TRANSINDIVIDUALIDADE, INDIVIDUALIDADE, PESSOA E PSICOLOGIA Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo LABORATÓRIO
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL São
Paulo
UNITERMOS Sujeito Transindividual, Transindividualidade, Individualidade, Pessoa. SUMÁRIO O presente ensaio constitui-se em uma reflexão acerca da dimensão da transindividualidade da pessoa e do intrínseco imbricamento desta com a dimensão de sua individualidade. Constitui-se assim como uma reflexão acerca da importância fundamental desta concepção para a caracterização do humano ao nível do conhecimento psicológico. UNITERMS Transindividual Subject, Transindividuality, Individuality, Person. SUMMARY This paper is a reflection on the dimension of the transindividuality of the person and on the intrinsic interaction of it with the dimension of its individuality. Thuus, it is a reflection about the fundamental meaning of this conception for the definition of human onthe level of psichological knowledge. INTRODUÇÃO A pessoa como síntese de relaçõe sociais não é, de um modo geral, apreendida pela psicologia, mesmo na maior parte dos esforços mais recentes voltados para o que se entende como psicologia social. Tratamos frequentemente do indivíduo ou meramente do que ele é aparencialmente, uma individualidade isolada, ou a partir de categorias macro da análise social. Em ambos os casos a pessoa concreta nos escapa, na medida em que, de um lado a construímos e a tratamos como uma abstração, sem vínculos com a realidade, o indivíduo meramente aparente, e, do outro, destruímos conceitualmente a pessoa, na medida em que não podemos pensar as dimensões micro-sociais em que ela se insere concretamente. Levar em consideração a pessoa e, ao mesmo tempo, transcender a sua dimensão aparencial, exige que, de fato, entendamos o como o sistema social a que ela se vincula particulariza-se na sua constituição, tanto genética como atual, desde os níveis mais macro-sociais, até as sua diferenciações culturais mais particulares. Para isto, a idéia da dimensão da transindividualidade como intrinsecamente constituinte da pessoa, amalgamada a sua individualidade, nos oferece ricas possibilidades, na medida em que nos possibilita entender a síntese entre o individual e o social que constitui a pessoa em sua concretude e, ao mesmo tempo, constitui o seu sistema social. Lucien Goldmann, sociólogo francês, desenvolveu o conceito da transindividualidade, ao nível da sociologia, como característica da constituição das pessoas de um dado sujeito coletivo histórico, de um dado sujeito transindividual. O presente ensaio busca interpretar, de uma forma introdutória, a idéia da transindividualidade ao nível da psicologia, confrontando-a com os modos vigentes de interpretação da pessoa, e indicando a fertilidade da concepção para a resolução dos impasses com que se confronta a psicologia na atualidade, e para o desenvolvimento de perspectivas novas, tanto ao nível da teoria como ao nível da prática. PSICOLOGIA DO INDIVÍDUO APARENTE "O conceito puro de sociedade
é tão abstrato "... Quando a verdade se
torna evidente para nós, O indivíduo parece ser fundamental. Não apenas para a psicologia, mas para a própria sanidade do sistema social humano -- sem falar, naturalmente da importância do indivíduo para si próprio. No seu interior, como observou Buber, recria-se a coisa pública. O modo como se concebe o indivíduo, entretanto, não pode ser uniforme, e sofre uma influência profunda do interjogo das forças sociais e de seus vetores ideológicos. Temos praticado, sob a influência de todo o Positivismo Ideológico de nossa realidade, uma psicologia fundamentada numa concepção do indivíduo que, na verdade, limita-se simplesmente a sua dimensão aparente. Temos praticado uma psicologia do indivíduo aparente. A concepção do indivíduo aparente, e, mais que isto, a sua hegemonia no ambiente da psicologia, tem uma longa história de constituição. Encarna na atualidade uma dimensão do velho embate entre a transformação e a manutenção da realidade social. A idéia de indivíduo remonta à filosofia materialista de Demócrito. "Indivíduo" é a tradução latina de "atomon". Inicialmente esta palavra era utilizada sem referência à pessoa humana, numa acepção puramente lógica. A idéia enfatizava "aquilo que não pode ser dividido". Com a filosofia cristã, o conceito toma uma forma mais definida, a partir da idéia de imortalidade da alma individual, de onde se origina mais enfaticamente o conceito de pessoa, cuja doutrina constitui um momento importante no desenvolvimento histórico da concepção de Indivíduo. A Escolástica desenvolveu a exploração do singular e do particular