TRABALHANDO O LEGADO DE ROGERS
Sobre os Fundamentos Fenomenológico
Existenciais
Afonso H Lisboa da Fonseca
2a.
Edição
Comemorativa dos Cem Anos do nascimento de Carl Rogers
Pedang
Indice
Textos ACP
Trabalhando o Legado de Rogers
Sobre os Fundamentos Fenomenológico
Existenciais
Afonso H Lisboa da Fonseca
TRABALHANDO O LEGADO DE ROGERS
Sobre os Fundamentos Fenomenológico Existenciais
Eksistencia
Laboratório Experimental de Psicologia
Fenomenológico Existencial
PEDANG – Programa de Publicações
ã
Afonso H Lisboa da Fonseca
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Maceió, 1998.
2002.
“Em minha opinião, há somente uma afirmação que pode igualmente ser
aplicada a todas as teorias -- da teoria do flogístico à teoria da
relatividade, da teoria que apresento nestas páginas, à que a
substituirá, espero, dentro de dez anos -- a saber, que toda teoria
contém, no momento de sua enunciação, uma medida desconhecida (e neste
momento, sem dúvida, desconhecível) de erros e de definições falíveis.
Esta medida pode ser ampla, como na teoria do flogístico, ou reduzida --
como suponho que é o caso -- na teoria da relatividade. Porém, a menos
que tomemos a conquista da verdade como algo concluído, deveríamos
esperar que toda teoria, mesmo a mais firmemente estabelecida, venha a
se modificar sob o impulso de novas descobertas. Por isto, a consciência
aguda do fato de que o conhecimento científico é essencialmente
provisório, parece-me uma exigência fundamental da atitude científica.
“Confesso que me angustia a maneira pela qual certos espíritos
estreitos se apegam a uma teoria qualquer e a elevam à condição de
verdade ou de dogma. Se estivéssemos dispostos a tomar os sistemas
teóricos pelo que são, isto é, espécies de envoltórios de filigrana
contendo os dados maciços da realidade, estes sistemas poderiam, então,
cumprir sua função própria: o estímulo ao pensamento criador.”
Carl R Rogers, 1964.
Apresentação
Introdução
Capítulo
1
As Condições Facilitadoras Básicas como Princípios de Método
Fenomenológico Existencial:
I.
consideração positiva incondicional.
Capítulo
2
As Condições Facilitadoras Básicas Como Princípios De Método
Fenomenológico Existencial:
II.
A
Relação Empática. Empatia e Dialogicidade.
Capítulo
3
As Condições Facilitadoras Básicas Como Princípios De Método
Fenomenológico Existencial
III.
Genuinidade
Capítulo
4
Avaliação Organísmica Da Experiência: Consciência, Liberdade
Experiencial e Afirmação, no Trabalho Psicológico e Psicoterápico
Capítulo
5
De Como Psicólogos e Psicoterapeutas Descobrem a Fenomenologia e o
Existencialismo.
E sobre a importância de um início de si mesmo para a compreensão e
prática da psicologia e psicoterapia fenomenológica existencial.
Capítulo
6
Fenomenação
Psicologia e Psicoterapia Fenomenativa Existencial?
Capítulo
7
Fatal Mesmo é Crer na Fatalidade.
Dialogicidade, Superação, teoria e prática da Psicologia e
Psicoterapia Fenomenológico Existencial
APRESENTAÇÃO
A
compreensão da Abordagem Centrada na Pessoa pressupõe um resgate
de sua concepção filosófica: Fenomenologia e Existencialismo. Não a
fenomenologia Kantiana, cuja crítica é a pretensão do conhecimento de
atingir o fenômeno, nem a Hegeliana, no movimento dialético da negação
da negação, para a superação. Deve-se seguir em busca da Fenomenologia
de Husserl, fundamentada no dinamismo intencional de uma consciência
aberta. Intencionalidade significando que aquilo que um objeto é
constitui-se espontaneamente na consciência, e que considera que os
conceitos e os termos devem permanecer em “devir”, sempre prontos a se
diferenciar conforme o avanço da análise da consciência e do
conhecimento de novos níveis fenomenológicos.
Fenomenologia surgida em momento de crise, no qual a crítica de Husserl
dirigia-se às teorias científicas apegadas à objetividade e à crença de
que a realidade reduz aquilo que percebemos pelos sentidos.
Existencialismo de Nietzsche – para quem a filosofia é uma “visão” de
acordo com a qual o homem deve viver. Como atitude existencial, sentido
de experimentar novas evidências, abandonando antigas posições na
criação apaixonada da verdade, embora dela todos nós tenhamos receio.
“Ao homem cabe, como tarefa, fazer com que a sua existência não seja um
simples acidente sem significado, pois o problema fundamental do homem
consiste em alcançar a verdadeira existência em vez de deixar a vida se
reduzir a um simples acidente (Gilles) .” O critério de
valor da existência não é apenas a simples vida, e sim a vida
aperfeiçoada e transfigurada. Vontade de Potência – conceito
nietzscheano --, significando a vontade de superação de si mesmo,
auto-superação, e o eterno retorno como antítese da desvalorização do
momento no finito do indivíduo.
Em Martin Buber – Filosofia Dialógica da Relação – compreende-se
a concepção do papel do terapeuta, o desdobramento da concepção deste
papel e da conceituação da psicoterapia e do trabalho clínico.
TRABALHANDO O LEGADO DE ROGERS -- Sobre os Fundamentos
Fenomenológico Existenciais. Constitui-se como obra
primeira, na medida em que aponta para uma reflexão sobre a concepção
filosófica que fundamenta a ACP.
Constitui-se de uma coletânea de ensaios, resultado de estudos, reflexão
e experiências desenvolvidas pelo autor em seus ensinamentos em
universidades, cursos de formação, facilitação de grupos, como também de
sua efetiva prática clínica.
Identifico neste trabalho dois momentos: primeiro o exame dos pontos de
contato entre a Fenomenologia, o Existencialismo e a Abordagem Centrada
na Pessoa. Segundo, proporcionar uma introdução ao pensamento filosófico
às pessoas interessadas na teoria de Carl Rogers.
Como professora, psicoterapeuta, aluna, considero o texto de exemplar
clareza de compreensão da Filosofia à Teoria de Carl Rogers e à prática
clínica. Estabelece uma lógica tal, que dele se pode usufruir, na medida
em que vem a preencher lacunas existentes no campo acadêmico.
Como pessoa, um sentimento de orgulho e a reafirmação de respeito por
você, Afonso.
Diana Belém, psicóloga.
Recife, Abril de 1997.
A
partir do trabalho de Carl Rogers, a Abordagem Centrada na Pessoa
constituiu-se como uma vigorosa opção, com amplas possibilidades de
aplicações no âmbito das relações humanas, no campo da psicologia e da
psicoterapia, da pedagogia, do trabalho com grupos.
Algo que se pode com certeza dizer de Rogers, é que ele esteve
produtivamente à altura de seu tempo e lugar.
Trabalhou intensamente, desde a primeira metade do século, na
constituição de sua abordagem. A partir de sua formação, no âmbito da
cultura e do meio da psicologia, e posteriormente da psicoterapia Norte
Americanas, Rogers soube usufruir produtivamente de influências da
cultura chinesa, que então chegavam aos EUA, e à qual visitou na
juventude; soube usufruir essencial e produtivamente das perspectivas da
Fenomenologia e do Existencialismo em psicologia e psicoterapia, que
igualmente chegavam, então, aos Estados Unidos, através, em particular,
da psicologia organísmica de Kurt Goldstein, e da influência de
intelectuais europeus e de dissidentes do movimento psicanalítico, como
Otto Rank e Ludwig Binswanger, que constituíram uma vertente européia da
psicoterapia. Influências que fecundavam poderosamente o meio da
psicologia e da psicoterapia norte americanas, redundando no
desenvolvimento da psicologia humanista.
O
trabalho de Rogers, a abordagem centrada na pessoa, foi, e é, um
dos grandes tributários deste movimento, que contava com as
contribuições de figuras como, A. Maslow, R. May, A. Angyal, e com a
contribuição de todo o processo fermentativamente produtivo que a
cultura norte americana desenvolveu, a partir das influências que lhe
chegavam da Europa, no período imediatamente anterior, durante, e
posteriormente à segunda guerra. Rogers usufruía de um modo igualmente
produtivo, da influência do meio da Psicologia e da Cultura Norte
Americanas, em especial da ampla influência de William James, e de
pensadores como R. W. Emerson. As cisões provocadas por C.G. Jung no
movimento psicanalítico, e, em particular, a nietzscheana influência de
Otto Rank, e as concepções de Martin Buber tiveram um papel fundamental
no desenvolvimento das perspectivas, teorias e práticas de Rogers.
A
partir de sua formação, Rogers cuidou de desenvolver os antídotos
pragmáticos para as tendências fortemente abstracionistas, filosofantes
e teorizantes das influências que lhe chegavam a partir da filosofia e
da psicologia e psicoterapia fenomenológico existenciais européias.
A
abordagem de Rogers desenvolveu-se, e ganhou autonomia própria, e
ousadia para influenciar criativamente todo o ambiente que a engendrara,
e, de um modo geral, à psicologia e à psicoterapia em todo o mundo.
A
partir de suas influências, o trabalho de Rogers configurou-se
significativamente, em importantes de suas dimensões, como um processo
de desconstrução: desconstrução de um modelo clínico de
psicoterapia, fortemente baseado, freqüentemente, numa perspectiva
aniquiladoramente objetivista e técnica. Desconstrução de uma concepção
objetivista, por um lado, da pessoa e do cliente, ou de uma concepção
universalizante e universalista deles. Desconstrução de uma perspectiva
autoritária e manipulativa nos trabalhos com grupos e na relação com o
cliente individual. Desconstrução da possibilidade de uma exclusividade
ou hegemonia da Psicanálise, e/ou do Comportamentalismo.
Propôs, alternativamente, um modelo fenomenativo existencial de
psicologia, de psicoterapia, de trabalho com grupos, de pedagogia,
centrado fundamentalmente, não na aplicação de teorias e de técnicas,
mas na relação fenomenativa existencial atual entre seus agentes.
Propôs, em particular, uma opção de exercício do poder, fundada na
valorização dialógica da atualidade e em referenciais fenomenativos e
existenciais.
Rogers contou, no fluxo de seu processo produtivo, com o impulso
vigoroso do movimento de certos segmentos culturais da sociedade mundial
e norte americana, nas três primeiras décadas da segunda metade do
século, de cunho fortemente existencial e libertador.
Por outro lado, foi heterogêneo com relação às tendências fortemente
religiosas de negação do corpo e da vida. E com relação às tendências de
forte cunho objetivamente empiristas da cultura norte americana, de onde
ele próprio provinha.
Não obstante, estas tendências fortemente religiosas, e de negação do
corpo e do vivido têm cobrado um pesado tributo da fenomenologia e do
existencialismo, como fundamentos da ACP e da psicologia e psicoterapia
fenomenativa existencial norte americana. Na medida, em particular, em
que desenvolveram progressivamente, e desenvolvem, um forte movimento
reativo contra a perspectiva fenomenal e contra uma postura de afirmação
do corpo e de afirmação da vida, levando estas abordagens, às vezes
fortemente, a acentuadas distorções pragmático empiristas, num sentido
objetivista, ou idealistas, ligadas à perspectiva de um ideal ascético,
e potencializadas pelo desconhecimento dos seus fundamentos e raízes
fenomenativos e existenciais.
Disseminando-se pelo mundo, a ACP desenvolveu-se na América Latina e no
Brasil, configurando-se como uma opção extremamente rica, no campo das
psicologias, das psicoterapias, pedagogias e modelos de trabalhos com
grupos de cunho fenomenológico existencial. Tem também sofrido críticas
intensas, tanto de seus praticantes como de fora da comunidade destes.
Estas críticas parecem estar surtindo o seu efeito, na medida em que têm
potencializado uma reflexão sobre os seus fundamentos e sobre as suas
distorções. Na medida, em particular, que têm possibilitado uma reflexão
sobre nossa posição específica, enquanto brasileiros, latino-americanos,
no contexto da teoria e da prática desta abordagem.
Acredito que uma parte fundamental deste processo, e do processo de
desenvolvimento da ACP, é esta reflexão sobre seus fundamentos
fenomenológico existenciais, a recuperação e a explícita reiteração
destes fundamentos. Na medida em que, em função de toda a distorção
pragmático-empirista, e idealista, eles ficaram freqüentemente confusos,
e até esquecidos.
É
nesta perspectiva que se inserem os ensaios deste livro.
Busco nos três primeiros capítulos indicar os fundamentos fenomenativo
existenciais das chamadas condições facilitadoras básicas: a
consideração positiva incondicional, a compreensão empática e a
genuinidade. Dedico um capítulo à discussão da concepção de
avaliação organísmica da experiência, a partir de sua perspectiva
fenomenativa existencial. Discuto, em um outro capítulo – De Como
Psicólogos e Psicoterapeutas Aprendem a Fenomenologia e o
Existencialismo --, o modo como psicólogos e psicoterapeutas
aprenderam a fenomenologia e o existencialismo e como estas perspectivas
filosóficas lhes servem em suas concepções e trabalhos, a partir, em
particular, da valorização de uma atitude fenomenológica, e da
valorização de uma atitude, e de valores, de afirmação da vida..
Comento, num outro capítulo – Fenomenação --, o modo
eminentemente ativo da concepção do fenomenal em psicologia e
psicoterapia, em contraposição com tendências que escorregam para a
valorização de uma perspectiva reflexiva por sobre a perspectiva do
vivido. No último capítulo – Fatal Mesmo é Crer na Fatalidade --,
busco expor alguns aspectos que me parecem fundamentais na contribuição
da perspectiva dialógica da filosofia da relação de M.
Buber para a psicologia e psicoterapia fenomenativa existencial.
Como se pode observar, não pretendo estabelecer verdades, mas
fazer jus ao legado de Rogers e dos psicólogos e psicoterapeutas
fenomenológico existenciais, assim como fazer jus a nós próprios em
nossa atualidade e realidade, pela discussão do que me parecem pontos de
interesse para o desenvolvimento da perspectiva desta abordagem e da
perspectiva da psicologia e psicoterapia fenomenativa existencial.
Agradeço a todos os colegas que leram discutiram e revisaram os
originais, em especial a Diana Belém que, emprestando sua competência,
leu, exaustivamente discutiu e revisou, além de me ter honrado com a
apresentação.
Capítulo 1
AS CONDIÇÕES FACILITADORAS
BÁSICAS COMO PRINCÍPIOS DE MÉTODO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL :
I.
CONSIDERAÇÃO POSITIVA INCONDICIONAL.
Se tudo que uma pessoa exprime (verbalmente ou não verbalmente, direta
ou indiretamente) sobre si mesma, parece-me igualmente digno de respeito
ou de aceitação, isto é, se não desaprovo nem deprecio nenhum elemento
expresso dessa forma, experimento em relação a esta pessoa uma atitude
de consideração positiva incondicional.
(Carl Rogers/ G. Marian
Kinget)
A
fenomenologia significou um momento particularmente marcante no
desdobramento do pensamento da Civilização Ocidental. Um momento em que
se buscou uma relativização dos juízos, do conceitual, do teórico, do
abstrato, e da abstração, privilegiando-se a fonte de onde eles
emergem, a experiência viva, a vivência, pré-reflexiva,
pré-conceitual, pré-teorizante: o encarnado, o efetiva e pontualmente
vivido.
Constituiu-se assim a fenomenologia como uma ontologia, como uma
epistemologia, como uma filosofia, como uma perspectiva de ciência, como
uma atitude fenomenológica, que busca partir destes níveis
originários da experiência e do devir, o nível da intuição
originária da vivência de consciência.
A
fenomenologia foi aí, já, uma revolução: não só relativizar, mas
subalternizar a consciência reflexiva, os juízos, o teórico, o
conceitual. Numa cultura que, desde Sócrates, instalava-os no ápice dos
valores e dos critérios do conhecimento... Eleger a intuição
originária da vivência de consciência como o critério por
excelência do conhecimento e da existência: o nível do conhecimento
(vivencial) anterior a qualquer forma de conhecimento
(reflexivo).
Foi uma modificação completa do ponto de referência. Uma revolução de
mentalidade, no âmbito da socrática Civilização Ocidental.
À
consciência, pontual e pré reflexivamente vivida, em seus níveis mais
originários, foi restituída a sua importância e valor, no processo de
constituição da existência e do conhecimento humanos: o seu lugar de
raiz de todas as coisas, e o seu lugar, nada menos que, de
condição de aparição do mundo, raiz do mundo... Mundo a ela
originária e indissociavelmente correlativo, anteriormente a qualquer
possibilidade de cisão. A preconização de uma atitude fenomenológica,
que buscasse uma compreensão (e não uma explicação) do
mundo, e da existência -- em sua globalidade, detalhes e fragmentos --,
a partir, específica e particularmente, de sua vivência. Uma suspensão
da crença no valor dos juízos, conceitos e teorias a respeito do mundo e
da existência, para enfatizar a importância fundamental de sua vivência,
na intuição originária da vivência de consciência.
“O mundo não tem existência, o mundo é fenômeno...”
Tudo isto representou já uma revolucionária mudança de critérios e de
pontos de vista, de atitudes e de valores.
Mas para a fenomenologia, como para o humano, de um modo geral, resta
ainda, pelo menos, uma questão crucial: a consciência enquanto tal não é
única, não existe isoladamente no mundo. Para a consciência há sempre a
crucial questão da outra consciência, do outro, com os
quais a consciência não apenas relaciona-se dialogicamente, mas
imbrica-se dialógica e necessariamente, num processo de mútua
constituição e reconstituição.
Rapidamente, a consciência constata que não se trata, apenas, de viver
num mundo de coisas que têm sentido. Mas de viver num mundo com
outros. Outros que são um eu para si próprios. De outros
que constituem a sua própria unidade, de outros que são focos
autônomos de produção de seu próprio sentido (Husserl).
Ou, como observa
Lyotard:
“A alteridade do outro distingue-se da transcendência simples da
coisa pelo facto de o outro ser para si próprio um Eu e de a sua unidade
não estar na minha percepção, mas nele próprio; por outras palavras, o
outro é um Eu puro que de nada carece para existir, é uma existência
absoluta e um ponto de partida radical para si mesmo, como eu o sou para
mim. A questão transforma-se então em: como é possível um sujeito
constituinte (o outro) ‘para’ um sujeito constituinte (eu)?”.
É
um segredo da arte do humano. Ser e viver com outros.
Relação com outros que pode ser, e é, a fonte de ameaça e de nossa
destruição. Relação com outros que é a fonte de nossa criação e
realização.
Tamanha é a importância do significado da possibilidade presença do
outro que interessa-nos radicalmente respeitá-lo em sua outridade, e
interagir com ele em sua particularidade e singularidade.
Não posso abrir mão da afirmação de meu eu em devir, na relação
com o outro. Mas interessa-me a relação com a sua diferença e
particularidade próprias, a outridade do outro. Interessa-me
respeitar a sua particularidade e a sua diferença próprias, e com elas
interagir.
Buber colocaria isto de uma forma primorosa:
“Este ser humano é outro, essencialmente outro do que eu, e é esta
sua alteridade que eu tenho em mente, porque é ele que eu tenho em
mente; eu a confirmo, eu quero que ele seja outro do que eu, porque eu
quero o seu modo específico de ser.[3]
Não é por questão de alguma forma de altruísmo, ou por algum princípio
moral. É que “O eu se cria na relação com o tu”.
Não existe eu que se constitua que não seja dialogicamente na relação
com o Tu. De modo que a estratégia existencial fundamental do
crescimento é a relação com o diferente, com o outro -- pessoal,
impessoal, individual, coletivo, situacional, humano, não humano...
É
do meu interesse abrir-me dialogicamente e interagir com a diferença do
mera e radicalmente outro. É a forma privilegiada do processo de
minha auto constituição.
A
psicoterapia mergulhou de cabeça na revolução que configuraram a
fenomenologia e a sua conotação existencial, constituindo linhas
especificamente fenomenológico existenciais de psicoterapia. Com isto,
constituiu-se uma revolução própria e particular no seu campo
específico, e, porque não dizê-lo, no âmbito das relações sociais na
cultura ocidental. Revolução potencializada e potencializante inclusive
da própria emergência e desdobramentos da fenomenologia e do
existencialismo.
Isto significou, de imediato e preliminarmente, no encontro e confronto
com o cliente, a assunção do ponto de vista epistemológico da
fenomenologia, e a eleição do ponto de vista fenomenal como critério
e modo superiores de conhecimento e de vida. Ou seja,
alternativamente ao conceitual, ao reflexivo, ao teórico, a assunção do
ponto de vista da intuição originária da vivência de consciência,
do vivido, do pré reflexivo, como critério superior do
conhecimento e de orientação e avaliação da vida.
Isto marca uma revolução histórica, epistemológica, conceitual, técnica,
política, no âmbito dos trabalhos de psicoterapia, de saúde mental e de
manejo das relações sociais. Revolução que ainda está por
desdobrar-se, e produzir os seus melhores efeitos. Marca uma revolução,
sobretudo, do ponto de vista ético. Na medida em que se reconhece
inquestionavelmente o direito do outro a sua própria subjetividade
fenomenal, a sua própria alteridade, e pleno e autônomo exercício delas.
Não se trata apenas do direito do outro a sua própria consciência,
mas do direito à validade inquestionável da fonte vivencial e pré
reflexiva de sua consciência, da intuição originária de sua vivência de
consciência como raiz do mundo para ele.
De
modo que, com relação à subjetividade do cliente (tantas vezes
massacrada em sua vida cotidiana, e freqüentemente, em particular, pelo
próprio poder institucional do profissional), com relação ao seu (do
cliente) ponto de vista fenomenal, desenvolve-se um respeito radical, de
quem, enquanto psicoterapeuta, se auto concebe como humano, em primeiro
lugar -- e não como um técnico --, e está visceralmente interessado na
humanidade original e única de seu parceiro de relação -- mesmo que seja
esta uma relação emoldurada pelo vínculo profissional. Respeito ao
cliente não apenas de um ponto de vista abstrato, teórico, conceitual,
egótica e narcísicamente projetivo. Mas respeito do ponto de vista
fenomenal e pontualmente vivido dele próprio, cliente, pessoa, ser
humano, consciente e autônomo, afetivo, em crise existencial mais ou
menos aguda, e em devir.
Por outro lado, para além do conhecimento, as psicoterapias
fenomenológico existenciais assumiram a perspectiva existencialista da
própria afirmação do vivido, e do valor da criatividade
existencial, emergente na afirmação deste vivido. A perspectiva da
afirmação da existência, como postura ética, e como estratégia, digamos,
terapêutica, ou de crescimento humano, existencial.
Pensadas no que concerne ao cliente, estas premissas fenomenológico
existenciais da psicoterapia convergiram naturalmente, assim, num
princípio de respeito radical à sua diferença enquanto outro,
consciente, reflexiva e, sobretudo, pré reflexivamente. Mais do que
respeito, convergiram no interesse por sua diferença particular, por sua
outridade própria. Um interesse por uma compreensão e
confirmação da pessoa dele, naquilo que ele pontualmente se percebe,
vivencia e comunica como sendo ele próprio, no modo como ele compreende
e vivencia as questões, pessoas e vínculos significativos de sua
atualidade existencial.
Posso colocar-me em relação com o cliente. Com a sua comunicação
voluntária ou involuntária. Mas, tal como a minha, a sua consciência
constitui-se autonomamente, de um ponto de vista pessoal. E, é,
fenomenologicamente, a raiz do mundo para ele.
De
modo que, se posso, e interesso-me, por colocar-me dialogicamente em
relação ativa com ele, a partir da singularidade pontual de mim mesmo,
não me concerne avaliar ou tentar condicionar o ponto de vista
fenomenal de sua consciência com relação a ele próprio, ao seu mundo, a
seus vínculos, a suas questões existenciais. Este ponto de vista existe
necessariamente, e é imanente à existência de sua pessoa na relação com
o mundo que lhe diz respeito. É a raiz do mundo para ele.
O
que interessa a um terapeuta fenomenológico existencial é que o cliente
possa afirmar a afirmação com que se constitui, já, este seu
ponto de vista fenomenal. É o respeito incondicional por este ponto de
vista fenomenal do cliente, por sua experiência, pela sua afirmação.
