças a ele, Guimarães Rosa foi reconhecido quase unanimemente como um dos maiores escritores brasileiros, pela originalidade criadora do estilo e da visão do mundo. Dentro de uma tendência gasta, como o regionalismo (que se revela porém arsenal sempre novo da nossa ficção, há mais de cem anos), conseguiu fazer um livro de valor universal, em que os elementos pitorescos são meros condutores de um senso profundo dos grandes problemas do homem. Isso é devido em parte à sua capacidade de criar um estilo próprio, baseado na contribuição regional e remontando, graças ao arcaísmo desta, a velhas matrizes da língua. Mais que ao mesmo tempo é apto para exprimir com sutileza todos os matizes da inquietação moral e metafísica, encontrados apenas na mais requintada literatura do Ocidente. Esta fusão de local e universal, de presente e eterno, aproxima a sua obra das grandes experiências literárias da cultura moderna.
Antonio Candido e J. Aderaldo Castello, in Presença da literatura brasileira-Modernismo. São Paulo, Difel, 1981