da idéia de indivíduo, no momento em que se afirmavam os estados nacionais contra o universalismo medieval. Leibnitz deu forma definitiva ao conceito, conceituando o indivíduo a partir de seu simples ser. Na MONADOLOGIA, ele define as mônadas como "os verdaeiros átomos da natureza", que "não têm janelas por onde qualquer coisa possa entrar ou sair". O mundo, para ele, é o melhor e mais perfeito dos mundo possíveis, escolhido por Deus. A teoria de Leibniz oferece um modelo conceitual para a visão individualista do ser humano concreto na Sociedade Burguesa. É este o conceito que inspira a sociologia acadêmica, positivista, que se origina com Comte, e que, desde os seus primórdios, dirige as suas atenções para o conjunto da sociedade e para o seu movimento, esquecendo o indivíduo de fato e integrando-se desta forma à tradição filosófica. Hegel, contrapondo-se às idéias dosa românticos alemães, dirige suas críticas às concepções de uma pura individualidade, afirmando que o ser-para-si do singular representa um momento necessário do processo social, mas que este momento é necessariamente negado e transcendido no fluxo deste processo. Desta forma, o indivíduo é para Hegel um ser-para-si, mas como tal caracteriza-se apenas como um particular aparencial que exerce uma atividade negadora da realidade universal, realidade esta que o vence e o nega, para afirmar-se enquanto universal. Na sua dinâmica, a universalidade nega-se a si própria, numa negação da negação que afirma o particular. Assim, o particular existe e se exprime como negação da negação. A psicologia que herdamos, seja da colonização européia, seja da neo-colonização norte-americana, estão marcadas profunda e visceralmente por uma concepção que não leva em consideração, por motivos diversos, a reflexão hegeliana, e fundamentam-se numa definição do indivíduo a partir de sua dimensão meramente aparencial, uma concepção do indivíduo particular e aparente. Estão, de uma forma ou de outra, situadas no contexto da linha de ciência que surge com os trabalhos de A. Comte, e que se compromete com a particularidade aparencial do empírico, do dado sensível, como critério de verdade científica Esta linha epistemológica caracteriza-se como uma das duas tendências das ciências humanas que derivaram do trabalho de Saint Simon. Saint Simon, que foi contemporâneo de Hegel, defrontava-se com duas tradições ideológicas que derivavam do finbal do feudalismo. Ambas criticavam a realidade de então. A representada por De Maistre, De Bonald, Lamennais interpretava aquela realidade em função da ordem, revindicando as virtudes seculares da sociedade feudal cristã. A outra, representada principalmente por Condorcet e Montesquieu, assumia a nova situação, e enfatizava a dimensão do progresso e da mudança social. Saint Simon, como socialista utópico, situou-se nesta segunda corrente. Preocupado com a necessidade de reorganizar a sociedade, trabalhou em um projeto de desenvolvimento de uma "science de lhome" concebida como ciência social. Saint Simon enfatizou na constituição destaq ciência a análise das forças organizadoras do sistema social, os conflitos entre as classes, as funções das ideologias, o equilíbrio entre os diversos sistemas e a dinâmica a longo prazo dos mesmos até a sua desaparição. A partir de Saint Simon, as ciências humanas, via sociologia, sofreram uma fragmentação binária, cada uma das partes constituindo-se como antípoda da outra. Esta cisão representa-se, por um lado, pelo conceito de ciência que deriva dos trabalhoa de Comte, e, por outro, pelos trabalhos de Marx. Comte foi secretário particular de Saint Simon. Rompeu com ele e elaborouas suas idéias a partir das idéias dele, afiliando-se a seguir à tradição ideológica de seu antigo mestre; tradição esta que tinha sua ênfase na ordem social e nos valores da sociedade feudal. Marx foi profundamente influenciado pelas idéias de Saint Simon, tendo adotado algumas das mais importantes, que tiveram um papel fundamental no desenvolvimento de suas análises e de sua metodologia. Marx foi, também, marcadamente influenciado, como se sabe, pelas idéias de Hegel. O conceito de totalidade social, de importância capital na Dialética Marxista, está presente tanto em Saint Simon quanto em Hegel. Por outro lado, a idéia do antagonismo entre as classes é originariamente de Saint Simon. Marx a adota e reinterpreta, atribuindo diferentes composições às classes. Segundo Munné, ainda que a ciência comtiana seja inteiramente inspirada na obra de Saint Simon, Comte rejeitou os conceitos fundamentais dele, conceitos estes que foram incorporados pelas análises e metodologia de Marx. Comte preocupava-se com uma