No
pragmático desenvolvimento da Psicoterapia Centrada na Pessoa, cedo se
percebeu que era este respeito incondicional pelo ponto de vista
fenomenal do cliente, imediaticidade de seu processo de devir, e por sua
afirmação, que se constituía como uma condição fundamental para a
criação de um clima terapêutico, de possibilitação de “cura”, e
de facilitação de seu crescimento humano.
Uma atitude de Consideração positiva incondicional pela experiência
do cliente por parte do terapeuta logo se revelou como um poderoso
fator de constituição de um clima de relação passível de propiciar
condições ao cliente para uma progressiva reorganização de seu modo de
funcionamento psíquico e comportamental, propiciando-lhe condições para
uma reorganização da sua imagem de seu si-mesmo, e uma melhor
atenção a sua experiência organísmica, no sentido do desenvolvimento de
padrões mais livres de vivência desta sua experiência e de criatividade
e potência no âmbito de sua existência.
Como pedra de toque, a consideração positiva incondicional cria
condições para que o cliente possa afirmar o seu vivido, e
progressivamente com ele identificar-se, e desenvolver uma habitualidade
desta identificação. De modo que a habitual identificação do cliente com
o seu próprio vivido, permite-lhe uma potencialização de sua
originalidade e de sua criatividade, uma potencialização e atu alização
do devir de suas forças e vontades, na resolução e encaminhamento de
suas questões existenciais.
Este conceito, e a prática efetiva de uma consideração positiva
incondicional pela experiência do cliente, passou, então, a
constituir-se como elemento fundamental da teoria e da prática da
Terapia Centrada na Pessoa, da mesma forma em que passou a ser entendido
como um fator fundamental para o desenvolvimento de uma personalidade
humana plenamente funcionante. A sua carência significativa e regular
sendo identificada como conducente ao desenvolvimento de um estado de
mal funcionamento da personalidade, de desajuste social e desequilíbrio
psicológico.
Os
praticantes da terapia centrada na pessoa desenvolveram estudos para
verificar hipóteses relativas à consideração positiva. E, como na
questão da empatia, há que se reconhecer a Rogers o mérito de ter
investido a sua vida profissional na afirmação do valor e da importância
da consideração positiva incondicional no âmbito da psicoterapia,
da pedagogia e dos trabalhos com grupos e de facilitação das relações
humanas em geral.
Infelizmente, à medida que vai se desenvolvendo na ACP uma pragmático
empirização de seu fundamento fenomenológico e existencial -- o que
significou uma perda de densidade fenomenológico existencial dialógica
em sua concepção, na concepção de seus conceitos, princípios e na sua
prática --, há um empobrecimento conceitual e prático da idéia de uma
consideração positiva incondicional pela experiência do cliente.
É
interessante observar, num primeiro momento, que, ao longo desse
processo, o conteúdo fenomenológico existencial dialógico do conceito
vai sendo misturado com conteúdos da filosofia dos direitos da pessoa
humana. Interessante.
No
limite, a pessoa é aceita como um valor em seu direito pessoal de
cidadão, a pessoa em si é aceita como um valor.
Evidentemente que isto é uma premissa fundamental da relação com outros
seres humanos, conquista das revoluções burguesas da Europa e dos
Estados Unidos. Mas a questão de uma consideração positiva
incondicional pela pessoa do cliente não pode parar simplesmente por
aí.
Não se trata de uma consideração positiva incondicional pelo outro como
pessoa abstrata, teórica, que eu projeto egótica e narcísicamente sobre
o meu parceiro de relação. Não se trata, também, o que dá mais ou menos
no mesmo, de uma consideração positiva pelo outro apreendido e
concebido, meramente, como pessoa empírica e empíricamente comunicante e
comunicada.
Trata-se do reconhecimento. e confirmação pontual, do outro enquanto
outro fenomenal, consciente e em devir de poder ser, diferente e
autônomo, dialogicamente em relação comigo. Trata-se de uma
consideração positiva incondicional pelos níveis mais informes e frescos
de sua consciência com relação a si próprio e ao mundo que lhe diz
respeito. Trata-se do reconhecimento do seu direito à diferença e à
autonomia, em sua relação pontual comigo, pessoa e instituição, locus de
poder. Trata-se, em particular, do interesse vivencial, não altruísta,
de pôr-me em relação dialógica com a sua diferença e autonomia: trata-se
do meu interesse na parceria com ele num processo de constituição de
minha própria atualidade e atualização, de meu próprio presente.
Presente que, como diz Buber, só existe na presença.
Presença que é a presença do, e relação com o, tu,
alteritário, em sua diferença própria e autonomia.
De
modo que não se trata, por exemplo, de um conceito moral ou altruísta de
aceitação do outro. Não se trata de simplesmente reconhecer -- premissa
fundamental, mas insuficiente -- o seu direito a ser aceito
incondicionalmente como um valor por ser pessoa. Não se trata da
aceitação de sua pessoa empírica.
Trata-se, na consideração positiva incondicional pela pessoa e pela
experiência do cliente, de uma abertura para a relação com ele em
sua outridade própria e imediatamente vivencial, e de uma compreensão e
consideração positiva e ativa, pelo seu ponto de vista fenomenal, como
inevitável e irrecusável raiz do mundo para ele. Trata-se de um
princípio de método fenomenológico existencial de prática da psicologia
e da psicoterapia, que carece de ser entendido de uma perspectiva
especificamente fenomenológica e existencial.
Do
contrário, com a perda da densidade fenomenológica e existencial de sua
concepção, a consideração positiva é facilmente confundida com uma
pretensamente incondicional aceitação moral do outro, fácil e
rapidamente refutada como impossível. Enquanto que a consideração
positiva incondicional volta-se para a vivência do cliente, e
constitui-se efetivamente como interesse existencial para quem
efetivamente a pratica.
Não custa recordar Fritz Perls: “Mil flores de plástico não farão o
deserto florescer”.
Capítulo 2
AS
CONDIÇÕES FACILITADORAS BÁSICAS COMO PRINCÍPIOS DE MÉTODO
FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL:
II. A RELAÇÃO EMPÁTICA. Empatia e Dialogicidade.
O objeto deve consumir-se para se tornar
presença, retornar ao elemento de onde veio para ser visto e vivido pelo
homem como presente.
(M. Buber)
Quando se concebe a idéia de empatia, não se observa,
normalmente, a dimensão da dinâmica de interação e de re-criação de
diferenças, entre os parceiros, necessária e inerente ao processo da
relação empática. Tem-se sempre em mente o esforço, a disposição, o
gesto, do terapeuta, no sentido de uma compreensão do como o cliente se
percebe ou se sente no momento; como percebe o mundo que lhe diz
respeito, a si mesmo e as suas relações, da forma a mais fidedigna
possível, digamos.
Naturalmente que a definição deste esforço, desta disposição e gesto do
terapeuta, são componentes fundamentais de um certo modo do que se pode
entender como empatia. Limitado, entretanto, a esta perspectiva,
este parece ser um modo grosseiro, e, pior que isto, um modo de
compreensão passível de gerar mal-entendidos que comprometem basicamente
o que se quer ter por empatia.
O
mais grave desses mal-entendidos é que a limitação a este modo de
formulação reflete uma certa concepção objetivista do ‘outro’, e
(pasmem) uma certa concepção objetivista da própria subjetividade
dele! O que é certamente um absurdo. Concebe-se freqüentemente a
empatia como um esforço cognitivo, inorgânica e artificialmente
articulado à afetividade do terapeuta. Este modo de concepção perde o
que existe de fundamental no processo da relação empática. Na medida em
que o cliente é constituído, desta forma, como objeto de relação
e de conhecimento. Seguindo Buber, o que é fundamental é,
justamente, que o parceiro não seja objeto, mas vivido,
vivenciado, na dialogicidade do imediato encontro com ele. Que o
parceiro não seja, objetivisticamente, entendido como um objeto em si,
dissociado da vivência própria do terapeuta.
Esta pessoa do cliente, tal como me aparece na minha relação com ele, só
existe como tal em função desta relação em que sou pólo. O que me
implica inextricavelmente, nos níveis existencialmente mais básicos de
mim mesmo, vivenciais, pré reflexivos.
O
fundamental é que o cliente não seja entendido como objeto de
conhecimento abstrato, mesmo momentâneamente, mas afirme-se, e
confirme-se, na relação comigo, como um parceiro efetiva e
fenomenalmente vivido, dialogicamente, no confronto com, e
privilegiamento de sua alteridade viva, ativa e autônoma.
Que ele não seja objetificado, assepticamente, teorizado ou simplesmente
conhecido reflexivamente, por este seu parceiro, eventualmente
terapeuta, num evento da vida.
Uma relação empática objetivista perde o valor de sua dimensão
existencial, do seu poder de atuação e de trans-form-ação produtiva,
tanto da existência do cliente como da existência do terapeuta. Ou seja,
perde a referência deste poder como seu sentido e condição de sua
possibilidade. Mais importante, transforma-se em sofisticado dispositivo
de manipulação e de produção da subjetividade do cliente, e
empobrecimento do terapeuta.
Para compreendermos e efetivarmos a relação empática é interessante a
preservação deste seu caráter duplo de transformação existencial, tanto
do cliente como do terapeuta.
Mais que isto, é fundamental enfatizar que é exatamente a interação
pontual, sincrônica e sintônica, desses processos simultâneos e
diferenciados de transformação existencial que se configura como relação
empática. Em momento algum, na efetiva, e momentânea, relação empática,
o cliente (e muito menos o terapeuta) é objeto -- de relação, de
conhecimento ou de uso --, na medida em que o processo desta relação
desdobra-se numa esfera vivencial, vivida, de relação entre
parceiros fenomenativos que, em momento algum, são circunscritos
objetivamente. Os parceiros de relação estão fenomenal e
existencialmente implicados em seu processo relacional. De modo que
nenhum dos dois é isento do outro ou de si mesmo, de modo a poder
constituir o parceiro ou constituir-se a si próprio como objeto.
O
outro, portanto, na duração da relação empática, é sempre
parceiro vivo, vívido e vivido, e em devir, na dinâmica fenomenológico
existencial do encontro; co-participante, nunca objeto; nem mesmo de
conhecimento.
Com o outro, na empatia, a relação é ontológica, relação de totalidade
de ser, existencialmente produtiva, nunca uma busca objetivista de
conhecimento, muito menos um esforço de uso do parceiro, em
nenhuma de suas modalidades -- homem nenhum é meio para outro
(Kant). De modo que a empatia é, fundamentalmente, um processo
existencial de dupla constituição. A empatia cria e recria o si mesmo
do terapeuta, ao mesmo tempo em que torna possível a criação e recriação
do cliente.
“O outro é uma modificação do meu eu”. (E. Husserl).
Reside aí muito do que se pode atribuir de valor terapêutico à
relação empática.
Um
equívoco comum, quando se concebe vulgarmente a idéia de empatia,
é o de julgar que esta consiste, atomisticamente, numa suposta apreensão
do estado do outro. Quase como se o outro fosse um continente de
cujo conteúdo eu quisesse e pudesse cognitivamente apropriar-me.
É, nesta visão distorcida da empatia, quase como se o outro fosse um
recipiente de conteúdos psico afetivos, dos quais eu me aproprio
compreensiva (tolerante) e bondosamente, de um modo às vezes quase que
telepático. O outro em questão é, assim, um objeto (sem
dúvida nobre objeto, mas ainda objeto) de conhecimento, ou, no máximo,
de relacionamento. Por mais que a este esforço cognoscente tente-se,
mecanicamente, adicionar uma dimensão afetiva. O terapeuta é, neste
caso, por mais que o negue, “neutro”, por mais que represente ou
simule um envolvimento com o cliente.
Mecanicamente, o que o terapeuta parece às vezes tentar é a reprodução
cognitiva em si próprio do que ele imagina apreender do cliente como
objeto de atenção.
O
que de fato ocorre, na apreensão que o terapeuta faz do cliente, é um
esboroamento das diferenças existentes e engendradas como processo de
diferenciação entre o terapeuta e o cliente, uma redução do
conflito, potencialmente produtivo e criativo, entre alteridades.
Terreno fértil este para potentes manipulações por parte de terapeutas
eventualmente incompetentes e dominadores.
Só
existe Empatia na relação fenomenal efetivamente vivida entre
diferentes. Mais que isto, entre diferentes que privilegiam, que podem e
querem fascinar-se pelas respectivas diferenças, e pelos fluxos dos
processos destas. Só existe empatia no fluxo de processos de
diferenciação, que se engendram reciprocamente entre os parceiros em
interação. A tensão da relação fugaz entre diferentes é condição
de possibilidade da empatia.
Compreender o outro em sua particularidade é, fundamental
e inevitavelmente, relacionar-se efetivamente com o diferente, com a
diferença, com configurações de diferenças em fluxo, devir. E isto
exige, e só é possível, na medida em que, em me abrindo para a diferença
do outro, efetivamente sou afetado por sua outridade, e me crio como
diferente, dele e de mim mesmo, como diferença, como fluxos de
diferença.
De
modo que a empatia não tem a ver com um tornar-se similar, igual, ao
cliente, ou vice-versa. Não tem a ver com uma redução das diferenças
entre eu e ele. Muito pelo contrário, a empatia nutre-se
fundamentalmente da diferença, configura-se basicamente como processo de
diferenciação, no qual as diferenças se encontram, confrontam-se, e são
recriadas, como diferenci/ação.
Paradoxalmente talvez, para um certo tipo de perspectiva, não é isto
que me distancia do parceiro de relação. Muito pelo contrário: o
processo da diferenciação ao longo da relação é condição de
possibilidade de uma relação de vínculos saudáveis e fortes. Negar ou
reduzir as diferenças, é inviabilizar a possibilidade da relação, é
negar ou reduzir o outro e a mim mesmo, é reduzir a possibilidade do
nós: de um nós vitalizado e rico, de vínculos fortes, não de
um nós confluente e amorfo. A negação da diferença do outro é a
primeira e a mais básica impossibilidade da empatia, e da relação. A
relação empática desdobra-se exatamente a partir do interesse espontâneo
e ativo pela diferença do outro, que permite uma abertura para eles
enquanto tal.
Para o bom terapeuta, o cliente é, sempre e sempre, inevitavelmente
outro, e autônomo em sua outridade. Mais que isto, o bom terapeuta
privilegia o reconhecimento e a afirmação deste dado da realidade, e faz
dele a fonte da criatividade, e a força motriz, do processo da
psicoterapia.
Evidentemente que o terapeuta não pode relacionar-se com todos os
possíveis desta outridade do cliente, nem mesmo acompanhar todos os
fluxos de suas variações. Da mesma forma que nem mesmo o próprio cliente
pode dar-se conta, em si mesmo, dos matizes e fluxos, a cada momento, da
outridade de si próprio. Mesmo que, a cada momento, esta se apresente
sob formas de configurações significativas totalizadas. Mas, a cada
momento, existe a possibilidade de abertura pontual do
terapeuta, na relação com a particularidade desta outridade do cliente.
Nos momentos em que esta possibilidade efetiva-se, terapeuta e cliente
já não são simples objetos em relacionamento (Isso e Isso, como
diria Beber), já não são, um para o outro, objetos, meramente, de
relação, de conhecimento, ou de uso. São co-partícipes, co-laboradores,
em um processo relacional sutilmente imprevisível, que mobiliza em sua
duração a constituição de suas respectivas consciências vivenciais. “Parceiros
em um evento da vida” (Buber). Relação imprevisível, em particular,
porque se configura como momento eminentemente plástico,
existencialmente; plasticidade à qual nenhum dos dois parceiros é imune,
e à qual nenhum dos dois pode controlar.
A
relação empática é, assim, fundamentalmente marcada pelo que Buber
chamava de Dialogicidade.
“O homem se torna EU na relação com o TU”.
Daí ser o momento empático um momento eminentemente plástico de criação
e recriação. Criação e recriação que afetam e implicam tanto ao cliente
como ao terapeuta. Podemos dizer que só existe empatia quando existe
afetamento e implicação recíprocos. Contaminação (pela outridade).
Impregnação, no sentido gravídico (existencial) do termo.
Arbitrariamente -- porque em realidade isto não tem esta ordem --,
podemos tomar este ponto como ponto de partida da relação empática. É
esta impregnação, este emprenhamento, pela outridade do outro, os
efeitos de uma certa vulnerabilização e afetação por esta outridade, que
permite ao terapeuta ser empático.
Usemos os termos de Buber.
A
efetivação da abertura do terapeuta,
em relação com a outridade do cliente, torna-se possível, apenas, na
medida em que, para si próprio, o terapeuta pode modificar-se, e ser
também um outro do que era. A abertura efetiva do terapeuta para
o cliente, enquanto efetivamente outro, é possível, apenas, na
medida em que o terapeuta se recria enquanto eu.
O
que marca e define a alteridade do outro é, naturalmente, a sua
diferença, a presença de sua outridade, pontualmente vivida,
fenomenalmente: relacionar-se com o outro implica na atualização de
potencialidades, de possibilidades de ser de nós mesmos, para estar-se à
altura (digamos) da relação com a novidade de sua diferença, com a
sempre emergente possibilidade de seu devir -- “O outro é uma
modificação do meu eu” (Husserl): e isto nada mais é do que
recriação do próprio si mesmo.
Para o cliente, naturalmente, o terapeuta é também, sempre e sempre,
inevitavelmente outro.
Evidentemente que ele, cliente, também não pode dar-se conta de todos os
possíveis desta outridade, nem acompanhar os fluxos de sua variação. Mas
o cliente também pode abrir-se eventualmente para a atualidade da
outridade do terapeuta, e com ele relacionar-se enquanto TU. Pode
abrir-se à relação com a alteridade do terapeuta, e, ainda que
autonomamente, recriar-se como outro, na relação com ele.
Ora, nos fluxos e contra fluxos da relação terapêutica, existe uma
dimensão particular da objetivação do terapeuta enquanto tu à qual o
cliente é particular e naturalmente sensível e vulnerável: o terapeuta é
pessoalmente afetado à medida que se abre para a relação com o cliente
enquanto TU. Este afetamento específico, como vimos, implica, de
um modo particular, a recriação do EU do terapeuta. Recriação que
se dá pontual, especifica e necessariamente, na relação com o cliente
particular. É a participação deste EU assim recriado na relação
com o cliente, a sua objetivação, que configura-se como o próprio núcleo
do que chamamos de resposta e ação empáticas do terapeuta. O cliente é
particularmente sensível a esta forma de objetivação e do ser e estar do
terapeuta. Desta forma particular de ser do terapeuta, que é para ele
efetivamente terapeuta como TU, como um outro que dialogicamente
com ele se relaciona.
Esta dita forma de objetivação, de ser e estar do terapeuta cria-se,
engendra-se, na relação específica, particular, pontual e intransferível
com ele próprio (cliente). Num certo sentido, constitui-se como uma
ressonância inter-humana, dialógica, do próprio ser do cliente, ainda
que seja ele, sempre e sempre, inevitavelmente outro, e se recrie como
tal no âmbito da relação empática. Na verdade, é uma incontrastável
confirmação
de seu (do cliente) próprio eu, da efetividade e existencial
realidade deste, em sua processualidade.
Na
relação viva com o desafio deste Outro, e que, mesmo assim,
confirma-o efetivamente, o cliente pode recriar-se de modo efetivo,
superando, sempre que possível e interessante, o seu próprio status
quo.
A
empatia tem a ver, assim, com a oferta, com a objetivação, por parte do
terapeuta, de processos fenomenológico existenciais seus, que se
elaboram, especifica, pontual e imediatamente, na relação singular com o
cliente. Processos esses que exigem expressar-se em seu lugar e tempo
próprios, que é a relação sincrônica entre o cliente e o terapeuta
particulares, na atualidade de um momento e lugar particulares.
Estes processos existenciais configuram-se inequivocamente como
pertinentes à particularidade do terapeuta, a sua outridade em relação
ao e com o cliente. Engendram-se na relação particular com o cliente,
mas estão fora do controle deste, uma vez que se elaboram como si
mesmo do terapeuta. Neles não existe simetria com relação ao cliente, ou
com relação a um estado seu, não existe aproximação redutora de
diferenças; mas, basicamente, a reafirmação e a recriação delas. E isto
é bom, benigno, produtivo, criativo, potencializador de saúde e de
vínculos saudáveis.
Ao
apreender a particularidade do outro, o apreendido já não guarda
semelhança com o outro em questão. Intimamente articulado a ele, é não
obstante, elaboração do sujeito que apreende.
Esta elaboração é absolutamente idiossincrática, e envolve, inclusive, a
imaginação, e, em particular, a responsabilidade do sujeito que
apreende. Como observa Buber, os dados empíricos da experiência não nos
oferecem o outro em sua particularidade e completude. É necessária uma
vigorosa penetração imaginária no outro, uma fantasia do real,
como chamava,
para que possamos configurá-lo em nossa consciência. Uma fantasia que,
como tal, é imaginária, mas que não se pauta pelos ilimites da
imaginação, mas amarra-se à peculiaridade efetiva e imediata da
atualidade do outro em inter/ação.
De
modo que a apreensão que tenho do outro não se configura como
similaridade do outro, representação do outro, em minha consciência. Mas
é, em todos os momentos, elaboração minha, imediata. Constituída,
oferecida, objetivada, como participação minha na relação: é a particip/ação
de uma produção minha -- engendrada na relação com o outro -- que ao
outro é oferecida.
Evidentemente que todo este processo exige do cliente a preservação, e a
atualização, de uma abertura para a relação com o terapeuta enquanto
Outro. Num certo sentido, exige-se do cliente a mesma capacidade e
disposição de ser empático, para que possa ser a ele acessível a
empatia do terapeuta.
Naturalmente que esta capacidade do cliente correlaciona-se
necessariamente, no fluxo da relação empática, com a capacidade do
terapeuta de ser, para o cliente, simplesmente interessante, no
sentido relacional e existencial do termo. Uma capacidade do terapeuta
que tem um de seus pontos culminantes em sua condição de poder
vulnerabilizar-se à outridade peculiar, enquanto tal, do cliente; de ser
por ela afetado e recriado, e de poder oferecer, objetivar, na relação
com este, a efetividade deste seu eu recriado.
A
empatia, portanto, ao contrário do que se pode eventualmente
pensar, vive da diferença, da articulação e interação de diferenças, da
relação de alteridades, que se afirmam e se recriam como alteridades nos
processos de sua interação.
Capítulo 3
AS
CONDIÇÕES FACILITADORAS BÁSICAS COMO PRINCÍPIOS DE MÉTODO
FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
III.
GENUINIDADE
As
premissas da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, em
especial tal como elas se constituem na Abordagem Centrada na Pessoa,
requerem radicalidade em sua proposição e prática efetiva.
Radicalidade no sentido original da palavra, de tomá-las
efetivamente pela raiz, como dizia Reich.
A
Consideração positiva incondicional pelo outro em sua outridade e
por sua experiência viva, vivido, pontual -- em particular por sua
experiência de si --, ou uma compreensão efetivamente empática do outro,
enquanto diferente que nos encontra dialogicamente, que nos confronta,
afronta e se revela -- ou não --, uma abertura para sua diferença
pontual, não podem ser fingidos. É interessante atentar para os sentidos
da palavra “fingir”[12]:
“Inventar, fabular, supor, fantasiar, aparentar, simular, dizer sem
sinceridade, ser ou mostrar-se dissimulado, hipócrita; fazer crer que é:
simular ser; dar-se ares; querer passar; dar-se ares de; querer passar
por...”
A
genuinidade é uma das condições básicas da concepção e da prática
da psicoterapia, e das outras modalidades, da Abordagem Centrada na
Pessoa. A genuinidade pessoal do profissional em uma relação que
privilegia, sempre e fundamentalmente, o seu caráter dialógico e
inter-humano, por sobre o valor de suas determinações institucionais e
técnicas.
Na
verdade, cumpre considerar que -- além de efetivar-se como uma opção, no
sentido de impor-se por sobre o valor das determinações institucionais,
e técnicas, da relação -- a genuinidade não é, apenas, uma questão de
querer; mas, efetivamente, também, uma questão de poder. Além
de mera opção, ou de simples querer, a genuinidade requer a atu/aliz/ação
de uma personalidade do terapeuta na qual assimilou-se
satisfatoriamente, não apenas teoria e concepções técnicas, mas,
sobretudo, valores e atitudes destes valores decorrentes.