ciência da ordem social, e propunha-se como objetivo o de alcançar um sistema social em perfeito equilíbrio. Desta forma, os antagonismos entre as classes e, por implicação, a totalidade contraditória e conflitiva do sistema social, configuravam um grave obstáculo à constituição do seu modelo, e foram cuidadosamente evitados. Comte prescindiu assim da consideração adequada pela totalidade social e do reconhecimento do conflito subjacente, indicado por Saint Simon, privilegiando assim a ordem vigente do sensível, do empírico, do equilíbrio funcional estabelecido, como princípio epistemológico. Na prática, a sua concepção de ciência proibe, como norma epistemológica, a abstração racional, o pensamento. O domínio dos fatos, do dado, ascende a critério de verdade, e o que com ele conflita é necessariamente mau. Assim, segundo estas linhas gerais, consolidou-se a bifurcação de base no âmbito das ciências humanas, tendo por fundamento a questão da consideração pela totalidade social e pelo antagonismo entre as classes. Desenvolveu-se, de um lado, a tradição positivista comtiana, centrada no empírico, no dado, no aparente, na ordem, na harmonia supressora da luta, na reprodução, na adaptação. Do outro, a veretente materialista dialética, cujas tendências maiores são o antropologismo humanista, o antipositivismo ideológico e o criticismo radical, privilegiando como focos fundamentais de interesse a compreensão do conflito, a totalidade, a luta pela harmonia, e não a harmonia supressora da luta, a mudança social, ao invés da reprodução e a transformação do homem, ao invés de sua adaptação. A concepção individualista, aparencial, do indivíduo constitui um pedra fundamental da psicologia tradicional. Nesta condição, com nuances e comprometimentos peculiares, definem-se, de um modo geral, as correntes da psicologia contemporânea. O dado fundamental é que, ao limitarem à sua aparência a concepção do indivíduo, elas o destroem em sua concretude e esência, passando a lidar com uma abstração sem fundamento, que já não se vincula mais a sua mrealidade de fato. As orientações teóricas fundamentais da psicologia, que herdamos de nossa colonização e de nosso atual processo de neo-colonização, inclusive quando se definem no chamado campo da psicologia social, trabalham com esta abstração irracional. Eventualmente realizam esforços, com resultados insuficientes ou fundamentalmente limitados, e por isto comprometidos, no sentido de inserir o indivíduo em um certo contexto social mais amplo. O indivíduo, como síntese do conjunto das relações sociais concretas jamais é concebido, escapa, como se fosse próprio do domínio de uma outra disciplina que não a psicologia. Trata-se dele ora como uma misteriosa, e curiosa caixa preta, que recebe inputs e que produz outputs, sem que se considere de relevância a sua interioridade, o segredo da caixa preta, buscando-se conformá-lo à ordem social existente, ou mantê-lo segundo os padrões do que é a sua aparência essencialmente negativa, como observa Hegel. De outra forma, ainda nos estritos limites de sua aparência, concebem-no como um ser em si, isolado, reificado, que se explica a si próprio, e que explica, inclusive, a história. O Behaviorismo, a Psicanálise ou a chamada Psicologia Humanista incorrem nestas limitações. Ainda que seja necessário levar em consideração as suas importantes contribuições, precisamos atentar para a realidade de que a situação da psicologia, não obstante as conquistas, torna-se cada vez mais bizarra. Em particular entre nós, que a praticamos em um contexto de terceiro mundo. Assemelhamo-nos cada vez mais a "marcianos", com exóticas teorias ou simplistas teorias e práticas relativas ao psiquismo humano, cada vez mais leves no espaço e soltas no tempo, numa terra de famintos. Uma vaga sensação de anacronismo nos invade, e parecemos dinossauros, ou elefantes brancos, buscando encarnecidamente defender a nossa pele, inexoravelmente fadada à extinção. Tem a psicologia alguma coisa a dizer sobre o macrofenômeno da fome? Sobre a corrupção institucionalizada? Sobre os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres? Sobre a cancerosa esterelização da vida cotidiana e da vida em geral? Sobre as ameaças de aniquilação do planeta? Sobre a cultura eco-suicida? Tem a psicologia alguma coisa a dizer sobre a realidade? Ou a psicologia nada tem com a realidade? Sem dúvida que podem ser agitados os argumentos que afirmam que, ao nível das pessoas em crise ou em dificuldade, a psicologia funciona e temos obtido resultados (para não se falar da área da indústria). Será isto verdade? O que será que isto de fato significa? É indubitável que existem eventualmente bons profissionais, que, além de se terem habilitado a atualizarem-se a si próprios como seres humanos, manejam com destreza um arsenal teórico e prático de valor. O trabalho deles é valioso. Mas o quanto das chamadas curas psicológicas, ou seja lá que nome se dê, devem-se efetivamente aos méritos da psicologia? O quanto não se deve apenas à dinâmica natural das relações sociais, a fatores institucionais, rituais, meramente simbólicos, ou em função simplesmente do tempo? A realidade, todavia, é que, no marco da psicologia tradicional, cresce a nossa sensação de estranheza com relação ao contexto concreto, para não falar no caos profissional em termos de mercado de trabalho... Na verdade, a coisa vai muito mais além. Um mínimo de espírito crítico e no flagramos conspirando contra a comunidade humana, produzindo e reproduzindo a cultura da opressão e da exploração, o seu conhecimento psicológico especializado e a sua prática. É um impasse que nos destrói, porque destrói o nosso trabalho e a nossa capacidade de trabalho. De princípio, nos posicionamos pelo vivo, pelo humano, pela sua defesa e afirmação. Se buscamos, entretanto, rastrear um pouco mais criticamente as fontes, consequências e implicações de nosso trabalho, descobrimo-nos frequentemente conspirando contra a vida e contra o humano. Não, seria o caso de indagarmos mais profunda e criticamente sobre o que entendemos por psiquismo humano, sobre a sua natureza e modo concreto de constituição? De que outra forma podemos criticar o conhecimento que nos faz alienígenas à realidade concreta; de que forma podemos construir criticamente um conhecimento que nos possa inserir ativa e de forma produtivamente humana nesta realidade, ou, por outra, um conhecimento que dela não nos retire? Se nos ocupamos destas questões, revela-se para nós em toda a sua precariedade e insuficiência a concepção do indivíduo meramente aparente. Na verdade, buscar transcender a aparência, e entender em sua concretude o modo de constituição do indivíduo, exige uma opção de valor, um descompromisso com o estabelecido e uma definição a respeito da perspectiva sob a qual queremos pensar o indivíduo, sob qual perspectiva queremos pensar e exercer a psicologia. Queremos continuar a fazer uma psicologia da perspectiva da classe dominante -- gerente, no nosso caso particular, da empresa transnacional de exploração da opressão? Ou queremos fazer psicologia, produzir e reproduzir o conhecimento psicológico, da perspectiva da comunidade humana, buscando conhecer e entender a nossa conjuntura sócio-cultural e histórica, a inserção da psicologia, e nos posicionando radicalmente dentro dela pelo ser humano como valor absoluto? A primeira opção de valor é largamente a psicologia que temos e que praticamos, que não pode ser desmerecida em suas conquistas e atualidade histórica, mas que evidencia a cada momento o fim de seu tempo, sufocada pelas contradições de seu próprio modelo, e pela necessidade de se reinventar a si própria como uma psicologia que transcenda à mera aparência dos fatos humanos. A psicologia do indivíduo aparente não pode ser boa nem para a classe dominante, a quem serve. Na medida em que, com parcialidae, retira do seu campo a totalidade social do humano, seus antagonismos e conflitos, constrói um modelo irracional e abstrato para representar a pessoa. Modelo este que, aplicado a pessoas concretas, aniquila-as em sua realidade existencial, porque trata não mais de permitir, preservar e facilitar os desdobramentos de sua integridade e de seu potencial, mas, antes, de enquadrá-las ativamente em prescrições, explicitadas ou não, compatíveis com um projeto de conservação do status-quo. O que significa conservá-las em sua aparência, seja ela qual for, e por via de todos os tipos de dissimulações. Se se trata, pois, de compreender o indivíduo concreto, e produzir uma ciência a ele aplicável, é imperativo transcender o nível da aparência, e buscar, e considerar, os elementos concretos de sua constituição. SUJEITO TRANSINDIVIDUAL, PESSOA E PSICOLOGIA "O indivíduo
surge, de certo modo, quando "... A
essência humana não é abstrato, residindo no "... Penso que