Valores que assumem radicalmente a perspectiva da inocência da vida e do
vivido, a inocência da existência, e a benignidade de sua afirmação
plena, como processo natural de superação, fonte existencial de força e
de criação. Valores que afirmam efetivamente os potenciais de
auto-regulação e de auto-atualização de si próprio e do outro, a partir
da própria vitalidade organísmica na sua relação com o mundo. Valores, e
as atitudes deles decorrentes, que respeitam e privilegiam a afirmação
da diferença de si próprio e do(s) outro(s), no contínuo processo de sua
recriação.
De
forma que a genuinidade, para além de uma mera enunciação, para além de
um mero e retórico querer, para além mesmo da assimilação teórica de
princípios filosóficos, requer a atu/aliz/ação de atitudes,
decorrentes de valores que afirmam e celebram radicalmente a existência
contingente do Eu e a contingente existência do Outro, e suas
respectivas forças. Valores que afirmam, priorizam, respeitam e
celebram, a existência e duração tensa de nossa relação dialógica.
A
genuinidade, pois, vai sobrepor-se -- ainda que as respeite e afirme --
às demandas institucionais da relação terapeuta cliente, e a suas
demandas técnicas, para privilegiar e valorizar a dialogicidade pontual
e imediata, o vivido dialógico, da relação.
Desnecessário dizer que as determinações institucionais e técnicas da
relação, tão vigentes, e os próprios valores vigentes na cultura da
sociedade, da qual fazem parte o terapeuta e o cliente, e que
freqüentemente opõem-se a um respeito pela diferença do outro, pela
afirmação da sua e de nossa própria diferença, oferecem uma resistência
a esta premissa da genuinidade na relação com o cliente. Colocam
desafios à prática e à formação e desenvolvimento de profissionais que
adotam a perspectiva destas abordagens.
INSTITUIÇÃO E GENUINIDADE
A
instituição psicoterapia é uma instituição extremamente peculiar
num certo sentido. Sedutora em seus supostos poderes, e efetivamente
depositária de formas particulares de poder social. Surge historicamente
como uma diferenciação da prática e poder médicos, naquilo que eles
tinham de mais desconcertante, a prerrogativa do trato com os pacientes
ditos psiquiátricos.
Ainda que muito tenha se diferenciado, a partir de suas origens, a
psicoterapia guarda, todavia, estereótipos de poderes sociais que
decorrem de suas origens.
Por outro lado, atualiza poderes efetivos que derivam do fato de que
trabalha a condição de pessoas em momentos de vulnerabilidade e crise.
Crises que se, por um lado, configuram-se como crises existenciais
pessoais, configuram-se, por outro, como crises do próprio sistema
social, mais ou menos micro, do qual o indivíduo, e o próprio terapeuta,
pessoal e institucionalmente, fazem parte. Crises existenciais pessoais
cuja natureza, dinâmica e resoluções atingem o destino dos processos
próprios do sistema social do cliente, e das pessoas outras que dele
participam, em particular os próximos mais próximos. Em especial porque,
freqüentemente são, elas próprias, particularizações, em suas
repercussões existenciais pessoais, de crises históricas e
socioculturais do próprio sistema social, mais ou menos micro, de que o
cliente faz parte.
De
modo que, o lugar social da psicoterapia, e do psicoterapeuta, suas
dimensões institucionais, configuram-se como um lugar peculiar de poder.
Um lugar virtual que pode ser ocupado de um modo mais, ou menos,
competente. Um lugar que faz parte, com suas características e poderes,
do próprio arsenal da psicoterapia e do psicoterapeuta, no sentido da
produção de seus efeitos especificamente psicológicos e psicossociais,
na relação com o cliente e com o seu micro sistema social.
Espaço da vivência intensa, de desdobramento e resolução de conflitos
pessoais, psico sócio culturais, em suas tensões específicas, a
psicoterapia necessita e necessitou, assim, de seus poderes, objetivos
ou imaginários, no sentido de garantir-se e configurar-se efetivamente
como um tal espaço. Em particular nos seus primórdios, e mesmo ainda
hoje, quando se tratava, ou trata-se, eventualmente, de lidar
basicamente com pessoas profundamente perturbadas, e com as tensões
sociais geradoras ou decorrentes destes processos.
Esta necessidade distorce-se, evidentemente, quando a prática
psicológica ou psiquiátrica caracterizava-se ou caracteriza-se,
basicamente, por um cunho eminentemente disciplinar, a serviço da
padronização e da desconsideração, ou extinção da singularidade e da
diferença da existência e de suas condições.
De
modo que estes lugares sociais da psicoterapia, e do psicoterapeuta,
exercem, de maneira geral, e em particular sobre os próprios
psicoterapeutas, um fascínio peculiar, em função de seus poderes, reais
e/ou imginários.
Há, freqüentemente, uma tendência dos psicoterapeutas, em particular os
de caráter mais ávido de poder como dominação, para se identificarem de
um modo impertinente com a instituição, com o lugar social, que ocupam.
É confortável e útil estar-se protegido pelos poderes destes. Não raro,
esta identificação passa a ser, de um modo distorcido, o fundamento da
prática do profissional. Para estes, neste caso, bastaria esconder-se
sob o manto protetor da instituição, cumprir as suas expectativas de
papéis, realizar a sua ritualística, aprender o seu conhecimento e
doutrina específicos, exercer e manipular os seus poderes...
Isto é evidentemente uma distorção. Mas uma distorção que se origina na
peculiaridade própria dos poderes sociais da psicologia e da
psicoterapia, e de suas práticas.
De
modo pertinente, mas freqüentemente de um modo também distorsivo, a
Psicanálise desenvolveu modos e ritualística específica com relação a
estes poderes e suas práticas. É interessante recordar os primórdios do
trabalho de Freud, quando o Hipnotismo tinha um lugar fundamental em
suas práticas e teorias, tendo sido abandonado em seguida. Mesmo
abandonada a prática do Hipnotismo, não obstante, algo do poder
hipnótico, das demandas de prestígio e de poder do hipnotista restou
sobre a figura do psicanalista, e do psicoterapeuta de um modo geral.
Estamos longe de julgar estes e outros resíduos como inteiramente
impertinentes, e desprovidos de uma eficácia produtiva na relação com o
cliente. Mas não é interessante, e é efetivamente danoso, quando estes
resíduos, junto com os poderes e ilusões das determinações
institucionais da condição do psicólogo ou psicoterapeuta, ou o
pressuposto de suas habilidades filosóficas, teóricas ou técnicas,
configuram-se como o fundamento oco e alucinatório de sua relação com o
cliente. Ou, mais especificamente como uma fachada, ou barreira
institucional, que protegem o terapeuta, e resguardam-no da participação
natural em uma relação inter-humana e interpessoal com o cliente. As
consequências para o cliente deste tipo de distorção podem variar, do
meramente estéril, ao francamente destrutivo e aniquilador.
O
desenvolvimento da psicologia e psicoterapia fenomenológico
existenciais, em particular da Abordagem Centrada na Pessoa,
representou, de um modo marcante, uma sensível mudança nestas
perspectivas.
A
psicologia e psicoterapia fenomenológico existenciais, contrapondo-se à
ênfase técnica e à ênfase no papel institucional do psicoterapeuta,
decorrente da Psicanálise e de outras escolas de psicologia e
psicoterapia, descobriram e inventaram o valor de uma nova dimensão na
atitude e auto-concepção do psicoterapeuta ao longo do processo da
psicoterapia. Ou seja: um sincero relevamento e relativização da
importância, afirmação e ênfase do papel institucional do psicoterapeuta
no processo da relação com o cliente. Um relevamento de sua
autoconcepção como um técnico, que aplica procedimentos técnicos no
cliente, ao longo de sua relação com ele. A valorização concomitante, ao
lado do reconhecimento e preservação de sua condição institucional, da
importância e do valor da relação inter humana, dialógica, interpessoal,
específica e imediata com o cliente, como pessoa, individual, singular,
única.
Na
medida em que estas abordagens passaram a valorizar, originalmente, a
expressividade, e a afirmação pontual, do seu vivido, por parte do
cliente, no momento e ao longo do processo da psicoterapia, o terapeuta
careceu de valorizar, mais e mais, a sua própria condição natural como
pessoa, o seu vivido e a sua própria atualidade existencial, na relação
dialógica e inter humana com o cliente -- dentro dos limites da
instituição e do trabalho profissional em que ambos se encontravam --,
em detrimento da ênfase em seu papel institucional e em sua condição
técnica.
Como mencionamos, isto não significou uma tentativa de negar a condição
institucional do terapeuta, da terapia e do próprio cliente; mas, antes,
a compreensão forte da necessidade de superá-los, de não se ficar a elas
limitado, e principalmente de não utilizar a condição institucional como
uma trincheira, como uma fachada, como uma armadura, de auto
proteção do terapeuta, em função de suas vulnerabilidades, impotências e
“onipotências” evidentemente irrealistas, na relação com o cliente.
Descobriu-se a condição institucional do psicoterapeuta e da
psicoterapia como chão da relação psicoterapêutica, e não como
teto. Descobriu-se e enfatizou-se -- para além da importância da
aplicação de fatores técnicos ou teóricos -- a importância e o valor
existenciais e psicodinâmicos da própria relação genuinamente inter
humana entre o terapeuta e o cliente.
De
modo que, se interessa para o terapeuta que o cliente se coloque numa
atitude fenomenológica, que ele se entregue a sua experiência
organísmica, e à concretude de sua existência, que ele se entregue
ao seu vivido, e ao natural fluxo deste como expressivo de sua
atualização existencial, ao longo da sessão e do processo da terapia;
interessa ao psicoterapeuta, igualmente, relativizar a rigidez, o peso e
inflexibilidade de sua própria condição e papel institucionais e
técnicos, colocando-os em seus lugares e funções próprios. Interessa-lhe
conceber-se a si próprio, de um modo simples, como uma pessoa em relação
dialógica e inter humana com outra, com a expressividade de seu vivido e
de sua atualidade existencial. Interessa-lhe expressar o seu próprio
vivido e atualidade existencial na relação com o cliente, na medida em
que isto lhe pareça pertinente. A psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial, em particular na ACP, descobriu aí a sua
riqueza.
Conceber-se como um técnico que operacionaliza um certo conjunto de
teorias e técnicas na relação com o cliente, ou mera e rigidamente como
um ser e estereótipo institucionais, é inteiramente incompatível com
esta proposta.
No
momento em que a questão passou a ser a de uma valorização da
perspectiva do vivido, e de sua afirmação, o próprio vivido, e sua
afirmação pontual, tanto para o cliente como para o terapeuta, passou a
ser a referência e o critério fundamentais.
Como conclusão, podemos dizer que um critério fundamental para o
desempenho de um terapeuta fenomenológico existencial organísmico, de um
terapeuta centrado na pessoa, é o privilegiamento da perspectiva de seu
próprio vivido, de sua própria experiência organísmica ao longo da
relação com o cliente, como referência de suas atitudes e comportamentos
na relação com ele.
Ou
seja, para o psicoterapeuta -- ainda que reconheça, assuma-os e
atualize-os -- não interessa valorizar de um modo preponderante,
desmedido e impertinente, a sua condição e poderes institucionais na
relação com o cliente. Não interessa valorizar primordialmente a sua
condição de técnico ou de aplicador de uma teoria específica.
Interessa valorizar a sua relação e presenças imediatas e inter humanas
com o cliente, a partir de sua própria perspectiva vivencial organísmica
do processo desta relação. Ou seja, interessa-lhe valorizar uma abertura
para o seu próprio vivido, uma abertura para a sua própria experiência
organísmica pessoal, pontual e intransferível, ao longo do processo da
relação com o cliente. Interessa-lhe cultivar a sua própria liberdade
experiencial, que lhe permita uma disponibilidade fluída de sua
experiência organísmica. Interessa-lhe, sobretudo, valorizar
privilegiadamente esta sua experiência organísmica, o seu vivido, como
referência e mobilizador de seus valores, de suas verdades, de suas
atitudes, comportamento e ações, na relação com o cliente.
Em
termos psicodinâmicos, e numa linguagem da teoria do processo da terapia
da Abordagem Centrada na Pessoa, isto significa estar o terapeuta
significativamente livre do estado de desacordo que se pode
instalar entre a experiência organísmica e a consciência, em função de
interceptação e de bloqueio e/ou distorção do fluxo desta experiência,
em seu processo de simbolização como consciência.
Desta forma, a possibilidade da genuidade do terapeuta na sua relação
com o cliente decorre da constância e consistência de sua própria
liberdade experiencial como pessoa. Ou seja, decorre da possibilidade de
que o fluxo de sua própria experiência organísmica possa constituir
livremente o processo de sua consciência. Da mesma forma que constituir
livremente o processo de sua comunicação, comportamentos e atitudes, na
relação.
Dadas estas condições, relativizados -- ainda que devidamente
considerados -- a condição e os papéis institucionais, os seus
conhecimentos técnicos, filosóficos, ou teóricos; assumidos os valores e
atitudes do respeito pelo outro, por sua diferença, por sua
singularidade, e pelo seu vivido, como fundamento e produção do sentido
de seu eu e do mundo que lhe diz respeito; valorizada a sua própria
experiência organísmica na relação com o cliente, o psicólogo ou o
terapeuta podem, efetivamente, considerar genuinamente o cliente de um
modo positivamente incondicional, podem potencializar-se para uma
compreensão efetivamente empática do cliente, ao longo do processo de
sua relação dialógica e inter humana com ele.
Capítulo 4
AVALIAÇÃO
ORGANÍSMICA DA EXPERIÊNCIA: CONSCIÊNCIA, LIBERDADE EXPERIENCIAL E
AFIRMAÇÃO, NO TRABALHO PSICOLÓGICO E PSICOTERÁPICO
“Centro de avaliação. Esta noção
refere-se à fonte dos critérios aplicados pelo indivíduo na avaliação de
suas experiências. Quando esta fonte é (...) inerente à própria
experiência, dizemos que o centro de avaliação está no indivíduo.”
Carl R. Rogers.
“A consciência é a última fase da
evolução do sistema orgânico, por conseqüência é também aquilo que há
de menos acabado e de menos forte neste sistema. É do consciente que
provém uma multidão de enganos. (...). Se o laço dos instintos, este
laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a
consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a
humanidade sucumbiria fatalmente, sob o peso de seus juízos absurdos,
das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa
palavra, do seu consciente. (...). Enquanto uma função não está madura,
enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o
organismo (...). Considera-se que o consciente é uma constante! Nega-se
o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como ‘a unidade
do organismo’! Sobreestima-se, desconhece-se ridiculamente, aquilo que
teve a conseqüência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o
seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir a
consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir; e hoje ainda
estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente actual, que o
olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o
tornar instintivo no homem (...).”
F. Nietzsche.
“(...) a existência é culpada ou
inocente? Então Dionísio encontrou sua verdade múltipla, a inocência, a
inocência da pluralidade, a inocência do devir e de tudo que é”.
“(...) A inocência é o jogo da
existência, da força e da vontade. A existência afirmada e apreciada, a
força não separada, a vontade não desdobrada, esta é a primeira
aproximação da existência”.
G. Deleuze.
“Toma cuidado! (...) Ele está a
reflectir: vai defender a sua mentira...
F. Nietzsche
As
concepções de experiência organísmica, e de avaliação
organísmica da experiência, têm um lugar fundamental no sistema
conceitual desenvolvido por Carl Rogers.
A
experiência organísmica é, na concepção de Rogers, a fonte última de um
conhecer e de um avaliar saudáveis e criativos, que podem saudavelmente
orientar a comunicação, o comportamento, a ação da pessoa no seu mundo,
permitindo-lhe uma avaliação e eventual re orientação destes. Num
sentido psicodinâmico, a experiência organísmica é, por excelência, a
própria fonte saudável de avaliação e seleção da experiência, de
constituição saudável da consciência e da imagem de si da pessoa:
dimensões conscientes que se constituem e subordinam, assim, no
funcionamento saudável da pessoa, à dinâmica, potência, ritmos e
intensidades próprias da experiência organísmica.
Rogers é claro ao indicar que, de um ponto de vista psicológico, a
tendência atualizante desdobra-se na pessoa apenas de uma
perspectiva eminentemente fenomenal. Ou seja, apenas através do vivido
próprio e pontual da pessoa é que se manifestam, a nível psicológico e
comportamental, os influxos da tendência atualizante. De modo que a
atuação da tendência atualizante na pessoa constitui-se basicamente como
a sua própria experiência organísmica de si-e-do-mundo que lhe diz
respeito, na necessária correlação fenomenal da pessoa com este mundo.
Daí que seja a experiência organísmica, o vivido da pessoa, o fundamento
intrínseco e o motor do funcionamento saudável e potente de sua
personalidade, no sentido da atualização de seus potenciais.
A
concepção do Funcionamento Ótimo, e saudável, da personalidade
não estaria distante da provocação de Nietzsche ao fazer uma apologia do
ceticismo, em A Gaia Ciência:
“... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a
ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são
os limites da minha ‘veracidade’”.
Assim, a avaliação saudável e potente do mundo que lhe diz respeito, e,
em particular, a avaliação de sua própria experiência, de seu próprio
vivido, tem um critério “interno”, inerente, intrínseco à própria
experiência. A avaliação saudável e potente da experiência é, portanto,
fundamentalmente experiencial, é avaliação experiencial organísmica da
experiência.
É,
mais especificamente afirmação; afirmação da afirmação: afirmação da
potência do devir da experiência organísmica, do vivido, da existência
em seus critérios e intensidades próprios.
Com a concepção de avaliação organísmica da experiência, Rogers
chega assim à afirmação da própria experiência organísmica da pessoa, à
afirmação da existência e do vivido, como fonte do critério de avaliação
do mundo e da experiência.
A
avaliação experiencial organísmica da experiência, como afirmação
da experiência organísmica, é, assim, o critério e o princípio
explicativo do funcionamento ótimo e saudável da personalidade.
Na
sua concepção do funcionamento ótimo da personalidade, Rogers
preocupou-se, em última instância, com o critério de avaliação de sua
experiência por parte do indivíduo, em especial de sua experiência de
si.
Num primeiro momento, sua preocupação centrava-se em descrever um
critério que garantia a autonomia e a criatividade do indivíduo com
relação ao controle heteronômico. Um critério que garantia a autonomia
da pessoa com relação a critérios de avaliação oriundos na perspectiva
de outras pessoas ou de outras instâncias sociais.
Num segundo momento, sua concepção entende um primado, uma ascendência
da experiência organísmica, do vivido, do existencial, com relação à
consciência e à imagem de si. Ou seja: no funcionamento saudável, a
consciência reflexiva e a imagem de si são variáveis dependentes -- se é
que podemos falar assim --, em relação ao primado da experiência
organísmica, do vivido pré-reflexivo, do existencial.
Há, na concepção e na teorização de Rogers, uma certa confusão
epistemológica em torno do termo experiência. Confusão que revela
a ambigüidade entre um uso objetivista e um uso mais propriamente
fenomenológico do termo, mas o critério que Rogers constata e elege no
funcionamento ótimo da personalidade é inconfundível: no funcionamento
ótimo da personalidade, a experiência é avaliada organismicamente,
ou seja, experiencialmente, fenomenológico existencialmente. A saúde não
está no bloqueio, distorção ou subordinação da experiência organísmica,
para fazê-la adequar-se às necessidades de uma imagem de eu funcional,
ou às demandas da consciência ou do meio. A qualquer forma de avaliação
heteronômica, Rogers ressalta a própria avaliação factual que configura
e impõe a experiência organísmica, como critério e processo de
avaliação. Ressalta, desta forma, a própria afirmação da experiência
organísmica como critério e processo de avaliação.
Este critério contrapõe-se a critérios de avaliação da experiência que
se fundamentam em fontes externas à própria vivência fenomenológico
existencial do indivíduo. Critérios externos que têm, segundo a
formulação teórica de Rogers, uma função de modelagem de uma imagem
de eu compatível com as demandas condicionais impostas pelas
pessoas socialmente significativas, que satisfazem as
necessidades de consideração positiva da pessoa, constituindo-se,
desta forma, como centros externos, heteronômicos, de avaliação do mundo
e da experiência.
A
simbolização consciente desta vivência organísmica pode estar
distorcida por bloqueios e interceptações da experiência. Defesas
psicológicas, que visam impedir que cheguem à consciência elementos
dissonantes com uma imagem de eu que é desejável pelas pessoas
socialmente significativas, e, no limite, desejável pela própria pessoa,
carente da consideração positiva desses outros socialmente
significativos.
No
funcionamento ótimo da personalidade, estas defesas e distorções
psicológicas estão reduzidas a um mínimo. E o indivíduo goza de
liberdade experiencial, que lhe permite que a potência de sua
experiência organísmica possa constituir, de um modo significativo e
substancial, a sua consciência e a sua imagem de eu, permitindo-lhe
usufruir o melhor de suas capacidades e criatividade, em sua relação com
o seu meio, e, em particular, com as dificuldades e distúrbios desta
relação.
Estas concepções estão fundamentalmente influenciadas pelas perspectivas
da Psicologia Organísmica, da Fenomenologia, do Existencialismo, e da
Filosofia da Vida. Perspectivas, em particular, que reconhecem, num
primeiro plano, a inocência e a benignidade do vivido, a inocência da
existência tal como ela se manifesta como vivido, a inocência e a
benignidade do corpo, do organismo e o interesse e valorização postos na
sua afirmação plena, segundo os ritmos, critérios e intensidades que lhe
são intrínsecos, segundo os padrões de sua auto-regulação organísmica.
É
importante observar que, neste momento, Rogers já está inteiramente no
avesso do avesso do avesso da inversão socrática, como
Nietzsche a designou.
Para Nietzsche, Sócrates marcou o momento de uma inversão no
desenvolvimento da cultura da Civilização Ocidental. A cultura
pré-socrática grega valorizava fundamentalmente a benignidade e a
afirmação do corpo, dos instintos, dos sentidos, do vivido. A emergência
da perspectiva socrática definiu um novo critério de valor. Um critério
que depreciava, desabonava, estas dimensões do humano como sendo
“animais”, relegando-as a um plano inferior e pejorativo, instalando as
capacidades abstratas do humano, tais como a consciência reflexiva, o
espiritual, o teórico, o abstrato, o reflexivo, no topo da pirâmide de
valores. A esta inversão Nietzsche chamou de inversão socrática.
Nietzsche definia como o seu intento o de fazer uma inversão da
inversão socrática, e reinstalar o corpo, os instintos,
os sentidos, o vivido e a experiência -- num sentido fenomenológico e
existencial do termo --, no topo da pirâmide de valores. Na verdade
fazer do vivido a própria fonte dos valores, fonte da avaliação e do
conhecimento, fonte do ético e do verdadeiro.
Toda uma nova perspectiva desenvolve-se, em psicologia e psicoterapia,
direta ou indiretamente, a partir desta perspectiva de Nietzsche,
conjugada com a perspectiva da fenomenologia e do existencialismo de
Kierkegaard. Uma perspectiva que busca resgatar a concepção de uma
inocência e benignidade da existência, do corpo, dos instintos, dos
sentidos, do vivido – do fenomenologicamente experiencial --, o valor de
sua afirmação, o desenvolvimento de valores e modos de ser que
potencializem a sua afirmação.
Ou
seja: toda uma perspectiva que descobre o valor da afirmação do vivido e
da experiência, que busca fazer, em Psicologia e Psicoterapia, a
inversão da inversão socrática, que Nietzsche propunha.
Este parece ser um sentido fundador e fundamental da Psicologia e da
Psicoterapia Fenomenológico Existencial Organísmica, dita Humanista.
Para tal, existe, assim, a premissa do valor próprio da afirmação do
corpo, dos instintos, da existência, do vivido, da experiência. Em
contraposição às perspectivas vigentes em nossa cultura, sejam elas de
cunho religioso, científico ou filosófico, que preconizam o ideal
ascético (a vida tal como ela existe estaria essencialmente errada,
seria necessário algo além dela, para justificá-la e fundamentar a sua
negação), e a inversão socrática, que preconizam um primado da
consciência reflexiva sobre a experiência organísmica, e um controle
heteronômico da pessoa, a partir de referenciais de avaliação
extrínsecos a sua experiência.