toda dualidade radical é ideológica." Diante das dificuldades, limitações e compromissos ideológicos conservadores que nos coloca a concepção da psicologia a partir da idéia de indivíduo aparente, como sendo o ser humano concreto, nos vemos compelidos pela necessidade de buscar um conhecimento e uma compreensão do indivíduo humano mais compatíveis com aquilo que ele é em sua efetividade. É um lugar comum a afirmação de que o ser humano é um ser social e político. Não obstante, as teorias psicológicas e as nossas especulações a respeito dele não vão vão muito além deste limite e, em geral, esfumaçam-se onde deixamos implicitadas a socialidade e a dimensão política do humano, quando não nos satisfazemos com idéias fáceis e simplificadoras. De um modo geral, apenas adicionamos, na prática, ao nosso modelo do indivíduo aparente, mais uma característica abstrata, e nos damos por satisfeitos (ou exaustos) e encerramos as nossas indagações. Quando nos dispomos a efetivamente conhecer o indivíduo humano de fato, em toda a sua complexidade e concretude, evidenciam-se imediatamente os limites do modelo positivista de ciência. Se queremos preservar a integridade do objeto, em sua complexidade, não podemos reduzí-lo a sua aparência sensível, ou a outras abstrações idealistas, sob pena de destruí-lo enquanto tal, em privilégio de uma invenção nossa, à qual nomeamos, e com relação à qual desenvolvemos todo um universo linguístico de abstrações -- sem vínculos com a realidade material -- dentro do qual evoluem as nossas teorias e a ilusão de nossa atividade prática. Se queremos pensar o indivíduo humano, necessitamos transcender a aparência que se nos apresenta de uma forma mais imediata. Para tal, necessitamos da abstração, não arbitrária e fundamentada em princípios ideais determinados aprioristicamente. Uma abstração racional, que se define como tal enquanto momento de uma práxis efetiva, reflexão filosófica, que entende a necessidade de conhecer o próprio conhecedor, como momento fundamental do conhecimento do objeto. O indivíduo humano de fato não pode ser dividido, como indica a sua designação. É uma unidade que afirma-se por sua integridade. Para conhecê-lo adequadamente, entretanto, é necessário levar em consideração as diferentes dimensões do processo de sua constituição. Neste sentido, apenas uma reflexão dialética pode nos auxiliar, na medida em que nos possibilita abordar o objeto na dimensão daquilo que o define imediatamente e ao nível daquilo que o constitui, mas que não está presente ao nível do sensível, na situação imediata, mas que é tão dimensão dela como qualquer de suas características imediatas. Pela construção de categorias que definem o empírico e de categorias abstratas, que a partir destas se definem, a análise dialética nos permite transcender a negatividade do imediato, do dado sensível, e apreender o objeto na totalidade dos processos de sua constituição e transformação, resguardando-nos das ilusões do mundo exclusivo da especulação idealista. Por um lado, não partimos de princípios a priori, e nos focamos na realidade material do objeto. Por outro, não nos limitamos a sua aparencia imediata, não nos comprometemos com o meramente sensível, e podemos apreender a totalidade de dimensões constituintes do objeto que não se revelam no sensível imediato. Assim, em termos do indivíduo humano, podemos respeitar a integridade de sua individualidade, sem escamotear a concretude de sua socialidade, de sua historicidade, que, em síntese com aquela individualidade, o constituem. Lucien Goldmann, sociólogo francês que desenvolveu importantes estudos dialéticos da cultura em geral, e em particular da arte e da literatura, desenvolveu e utilizou a idéia do sujeito transindividual como constituinte da pessoa, uma íntima articulação de individualidade e de transindividualidade. Goldmann trabalhou com a idéia de transindividualidade ao nível da sociologia, em busca de uma sociologia da totalidade e que, ao mesmo tempo, pudesse dar conta da produção cultural, e da produção artística em particular, enquanto produzida por indivíduos singulares que, ao expressarem-se singularmente, expressavam, simultaneamente, uma coletividade, o sujeito transindividual de sua pertinência. Pôde, assim, entender a pessoa humana, em termos de sua constituição básica, como um sujeito individual: tudo aquilo que constitui e determina como tal a sua individualidade; e como sujeito transindividual, que o constitui, ao mesmo tempo em que é por ele constituído, na medida em que el tem suas categorias mentais e o seu comportamento organizado e determinado, e organizador e determinante, de um sujeito coletivo, composto por uma multiplicidade de indivíduos, uma coletividade historicamente situada, datada e localizada, um sujeito transindividual histórico. Um segmento social historicamente constituído e sujeito de ação histórica. No que pese não haver no âmbito da psicologia tradicional uma elaboração adequada do sujeito transindividual concreto como constituinte concreto da pessoa, a idéia parece extremamente fértil, e com um potencial enorme de esclarecimento para os impasses em que se debate a psicologia contemporânea, em