Deleuze comenta e expõe um fundamento da apreciação da vida, da
apreciação da existência, de uma afinidade pelo vivido, pela experiência
organísmica, de uma biofilia, como dizia Fromm:
“(...) a existência é culpada ou inocente? Então Dionísio encontrou
sua verdade múltipla, a inocência, a inocência da pluralidade, a
inocência do devir e de tudo que é”.
(...) A inocência é o jogo da existência, da força e da vontade. A
existência afirmada e apreciada, a força não separada, a vontade não
desdobrada, esta é a primeira aproximação da existência.”
Descrevendo o funcionamento ótimo da personalidade, em sua
linguagem fenomenológico existencial organísmica, Rogers
define três características básicas de tal funcionamento da
personalidade: (a) a atitude aberta ante a experiência; (b) o
funcionamento existencial; e (c) a confiança no organismo.
A
abertura à experiência, a liberdade experiencial. Oposta a uma
atitude de defesa – de bloqueio e de distorção -- com relação à
experiência organísmica, como atividades defensiva, de modelagem e de
preservação de uma imagem de eu rígida, dissonante e conflitiva, com
relação a esta experiência organísmica, mas compatível com as condições
heteronômicas impostas pelas pessoas socialmente significativas.
A
Liberdade Experiencial constitui-se como uma sintonia, identificação
com, e ativa afirmação, da pontualidade da experiência fenomenal em sua
imediaticidade vivida, da existência, do vivido; afirmação ativa do
fluxo vívido e vivido de seu devir. A liberdade para constatar e afirmar
o organismo, mais especificamente a experiência organísmica, como “um
guia competente e seguro”.
Desta forma, Rogers descreve um critério do funcionamento pleno e
saudável que se radica, no limite, na afirmação do organismo, tal como
ele se manifesta como vivido, como experiência organísmica. Que se
radica, assim, na eleição do vivido, da experiência organísmica, como
critério de avaliação.
Rogers descarta como critério qualquer centro de orientação e avaliação
do comportamento que esteja “fora” da própria vivência fenomenológica
existencial da pessoa. Esteja este centro em outras pessoas, nos grupos
de referência da pessoa, na religião, na moral, nos costumes, na
política ou outros. O que interessa fundamentalmente é a valorização de
um modo de funcionamento que se centre habitualmente no frescor fugaz e
nas intensidades do vivido, da experiência organísmica, e que possa
afirmá-los em sua potência, ritmos e intensidades próprios.
É
primordial, por outro lado, discriminar esta experiência organísmica, e
sua afirmação, do funcionamento da consciência, em suas modalidades não
fenomenais e reflexivas. O frescor emergente da experiência organísmica
dá-se justamente nas modalidades pré-reflexivas originárias, vivenciais,
da consciência.
A
um nível existencial, é esta modalidade pré-reflexiva da consciência que
constitui e configura o que chamamos de experiência organísmica. De modo
que a consciência teórica, reflexiva, ainda que tenha o valor de seu
lugar próprio, não se caracteriza como um critério e guia competentes
para o que Rogers chamaria de funcionamento ótimo da personalidade.
Neste funcionamento, a experiência organísmica, o vivido,
configura-se como força que constitui a consciência e a imagem de eu da
pessoa. Configura-se, desta forma, como força, como multiplicidade de
forças, que constituem a sua comunicação, o seu comportamento, a sua
ação, o seu ajustamento criativo no mundo que lhe diz respeito.
A
pessoa não tem um organismo, uma experiência organísmica, não tem
um vivido; ela é, como devir, a sua experiência
organísmica, ela é o seu vivido. Vivido que a inspira e a constitui, que
constitui a imagem do seu eu, e que, desejavelmente, constitui a sua
ação, e a cri-ação e devir de seu ser-no-mundo.
Esta perspectiva de concepção do corpo, do organismo, da experiência
organísmica, do vivido, funda-se, como observamos, numa compreensão
deles como eminentemente ativos, como afirmativos, benignos, inocentes e
desejáveis.
Interessa desenvolver, assim, com relação a eles, valores e atitudes
afirmativos. Interessa afirmar a afirmação que eles já configuram. De
modo que a avaliação organísmica da experiência é, fundamentalmente, a
afirmação, e a atualização, em si mesma, da experiência organísmica, e a
constituição de sua afirmação e atualização como fonte de avaliação e
dos valores, como critério da avaliação, dos valores e do verdadeiro.
Capítulo 5
DE COMO
PSICÓLOGOS E PSICOTERAPEUTAS DESCOBREM A FENOMENOLOGIA E O
EXISTENCIALISMO.
E sobre a importância de um início de si mesmo para a compreensão e
prática da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
“Quanto mais fundamente penso,
Mais profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar.
Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência,
E não pouca
Maravilha do inconsciente!
Em sonho, sonhos criei,
E o mundo atônito sente
Como é belo o que lhe dei”.
(in “O Horror de Conhecer”, F.
Pessoa).
“O conceito é a casca vazia de uma
metáfora que outrora inervava a intuição. Nietzsche contrapõe ao homem
científico, que já não detecta a mentira dos conceitos, o homem
intuitivo, artístico; um refugiou-se na cápsula, considera os conceitos
como a própria essência das coisas, ao passo que o outro conhece o
engano de todas as determinações, incluindo o das metáforas, embora se
mova livremente perante a realidade, criativamente forjando imagens.
Para Nietzsche, o homem intuitivo, o artista é o tipo superior em
comparação com o lógico e o cientista. Nietzsche vê-o também em luta
permanente com as convenções conceptuais; ele já não é mais ‘guiado por
convenções conceptuais, mas por intuições’. ‘Destas intuições não parte
qualquer caminho regular para o território dos esquemas fantásticos, das
abstrações: a palavra não foi feita para a intuição, o homem emudece
quando a vê, ou fala em metáforas proibidas, em construções conceptuais
inéditas para, pelo menos através da destruição e do escárnio dos velhos
limites dos conceitos, corresponder de um modo criador à impressão que
lhe produz a poderosa intuição do presente.’
(Eugen Fink/F. Nietzsche).
“... se você tem uma idéia incrível, é
melhor fazer uma canção, está provado que só é possível filosofar em
alemão”.
(Caetano Veloso)
As
reflexões aqui apresentadas surgiram no âmbito de uma saudável
discussão, iniciada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia e
Psicoterapia Fenomenológico Existencial da Universidade Católica de
Pernambuco.
Segundo a minha leitura e perspectiva, tratava-se, no âmbito daquela
discussão, de ressaltar a característica pré -conceitual, pré-reflexiva,
da Fenomenologia. E a característica de afirmação do vivido e de eleição
dele, como critérios de criação do verdadeiro e dos valores, próprios da
filosofia da vida de F. Nietzsche.
Em
contraposição, naquele momento, com a característica valorização do
conceitual, do universal e do racional conceitual da filosofia hegeliana,
assim como a sua valorização de uma concepção da realidade segundo a
perspectiva da negação e do trabalho do negativo.
Tudo isto, em relação aos fundamentos da Psicologia e Psicoterapia
Fenomenológico Existencial.
Certamente que a Fenomenologia e o Existencialismo chegam à Psicologia e
à Psicoterapia através de tendências culturais que são anteriores
à específica constituição moderna deles, como correntes filosóficas
formais.
O
dionisíaco, de que fala Nietzsche, o sentido do trágico --
a priorização da afirmação de uma vida espontânea, contingente, factual,
Dasein, que se entende inocente, mesmo contra os sofrimentos de
seus limites, e de seu caráter irrecorrivelmente perecível --, permeia,
de modo mais ou menos subterrâneo e intenso, as várias tradições da
Cultura Ocidental. Como uma alternativa, eventualmente, ou como
incontrolada e eruptiva afirmação, em face de tendências culturais
predominantes, que se caracterizaram pelo privilégio de um apolinismo
intensivo e excludente e que, freqüentemente, dirige-se para o
paroxístico.
O
sentido do trágico era, antes de constituir-se ao nível da
filosofia, na Grécia Pré Socrática, uma tradição cultural. E, como tal,
disseminou-se -- “de contrabando” --, com a influência cultural dos
gregos na Civilização Ocidental. Apesar do matiz predominantemente
socrático e predominantemente apolíneo desta influência.
De
modo que a tradição dionisíaca imiscuiu-se, e permaneceu, na cultura da
Civilização Ocidental, como uma raiz e corrente subterrâneas e,
eventualmente, emergentes, no âmbito da normalidade e funcionalidade
desta Cultura.
O
que chamamos de sentido do trágico está certamente presente, de outras
formas e em gradações diversas, em outras culturas, de raízes diferentes
da Cultura da Civilização Ocidental, e que configuram-se
contemporaneamente na sua composição. Como, por exemplo, as Culturas
afroamericanas, as Culturas ameríndias, e certas tradições das Culturas
do Médio e Extremo Oriente.
O
Dionisíaco, o sentido do trágico, portanto, disseminou-se pela Cultura
da Civilização Ocidental como formas de atitudes mais ou menos difusas e
alternativas ao apolinismo da tradição religiosa, da moral e da ciência,
para não falar do estado e da política.
De
modo que o sentido do trágico, que fundamenta perspectivas
existencialistas de viés nietzscheano, foi, e é, antes de filosofia
formal, uma perspectiva e tradição cultural que adquire, talvez, a sua
forma mais explícita na Cultura Grega Pré-Socrática, mas que está
presente como tal em todas as culturas, em particular no âmbito da
Cultura da Civilização Ocidental, por mais “oficiosa” que seja a forma
em que se manifesta.
Por outro lado, a mística, em especial a Mística Judaica, e mais
particularmente a mística Hassídica, na Alemanha e na Polônia, herdou e
desenvolveu perspectivas, atitudes e práticas de cunhos eminentemente
populares, fenomenológicos, existenciais, e não filosóficos formais ou
eruditos. Desde os seus primórdios, a Mística Judaica afasta-se do
estudo teórico e do eruditismo, dedicando-se às intensidades da vivência
da experiência religiosa imediata, da imediata relação com o sagrado,
como vivência pré-reflexiva e pré-teórica. A concentração da, e
na, experiência religiosa ganha uma importância particular.
Curiosamente, os místicos Hassídicos são eventualmente cognominados de
“dionisíacos judaicos”. O que interessantemente sugere (para nós,
psicólogos e psicoterapeutas) que, dentro da tradição do Judaísmo, em
sua interação com as Culturas Gregas, estes místicos herdaram
fundamentalmente, diferentemente de outras correntes, não a perspectiva
socrática, mas, mais especificamente, a perspectiva trágica da
dionisíaca cultura grega pré-socrática. Para nós, Martin Buber é,
evidentemente, o exemplo mais saliente.
Isto parece muito interessante, na medida em que a valorização do ideal
ascético, de um apocalipsismo, recebe, nesta perspectiva, um outro
tratamento dentro do Judaísmo, que abre possibilidades especificamente
existencialistas de afirmação do mundo e da vida. Falando de uma
conversão sua a esta perspectiva, e de sua entrega radical ao
dialógico encontro inter humano e com o mundo, Buber
dirá:
(Desde então) eu abandonei aquele “religioso” que não é nada mais que
exceção, retirada, saída, êxtase; ou ele me abandonou. Eu não possuo
nada além do cotidiano, do qual eu nunca sou retirado. O mistério não se
abre mais, ele se subtraiu ou fixou domicílio aqui, onde tudo acontece
como aconteceu. Eu não conheço mais nenhuma plenitude além daquela de
cada hora mortal, de exigência e de responsabilidade. (...)
Muito mais eu não sei. Se isto é religião, então
ela é simplesmente tudo, o simples todo vivido na sua possibilidade do
diálogo.
A
consigna do Hassidismo na Alemanha e na Polônia é a de uma vida judaica
fora de toda teoria e de toda a tradição, resolutamente ligada ao
presente.
Buber,
o hassídico, herdeiro dileto do Hassidismo polonês e alemão, afirma
assim que não conhece nenhum caminho para Deus que não passe pelo homem
e pelo mundo.
Por outro lado, não podemos deixar de destacar a presença e o
desenvolvimento, na Cultura da Civilização Ocidental, de elementos da
filosofia e da mística da cultura do Extremo Oriente, de cunho
fenomenológico e existencial ou bastante próximos, tais como o Zen e o
Taoísmo.
Acreditamos que todas estas influências culturais, que não têm, como
tais, uma organização especificamente filosófica, nos moldes da
Filosofia Ocidental -- ou seja, que existem muito anterior e
independente da Filosofia Ocidental formal --, haverão de convergir
fortemente, na inspiração dos primeiros médicos, psicólogos e
psicoterapeutas que começam a desenvolver a abordagem de uma Psicologia
e de uma Psicoterapia Fenomenológico Existenciais. Da mesma forma que
começam a convergir na própria constituição da Fenomenologia e dos
Existencialismos modernos, enquanto filosofias formais, que passam a
ser, elas próprias, enquanto tais, mas só a partir de então, influências
mais organizadas e sistemáticas. De modo que, paralelas às influências
culturais de cunho fenomenológico e existencial, não formalmente
filosóficas, temos também o papel de influências que derivam
especificamente do que podemos entender como Filosofia Ocidental. Isto
na medida em que possamos assim entender as idéias de F. Nietzsche,
ressaltando igualmente o caráter eminentemente artístico de sua obra.
A
Fenomenologia moderna, ela também, originada, certamente, a partir da
influência de tradições culturais não formalmente filosóficas, tem uma
clara linha de influência no desenvolvimento das psicologias e
psicoterapias fenomenológico existenciais. Os psicólogos que
desenvolveram a Teoria da Gestalt, na Alemanha, escola de
psicologia que estudou os processos de constituição e organização da
percepção e da consciência, eram alunos de Brentano, e de outros
fenomenólogos pioneiros, e buscavam desenvolver uma psicologia de cunho
especificamente fenomenológico, inspirados pelas idéias de seus mestres.
A
Psicologia da Gestalt foi uma matriz fundamental para o desenvolvimento
das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Em especial
a Psicologia Gestáltica Organísmica de Kurt Goldstein, mediação básica
do desenvolvimento de todas as outras: da Psicologia Humanista como um
todo, da Abordagem Centrada na Pessoa e da Gestalt Terapia.
Ao
falarmos de Goldstein, e de sua importância na constituição destas
psicologias e psicoterapias, não podemos negligenciar a rica e original
influência de W. Reich. O conceito de Auto Regulação Organísmica,
que revelar-se-á como um dos mais importantes pilares das psicologias e
psicoterapias fenomenológico existenciais organísmicas, deve sua origem
às formulações de Reich, devidamente aproveitadas, de modo mais ou menos
direto, por Goldstein, Perls, Rogers e outros, além de constituir-se
como o núcleo da originalidade da revolucionária influência de A.S.
Neill na Pedagogia e na Psicologia.
A
influência de Heidegger, e certamente de Nietzsche, tiveram um papel
central no desenvolvimento das psicoterapias fenomenológico existenciais
européias, desenvolvidas por psicoterapeutas como L. Binswanger, M. Boss,
E. Minkovski e outros. Eles próprios psicoterapeutas de origem
psicanalítica, que, ao romperem com a psicanálise e desenvolverem
abordagens especificamente fenomenológico existenciais de psicoterapia,
tiveram uma importante influência sobre o desenvolvimento da Psicologia
Humanista, da Abordagem Centrada na Pessoa, da Gestalterapia, da
Dasein Análise.
Evidentemente que não se pode deixar de perceber a
poderosa influência das idéias e perspectivas de F. Nietzsche no
desenvolvimento, concepções e práticas das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais, seja por sua influência sobre a
fenomenologia (Heidegger, pelo menos, misteriosos que são os vínculos de
Husserl com ele), seja de modo direto e imediato. Junto com uma
perspectiva fenomenológica, é, especificamente, Nietzsche quem oferece o
fundamento de uma filosofia da vida para o arcabouço conceitual e
fundamentos da Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein. Psicologia
Organísmica esta que vai servir, como observamos, como uma matriz para o
desenvolvimento da psicologia humanista, da Gestalterapia e da Abordagem
Centrada na Pessoa. Oliver Sacks[19],
em seu prefácio à edição de 1995 de The Organism, comenta:
“Nietzsche spoke of the need for a ‘philosophical physician’ and
Goldstein fits this description precisely” (Nietzsche falou da
necessidade de um ‘médico filosófico’ e Goldstein enquadra-se de um modo
preciso nesta descrição).
Mesmo quando as idéias de Goldstein vão ser refinadas e desenvolvidas,
por Maslow, May, Rogers, Perls, as idéias de Nietzsche continuam a ser,
de um modo importante e inegável, o martelo e o cinzelo que lhes dão
sentido e forma.
São inegáveis as origens e as raízes nas idéias de Nietzsche de
concepções e de perspectivas de valor relativas à natureza humana,
relativas à espontaneidade, a crescimento, experiência organísmica,
liberdade experiencial, funcionamento ótimo da personalidade, awareness,
óbvio, tendência atualizante, afirmação da vida, afirmação da
experiência... A linha desta influência é mais ou menos óbvia quando
atentamos para a poderosa influência já das idéias de F. Nietzsche na
intelectualidade alemã e continental européia do início do século. Em
particular, em um certo grupo de psicólogos e psicoterapeutas, ou no
meio artístico e intelectual que vem a influenciar estes psicólogos,
como no caso de Fritz e Laura Perls, Otto Rank, W. Reich...
É
ainda óbvia esta linha de influência quando atentamos para o fato de que
significativa parcela desta intelectualidade alemã migrou para os
EUA, antes durante e depois da segunda guerra, trazendo consigo, dentre
outras, as idéias de Nietzsche como um dos fundamentos importantes das
produções que passaram a desenvolver no Novo Mundo. Produções estas que
tiveram um papel muito importante e fundador no desenvolvimento das
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, tal como elas
se desenvolveram nos EUA.
As
idéias e trabalhos de Otto Rank, na fase da Psicoterapia da Vontade,
posterior a que foi polarizada em torno das idéias relativas ao
Trauma do Nascimento, foram, sem dúvida, um outro canal fundamental,
através dos quais as concepções de Nietzsche influenciaram marcadamente
a psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial. Em particular a
chamada Psicologia Humanista, a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestal
Terapia. Otto Rank desviou-se das idéias de Freud, e foi buscar em
Nietzsche o fundamento para o desenvolvimento de suas idéias originais
em psicologia e psicoterapia. Emigrou para os EUA e teve aí uma
importante influência na constituição da psicologia e da psicoterapia
Norte Americanas, em particular da ACP, da Gestal Terapia e da
Psicologia Humanista de um modo geral. Deleuze,
falando de Otto Rank ao comentar a relação de Nietzsche com Freud, diz o
seguinte:
“Do que precede, deve-se concluir que Nietzsche exerceu influência
sobre Freud? Segundo Jones, Freud negava-o formalmente. A coincidência
da hipótese tópica de Freud com o esquema Nietzscheano explica-se
suficientemente pelas preocupações ‘energéticas’ comuns aos dois
autores. Seremos ainda mais sensíveis às diferenças fundamentais que
separam suas obras. Pode-se imaginar o que Nietzsche teria pensado de
Freud: aí ainda ele teria denunciado uma concepção muito ‘reativa’ da
vida psíquica, uma ignorância da verdadeira ‘atividade’, uma impotência
em conceber e em procurar a verdadeira ‘transmutação’. Isto pode ser
imaginado com mais verossimilhança visto que Freud teve entre seus
discípulos um nietzscheano autêntico. Otto Rank devia ter criticado em
Freud ‘a idéia insípida e terna de sublimação’. Ele reprovava Freud por
não ter sabido liberar a vontade da má consciência ou da culpabilidade.
Queria apoiar-se nas forças ativas do inconsciente, desconhecidas para o
freudismo e substituir a sublimação por uma vontade criadora e artista.
Isto o levava a dizer: sou para Freud o que Nietzsche era para
Schopenhauer. Cf. RANK, A Vontade de Felicidade.”
Uma outra questão é a de compreender como as reações religiosas e
moralistas às idéias de Nietzsche -- em particular no meio da psicologia
Norte Americana, com raízes fortemente religiosas -- produziram
variações, confrontações, negações e distorções (freqüentemente não
assumidas) destas idéias, no âmbito, inclusive, das psicologias e
psicoterapias fenomenológico existenciais. Em especial na decorrência de
perspectivas existencialistas de cunho religioso cristão, mediadas pelos
trabalhos, por exemplo, de Paul Tillich, e ancoradas, por exemplo, no
existencialismo religioso de S. Kierkegaard.
Uma outra fonte de distorção, não só das idéias de Nietzsche como da
própria Fenomenologia, vem de toda uma exacerbação reativa de um
característico pragmático empirista da Cultura Norte Americana e
Anglo-Saxã, conectada sempre com a presença forte de fatores de ordem
religiosa. Como não poderia deixar de ser, estes fatores mostraram-se e
mostram-se presentes de um modo marcante, ainda que freqüentemente não
explícito, no âmbito da psicologia e psicoterapia anglo-saxã.
Fatores culturais outros não podem ser negligenciados nestas reações às
idéias de Nietzsche e da Fenomenologia. São filosofias e perspectivas
culturais de origens fortemente alemães, ainda que nada tenham a ver com
o Nazismo, que, naquele momento, chegam aos EUA. Momento em que os EUA
estavam em guerra com a Alemanha. E não era tranqüila a integração de
pontos de vista alemães, ou reconhecidos como tais, no seio da Cultura
Norte Americana.
De
qualquer forma, estas idéias migraram e disseminaram-se pelo meio
intelectual dos EUA, de modo freqüentemente dissociado de suas origens,
camuflado, dissimulado, negado, ou simplesmente desconhecido, uma vez
que havia tensão e repressão contra suas origens – o macarthismo, por
exemplo. Não deixaram de ser, todavia – bem ou mal – assimiladas.
Não obstante, é importante, e interessante, enfatizar que houve uma rica
conjugação de perspectivas da Fenomenologia e da Filosofia da Vida com
uma atitude pragmática, na origem e no desenvolvimento da psicologia e
da psicoterapia fenomenológico existencial, em particular da
Gestalterapia e da Abordagem Centrada na Pessoa, nos EUA. Havia uma
aplicação e uma avaliação pragmáticas dos resultados de um método
fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia. A aplicação e
avaliação desta aplicação do método eram pragmáticas, mas,
caracteristicamente, o método em si era, e devia a sua originalidade e
riqueza, ao fato de ser um método, ou uma abordagem, fenomenológico
existencial.
O
que ocorreu, em termos de distorção, é que foi-se progressiva e
freqüentemente esquecendo-se ou negando-se esta característica
fenomenológico existencial do método, e tratando-se de constituí-lo como
um método cada vez mais pragmático e empirista. Processo responsável por
uma perda da originalidade e por um empobrecimento da abordagem que tem
sido criticado nos últimos anos. É inegável que a inspiração
fundamental, a originalidade e efetividade destas abordagens de
psicologia e de psicoterapia residem na fenomenologia, não só como
epistemologia, mas como atitude existencial. E na perspectiva da crítica
nietzscheana dos valores e da Cultura da Civilização Ocidental, aí
compreendida a crítica à perspectiva religiosa, à moral, à ciência e à
filosofia racionalista.
O VALOR DO FENOMENOLÓGICO E DO EXISTENCIAL EM PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA.
Não foi por acaso que a fenomenologia e o existencialismo fácil e
rapidamente constituíram-se em fundamentos de uma abordagem de
psicologia e de psicoterapia. Muitos e interessantes motivos podem ser
apontados para esta constituição. Quero apontar apenas um, que é o
critério de sua avaliação pragmática, no sentido simples do termo, por
parte de psicólogos e psicoterapeutas. Porque este foi um fator
primordial.
À
medida em que passaram a entender a fenomenologia e o existencialismo, e
a aplicar os seus valores, atitudes e concepções do homem e da realidade
em seu trabalho, psicólogos e psicoterapeutas (estes médicos,
inicialmente, em sua maior parte) sentiram imediatamente que estavam
diante de um poderoso filão. Na América do Norte, na América do Sul, no
Japão e em certos lugares da Europa, a abordagem disseminou-se como fogo
em mato seco. Oferecia uma alternativa para a exclusividade das
abordagens psicanalíticas ou comportamentais e revelava-se como uma rica
e produtiva abordagem da situação do cliente.
O
que especificamente descobriram e valorizaram estes psicólogos e
psicoterapeutas?
Descobriram, fundamentalmente, o que certas tradições dentro das
culturas humanas sempre souberam. E trouxeram isto para o mundo de sua
cultura e prática profissionais. Descobriram que as atitudes práticas
que derivam da fenomenologia e do existencialismo, longamente praticadas
por certas tradições dentro das culturas humanas, quando integradas e
assumidas pelo profissional de saúde mental (digamos), no âmbito de sua
relação com pessoas em dificuldades, em crise, desorganizadas, em
sofrimento agudo ou crônico, carentes de crescimento, estes valores e
estas atitudes, quando aplicadas no contexto da relação com estas
pessoas, os clientes, facilitam e potencializam a mobilização de seus
próprios recursos, no sentido da elaboração e superação das dificuldades
de sua atualidade existencial, e propiciam a potencialização dos
processos de crescimento e de desenvolvimento, como recursos de sua
realização humana, e de enfrentamento, superação e resolução de suas
dificuldades e questões existenciais.
Numa linguagem elaborada por Nietzsche, podemos dizer que estes valores
e atitudes, derivados da fenomenologia e do existencialismo, quando
assumidos e integrados na prática da psicologia e da psicoterapia, no
âmbito da relação psicoterapeuta-cliente(s), propiciam a afirmação,
expressividade e o desdobramento ativo do vivido do cliente.
Propiciam, desta forma, a potencialização das forças ativas e de
sua criatividade e devir em sua existência e na resolução de suas
questões existenciais. Potencializam, assim, a superação do niilismo
e de uma atitude niilista, a superação do predomínio da negação e
das forças reativas em sua vida, a superação do ressentimento
e da culpa, a superação de um atitude de negação do vivido e
da vida, movida pelo ideal ascético, atitude de negação do corpo,
de negação dos sentidos, de negação de sua experiência organísmica, que
leva ao amargor e azedume da existência, ao pesadume, e à mera e
insaciável vingatividade contra si e contra o mundo, à incapacidade de
criar, de alegrar-se, de dançar com a vida, e com os pés, na afirmação
potente do devir.
A
prática desta experiência potencializa no cliente o resgate e a
afirmação da potência de sua criatividade no enfrentamento de suas
dificuldades, no enfrentamento de suas questões existenciais, nos fluxos
de seu devir, de tal forma que ele possa constituir-se como artista,
artífice, de sua vida e não simplesmente como vítima do peso da inércia
das condições dadas nela.
Tudo isto ganhou no âmbito das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais codificações teóricas particulares. O que os
psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico existenciais aprenderam pode
ser resumido na teoria paradoxal da mudança, elaborada por Rogers
e amplamente utilizada em Gestalterapia: mudamos
terapêuticamente, e existencialmente, na medida em que
assumimos e afirmamos o nosso estado efetivamente vivido
organismicamente. É a afirmação do vivido que propicia a mudança e o
crescimento, a potencialização de um devir criativo, ciente da finitude
e do sofrimento, mas mesmo assim afirmativo e igualmente exercício da
alegria de uma potência criativa. Metodologicamente tratava-se então,
para os psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico existenciais, de
criar as condições para que, na sua relação com o terapeuta ou com o
grupo, o cliente pudesse, e possa, predominantemente, assumir e afirmar
o seu próprio vivido, na pontualidade da sessão terapêutica ou da
vivência grupal, como momentum das forças de sua atualidade
existencial.
Como observamos de início, para desenvolver este modelo de psicologia e
de psicoterapia, os psicólogos e psicoterapeutas usufruíram intensamente
da influência das tradições culturais particulares que vieram a
constituir-se num dado momento como a fenomenologia e o existencialismo
modernos. Tais como a mentalidade do sentido grego do trágico,
recuperado por Nietzsche, a Mística Judaica, o Zen, o Taoísmo... e
inclusive a própria influência específica da Fenomenologia e do
Existencialismo, enquanto filosofia formais, fundamentais, na concepção
e na prática de seu modelo, como epistemologia e como filosofia da vida.
O
que aprenderam os psicoterapeutas fenomenológico existenciais é que a
simples reflexão do cliente sobre a sua experiência, sobre o seu
mundo, relações etc., não produziam a desejável mudança terapêutica, a
potencialização existencial e desenvolvimento da sua criatividade. Da
mesma forma como não o faziam a simples aprendizagem e elaboração de
conhecimento teórico e conceitual. Em contrapartida, a entrega do
cliente às dinâmicas de seu mundo pré reflexivo, pré
conceitual, fenomenal, a entrega afirmativa do cliente a sua
experiência, ao seu vivido, aos sentidos e ao fluxo ativo das vivências
imediatas de seu corpo, possibilitava um enorme potencial de auto
regulação organísmica, de auto equilibração e de mudança terapêutica e
existencial.
Este sempre foi e é o segredo das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais. De modo que é fundamental assim para elas a
perspectiva particular da fenomenologia. O retorno às coisas mesmas:
o retorno às coisas, aos objetos e situações do mundo, ao mundo e
a si próprio, enquanto vividos , pré reflexivamente, pré
conceitualmente, fenomenalmente, na intuição originária da
vivência de consciência.
Retornar, de onde?
Retornar, especificamente, de um mundo teórico de conceitos e de
privilégio do teórico e do conceitual e moral. Retornar ao mundo e ao
si mesmo enquanto efetivamente vividos pré reflexivamente na intuição
originária da vivência de consciência. Esta consigna da
fenomenologia é um dos pilares fundamentais das psicologias e
psicoterapias fenomenológico existenciais, como proposta de perspectiva
experiencial na vivência do cliente de sua atualidade existencial, ao
longo da sessão e do processo psicoterapêuticos.
Por isto que nós assumimos a perspectiva particular e específica da
fenomenologia, a sua epistemologia e a sua proposta. Acredito mesmo que
as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais têm uma
contribuição importante para o próprio desenvolvimento da fenomenologia
e do existencialismo e de suas perspectivas particulares.
Por isto que, não obstante reconhecermos o mérito de, por exemplo,
tentar compreender a fenomenologia a partir da filosofia de Hegel, ou a
partir de qualquer outro referencial, não podemos deixar de afirmar
enfaticamente a necessidade de uma compreensão da fenomenologia a partir
de sua própria proposta e perspectiva epistemológica, de seu fundamento.
Diferente das propostas hegelianas.
Certamente que não se pode negar a importância fundamental da filosofia
hegeliana para a filosofia ocidental, e mesmo para o desenvolvimento da
perspectiva da fenomenologia -- não seria um psicólogo que tentaria
fazê-lo... Mas parece forçoso reconhecer o que separa e distingue a
fenomenologia moderna da perspectiva hegeliana. Visto, em particular,
que esta perspectiva hegeliana escolhe privilegiar o ideal, o universal,
o conceitual. Elementos de que a fenomenologia busca afastar-se, para
eleger o próprio vivido pré reflexivo como seu fundamento e como
critério epistemológico.
Dizer que Hegel já reduz o mundo a fenômeno é apenas uma parte
muito parcial da questão, uma vez que o termo fenômeno tem
sentidos diferentes em Hegel e em Husserl.
Deixemos falar um filósofo:
“O próprio conceito de ‘fenômeno’, que na linguagem clássica
significa o que surge na experiência objetiva, presta-se a confusões,
determinando as diversas acepções de uma ‘fenomenologia.’
Não se trata, como a primeira vista pode parecer, do estudo de um
conjunto de fenômenos ou aparências, como se manifestam no tempo e no
espaço; como por exemplo, no sentido kantiano, significando a parte da
metafísica da natureza que trata do que pode ser objeto da consciência.
Kant usava o termo ‘fenomenologia’ para explicar o que há de intuição
sensível na objetividade e ao que não aparece, mas que é puramente
pensado: o em si. Ou mesmo no sentido hegeliano, como parte em
que o espírito, partindo das experiências sensíveis, alcança a plena
consciência de si mesmo. Hegel adotou o título ‘fenomenologia’ para
explicar, num sentido amplo, a experiência completa da consciência (o
fenômeno do espírito). Sendo que o fenômeno, para ele é sempre
compreendido como limitação relativa a uma realidade extra fenomenal (o
Absoluto).
Mas o que é fenômeno?
É necessário, em primeiro lugar, verificar o que é objeto.
Objeto não é sinônimo de coisa. O objeto é a coisa enquanto
está presente à consciência. Objeto é tudo o que constitui
término de um ato de consciência, enquanto término do dito ato. Os
objetos podem ser reais, como esta mesa que tenho a minha frente;
fantásticos como o centauro; ou ideais como uma expressão matemática, a
idéia de verdade, de desejo, de justiça, etc.
Fenômeno é, pois, o aspecto do objeto patente imediatamente na
consciência (...). O fenômeno é o aparente, é a aparência. Mas, note
bem! A aparência não no sentido de ilusão, como oposta à realidade,
senão no sentido do dado à mera presença na mente, ao que Husserl
chama de consciência pura de algo.
(...) “As vivências são imanentes à consciência, fundando-se
na visão intelectual, mediante as quais o sujeito contempla o objeto de
forma originária.
(...) em torno da palavra-chave retorno às coisas-mesmas, isto
é, volta à intuição originária. Observar e descrever cuidadosamente os
fenômenos (sejam eles reais ou imaginários) com o objetivo de apreender
a essência de determinada classe de eventos. A preocupação não é com a
análise dos termos, mas com uma descrição, a mais completa e fiel
possível, dos fenômenos. (A descrição fenomenológica distingue-se
radicalmente da descrição própria das ciências naturais, que é uma
descrição de fatos naturais, de realidades objetivas.) Esse ‘retorno ao
originário supõe necessariamente a rejeição radical de toda e qualquer
idéia pré-concebida sobre o que seja o ser, o objeto, o conhecimento,
assim como das teorias aceitas a-criticamente e pré conceitos sobre a
realidade.
A filósofa Salma T. Muchail
comentando textos de Heidegger observa:
(...) “a possibilidade mesma da metafísica nasce de um pensamento que
não se esgota na metafísica, do qual ela como que ‘deriva’ como de seu
‘fundamento escondido’, fundamento que ela ‘abandonou’ ou
‘esqueceu’(...)
“É esta pergunta, aquela que interroga pelo que funda a metafísica e
as ciências no sentido de torná-las possíveis mas de não reduzir-se a
elas, que caracteriza a ‘primeira’ tarefa do pensamento: primeira porque
anterior enquanto fundamento, e primeira ainda, porque historicamente
precedeu o nascimento da própria filosofia. Esta questão assim
primordial’ do pensamento é aquela que pergunta por este ‘solo’, pelo
espaço aberto, ou melhor, pela ‘abertura’ ou clareira que possibilita o
surgimento dos entes particulares, possibilitando portanto, e também, o
nascimento da metafísica e das ciências enquanto conhecimento dos
entes.”
Ora, a ‘clareira’, espaço de luz e de sombra, precisamente constitui
o tema e tarefa do pensamento dos chamados Présocráticos que a nomearam
‘alétheia’ (traduzível por ‘desnivelamento’). Retornar à pergunta pelo ‘desvelamento’,
nisto talvez se constitua, pois, aquela ‘primeira’ tarefa do pensamento.
Mas isto também quer dizer: de Platão aos Pré-Socráticos”.*
“(...) ao confundir o ser com a idéia e, através da idéia, o ser com
os entes, Platão instaura o começo decisivo da filosofia que, trazendo
em sua própria constituição as possibilidades mesmas de seu
desdobramento nas ciências, é simultaneamente o começo de seu
acabamento. Platão marca o começo de nossa história ocidental européia.
“‘Antes’ da metafísica, porém, como condição mesma de sua
possibilidade de instauração e de sua história, ‘aquém’ da metafísica,
como seu fundamento esquecido, teve início o pensamento que não persegue
a verdade como ‘omoiosis’ (adequação) mas a questiona como ‘alethéia.”
Estas citações ilustram, o fundamento da fenomenologia. O seu fundamento
na experiência pré reflexiva, pré conceitual, e a sua contraposição a
uma perspectiva teorizante, conceitual, reflexiva. Ilustram, em
particular, a proposta epistemológica da fenomenologia como fundada no
fenomenal. Mas o fenomenal como fundamento imediato da realidade, e não
o fenômeno, tal como concebido por Hegel, como parcialidade de um
absoluto pressuposto.
Pois bem. É esta perspectiva da afirmação do fundamento da fenomenologia
que tem se mostrado profícua e rica na prática dos psicólogos e
psicoterapeutas fenomenológico existenciais, e que nos é muito cara.
Através da temática da diferença, ela nos adverte da
singularidade e autonomia, da outridade, do outro. E nos
mostra que, fundamentalmente, para a atitude fenomenológica, está
colocada esta questão da relação com, e descoberta, do outro, em sua
diferença própria, e ativa particularidade. E a irrecusável questão do
respeito, valor do e interesse, pelo outro no devir de sua outridade, de
sua diferença. A questão do outro como um foco autônomo de produção
de sentido.
Questão que abre a possibilidade da afirmação da relação dialógica
interhumana, da compreensão, que se chamou de empática,
e da transformação no fluxo da relação. Que, valorizadas e afirmadas
na relação com o(s) cliente(s), respondem pelos potenciais de
efetividade das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
A temática e questão do outro em sua ativa particularidade
consciente, da diferença, já desenvolvidas por Nietzsche,
pela fenomenologia e por filósofos fenomenológico existenciais, como M.
Buber, são, assim, fundamentais para a teoria e prática das psicologias
e psicoterapias fenomenológico existenciais.
Talvez seja este o maior mérito da fenomenologia, e que dá fundamento s
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais: a descoberta e
afirmação do valor do outro, em devir na sua particularidade e diferença
próprias, a afirmação do valor e da importância da dialogicidade como a
possibilidade humana propriamente ontológica.
Buber
coloca a questão:
“Este ser humano é outro, essencialmente outro do que eu, e é esta
sua alteridade que eu tenho em mente, eu a confirmo, eu quero que ele
seja outro do que eu, porque eu quero o seu modo específico de ser.”
Lyotard
também coloca a questão de um modo que é sumamente importante para a
psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial:
“A alteridade do outro distingue-se da transcendência simples da
coisa pelo facto de o outro ser para si próprio um Eu e de a sua unidade
não estar na minha percepção, mas nele próprio; por outras palavras, o
outro é um Eu puro que de nada carece para existir, é uma existência
absoluta e um ponto de partida radical para si mesmo, como eu o sou para
mim. A questão transforma-se então em: como é possível um sujeito
constituinte (o outro) ‘para’ um sujeito constituinte (eu)?”.
De
modo que talvez possamos dizer que o que confere sentido e possibilidade
à constituição da fenomenologia e do existencialismo como abordagem de
psicologia e de psicoterapia é, precisamente, esta possibilidade de uma
epistemologia e de uma ética fenomenológico existencial.
Nunca será muito reconhecer neste sentido a importância das idéias de F.
Nietzsche. Por mais que muitos queiram renegá-las, depois de terem nelas
se lambuzado, inscientes, talvez de suas origens. Um mérito fundamental
da filosofia da vida de Nietzsche é o de ter recuperado uma ética
que compreende a vida como afirmação, já, em sua facticidade e
afetividade existencial, em sua espontaneidade e contingência de
emergência do ser-no-mundo, em seu devir. Vida que, como tal, é o que há
a ser afirmado. Vida inocente e potente, cuja afirmação, no que pesem a
sua perecibilidade e possibilidade de sofrimento, é a raiz do vigor de
nossa criatividade no enfrentamento das questões de nossa atualidade
existencial. Vida, vívido vivido, que é critério potente e original do
verdadeiro e dos valores, de uma ética das forças ativas de viver e de
sua afirmação.
HEGEL E A PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL.
Sem entrar no mérito do seu fundamental valor para a filosofia ocidental
-- que é certamente inegável -- , a filosofia de Hegel tem uma situação
peculiar com relação à fenomenologia, (tal como desenvolvida pelos
fenomenólogos modernos), e com relação à filosofia da vida de F.
Nietzsche: é da ênfase da dialética hegeliana, e da ênfase da metafísica
tradicional, no conceitual, no universal, no absoluto, no racional que a
fenomenologia, a filosofia da vida de Nietzsche e o existencialismo
buscam apartar-se.
Paulo E. Arantes
observa com relação a estes últimos:
“(...) a diversificação da escola hegeliana e o progressivo ceticismo
com relação às pretensões absolutistas dos sistemas idealistas alemães
provocaram forte reação anti hegeliana. Alguns como Kierkegaard
(1813-1855) e Nietzsche (1844-1900), salientaram o caráter existencial
do homem frente à unilateralidade da razão e da abstração hegelianas(...)”
Sobre o idealismo de Hegel, e sobre o seu teologismo, Gerd Bornheim
observa, citando e comentando Hegel:
“‘A filosofia’, escreve Hegel, ‘tem a ver tão somente com o esplendor
da idéia, que se espelha na história universal.’ (...) ‘A história
universal é, em si mesma, a explicação do espírito no tempo’.
Evidentemente, o fundamento é entendido aqui à maneira da metafísica,
porquanto o que está em jogo ‘é a verdadeira teodicéia , a justificação
de Deus na história. Assim a história, o tempo e o próprio Deus passam a
constituir um processo homogêneo. Contra tais inícios delirantes, a
crise da metafísica logo deixaria perceber que o teologismo hegeliano
termina desfigurando o processo histórico. E é então que o tempo
histórico passa a conquistar seu espaço próprio.
Na
verdade, parece, pelo menos na perspectiva de um filósofo como Gerd
Bornheim, que o teologismo de Hegel é algo mais do que uma simples
característica inicial de sua filosofia, cedo abandonada.
É
claro, igualmente, nesta citação de Bornheim que o idealismo
característico da filosofia hegeliana -- que não parece ser entendido
por ele como uma interpretação equivocada ou impertinente desta
filosofia -- é, antes, uma referência fundamental da mesma. Mais
adiante, neste mesmo texto, Bornheim, referindo-se a Hegel, chama-o de
“o mestre do idealismo alemão.”
Acerca da relação de Nietzsche com o idealismo, Fink
comenta:
“Nietzsche concebe a inversão do idealismo como uma tarefa que lhe
cabe (...). O aniquilamento da concepção idealista do mundo, isto é, a
destruição da religião, da moral e do ultramundo metafísico é tentada
por Nietzsche, mais superficialmente, através da sua destruição
psicológica, e mais profundamente e num sentido filosoficamente
significativo, através da abolição da alienação humana. No primeiro
caso, o idealismo não é verdadeiramente convertido, mas apenas negado;
em contrapartida, no segundo caso a existência humana conserva a sua
‘grandeza’, o homem é concebido como o ser que se supera a si próprio, o
idealismo é invertido: todas as transcendências são expressamente
buscadas dentro do homem, pelo que lhe é conferida assim a máxima
liberdade da criação audaciosa. O sentimento de que só com o fim do
idealismo aparecerão as grandes possibilidades do homem domina
Nietzsche, é a sua gaya scienza.”
Deleuze, comentando a relação da filosofia trágica de Nietzsche
com a dialética hegeliana, observa:
“A dialética, em geral, não é uma visão trágica do mundo, mas, ao
contrário, a morte da tragédia, a substituição da visão trágica por uma
concepção teórica (com Sócrates), ou melhor ainda, por uma concepção
cristã (com Hegel). O que se descobriu nos escritos de juventude de
Hegel é também a verdade final da dialética: a dialética moderna é a
ideologia propriamente cristã. Ela quer justificar a vida e a submete ao
trabalho do negativo.”[30]
Com relação ao valor do trabalho do negativo, a filosofia da vida
de F. Nietzsche funda-se numa posição diametralmente oposta à da
dialética hegeliana. Contrapondo a perspectiva de uma afirmação da
afirmação -- ou seja, afirmação da afirmação já que é o
vivido -- à concepção e perspectiva de uma negação da negação,
cara e fundamental na filosofia hegeliana.
Como observamos antes, apesar de Hegel ter chamado de fenomenologia
a uma de suas principais obras, o sentido do termo fenômeno em
sua filosofia é inteiramente diverso do sentido utilizado pelos
fenomenólogos modernos.
Vale repetir a citação de Ribeiro Júnior ao tentar definir o sentido do
termo fenomenologia:
Não se trata como à primeira vista pode parecer, do estudo de um
conjunto de fenômenos ou aparências, como se manifestam no tempo e no
espaço; como por exemplo no sentido kantiano, significando a parte
metafísica da natureza que trata do que pode ser objeto da experiência.
Kant usava o termo ‘fenomenologia’ para explicar o que há de intuição
sensível na objetividade e ao que não aparece, mas que é puramente
pensado: o em si. Ou mesmo no sentido hegeliano, como parte em que o
espírito, partindo das experiências sensíveis, alcança a plena
consciência de si mesmo. Hegel adotou o título ‘fenomenologia’ para
explicar, num sentido amplo, a experiência completa da consciência (o
fenômeno do espírito). Sendo que o fenômeno, para ele é sempre
compreendido como limitação relativa a uma realidade extra fenomenal (o
Absoluto).
Mas o que é fenômeno?
É necessário, em primeiro lugar, verificar o que é objeto. Objeto não
é sinônimo de coisa. O objeto é a coisa enquanto está presente à
consciência. Objeto é tudo o que constitui término de um ato de
consciência, enquanto término do dito ato. Os objetos podem ser reais,
como esta mesa que tenho a minha frente; fantásticos como o centauro; ou
ideais como uma expressão matemática, a idéia de verdade, de desejo, de
justiça, etc.
Fenômeno é, pois, o aspecto do objeto patente imediatamente na
consciência (...). O fenômeno é o aparente, é a aparência. Mas, note
bem! A aparência não no sentido de ilusão, como oposta à realidade,
senão no sentido do dado à mera presença na mente, ao que Husserl chama
de consciência pura de algo.
A
crítica nietzscheana à dialética Hegeliana é certamente ainda mais
radical do que esta distinção. Talvez ninguém a comente com tanta
clareza como Deleuze. Ele é taxativo -- peço licença para citá-lo um
pouco extensamente:
“Não há compromisso possível entre Hegel e Nietzsche. A filosofia de
Nietzsche tem um grande alcance polêmico; forma uma anti dialética
absoluta, propõe-se a denunciar as mistificações que encontram na
dialética um último refúgio”. O que Schopenhauer tinha sonhado, mas não
realizado, preso como estava nas malhas do kantismo e do pessimismo,
Nietzsche torna seu, ao preço de sua ruptura com Schopenhauer. Erguer
uma nova imagem do pensamento, liberar o pensamento dos fardos que o
esmagam. Três idéias definem a dialética: a idéia de um poder do
negativo como princípio teórico que se manifesta na oposição e na
contradição; a idéia do valor do sofrimento e da tristeza, a valorização
das ‘paixões tristes’, como princípio prático que se manifesta na cisão,
no dilaceramento; a idéia da positividade como produto teórico e prático
da própria negação. Não é exagerado dizer que toda a filosofia de
Nietzsche, em seu sentido polêmico, é a denúncia das três idéias.
Se a dialética encontra seu elemento especulativo na oposição e na
contradição, é inicialmente porque reflete uma falsa imagem da
diferença. Como o olho de boi ela reflete uma imagem invertida da
diferença. A dialética hegeliana é reflexão sobre a diferença, mas
inverte a sua imagem. Substitui a afirmação da diferença enquanto tal
pela negação do que difere; a afirmação de si pela negação do outro; a
afirmação da afirmação pela famosa negação da negação. -- Mas essa
inversão não teria sentido se não fosse praticamente animada por forças
que têm interesse em fazê-la. A dialética exprime todas as combinações
das forças reativas e do niilismo, a história ou a evolução de suas
relações. A oposição colocada no lugar da diferença é também o triunfo
das forças reativas que encontram na vontade de nada o princípio que
lhes corresponde. O ressentimento precisa de premissas negativas, de
duas negações, para produzir um fantasma de afirmação; o ideal ascético
precisa do próprio ressentimento e da má consciência como
prestidigitador com suas cartas marcadas. Em toda parte as paixões
tristes; a consciência infeliz é o sujeito de toda a dialética. A
dialética é primeiramente o pensamento do homem teórico em reação contra
a vida, que pretende julgar a vida, limitá-la, medi-la. Em segundo lugar
é o pensamento do sacerdote que submete a vida ao trabalho do negativo:
precisa da negação para assentar seu poder, representa a estranha
vontade que conduz as forças reativas ao triunfo. A dialética é, nesse
sentido, a ideologia propriamente cristã. Finalmente ela é o pensamento
do escravo, que exprime a própria vida reativa e o devir reativo do
universo. Até o ateísmo que ela nos propõe é um ateísmo clerical, até a
imagem do senhor é uma figura de escravo. -- Não nos espantaremos de que
a dialética produz apenas um fantasma de afirmação. Oposição superada ou
contradição resolvida, a imagem da positividade encontra-se radicalmente
falseada. A positividade na dialética, o real na dialética é o sim do
asno. O asno acredita afirmar porque assume, mas assume apenas os
produtos do negativo. Ao demônio, macaco de Zaratustra, bastava saltar
sobre nossos ombros; aqueles que carregam sempre são tentados a
acreditar que afirmam quando carregam e que o positivo é avaliado pelo
peso. O asno sob a pele do leão é o que Nietzsche chama ‘o homem de
nosso tempo.’