termops teóricos e em termos práticos, na armadilha da reificação do indivíduo humano, concebido exclusivamente em função da dimensão aparencial de sua individualidade. Indicar a idéia da transindividualidade, como constituinte da pessoa concreta, e o que me parece ser a fecundidade que ela possui na atualidade histórica da psicologia que praticamos, é o objetivo do presente trabalho. O ser humano nasce dotado de um aparelho biológico auto-regulável. Dadas as condições biológicas e sociais compatíveis com as suas necessidades, ele evolui naturalmente no sentido da atualização plena de suas potencialidades. A dimensão biológica, entretanto, como se sabe, explica muito pouco da pessoa, na medida em que, ainda que esta dimensão não possa ser desprezada, é na trama das relações sociais concretas do contexto sócio-histórico que vamos desvendar o que a constitui e define efetivamente como pessoa. O biológico carece apenas de condições qualitativas adequadas. Mas a adequação destas e o modo como elas se organizam, o que determinará fundamentalmente a pessoa que conhecemos, constiui-se a partir da realidade sócio-cultural e histórica concreta.. Sabemos que nenhuma das dimensões, biológica e social, podem ser isoladas empiricamente numa pessoa. Da mesma forma que não podemos isolar, na evolução da espécie, o desenvolvimento anátomo fisiológico mais especializado do desenvolvimento da cultura. Igualmente de nenhuma delas se pode prescindir. A questão é de como organizar a nossa compreensão destas dimensões, que sabemos fundamentais, na constituição da pessoa concreta. As implicações efetivas de cada uma delas na organização das categorias mentais da pessoa, de sua ação e de seu comportamento. Antes de configurar-se com eu, o indivíduo já desenvolve um processo essencial de interação com um grupo social, grupo social que se constitui como uma diferenciação particular dos agrupamentos humanos, uma diferenciação particular de uma determinada cultura humana, num determinado momento histórico. Isto implica que a pessoa, antes de constituir-se como um eu, organiza o seu comportamento, a sua percepção de si e do mundo, em função dos padrões organizativos do seu agrupamento, na concretude de seu momento histórico e das determinações oriundas de sua inserção na organização social do trabalho. Vale dizer que esta relação na organização da pessoa não se dá, apenas, numa determinada fase de seu desenvolvimento -- a partir da qual a pessoa seria autônoma no processo de constituição de si. É, na verdade, um padrão intrínseco à constituição da pessoa em cada momento de sua atualidade. Um padrão mantido e desdobrado a partir da relação recíproca com objetivações culturais determinadas. Desta forma, numa certa dimensão muito real, podemos entender que a pessoa desenvolve a sua subjetividade, não simplesmente como uma subjetividade individual -- correspondente a sua personalidade isolada, mas, intrínsecamente, como a subjetividade de sua coletividade. Assim sendo, ela não é, neste nível, meramente, a portadora de uma subjetividade individual que se relaciona com outros de uma forma inter-subjetiva; mas a portadora, igualmente, de uma subjetividade transindividual que se relaciona com os seus semelhantes no interior de uma subjetividade coletiva, ou seja: intra-subjetivamente. Isto não significa uma negação da individualidade e da singularidade da pessoa, mas apenas o reconhecimento de que estas remetem-se naturalmente às dimensões mais universais que as constituem, de tal forma que elas não podem ser tratadas como em si exclusivos, sem que, com isto, não venhamos a mutilar essencialmente a pessoa, na medida em que a sua singularidade e a sua individualidade não podem explicar-se por si próprias. Desta forma, a pessoa com quem interagimos não pode ser entendida ao nível da psicologia apenas na sua individualidade aparencial, na medida em que esta, ainda que real, constitui apenas um momento da atualidade de sua constituição, que se define como individualidade apenas na medida em em que se remete à(s) universalidade(s) de que participa. Ou seja: a pessoa só pode ser entendida em sua plenitude na medida em que está referenciada ao, e respeitada em termos, do sujeito transindividual de que é parte e que constitui, uma vez que ela própria se constitui como síntesae indissociável de individualidade e transindividualidade, que só existe enquanto tal, destruindo-se se fragmentada. Assim, para preservarmos conceitual e relacionalmente a integridade da pessoa com que interagimos, é necessária a apreensão, na sua aparência imediatamente sensível, do eventualmente inaparente que a constitui, da invisibilidade que a constitui de