A grandeza de Nietzsche é a de ter sabido isolar estas duas plantas:
ressentimento e má consciência.”[31]
Num outro momento, Deleuze[32]
afirma:
“São as forças reativas que se exprimem na oposição, é a vontade de
nada que se exprime no trabalho do negativo. A dialética é a ideologia
natural do ressentimento e da má consciência. É o pensamento na
perspectiva do niilismo e do ponto de vista das forças reativas. De um
lado ao outro, ela é o pensamento fundamentalmente cristão: impotente
para criar novas maneiras de pensar, novas maneiras de sentir. A morte
de Deus, grande acontecimento dialético ruidoso; mas acontecimento que
se passa no fragor das forças reativas, na fumaça do niilismo.”
E a seguir[33]:
“Compreende-se mal o conjunto da obra de Nietzsche se não se vê
‘contra quem’ são dirigidos os principais conceitos. Os temas hegelianos
estão presentes nessa obra como o inimigo que ela combate. Nietzsche não
para de denunciar: o caráter teológico e cristão da filosofia alemã (o
‘seminário de Tumbinguen’); a impotência dessa filosofia a sair da
perspectiva niilista (niilismo negativo de Hegel, niilismo reativo de
Feuerbach, niilismo extremo de Stirner); a incapacidade dessa filosofia
para atingir outra coisa que não seja o eu, o homem ou as ilusões do
homem (o super-homem nietzscheano contra a dialética); o caráter
mistificador das pretensas transformações dialéticas (a transvaloração
contra a re apropriação, contra as permutações abstratas).”
“Em Nietzsche, a relação essencial de uma força com a outra nunca é
concebida como um elemento negativo na essência. Em sua relação com uma
outra, a força que se faz obedecer não nega a outra ou aquilo que ela
não é, ela afirma sua própria diferença e se regozija com esta
diferença. O negativo não está presente na essência como aquilo de que a
força tira a sua atividade, pelo contrário, ele resulta desta atividade,
da existência de uma força ativa e da afirmação de sua diferença. O
negativo é um produto da própria existência: A agressividade
necessariamente ligada a uma existência ativa, a agressividade de uma
afirmação. (...) Nietzsche substitui o elemento especulativo da negação,
da oposição ou da contradição, pelo elemento prático da diferença:
objeto de afirmação e de gozo. É nesse sentido que existe um empirismo
nietzscheano.* A pergunta tão
freqüente em Nietzsche: o que uma vontade quer? o que quer este? aquele?
não dever ser compreendida como a procura de um objetivo, de um motivo
nem de um objeto para esta vontade. O que uma vontade quer é afirmar sua
diferença. Em sua relação essencial com a outra, uma vontade faz de sua
diferença um objeto de afirmação. “O prazer de se saber diferente” o
gozo da diferença: eis o elemento conceitual novo, agressivo e aéreo
pelo qual o empirismo substitui as pesadas noções da dialética e,
sobretudo, como diz o dialético, o trabalho do negativo. Dizer que a
dialética é um trabalho e o empirismo um gozo basta para
caracterizá-los. E quem nos diz que há mais pensamento num trabalho do
que num gozo? A diferença é o objeto de uma afirmação prática
inseparável da essência e constitutiva da existência. O ‘sim’ de
Nietzsche se opõe ao ‘não’ dialético; a leveza, a dança, ao peso
dialético; a bela irresponsabilidade, às responsabilidades dialéticas. O
sentimento empírico da diferença, em suma, a hierarquia é o motor
essencial do conceito, mais eficaz e mais profundo do que todo
pensamento da contradição.”
“Além disso devemos perguntar o que quer o próprio dialético? O que
quer esta vontade que quer a dialética? Uma força esgotada que não tem
força para afirmar a sua diferença, uma força que não age mais, e sim
reage às forças que a dominam; só uma força assim faz passar o elemento
negativo para o primeiro plano em sua relação com o outro, ela nega tudo
que ela não é e faz, desta negação, sua própria essência e o princípio
de sua existência. ‘Enquanto a moral aristocrática nasce de uma triunfal
afirmação de si mesma, a moral dos escravos é, desde o início, um não ao
que não faz parte dela, ao que é diferente dela, ao que é seu não eu; e
o não é seu ato criador.’ Por isso Nietzsche apresenta a dialética como
a especulação da plebe, como a maneira de pensar do escravo: o
pensamento abstrato da contradição prevalece sobre o sentimento concreto
da diferença positiva, a reação sobre a ação, a vingança e o
ressentimento tomam o lugar da agressividade. E, inversamente, Nietzsche
mostra que o negativo no senhor é sempre um produto secundário e
derivado de sua existência. Do mesmo modo, a relação do senhor e do
escravo não é dialética em si mesma. Quem é dialético? quem dialetiza a
relação? É o escravo, o ponto de vista do escravo, o pensamento do ponto
de vista do escravo. Na verdade o célebre aspecto dialético da relação
senhor-escravo depende de que o poder é aí concebido não como uma
vontade de poder, mas como representação do poder, como representação da
superioridade, como reconhecimento por ‘um’ da superioridade do ‘outro’.
O que as vontades querem, em Hegel, é fazer reconhecer o seu poder,
representar seu poder. Ora, segundo Nietzsche, aí reside uma concepção
totalmente errônea da vontade de poder e de sua natureza. Tal concepção
é a do escravo, ele é a imagem que o homem do ressentimento faz do
poder. É o escravo que só concebe o poder como objeto de uma recognição,
matéria de uma representação, o que está em causa numa competição e,
portanto, o faz depender no fim do combate, de uma simples atribuição de
valores estabelecidos. Se a relação do senhor e do escravo assume
facilmente a forma dialética, a ponto de se ter tornado um arquétipo ou
uma figura de escola para todo jovem hegeliano, é porque o retrato que
Hegel nos põe do senhor é, desde o início, um retrato feito pelo
escravo, um retrato que representa o escravo, pelo menos tal como ele se
imagina, no máximo um escravo realizado. Sob a imagem hegeliana do
senhor é sempre o escravo que desponta.[34]”
Em
termos da perspectiva nietzscheana com relação à valorização do
conceitual e do pensamento da contradição, proposta pela dialética
hegeliana, é interessante repetir a colocação de Eugen Fink
:
“O conceito é a casca vazia de uma metáfora que outrora enervava a
intuição. Nietzsche contrapõe ao homem científico, que já não detecta a
mentira dos conceitos, o homem intuitivo, artístico; um refugiou-se na
cápsula, considera os conceitos como a própria essência das coisas, ao
passo que o outro conhece o engano de todas as determinações, incluindo
o das metáforas, embora se mova livremente perante a realidade,
criativamente forjando imagens. Para Nietzsche, o homem intuitivo, o
artista é o tipo superior em comparação com o lógico e o cientista.
Nietzsche vê-o também em luta permanente com as convenções conceptuais;
ele já não é mais ‘guiado por convenções conceptuais, mas por
intuições’. ‘Destas intuições não parte qualquer caminho regular para o
território dos esquemas fantásticos, das abstrações: a palavra não foi
feita para a intuição, o homem emudece quando a vê, ou fala em metáforas
proibidas, em construções conceptuais inéditas para, pelo menos através
da destruição e do escárnio dos velhos limites dos conceitos,
corresponder de um modo criador à impressão que lhe produz a poderosa
intuição do presente.’
Fink,
ainda, observa, comentando Nietzsche em Da Verdade e da Mentira no
Sentido Extra moral:
“Verdade e mentira não representam aqui qualquer comportamento humano
consciente e voluntário, pois não se trata de um comportamento moral.
Trata-se do papel do intelecto na totalidade do mundo. A verdade ou a
não verdade moral que o intelecto humano desenvolve. Mas até que ponto o
intelecto é verdadeiro, em que medida ele apreende a realidade
verdadeira, é uma outra questão. Talvez seja, num prisma mais radical,
uma mentira juntamente com todas as suas verdades.”
Comentando o processo de Nietzsche na composição do Zaratustra,
Fink cita Nietzsche no Ecce Homo:
“Alguém faz uma idéia clara, nos finais do século XIX, daquilo a que
os escritores das épocas vigorosas chamavam de inspiração? Se não eu vou
explicá-lo. Por muito pouco supersticiosos que tenhamos permanecido, não
saberíamos defendermo-nos da impressão de que somos apenas a encarnação,
apenas porta-voz, apenas médium de forças superiores. O conceito de
revelação, no sentido de que algo se torna repentinamente visível e
audível com precisão e nitidez inexprimíveis, de que algo abala um
homem, o transtorna até às profundezas, corresponde a um facto exato.
Ouve-se, não se procura; aceita-se, não se pergunta quem dá; o
pensamento fulgura como um relâmpago, impõe necessariamente, sob sua
forma definitiva; eu nunca fiz uma escolha (...) tudo acontece
involuntariamente, como numa tempestade de liberdade, de absoluto, de
força, de divindade. É no caso da imagem, da metáfora, que este caráter
involuntário da inspiração é mais curioso; já não se sabe o que é
símbolo, comparação, tudo se apresenta como a expressão mais justa, mais
simples, mais directa. Parece verdadeiramente, para recordar uma palavra
de Zaratustra, que as próprias coisas vêem oferecer-se como termos de
comparação. Esta é a minha experiência da inspiração; eu não duvido de
que tenhamos de recuar milénios para encontrar alguém que me possa
dizer: ‘a minha também é essa.’
Fink comenta a seguir de um modo profundamente esclarecedor:
“O que Nietzsche formula no que poderia ser considerado como a sua
autobiografia é a essência pura da experiência ontológica; a passagem de
Nietzsche tem o seu oposto na Introdução à Fenomenologia do Espírito, de
Hegel.”**
Ainda Fink:
“No Zaratustra brota, à semelhança de uma força da natureza, o
espírito de empreendimento mais audacioso, o espírito da vida que
experimenta (...). Devolver à existência a sua independência, a sua
indeterminação e, por conseguinte, o seu caráter de empreendimento
audacioso; (...) obter para a liberdade humana um novo espaço onde ela
se possa instalar num quadro totalmente novo e empenhar-se em novas
tentativas vitais -- é nisto que consiste a tendência subterrânea da
‘filosofia da manhã de Nietzsche.”
Com relação ao trabalho do negativo, e com relação às transformações
dialéticas -- entre nós denominadas de suprassunção (termo que
nos suscita reflexões, quando pensamos na sina e no papel do camelo
de Zaratustra) --, Deleuze comenta ainda,:
“Contradição desenvolvida, resolução da contradição, reconciliação
dos contraditórios. É Zaratustra que grita: ‘Alguma coisa mais elevada
do que toda reconciliação’ -- a afirmação. Alguma coisa mais elevada do
que toda contradição desenvolvida, resolvida, suprimida -- a
transvaloração. Este é o ponto comum de Zaratustra e Dionísio.[39]
Pensar a relação de Hegel com a fenomenologia e com o existencialismo, e
em particular com a psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial, exige não só que busquemos as relações de similaridade mas,
em especial, as diferenças. E as particularidades, segundo as quais a
fenomenologia, a filosofia da vida de Nietzsche, e os existencialismo,
se distinguem agudamente das perspectivas hegelianas. Em particular
porque são especificamente estas distinções que conferem a
originalidade e a efetividade à fenomenologia e ao existencialismo, e às
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
Psicólogos e psicoterapeutas aprenderam e aprendem, de um modo especial,
o valor da fenomenologia e do existencialismo, da filosofia da vida de
Nietzsche, em psicologia e psicoterapia, ao serem tocados pela
originalidade dos pontos de vista, das concepções e perspectivas de
valor deles. Em particular das poderosas intuições e poderosa crítica
cultural da filosofia da vida de F. Nietzsche. Ao afirmarem-nos em sua
prática.
Cumpre compreender a crítica fundamental ao idealismo, como
pressuposto do privilégio da afirmação da vida, em sua espontaneidade
original. Privilégio de sua vívida e intensa vivência, e de sua potência
criativa. Da potência criativa do espírito de uma vida que
experimenta, que tenta o inédito, e cria. Da potência do homem no
sentido da auto superação, e de criação do mundo e de si próprio. De sua
capacidade de transformação, com galhardia, da fatalidade de uma simples
condição de vítima do dado, e do pressuposto, à revelia do poder
cri/ativo de seu ser-no-mundo.
“...todas as transcendências são expressamente buscadas dentro do
homem, pelo que lhe é conferida assim a máxima liberdade da criação
audaciosa. O sentimento de que só com o fim do idealismo aparecerão as
grandes possibilidades do homem domina Nietzsche, é a sua gaya scienza.”.
Capítulo 6
FENOMENAÇÃO
Psicologia e Psicoterapia Fenomenativa
Existencial?
O importante não é o ‘cogito’ ergo sum,
mas o agito ergo sum.
T. Suzuki.
O puro conhecimento é desprovido de
instinto.
Nietzsche.
Mil flores de plástico não farão o
deserto florescer
F. Perls.
Na atualidade vivida não há unidade do
ser. A atualidade é somente ação. Sua força e profundidade são as destas
ação. E mais, só há “interior” na medida em que houver ação mútua. A
atualidade mais forte e profunda é aquela onde tudo dirige-se à ação...
M Buber.
A ação é o núcleo da realidade.
Fritz Perls.
Psicoterapia e filosofia fazem uma boa parceria.
Não seria correto dizer que a psicoterapia nasce de certas correntes
filosóficas. Na verdade, a psicoterapia desenvolve-se a partir de certos
filões dos processos culturais, dos quais certamente brotam também as
idéias filosóficas a eles relativos.
Assim é com as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
Elas nascem, dentre outras influências, como observamos, a partir da
recuperação de certas perspectivas da Cultura Grega Pré-Socrática, em
meio ao ambiente fortemente socrático do desenvolvimento da Civilização
Ocidental.
No
âmbito de uma cultura que assume uma negação feroz do corpo em sua
espontaneidade, de negação do vivido, dos sentidos, o incremento da
presença do dionisíaco pré socrático configurou-se como uma
possibilidade de arejamento e efetivamente de cura, num sentido
amplo. Esta presença foi, evidentemente, potencializada pela recuperação
artístico filosófica que Nietzsche elaborou deste viés cultural
dionisíaco, esquecido e subterrâneo, no âmbito moralista da
Cultura da Civilização Ocidental.
As
idéias e a arte de Nietzsche tiveram uma poderosa influência na
intelectualidade alemã e européia do final do século passado e início
deste. E quando parte desta intelectualidade emigrou para a América,
antes, durante e depois da segunda guerra, carregou consigo e semeou no
Novo Mundo a vigorosa influência Nietzscheana.
O
mesmo se passou com a fenomenologia. Esta certamente desenvolvida, pelo
menos em parte, a partir de tradições místicas do Judaísmo e das
Civilizações Orientais.
Migrando do âmbito da medicina, do âmbito de um modelo médico --
processo de migração no qual ainda hoje encontramo-nos envolvidos --, a
chamada psicoterapia encontrou-se com as tradições fenomenológica e
existencial, seja com o depuramento filosófico particular destas, seja
no seio vivo das práticas culturais nas quais elas se constituíam e das
quais emergiam. Lidando cotidianamente com questões e crises
existenciais ativas e irresolvidas, freqüentemente dramáticas, a
psicologia e a psicoterapia descobriram a fenomenologia e o
existencialismo como um fecunda e criativa possibilidade de abordagem
prática e produtiva dessas crises.
Assim, desde o início, a psicologia e a psicoterapia fenomenológico
existencial careceu de firmar na sua prática uma posição fortemente
fenomenal e existencialista. Na relação com o cliente, começou a ficar
claro, desde cedo, que o que era curativo não era um estudo
do psiquismo do cliente, de seu psiquismo ou de sua estrutura de
personalidade, ou mesmo um estudo de seu processo fenomenal,
mesmo que este estudo fosse operado por ele próprio, cliente. Não era um
enfoque técnico, a aplicação de certas técnicas, ou um enfoque moralista
e orientador, que poderia ser curativo. O que era, e é, efetivamente
curativo na abordagem da psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial é a possibilidade da entrega ativa do cliente ao
desdobramento vivo e vívido, ativo, -- diríamos desdobração
-- do próprio vivido pré reflexivo, pré conceitual, de sua atualidade
existencial, eventualmente crítica. A entrega franca à ativa concretude
de sua existência, ao seu devir, o que, em Gestalterapia -- mas na
realidade formulação de Carl Rogers -- ficou conhecido como teoria
paradoxal da mudança: o cliente não muda terapêuticamente
escamoteando o seu estado de ser, vivido, mas é ao assumir e ativamente
afirmar, este estado -- em devir -- vívidamente vivido, que ocorre a
mudança, que o cliente cresce.
É
esta constatação, pragmaticamente desenvolvida, que determinou e
determina o fundamento filosófico e o modelo metodológico da abordagem
das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Em
particular, o seu modelo de concepção da pessoa, de auto concepção do
profissional, e de concepção e uso do poder que está social e
contingentemente atribuído ao psicoterapeuta e à psicoterapia. Trata-se,
de criar no âmbito do espaço psicoterapêutico e de trabalho psicológico,
as condições para que a vivência fenomenal pelo cliente do momentum
de sua atualidade existencial, e eventualmente de sua crise, possa
pontualmente afirmar-se e desdobrar-se, ativamente, segundo os seus
vetores próprios. Com toda a alegria, perecimento e
sofrimento que isto possa contigencialmente implicar. Mas a partir,
sempre, da constatação do valor próprio e intrínseco desta afirmação
vivencial, e de que é ela a mais poderosa via para a potencialização da
liberdade e da criatividade do cliente e da pessoa, na resolução
das questões de sua atualidade existencial e no manejo de sua vida.
De
modo que podemos dizer que, desde o início, trabalhamos operando
ativamente a inversão da inversão de que Nietzsche falava, quando
tratava da relação entre Socráticos e Pré-Socráticos. Para ele, Sócrates
-- e na sua esteira toda a tradição da cultura da Civilização Ocidental
-- operara uma inversão da perspectiva dos Pré socráticos, ao eleger o
abstrato, o ideal, o além mundo, como valores superiores; relegando o
corpo, os sentidos, o vivido, os instintos, a terra e a força da terra,
a valores inferiores, porque suposta e doutrinariamente estariam
vinculados à animalidade humana. Nietzsche propunha, assim, uma
inversão da inversão socrática. Ou seja reinstalar o corpo, o
vivido, os sentidos no topo da pirâmide de valores, relegando a um plano
secundário o abstrato, o teórico, os ultra-mundos. A psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial surgem deste projeto de uma
inversão da inversão socrática. De uma reinstalação do corpo, do
vivido e dos sentidos, do ativo da vida, como valores em si, como
valores primordiais. Ou seja, trata-se de entender o vivido como ativa e
benigna afirmação da vida, e de desenvolver valores e atitudes de
afirmação da afirmação com que ele já se configura, as bodas de Dionísio
e Ariana, de que falava Nietzsche.
No
âmbito da psicologia e da psicoterapia, trabalhamos, primordialmente,
com o devir vivo do ser no mundo, com a vivência, com o, vivo e
vívido vivido, devir do ser do cliente no seu mundo, ativados estes
pela(s) crise(s) que o conduzem à prática da psicoterapia. Momentos de
querido ou dolorosamente indesejado estalar de velhas estruturas de ser
e estar no mundo. Momentos de vivência das dores e sofrimentos, repulsas
e seduções de perecimentos vários. Momentos, eventualmente, de ameaça
terrível, ou de incontrolável atratividade, do novo que emerge com a
lentidão e inexorabilidade do sol de cada manhã. Momentos de medo e
excitação. Momentos de trans-form-ações, ora morosas ora
desconcertantemente frenéticas.
Tudo está perturbadoramente vivo, em movimento e vulnerável, devir. Em
carne viva. Potência plena e informe. Tudo está plasticamente ativado e
lábil, e é a própria liberdade e criatividade do cliente, a vontade do
seu ser que devém, que poderá dar uma forma, produtiva e rica para ele,
a tudo que está em formação. Não existem mapas, não existem cartografias
do desejo. Tudo depende de simples e pequenas ousadias, de um espírito
existencialmente experimental -- de grandes ousadias, às vezes -- do
arriscado sim ao momentum de si mesmo, da aceitação e afirmação
do espírito de uma vida que experimenta, que tenta e erra, que
pode criar, e cria. Tudo se resolve desta forma ao nível do vivido e da
ação, da vívidação do vivido, da afirmação e da criação de si, e
de um mundo que lhe diz respeito, pela identificação com os níveis mais
originários da vívida ação -- vívidação -- de si-mesmo-no-mundo.
A
alternativa é a impotência.
O
vivido, o corpo, em sua espontaneidade de ser no mundo, são a ação , são
o ativo em sua potência e originalidade. Entendidos por Nietzsche
como a dimensão nobre das forças que criam, que inventam, que
dominam porque impõem formas novas e ricas.
O
estudo, o reflexivo, o pensamento, a consciência reflexiva são da ordem
do reativo. São da ordem da reação. Não criam. Servem à ordem da
adaptação do ajustamento, da repetição, dos mecanismos. Forças reativas
que, se têm o seu lugar no concerto da multiplicidade da vida, não dizem
respeito à capacidade mais nobre da invenção e da criação, da invenção
de si mesmo e do mundo, da invenção de alternativas, como o que é
próprio às forças ativas.
Mais que isto, ao prevalecerem, as forças reativas determinam o império
da nadificação da redução ao zero da potência, da impotência e da
mesmidade: o império do niilismo. Ao concentrarem-se determinam o
ressentimento -- a impotência amarga e vingativa contra tudo que é
forte --, determinam a consciência infeliz, a culpa, -- o
ressentimento, a vingatividade, retrofletidos contra si pelo próprio
ressentido --, e a idéia ascética, o ideal ascético, que anima-se
do princípio de que o vivido, a vida, ativa em sua espontaneidade e
contingência, são um erro a ser negado e substituído pelo anseio reativo
de uma vida além da vida, de um além mundo.
Desta perspectiva, é interessante observar a possível contradição em
termos da expressão fenomeno logia. Na medida pelo menos em que o
logos em questão esteja identificado com o conhecimento reflexivo
e conceitual.
Neste sentido, não se trata, para a psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial, de um logos, no sentido
reflexivo e conceitual. Tudo no vivido está evidentemente impregnado de
um certo logos. Mas, especificamente, este logos não é o logos reflexivo
e conceitual. Decididamente, para nós, não se trata de um estudo do
fenômeno, ou do processo fenomenal, não se trata da reflexão
acerca do vivido. Não se trata de um estudo. Mesmo que seja um
estudo operado pelo próprio cliente de seu vivido. O vivido é em si já
uma afirmação, um querer ativo, trata-se de querê-lo, de afirmá-lo em
sua afirmação, de sua desdobr/ação, nas intensidades próprias de seu
ativo devir. Trata-se de afirmar a sua expressividade ativa e
inuitivamente.
Husserl parece ter pago um tributo demasiadamente pesado a suas
vinculações Cartesianas quando enunciou como fenomeno logia o
conjunto de suas idéias e de seu método. Ainda que entendamos a que tipo
particular de logos ele se referia.
Infelizmente entre nós, esta possibilidade de ambiguidade, e própria
super valorização socrática da reflexão, geram mal-entendidos. Não é
raro encontrar quem ache que o fenomenal está destinado a ser
necessariamente objeto da nobre reflexão. Ou que quando falamos de
fenomenologia estamos falando de um estudo, de uma análise do fenomenal.
Não se trata disto. O que do fenomenal não é acessível no próprio
fenomenal jamais será elucidado pela reflexão. O fenomenal é um logos
pré conceitual e pré reflexivo, um conhecer que só é acessível em sua
própria vivência e, em particular, em sua própria expressividade, mais
ou menos motora.
Assim, é possível uma fenomenologia que não seja fenomenação?
Mesmo que esta ação não diga respeito à ação objetiva, mas à
atividade de um vivido que se desdobra como consciência ativa, e que
eventualmente enforma e prolonga-se na ação motora criativa e original,
dialógica, no mundo. O fenomenal é sempre espontânea e incontroladamente
ativo. O processo fenomenal, é fluxo ativo, que efetiva-se espontânea e
afirmativamente no instante. Que pode ser negado por uma atitude
negativa, ou que pode ser afirmado em sua afirm/ação, desdobrado em sua
excitação, intensidades, incerteza e devir. É a fonte de nossa
originalidade e criatividade.
De
modo que o que é mais interessante para a prática da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial é que o cliente
interprete-se a si mesmo, fenomenativamente.
Estamos aqui num universo muito diferente do universo do conceito
psicanalítico de interpretação. Interessa-nos que, a cada momento
fundamentalmente relevante da sessão e do processo psicoterapêutico, o
cliente possa identificar-se pontualmente com o seu vivido fenomenativo,
e interpretá-lo fenomenativamente: interpretar-se fenomenativamente a si
mesmo, do mesmo modo que um ator de teatro interpreta. Interessa-nos que
o cliente potencialize-se como um intérprete de si próprio, e
potencialize-se, desta forma, como uma artista de sua vida.
Potencializando a sua criatividade no sentido da criação das condições
de que ele necessita no mundo para a sua auto atualização, e no sentido
da sua própria criação de si mesmo no mundo que lhe diz respeito.
Na
prática da psicologia e psicoterapia, e filosoficamente, não é
interessante uma fenomenologia que não seja fenomenação,
afirmação da afirmação da vividez do fluxo incontrolado e espontâneo do
processo fenomenal, vivido, e o seu prolongamento eventual em sua
expressividade criativa. Ainda que o equívoco de uma tal fenômeno
logia seja freqüentemente praticado ou preconizado por psicólogos e
psicoterapeutas não convencidos do valor do projeto de uma inversão da
inversão socrática.
De qualquer forma, não estaríamos
melhor servidos pela expressão psicologia e psicoterapia fenomenativa
existencial ?
Capítulo 7
FATAL MESMO É
CRER NA FATALIDADE.
Dialogicidade, Superação, teoria e prática da Psicologia e
Psicoterapia Fenomenológico Existencial
“... somente o ISSO pode ser ordenado. As
coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser
nosso TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não conhece nenhum sistema de
coordenadas.
(...) o mundo ordenado não significa a
ordem do mundo. Há momentos em que, sem motivo aparente, a ordem do mundo
se apresenta como presente. Percebe-se, então, o tom do qual o mundo
ordenado é nota indecifrável. Tais momentos são imortais, mas são também
os mais fugazes. Deles não se pode conservar nenhum conteúdo, mas, em
contrapartida, a sua força integra a criação e o conhecimento do homem, as
irradiações de sua força penetram no mundo ordenado, fundindo-o
incessantemente. Tal é a história do indivíduo, tal a história da espécie.
M. Buber
“A única coisa que pode vir a ser fatal ao
homem é crer na fatalidade.
A crença na fatalidade é falsa desde o
princípio. (...) A profecia baseada na objetividade tem valor apenas para
quem ignora a presença. Aquele que é subjugado pelo mundo do Isso é
obrigado a ver no decurso inalterável uma verdade que esclarece a
confusão. Na verdade tal dogma deixa subjugar-se mais profundamente ao
mundo do Isso. O mundo do Tu, porém, não é fechado. Aquele que na unidade
do seu ser se dirige a ele conhecerá profundamente a liberdade. E
tornar-se livre significa libertar-se da crença na servidão.”
M. Buber.
“E eis o que segredou-me a vida: ‘eu sou o
que deve superar-se indefinidamente’.”
F. Nietzsche.
“Sim, para o jogo do criar, meus irmãos, é
preciso um sagrado dizer-sim:
sua vontade quer agora o espírito, seu mundo ganha para si o
perdido do mundo.
“Querer liberta: eis a verdadeira doutrina
da vontade e da liberdade ...
“Todo ‘foi’ é um fragmento, um enigma, um
horrível acaso -- até que a vontade criadora lhe diz: ‘Mas assim eu quis!”
F. Nietzsche.
"Ensinei-lhes toda a minha arte e
finalidade de minhas pesquisas: condensar e reunir num o que no homem é
fragmento e enigma e terrível acaso.
Poeta, advinho e redentor do acaso,
ensinei-lhes a trabalhar o futuro e, criando, a libertar tudo o que já
foi.
Libertar o passado no homem e transformar
o 'era' até que a vontade possa dizer: "Mas foi assim que eu o quis! É
assim que o quero.!
Foi isto que eu chamei a sua salvação,
isto só que eu lhes ensinei a chamar salvação.
F. Nietzsche.
A
Filosofia Dialógica da Relação de M. Buber, como fenomenologia e como
ontologia da relação, e do humano, tem um poder singular para a
compreensão do processo e do que podemos entender como produção dos
efeitos da psicoterapia.
Muito além da mera conceituação das palavras princípio Eu-Isso e
Eu-Tu --, ou da tola confusão de palavra com verbalização,
mesmo que sub vocal, que tão freqüentemente se lhe atribui, a filosofia da
relação oferece-nos preciosas perspectivas. Não apenas para a formulação,
ou para a compreensão, de um método de psicoterapia ou de psicologia, mas,
fundamentalmente, para uma compreensão acerca do como o humano, no seu
mero ser como devir, foge, supera, desvencilha-se, do dado e do
estabelecido. Como o ser humano transcende o determinado -- o útil,
cotidiano e inevitável mundo e vida do Isso, mundo, e vida, da
coisificação e da coisidade, da fatalidade, do decurso
inalterável das coisas. Através da criação e re-criação de si e do
mundo, que naturalmente lhe permite a possibilidade natural do evento da
relação, do dialógico, na sua superabundância de forças e de
plasticidade.
É
tardia a dedicação específica de Buber ao processo da psicoterapia ou do
trabalho psicológico. O que lhe ocupava era a ontologia da relação e do
humano, era o processo de (auto) engendramento do ser (devir) do humano, e
do humano mundo.
Com
uma compreensão do dialógico e de suas possibilidades na vida e no mundo
humanos, Buber nos oferece uma perspectiva de compreensão do que
naturalmente pode ocorrer de melhor no processo da psicoterapia ou do
trabalho psicológico de base fenomenológico existencial. Antes de ser
processo ou efeito psicoterapêutico, todavia, a possibilidade das forças e
a possibilidade plástica do dialógico na vida e no mundo humanos são
naturalmente uma dimensão fundamental, e natural potencialidade, latência
constante, do processo e das forças da existência. Ou seja: a mudança, a
irrupção da criatividade existencial, a superação cri-ativa de um
indesejável decurso, que tornou-se aparentemente inevitável, que trás o
cliente ao consultório, e que é possibilitada pela vivência do dialógico,
é uma possibilidade natural, uma necessidade, da existência, sempre
latente e naturalmente atualizável, na medida em que possamos intuí-la e
afirmá-la. De modo que Buber deixa claro para nós que o que vemos de
melhor no processo da psicoterapia ou do trabalho psicológico, o melhor do
crescimento humano, a mudança terapêutica, a superação, a potencialização
da criatividade existencial a partir da mobilização de uma
super-abundância de forças, é, na sua efetividade, a natural implicação da
humana abertura para o dialógico, a sua afirmação, a atualização do sempre
latente e disponível potencial para a relação, a assunção plena da
concretude da existência, em sua contingência, afetividades e devires.
Buber nos mostra, de um modo cristalino, como a relação, o
dialógico, borra a consistência da dureza do mundo e da vida do isso,
do mundo e da vida coisificados, e de seus poderes, funde estanquização e
estagnação tensa do mundo e da vida coisificados, e infunde-lhes
movimento, plasticidade renovada, dinamismos, possibilidades, libertação
de suas potencialidades. Como a relação e o dialógico suspendem a
gravidade da força de rolo compressor do decurso aparentemente inalterável
das coisas, e dela engendra novas formas e possibilidades. Mostra também
como, num esgotado e estereotipado eu, carente de atualidade, o dialógico
e a relação infundem a possibilidade do devir, a possibilidade de sua
própria super abundância renovada de forças, de cor e brilho.
E
tudo isto, evidentemente, não é privativo da psicoterapia ou do trabalho
psicológico, de um método, abordagem, ou situação determinada. De fato,
trata-se apenas da natural atualização da sempre presente, não importa o
quanto negligenciada e enfraquecida, potencialidade humana para o
dialógico e para a relação.
Busco neste texto apresentar alguns destes aspectos da Filosofia Dialógica
da Relação, explicitar elementos que evidenciem a sua importância para a
aprendizagem e para o trabalho psicoterapêutico e psicológico, assim como
para a vida humana em geral. Para tal, uso abundantemente o próprio texto
de Buber, no Eu e Tu,
evidentemente a melhor forma de exposição de suas perspectivas. De modo
que o texto segue fundamentalmente, por uma tempo, as pegadas de Buber em
um trecho de sua obra.
Buber tematiza a coisific/ação do mundo e da vida e as características,
implicações e potencialidade da dimensão do mundo e da vida coisificados.
Em primeiro lugar, a sua necessidade, a sua inevitabilidade, a sua
importância para a vida humana individual e coletiva. Tematiza, a seguir,
a latência sempre presente do dialógico na vida humana, a importância da
preservação da força de sua possibilidade e potencialidade, neste mundo e
vida coisificados. E a implicação do enfraquecimento e perda desta
possibilidade. Aborda, de modo brilhante, o modo como a relação dialógica
pode converter as implicações decorrentes da coisificação ilimitada da
vida e do mundo, a causalidade ilimitada, o decurso inalterável das
coisas, a fatalidade, a crença na inalterabilidade do decurso e da
fatalidade.
1. COISIFICAÇÃO, COISIDADE E A POSSIBILIDADE DA RELAÇÃO NO MUNDO DAS
COISAS.
“Somente o ISSO pode ser ordenado (...) O
TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.
Porém (...) o mundo ordenado não significa
a ordem do mundo.”
M. Buber
Praticamente tudo o que não é coisa na vida humana, apesar de
configurar o que existe de mais importante e definidor no humano, é fugaz,
efêmero, pontual e sofre o melancólico destino de coisificar-se, de
constituir-se inevitável e necessariamente em coisa, em Isso. Sejam os
objetos materiais, sejam os afetos, o pensamento, a alteridade, as
relações, o Tu vivido no instante. Buber coloca:
“... a grande melancolia de nosso destino é que cada TU em nosso mundo
deve tornar-se irremediavelmente um ISSO. Por mais exclusiva que tenha
sido a sua presença na relação imediata, tão logo esta tenha deixado de
atuar ou tenha sido impregnada por meios, O TU se torna um objeto entre
objetos, talvez o mais nobre, mas ainda um deles, submisso à medida e à
limitação. A atualização da obra em certo sentido envolve uma
desatualização em outro sentido. A contemplação autêntica é breve; o ser
natural que acaba de se revelar a mim no segredo da ação mútua, se torna
de novo decomponível, classificável, um simples ponto de interseção de
vários ciclos de leis. E o próprio amor não pode permanecer na relação
imediata; ele dura mas numa alternância de atualidade e de latência (...).
Cada TU, neste mundo é condenado, pela sua própria essência, a
tornar-se uma coisa, ou então, a sempre retornar à coisidade.”
Esta
inevitabilidade da coisificação, a transformação necessária do Tu
em Isso, é natural, não configura algo de negativo em si. É própria
da condição humana, e é ela que permite a objetivação e a organização do
mundo e da vida humanos. É ela que permite o desenvolvimento da cultura,
do conhecimento, da língua, dos usos, da arte, do ordenamento científico
da realidade. Na verdade, a nossa vida cotidiana desdobra-se normalmente
na esfera do Eu-Isso, do mundo da coisificação e da coisidade, e é,
ela própria, coisificada. E isto é natural. O dialógico, a atualização da
possibilidade do Eu-Tu é eventual, episódica e fugaz. E isto é
natural.
“A palavra princípio EU-ISSO não tem nada de mal em si porque a matéria
não tem nada de mal em si mesma.[43]
O
que é fundamental reter, todavia, é que as coisas, o mundo e a vida
coisificados assim constituídos não são absolutos em sua condição. Guardam
em latência em si sempre pronto o potencial de uma “reversibilidade”, o Tu
neles encantado, e a possibilidade de seu “desencantamento”.
“O ISSO é a crisálida, o TU a borboleta. (...) não como se fossem
sempre estados que se alternam nitidamente, mas, amiúde, são processos que
se entrelaçam confusamente numa profunda dualidade.[44]”
Empobrecimento e fatalismo na condição humana começam a desenvolver-se
quando esta latência do TU no ISSO – ou seja, latência da
possibilidade da relação dialógica no mundo e na vida coisificados --
começa a enfraquecer-se ou a extinguir-se. Quando sobre o mundo do Isso
não paira, ou enfraquece-se, a possibilidade do Tu, da latência do Tu por
sobre o mundo do Isso, como “quando o espírito pairava sobre as águas
(Buber)”. Quando o mundo coisificado, o mundo do ISSO, ganha autonomia
e absolutiza-se, quando o homem assim submetido ao poder das coisas e da
vida coisificada perde a possibilidade da relação dialógica com a
natureza, com o humano, com o misterioso. Na possibilidade do dialógico
reside especificamente o poder humano de regeneração, de recriação e de
ordenamento criativo do mundo das coisas.
É
sempre uma possibilidade, e um desafio para o homem, a preservação
constante de seu poder de momentânea e pontual relação Eu- Tu. A
relação EU-TU na esfera da relação com os seres naturais, na esfera da
relação inter humana, ou na relação com o mistério espiritual do
Ser em sua vida.
A
possibilidade arrisca-se cada vez mais, e o desafio potencializa-se
(Buber), na medida em que o homem vive e na medida em que dura a vida
humana, tanto coletiva quanto individual. Porque o desenvolvimento da
história de sua vida -- da mesma forma que o desenvolvimento das
civilizações -- implica inevitavelmente num inexorável e progressivo
crescimento, e progressiva estruturação, e potencialização como tal, do
mundo e da vida do Isso, do mundo e da vida coisificados.
“A história do indivíduo e a história do gênero humano (...) manifestam
um crescimento progressivo do mundo do Isso.[45]”
Preservar a possibilidade e a potencialidade da relação dialógica
na condição em que cresce, potencializa-se e estrutura-se a coisificação e
a coisidade: o poder do mundo do Isso. Este é, para Buber, o desafio
propriamente ontológico e ontogênico do ser humano.
“(...) O que existe de mal é o fato de a matéria pretender ser aquilo
que existe. Se o homem permitir, o mundo do ISSO, no seu contínuo
crescimento, o invade e seu próprio EU perde a sua atualidade, até que o
‘pesadelo sobre ele’” (o mundo do isso alienado) “e o ‘fantasma no seu
interior’** ” (o eu
carente de atualidade) “sussurram um ao outro confessando sua perdição.[46]”
Como
é próprio, o contato do homem com o mundo do Isso implica a
experiência, o conhecimento e a utilização. Funções que
permitem ao homem utilizar as coisas, utilizar o mundo e a vida
coisificados, para a sua conservação, para o provimento e facilitação de
sua vida. De modo que, à medida em que há um crescimento progressivo do
mundo do Isso, desenvolve-se também a capacidade humana de experimentar
e utilizar. E como capacidade é necessidade, potencializa-se a
possibilidade de atrelamento cada vez maior do homem ao mundo das coisas e
o empobrecimento e a perda de sua capacidade de relação.
“O aperfeiçoamento da função de experimentação e de utilização
realiza-se, geralmente, no homem em detrimento de seu poder de relação.”
Buber
comenta que o aperfeiçoamento da função de experimentação e de utilização
pode implicar no desenvolvimento da experiência indireta ou a
“aquisição de conhecimento”. Ou, uma redução da utilização a uma
“aplicação especializada”, que são desenvolvidas de geração a geração.
Erroneamente, este processo pode ser compreendido como “vida espiritual”.
Buber enfatiza que a expressão é fundamentalmente equivocada:
“... pois esta “vida espiritual” representa geralmente um obstáculo
para a vida do homem no Espírito; ela é, quando muito, a matéria que,
depois de vencida e modelada, a vida do espírito deve consumir. É um
obstáculo, pois a capacidade de experimentação e de utilização se
desenvolve no homem freqüentemente, em detrimento de sua força-de-relação,
único poder, aliás, que lhe permite viver no Espírito.”
O
espírito tem para Buber um sentido particular, sempre ligado ao mundo e ao
vivido:
“O Espírito em sua manifestação humana é a resposta do homem a seu Tu.
... O homem vive no espírito na medida em que pode responder a seu Tu. Ele
é capaz disto quando entra na relação com todo o seu ser. Somente em
virtude de seu poder de relação é que o homem pode viver no Espírito.”
“... Com efeito, quando o espírito age livremente na vida, ele não é
mais espírito ‘em si’ mas espírito no mundo, graças a seu poder de
penetrar no mundo e transformá-lo. O espírito não está ‘consigo’ a não ser
no face-a-face com o mundo que se lhe abre, mundo ao qual ele se doa, que
ele liberta e pelo qual é libertado. A espiritualidade esparsa,
debilitada, degenerada, impregnada de contradições, que hoje representa o
espírito, poderá realizar esta libertação somente na medida em que atingir
novamente a essência do espírito, a faculdade de dizer Tu.”
Seguindo na perspectiva de sua tradição hassídica, Buber dirá: “Não
conheço nenhum caminho para Deus que não passe pelo mundo.” Esta
perspectiva será reafirmada na conversão espiritual que se sucede à crise
decorrente do suicídio de um orientando seu:
Para
Buber, assim, manter a possibilidade e a potencialidade da relação
dialógica é manter a possibilidade e a potencialidade da vida espiritual.
Uma vez que a vida no espírito é, para Buber, a resposta existencial do
homem ao seu Tu. É esta possibilidade desta resposta que permite ao homem
exercer e subverter os seus limites e o seu ilimitado como ser, e
libertar-se e constituir e reconstituir a esfera do mundo e da vida
coisificados.
Mas
o paradoxo humano, implica no fato de que a relação com o Tu é momentânea
e excludente, é instantantânea, é vivência imediata e face-a-face.
“... Somente o silêncio diante do Tu, o silêncio de todas as línguas, a
espera silenciosa da palavra não formulada, indiferenciada, pré-verbal,
deixa ao Tu sua liberdade, estabelece-se com ele na retensão onde o
espírito não se manifesta mas está presente.”
A
própria resposta do homem a seu Tu conduz à coisificação:
“Quanto mais poderosa é a resposta, quanto mais ela enlaça o Tu, tanto
mais o reduz a um objeto. ... Toda resposta amarra o Tu ao mundo do Isso.
Tal é a melancolia do homem, tal é também a sua grandeza. Pois assim
surgem no meio dos seres vivos o conhecimento, a obra, a imagem e o
modelo.”
O
homem vive, assim, num mundo de coisas e não pode evitar a coisificação no
mundo e em sua própria vida. O mundo e a vida coisificados servem ao homem
e organizam a sua realidade. A possibilidade do Tu, todavia, reside em
cada aspecto das coisas e é própria de sua natureza:
“Tudo o que (...) se transformou em Isso, tudo o que se consolidou em
coisa entre coisas, recebeu por sentido o destino de se transformar
continuamente. Sempre de novo -- tal foi o sentido da hora em que o
espírito se apoderou do homem e lhe mostrou a resposta -- o objeto deve
consumir-se para se tornar presença, retornar ao elemento de onde veio
para ser visto e vivido pelo homem como presente.”
Buber entende desta forma tanto a vida individual do homem quanto a sua
vida coletiva:
“As estruturas da vida humana em comum extraem a própria vida da
plenitude da força de relação que lhes penetra por todas as suas partes e
sua forma encarnada eles a devem à ligação desta força ao espírito.(...)
E
aqui cabe mais uma vez a observação de Buber:
A espiritualidade esparsa, debilitada, degenerada, impregnada de
contradições, que hoje representa o espírito, poderá realizar esta
libertação somente na medida em que atingir novamente a essência do
espírito, a faculdade de dizer Tu
2. IMPLICAÇÕES HUMANAS DA PERDA DA POSSIBILIDADE DA RELAÇÃO NO
MUNDO E NA VIDA COISIFICADOS.
Esta
potencialidade sempre latente de relação no mundo e na vida coisificados,
a possibilidade de sua transformação é frustrada na medida em que,
perdendo ou enfraquecendo esta possibilidade da latência da relação
dialógica a eles inerente, nos conformamos e nos submetemos à vida e ao
mundo coisificados, e tendemos conferir-lhes um caráter absoluto e
excludente:
“O homem que se conformou com o mundo do Isso como algo a ser
experimentado e utilizado, faz malograr a realização deste destino: em
lugar de liberar o que está ligado a este mundo ele o reprime; em lugar de
contemplá-lo ele o observa, em lugar de acolhê-lo, serve-se dele.”
“A vida (...) do homem não pode (...) prescindir do mundo do Isso,
sobre o qual paira a presença do Tu (...). A vontade de utilização e a
vontade de dominação do homem agem natural e legitimamente enquanto
permanecem ligadas à vontade humana de relação e sustentadas por ela. Não
há má inclinação até o momento em que ela se desliga do ser presente; a
inclinação que está ligada ao ser presente e determinada por ele é o
plasma da vida (...), e sua inclinação separada a sua destruição.”
CAUSALIDADE
Diferentemente do momento de relação, o mundo e a vida coisificados, o
mundo do Isso, são constituídos por objetos, por coisas, que dão-se
limites umas às outras, que permitem uma organização espácio-temporal, que
possibilitam a organização do mundo humano, o conhecimento, a elaboração
dos artefatos humanos, a cultura, os usos, a linguagem, a ciência. Como
constituído por coisas que limitam-se e determinam-se reciprocamente, o
mundo do Isso configura-se como mundo da causalidade, em que cada
evento passa, necessariamente, por causado ou causador. O mundo do
dialógico é o mundo da atualidade e da atualização de presenças.
“O mundo do Isso é o reino absoluto da causalidade. Cada fenômeno
“físico” perceptível pelos sentidos e cada fenômeno psíquico pré existente
ou que se encontra na experiência própria, passa necessariamente por
causado e causador.[58]”
A
absolutização, autonomização, do mundo do Isso, o enfraquecimento do
vínculo com o dialógico, e o empobrecimento da possibilidade da relação --
possibilidade de qualquer forma sempre latente -- levam a um
enfraquecimento da possibilidade de renovação e de regeneração do mundo e
da vida coisificados. Mundo e vida coisificados que passam a caminhar à
deriva, ao sabor da causalidade e do mecanismo da dinâmica das coisas. A
causalidade, inicialmente fugaz, ganha poder, intensifica-se,
transformando-se no próprio motor do destino. Liberdade e destino
já não se conjugam necessariamente. Seu vínculo está empobrecido e
impotente. E o que prevalece, turbilhonante, é a pura causalidade do mundo
e da vida coisificados. O destino caiu na causalidade, e transforma-se em
absurdo e tirânico demonismo.
“O destino sábio e soberano que, harmonizado com o sentido da plenitude
do universo, reinava sobre toda a causalidade primitiva, transmudado agora
num absurdo demonismo, caiu nesta causalidade. (...) agora não importa o
que façamos, o Heimarmene (‘destino’, em grego), estranho ao
espírito, nos oprime, colocando sobre nossas nucas todo o peso da massa
inerte do universo.”
O
DECURSO PROGRESSIVO DAS COISAS, A FATALIDADE, E O SEU DOGMA
Enfraquecida a possibilidade e a potência da relação no mundo e na vida
coisificados, a causalidade ilimitada conduz a vida e o mundo ao
decurso progressivo e inalterável das coisas, e à crença no decurso.