forma tão efetiva quanto o que é mais imediatamente visível em sua pessoalidade: a sua transindividualidade concreta e efetiva, nas múltiplas determinações de sua socialidade e de sua historicidade. O sujeito transindividual que constitui a pessoa, através de sua transindividualidade, é o agrupamento social de sua pertinência, sujeito coletivo de ação histórica e de produção cultural. Como sabemos, e é necessário levar em consideração, o sujeito transindividual não é homogêneo. Constitui-se de uma multiplicidade de diferenciações contraditórias. Num dado contexto, temos os níveis de organização da ordem social, que variam, desde os mais macrosociais -- que particularizam-se efetivamente na transindividualidade da pessoa, ainda que mediatizados -- até os mais microsociais, o grupo familiar, por exemplo, que, particularizando os primeiros, constituem o mundo cotidiano das relações e dos objetos e usos imediatos da pessoa, no qual ela satisfaz as suas necessidades e organiza-se enquanto tal. Num mundo que encaminha-se cada vez mais para uma Cultura Planetária, podemos entender a comunidade humana em sua totalidade como o nível mais abrangente da transindividualidade humana, na medida em que somos e nos configuramos cada vez mais, para bem ou para mal, enquanto humanidade, como um sujeito transindividual efetivo. ste nível de compreensão, entretanto, ainda que não possa ser negligenciado, na medida em que oferece o contexto mais amplo de definição do humano, é decididamente, em si só, para a compreensão da pessoa em sua concretude, de sua realidade e de suas condições cotidianas de vida. A classe social, na medida em que determina as condições da existência concreta da pessoa, pela determinação do modo como exterioriza a sua energia vital, como se relaciona com o produto desta exteriorização, do modo como vive, como produz os meios de sua existência e se reproduz, é o sujeito histórico básico a partir do qual podemos formular a compreensão da transindividualidade da pessoa. A realidade histórica da classe social, no seio da estrutura da organização do trabalho, haverá de determinar a sua cultura particular e a transindividualidade das pessoas que a constituem. Mesmo assim, a classe não é um agrupamento homogêneo. Limite de um sujeito histórico, constitui-se de inúmeras e importantes diferenciações, que se organizam em agrupamentos hierarquizados, dos mais macro-sociais aos mais micro-sociais, caracterizados cada um deles por suas diferenciações culturais e transindividuais particulares. Temos, assim, diferenciações de ordem étnica, religiosa, nacional, regional etc., que organizam a família como um agrupamento micro-social básico. Desta forma, a transindividualidade da pessoa característica de um dado agrupamento social não se constitui a partir de uma influência homogênea, mas a partir de uma multiplicidade de influências, de maior ou menor peso, que se integram com maior ou menor coerência na diferenciação cultural de seus agrupamentos particulares. A coerência da diferenciação particular de cultura que o indivíduo compartilha com seus semelhantes, sempre em íntima conexão com os elementos materiais de seu mundo, haverá de determinar uma maior ou menor unidade, a partir de sua múltiplas influências constituintes, o que determinará à pessoa uma maior ou menor tarefa existencial de integração, com vistas à organização de seu comportamento no mundo. A transindividualidade da pessoa é uma articulação, pois, das diversas dimensões da transindividualidade do sujeito histórico coletivo que lhe é pertinenete, e que dizem respeito à produção e à satisfação de suas necessidades, e à atualização de seu potencial humano. Sua consciência e demais categorias mentais organizam-se em função desta transindividualidade, na medida em que interagem dinâmica e contraditoriamente com a sua individualidade. Não seria lícito pensar que esta transindividualidade seria impressa na pessoa passivamente. Na verdade, como demonstra a Psicologia Genética, a individualidade da pessoa tem um papel fundamental desde o mais rudimentar início de sua existência, antes mesmo dos níveis psíquicos, uma vez que a atividade construtiva da pessoa existe como um fator biológico. De fato a pessoa potencialmente descobre e reinventa em si própria a sua transindividualidade, ou seja, a transindividualidade de seu agrupamento histórico; com as nuances particulares de sua existência pessoal, limitadas estas, entretanto, pelas condições de sua vida material. Goldmann funda o sujeito individual nos fenômenos da ordem da libido. Acho que não um fundamento conceitualmente refutável com facilidade, mas nem por isto isento de limitações e complicações. Uma delas é a dificuldade de se entender as articulações entre individualidade e transindividualidade a partir desta base, uma vez que misturar libido com história equivaleria a misturar água com óleo. Não quero, entretanto, negar validade ao fundamento libidinal para o sujeito individual, mas apenas indicar esta dificuldade, cortejando-a com outras concepções que oferecem o próprio desenvolvimento da psicanálise e de outras linhas de psicologia, em particular a psicologia genética de Piaget. Uma outra via de enfrentamento da dificuldade conceitual seria a possibilidade aberta a partir da análise dos trabalhos desenvolvidos por Hegel e por Marx, que oferecem boas possibilidades de articulação com os princípios desenvolvidos por Piaget. A Escola de Budapest, principalmente com os trabalhos de Agnes Heller e G. Markus, e os trabalhos desenvolvidos por Lefèbvre, na França, indicam-nos também novas possibilidades. Neste sentido, não podem ser descartados os desenvolvimentos propiciados pela chamada Psicologia Humanista e pelo Comportamentalismo Skineriano, com os seus respectivos limites. Goldmann, dentro de sua perspectiva sociológica, preocupou-se mais significativamente apenas com esta perspectiva do sujeito transindividual e da transindividualidade, limitando-se a observar como uma obra de arte ou um produto cultural outro, mesmo quando criado materialmente por um único indivíduo, configurava-se, também, como produto da criação coletiva de um dado sujeito transindividual, na medida em que este sujeito coletivo também produzia e organizava as categoria mentais daquele. Goldmann estava interessado basicamente neste sujeito coletivo, constituído por uma pluralidade de indivíduos, e que particularizava-se na produção de seus indivíduos. Para nós, numa perspectiva psicológica, faz-se necessário entender não apenas esta dimensão, de uma transindividualidade característica de um dado sujeito histórico coletivo, mas em particular o modo como a transindividualidade se organiza na pessoa e organiza a pessoa, em articulação solidária com a atividade construtiva de sua individualidade. A compreensão destas dimensões do fenômeno humano permite-nos a abertura de inúmeras possibilidades teóricas e, principalmente, o esclarecimento de inúmeros impasses com que se defronta atualmente a psicologia. Em particular a compreensão da pessoa numa perspectiva histórica, em toda a concretude de sua constituição, e não apenas ao nível de sua aparência. Questões como a da mortalidade da individualidade e a durabilidade da transindividualidade; da transindividualidade e desempenho do agente institucional; da objetivação, manutenção e recriação da transindividualidade; do encontro inter-individual de diferentes sujeitos transindividuais; da clínica psicológica a partir de uma perspectiva que integre a transindividualidade; das relações entre investigador, transindividualidade e investigação; de aprendizagem, pedagogia e transindividualidade, e inúmeras outras, oferecem importantes vias de reflexão e estudo, com um grande potencial de esclarecimento de importantes setores da vida e da prática cotidiana, da prática científica e da prática política em nosso tempo. CONCLUSÃO A idéia da transindividualidade como efetivamente constituinte da pessoa, em articulação com a sua individualidade, oferece-nos a possibilidade de uma compreensão de fato da pessoa na concretude de sua constituição, uma vez que nos possibilita compreendê-la concretamente como síntese de relações sociais. Ao contrário das concepções que se fundamentam no indivíduo aparente ou numa perspectiva meramente sociológica, ela nos propicia condições de entender o indivíduo como síntese de relações sociais e como participante de uma dado sujeito histórico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 01. ADORNO, T., HORKEHEIMER, M -- TEMAS BÁSICOS DE SOCIOLOGIA, São Paulo, Cultrix, 1978, p.47. 02. Op. Cit. p.48. 03. LEIBNIZ, G. -- MONADOLOGIA in ABRIL CULTURAL -- NEWTON E LEIBNIZ, São Paulo, Abril Cultural, 1983, pp.94 a 115. 04. ADORNO, T., HORKEHEIMER, M. -- Op. Cit. p.46. 05. MUNNÉ, F. -- PSICOLOGIA SOCIALES MARGINADAS, Barcelona, Hispano-Europea, 1982. 06. Op. Cit. p.08. 07. Op. Cit. pp. 08 e 09. 08. Op. Cit. p. 15. 09. Op. Cit. p.221-4. 10. Ibid. 11. MARX, K. -- TESES CONTRA FEUERBACH, in ABRIL CULTURAL -- MARX, São Paulo, Abril Cultural, 1978. 12. GOLDMANN, L. CRÍTICA E DOGMATISMO NA CULTURA MODERNA, Rio, Paz e Terra, 1973. 13. GOLDMANN, L. -- A CRIAÇÃO CULTURAL NA SOCIEDADE MODERNA, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1982, p.81. 14. GOLDMANN, L. -- CRÍTICA E DOGMATISMO NA SOCIEDADE MODERNA, Rio, Paz e Terra, 1973, p.78. |