Conduz a vida e o mundo à fatalidade, e à crença na
fatalidade. É interessante observar que fatalidade não tem
para Buber, primariamente, o sentido de infortúnio, de evento
desafortunado. Só secundariamente é que a fatalidade se constitui como tal
para Buber. Primariamente, para ele, a fatalidade é,
fundamentalmente, o decurso inalterável, fixado, inevitável,
irrevogável das coisas. Potencializado este decurso pela crença na
sua inevitabilidade, na sua irrevogabilidade, num suposto caráter
inalterável e fechado: potencializado pela própria crença na fatalidade.
No
mundo contemporâneo, esta crença no decurso e na fatalidade é reforçada
pelos vários tipos determinismo, e pelos vários tipos niilismo
constituídos na sociedade moderna.
Referindo-se ao pensamento biologista, ao pensamento historicista e a
outros determinismos e suas leis, Buber observa:
“Por mais diferentes que possam parecer um ao outro, colaboram para
formar uma fé na fatalidade mais tenaz e angustiante do que todas as
anteriores. (...) Sob todas estas formas e outras mais o que significa é
que o homem está ligado a um devir inevitável contra o qual ele não
lutaria senão em seu delírio. (...) É uma loucura imaginar a liberdade;
não se tem senão a escolha entre uma escravidão voluntária ou uma
escravidão desesperada e rebelde. (...) O fundamento que efetivamente
todas elas têm, é a obsessão pelo decurso das coisas, isto é a causalidade
ilimitada. O dogma do decurso progressivo é a abdicação do homem face ao
crescimento do mundo do Isso. Assim, o nome do destino será mal empregado;
assim atribuir-se a ele o nome destino será um erro, pois o destino não é
uma campânula voltada sobre o mundo dos homens; ninguém o encontra senão
aquele que parte de sua liberdade. O dogma do decurso inelutável das
coisas não deixa, porém, lugar à liberdade, nem para a sua revelação mais
concreta: a conversão
”
O ARBITRÁRIO E A ARBITRARIEDADE
Para
o homem que crê no absolutismo do mundo e da vida coisificados, no
absolutismo do mundo do Isso; para o homem em quem enfraqueceu-se a crença
na relação, no dialógico, e que crê no decurso progressivo e inalterável
das coisas; para o que crê na fatalidade, e abdica de seu poder de
relação, resta apenas a possibilidade da vida no arbitrário, e a
partir da arbitrariedade. Não é a possibilidade imprevisível,
intensa, múltipla e incontrolada da relação que vivifica, anima e
transforma a sua vida e a sua realidade, mas a arbitrariedade desenvolvida
e hipertrofiada. Buber comenta:
“Assim como liberdade e destino estão interligados, assim
também o estão o arbitrário e a fatalidade. Porém liberdade
e destino são comprometidos mutuamente para instaurarem juntos o sentido;
o arbitrário e a fatalidade, fantasma da alma e pesadelo do mundo,
toleram-se vivendo um ao lado do outro, mas esquivando-se, sem ligação e
sem atrito, no absurdo, até que, em determinado momento, os olhares
distanciados se reencontram e irrompe deles a confissão de mútua perdição.
Quanta espiritualidade eloqüente e engenhosa é dispensada, hoje, senão
para impedir ao menos para dissimular este fato!”
“O homem que vive no arbitrário não crê e não se oferece ao encontro.
Ele desconhece o vínculo; ele só conhece o mundo febril do ‘lá fora’ e seu
prazer febril do qual ele sabe se servir. (...) Na verdade, ele não tem um
destino mas somente um ser-determinado pelas coisas e pelos instintos, e
isto é realizado com um sentimento de independência que é justamente o
arbitrário. Ele não tem o grande querer, este é substituído pelo
arbitrário. ele é totalmente inapto à oferta ainda que possa vir a falar
dela; tu o reconheces pelo fato de ele nunca se tornar concreto. Ele
intervém, constantemente e sempre, com a finalidade de ‘deixar que as
coisas aconteçam’. Como se poderia, te diz ele, deixar de auxiliar o
destino, deixar de empregar os meios acessíveis exigidos para esse fim?”
“O homem arbitrário, incrédulo até a medula, não pode perceber senão
incredulidade e arbitrário, escolha de fins e invenção de meios. O seu
mundo é privado de oferta e graça, de encontro e de presença, entravado
nos fins e nos meios. Este mundo não pode ser diferente, o seu nome é
fatalidade. Assim, em sua auto-suficiência Ele é engolfado simples e
inextrincavelmente pelo irreal e ele sabe disso sempre que sobre si se
concentra e é por isso mesmo que ele empenha o melhor de sua
espiritualidade para impedir ou, ao menos, ocultar esta lembrança.
Mas se a lembrança de sua decadência, de seu Eu inatural e de seu Eu
atual, permitir alcançar a raiz profunda que o homem chama desespero e de
onde brotam a autodestruição e a regeneração, isto já seria o início da
conversão.”
O EU EGÓTICO, COISIFICADO, DO RELACIONAMENTO EU-ISSO.
Desde o início, Buber enfatiza a diferença entre o Eu da relação Eu-Tu
e o Eu do relacionamento Eu-Isso.
“O mundo é duplo para o homem segundo a dualidade de sua atitude.
A atitude do homem é dupla de acordo com a dualidade das
palavras-princípio que ele pode proferir.
As palavras-princípio não são vocábulos isolados mas pares de
vocábulos.
Uma palavra-princípio é o par EU-TU. A outra é o par EU-ISSO ...
Deste modo, o EU do homem é também duplo.
Pois, o EU da palavra-princípio EU-TU é diferente daquele da
palavra-princípio EU-ISSO.”
O Eu
codificado, abandonado ao mundo e à vida do Isso, cristaliza-se como tal,
como Eu egótico. Toma consciência de si como sujeito de experiência
e de utilização.
“O egótico aparece na medida em que se distingue de outros egóticos
(...)
... é a forma espiritual da diferenciação natural (...)
A finalidade da separação é o experienciar e o utilizar, cuja
finalidade é, por sua vez, ‘a vida’, isto é, o contínuo morrer no decurso
da vida humana.
(...) O egótico toma consciência de si como um ente-que-é-assim e
não-de-outro-modo. (...) O egótico diz: eu sou assim. (...) Conhece-te a
ti mesmo para o egótico (significa) conhece o teu modo de ser. Na
medida em que o egótico se afasta dos outros, ele se distancia do Ser.
(...) o egótico se delicia com o seu modo-de-ser específico que ele
imaginou ser o seu. Pois, para ele, conhecer-se significa fundamentalmente
sobretudo estabelecer uma manifestação efetiva de si e que seja capaz de
iludí-lo cada vez mais profundamente; e pela contemplação e veneração
desta manifestação procura uma aparência de conhecimento de seu próprio
modo de ser, enquanto que o seu verdadeiro conhecimento poderia levar ao
suicídio ou à regeneração.
(...) o egótico ocupa-se do ‘meu’: minha espécie, minha raça, meu agir,
meu gênio.
O egótico não só não participa como também não conquista atualidade
alguma. Ele se contrapõe ao outro e procura, pela experiência e pela
utilização, apoderar-se do máximo que lhe é possível. Tal é a sua
dinâmica: o pôr-se à parte e a tomada de posse; ambas as operações se
passam no Isso, no que não é atual. O sujeito, tal como ele se reconhece,
pode apoderar-se de tudo quanto queira, que daí ele não obterá substância
alguma, ele permanece como ponto, funcional, o experimentador, o
utilizador, e nada mais. Todo o seu modo de ser múltiplo ou a sua
ambiciosa ‘individualidade’ não podem lhe proporcionar substância alguma.”
A
seguir Buber
esclarece:
“Não há duas espécies de homem; há, todavia, dois pólos do humano.
Homem algum é puramente pessoa, e nenhum é puramente egótico; nenhum é
inteiramente atual e nenhum totalmente carente de atualidade. Cada um vive
no seio de um duplo Eu. Há homens entretanto, cuja dimensão de pessoa é
tão determinante que se podem chamar de pessoas, e outras cuja dimensão de
egotismo é tão preponderante que se pode atribuir-lhes o nome de egótico.
Entre aqueles e estes se desenrola a verdadeira história.
Quanto mais o homem e a humanidade são dominados pelo egótico, mais
profundamente o eu é atirado na inatualidade. Nestas épocas a pessoa leva,
no homem, na humanidade, uma existência subterrânea e velada e, de algum
modo, ilegítima -- até o momento em que ela será chamada.”
Anteriormente,
Buber discute como o Eu pode perder a sua atualidade. Argumentando como um
interlocutor, ele questiona:
“Compreende-se que o mundo do Isso abandonado a si mesmo -- isto é,
privado do contato do tornar-se Tu, aliena-se (...); como é possível, no
entanto, que, como dizes, que o Eu do homem perca s sua atualidade? Quer
ele viva na relação ou fora dela, o Eu garante-se a si mesmo na sua
consciência de si (...).”
E o
próprio Buber responde à argumentação:
“A forma linguística não prova nada; muitos Tu proferidos são,
fundamentalmente, Isso, ao qual se diz Tu, somente por hábito ou sem
pensar. E muitos Isso expressos significam, no fundo, um Tu cuja presença
se guarda num estado distante, no fundo de seu ser, uma lembrança; assim
em inúmeros casos o Eu é apenas um pronome indispensável, apenas uma
abreviação necessária de “este aqui que fala”. Mas e a consciência de si?
Quando numa frase se emprega o verdadeiro Tu da relação e, em outra, o
Isso de uma experiência, e quando em ambos os casos é o Eu que
verdadeiramente se tem em mente, é do mesmo eu de cuja consciência se fala
em ambos os casos?”
Buber prossegue para mostrar que não, explicitando as distinções
entre o Eu egótico e o Eu da relação Eu-Tu.
3. ATUALIDADE,
DECISÃO, LIBERDADE/DESTINO, CONVERSÃO, SUBJETIVIDADE, PESSOA.
A
causalidade -- fator preponderante no mundo do Isso, motor da
fatalidade e do decurso, quando este mundo do Isso perde a
possibilidade de atualização da relação EU-TU -- não vigora, todavia,
na esfera da relação.
Pode
estar livre da causalidade o homem que, exercendo a potencialidade de seu
ser, pode abrir-se e entregar-se à possibilidade da atualidade da relação.
A esfera da relação pode garantir a liberdade do homem. Dela pode
germinar e emergir a decisão que lhe permite reintegrar-se de modo
ativo, criativo e transformador no mecanicismo da causalidade do mundo e
da vida coisificados.
“O reino absoluto da causalidade no mundo do Isso, embora de
importância fundamental para a ordenação científica da natureza, não
aflige o homem que não está limitado ao mundo do Isso e que pode sempre
evadir-se para o mundo da relação. Aí o Eu e o Tu se defrontam um com o
outro livremente, numa ação recíproca que não está ligada a nenhuma
causalidade e não possui dela o menor matiz; aqui o homem encontra a
garantia da liberdade de seu ser e do Ser. Somente aquele que
conhece a relação e a presença do Tu, está apto a tomar uma decisão.
Aquele que toma uma decisão é livre pois se apresenta diante da Face.”
E a
seguir:
“A causalidade não oprime o homem ao qual é garantida a liberdade.
Ele sabe que sua vida mortal é, por sua própria essência, uma oscilação
entre o Tu e o Isso, e ele percebe o sentido desta oscilação. Basta-lhe
saber que pode, a todo momento, ultrapassar o umbral do santuário, onde
ele não poderia permanecer. E mais ainda: a obrigação de deixá-lo logo
depois incessantemente, lhe está intimamente ligada ao sentido e ao
destino desta vida. (...) O que aqui se chama necessidade não o apavora,
pois, lá no santuário ele conheceu a verdadeira, isto é, o destino”
Decisão e relação estão para Buber intimamente associados. É na
dimensão da atualidade da relação que o homem pode viver imediata e
intensamente a multiplicidade de seus possíveis, engendrar e assumir o seu
gesto e ato originais, gestar a sua ação original, única e potente, e
determinar o acontecimento, organizando e dinamizando, com a originalidade
de seu ser e de seu ato, a configuração de seus possíveis.
Sobre o processo da decisão, na duração do evento da atualidade da
relação, Buber coloca:
“Eis aqui toda a substância ígnea de minha capacidade de vontade em um
formidável turbilhão, todo o meu possível girando como um mundo em
formação, como uma massa confusa e indissolúvel, eis os olhares sedutores
das potencialidades flamejando de todas as partes; o universo como
tentação, e eu nascido em um instante, as duas mãos imersas numa fornalha
para apanhar o que aí se esconde e me procura: meu ato. Pronto! eu o
tenho. E logo a ameaça do abismo é proscrita, a multiplicidade deixa de
fazer valer a igualdade cintilante de sua exigência; não existem mais que
dois na simultaneidade, o outro e o um, a ilusão e a missão. Só então,
porém, começa a minha atualização. Pois a decisão não consiste em
atualizar o um e deixar o outro estendido como massa extinta que, camada
por camada, aviltaria a minha alma. Entretanto, somente aquele que
orienta, no fazer do Um a força do Outro, aquele que deixa entrar na
atualização do escolhido a paixão intacta do que foi repudiado, somente
aquele que ‘serve a Deus com o mau instinto’ se decide e decide o
acontecimento.”
Decisão e liberdade conjugam-se na concepção que Buber faz do destino.
De modo que ele desenvolve uma concepção de destino na qual
estão necessariamente implicados a decisão e a liberdade.
“O que aqui se chama de necessidade não o (ao homem ao qual é garantida
a liberdade) apavora, pois (...) ele conheceu a verdadeira, isto é, o
destino.
Destino e liberdade juraram fidelidade mútua. Somente o homem que
atualiza a liberdade encontra o destino. Quando eu descubro a ação que me
requer, é aí, nesse movimento de minha liberdade, que se me revela o
mistério. Mas o mistério se revela a mim não só quando não posso realizar
esta ação como eu pretendia, mas também na própria resistência. Aquele que
esquece de toda a causalidade e toma uma decisão do fundo de seu ser,
aquele que se despoja dos bens e da vestimenta para se apresentar despido
diante da face, a este homem livre, o destino aparece como réplica de sua
liberdade. Ele não é o seu limite, mas o seu complemento; liberdade e
destino unem-se mutuamente para dar sentido; e neste sentido o destino,
até há pouco olhar severo, suaviza-se como se fosse a própria graça.
Não, o homem portador de centelha que retorna ao mundo do Isso não é
oprimido pela necessidade causal. E, em épocas em que a vida é sã, a
confiança se propaga a todo o povo através de homens de espírito (...):”
Quando das épocas mórbidas, Buber observa:
“... acontece que o mundo do Isso não sendo mais penetrado e fecundado
pelos eflúvios vivificantes do mundo do Tu, não passando de algo isolado e
rígido, fantasma surgido do pântano, oprime o homem. Nele o homem,
contentando-se com um mundo de objetos que não lhe podem mais tornar-se
presença, sucumbe. Então, a causalidade fugaz intensifica-se, até
tornar-se uma fatalidade opressora e esmagadora.”
Para
Buber, não obstante, a conversão permanece sempre possível.
A
conversão é para Buber o engajamento do homem total na concretude de
sua existência (Von Zuben p.163). A conversão pode ser a
abertura que possibilita a emergência da potência e possibilidade plástica
da relação dialógica. Não obstante a cristalização em causalidade
ilimitada, decurso progressivo e inalterável, e fatalidade, próprios do
mundo em que se enfraqueceu a possibilidade da relação:
“O desejo, elan impetuoso de redenção, permanece, em última análise, a
despeito de numerosas tentativas, insatisfeito, até que o acalme aquele
que ensina a escapar do ciclo dos renascimentos ou alguém que salve as
almas, subjugadas por poderes terrenos, levando-as para a liberdade dos
filhos de Deus. Tal obra se realiza quando um novo fenômeno de relação se
torna substância, quando uma nova resposta é dada pelo homem a seu Tu,
acontecimento que determina o destino.”
Buber aponta a parcialidade e a falsidade do dogma do decurso progressivo
e inalterável das coisas, a falsidade da crença na fatalidade:
“O dogma do decurso progressivo é a abdicação do homem face ao
crescimento do mundo do Isso. (...) Este dogma desconhece o homem que pode
vencer a luta universal pela conversão; aquele que rompe, pela conversão,
as amarras dos impulsos de utilização; aquele que se liberta pela
conversão do fascínio de sua classe; aquele que, mediante a conversão,
pode revolver, rejuvenescer, transformar quadros históricos os mais
seguros. O dogma do decurso não te deixa no tabuleiro senão uma opção:
observares as regras ou te retirares; aquele porém que realiza a conversão
derruba todas as peças.”
E
arremata, brilhante:
“A única coisa que pode vir a ser fatal ao homem, é crer na
fatalidade, pois esta crença impede o movimento da conversão.
A crença na fatalidade é falsa desde o princípio. Todo o
esquema do decurso consiste somente em ordenar como história o
nada-mais-senão-passado, os acontecimentos isolados do mundo, a
objetividade. A presença do Tu, o que nasce do vínculo são inacessíveis a
esta concepção, que ignora a realidade do espírito; este esquema não
apresenta valor algum para o espírito. A profecia baseada na objetividade
tem valor apenas para quem ignora a presença. Aquele que é subjugado pelo
mundo do Isso é obrigado a ver no decurso inalterável uma verdade que
esclarece a confusão. Na verdade tal dogma deixa subjugar-se mais
profundamente ao mundo do Isso. Porém, o mundo do Tu não é fechado. Aquele
que na unidade do seu ser se dirige a ele, conhecerá profundamente a
liberdade. E tornar-se livre significa libertar-se da crença na servidão.”
Buber tematiza a relação entre a arbitrariedade e a fatalidade.
A arbitrariedade que decorre de um Eu carente de atualidade, e cuja
possibilidade de relação encontra-se enfraquecida. Ele inicia, de um modo
interessante, falando da possibilidade de submissão do mundo do Isso por
aquele que o conhece em sua natureza:
“Assim como é possível dominar um íncubo chamando-o pelo seu verdadeiro
nome, assim também o mundo do Isso, que, ainda há pouco esmagava com sua
força espantosa a fraca força do homem, é constrangido a submeter-se
àquele que o conhece em seu ser...”
A seguir ele contrapõe:
“Mas como poderia ser capaz de interpelar o íncubo pelo seu nome,
aquele que, no seu íntimo leva um fantasma, isto é, o Eu carente de
atualidade? Como a força de relação sepultada pode ressurgir em um ente
cujos escombros são permanentemente pisoteados por um fantasma vigoroso?
Como poderia recolher-se um ser que está constantemente perseguido em
um campo vazio pela procura da subjetividade perdida? Como conheceria
profundamente a liberdade aquele que vive no arbitrário.”
E,
reiterando as palavras de Buber:
“Assim como liberdade e destino estão interligados, assim também o
estão o arbitrário e a fatalidade. Porém liberdade e destino são
comprometidos mutuamente para instaurarem juntos o sentido; o arbitrário e
a fatalidade, fantasma da alma e pesadelo do mundo, toleram-se vivendo um
ao lado do outro, mas esquivando-se, sem ligação e sem atrito, no absurdo,
até que, em determinado momento, os olhares distanciados se reencontram e
irrompe deles a confissão de mútua perdição.”
“O homem livre é aquele cujo querer é isento de arbitrário. Ele crê na
atualidade, isto é, ele acredita no vínculo real que une a dualidade real
do Eu e do Tu crê no destino e também que ele tem necessidade dele; ele
não o conduz em inteiras, mas o espera; o homem deve ir ao seu encontro
mas não sabe ainda onde ele está. O homem livre deve ir a ele com todo o
seu ser, disso ele sabe. Não acontecerá aquilo que a sua resolução
imagina, mas o que aconteceu, não acontecerá senão na medida em que ele
resolver querer aquilo que ele pode querer. ser-lhe-á necessário
sacrificar aquele pequeno querer, escravo, regido pelas coisas e pelos
instintos, em favor do grande querer que se afasta do “ser determinado”
para ir ao destino. Ele não intervém mais, mas nem por isso permite que
aconteça pura e simplesmente. Ele espreita aquilo que por si mesmo se
desenvolve, o caminho do ser no mundo; não para se deixar levar por ele,
mas para atualizá-lo como ele deseja ser atualizado pelo homem de quem ele
necessita, por meio do espírito humano e do ato humano, com a vida do
homem e com a morte do homem. Ele crê, disse eu, o que equivale dizer: ele
se oferece ao encontro.”
Diferentemente do homem que vive no arbitrário,
“O homem livre não tem, aqui, uma finalidade e, lá, os meios para
obtê-lo; ele possui somente um objetivo e sempre um: a resolução de ir de
encontro ao seu destino. Tomada essa resolução pode lhe acontecer de, às
vezes renová-la a cada etapa decisiva do caminho; mas deixará de acreditar
na sua própria vida antes de crer que a resolução de seu grande querer é
insuficiente e que deve mantê-la por todos os meios. Ele crê; ele se
oferece ao encontro.[80]”
EGÓTICO E PESSOA
Uma
contraposição entre as concepções do egótico e da pessoa,
parte da qual já mencionamos acima, quando tratamos do egótico, é uma
dimensão fundamental da concepção buberiana:
“O Eu da palavra-princípio EU-TU é diferente do Eu da palavra-princípio
Eu-Isso.
O Eu da palavra-princípio Eu-Isso aparece como egótico e toma
consciência de si como sujeito (de experiência e de utilização).
O Eu da palavra-princípio Eu-Tu aparece como pessoa e se conscientiza
como subjetividade, (sem genitivo dela dependente).
O egótico aparece na medida em que se distingue de outros egóticos.
A pessoa aparece no momento em que entra em relação com outras pessoas.
O primeiro é a forma espiritual da diferenciação natural, a segunda é a
forma espiritual do vínculo natural.
A finalidade da separação é o experienciar e o utilizar, cuja
finalidade é, por sua vez, “a vida”, isto é, o contínuo morrer no decurso
da vida humana.
A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o
Tu. Pois, no contato com cada Tu, toca-nos um sopro da vida eterna.
Quem está na relação participa de uma atualidade,
quer dizer, de um ser que não está unicamente nele nem unicamente fora
dele. Toda atualidade é um agir do qual eu participo sem poder dele me
apropriar. Onde não há participação não há atualidade. onde há apropriação
de si não há atualidade. A participação é tanto mais perfeita, quanto o
contato do Tu é mais imediato.
O eu é atual através de sua participação na atualidade. ele se torna
mais atual quanto mais completa é a participação.
Mas o eu que se separa do evento de relação em direção da separação,
consciente desta separação, não perde a sua atualidade. A participação
permanece nele, conservada com potencialidade viva; ou então, em outros
termos usados quando se trata da mais elevada relação e que pode ser
aplicada a todas as relações, ‘a semente permanece nele’. É este o domínio
da subjetividade, onde o Eu toma consciência tanto de seu vínculo como de
sua separação. A autêntica subjetividade só pode ser compreendida de um
modo dinâmico, como vibração de um Eu no seio de sua verdade solitária. É
aqui, também, o lugar onde irrompe e cresce o desejo de uma relação cada
vez mais elevada e absoluta, o desejo de uma participação total com o Ser.
Na subjetividade amadurece a substância espiritual da pessoa.
A pessoa toma consciência de si como participante do ser, como um
ser-com, como um ente. O egótico toma consciência de si como
um-ente-que-é-assim e não-de-outro-modo. A pessoa diz: ‘Eu sou’, o egótico
diz: ‘eu sou assim’. ‘Conhece-te a ti mesmo’ para a pessoa significa:
conhece-te como ser; para o egótico: conhece o teu modo de ser. Na medida
em que o egótico se afasta dos outros ele se distancia do Ser.
Com isso não se quer dizer que a pessoa ‘renuncie’ ao seu modo de ser
específico, mas somente isso: este não é somente o seu ponto de vista, mas
a forma necessária e significativa de ser. Ao contrário, o egótico se
delicia com o seu modo-de-ser específico que ele imaginou ser o seu. Pois,
para ele conhecer-se significa fundamentalmente estabelecer uma
manifestação efetiva de si e que seja capaz de iludí-lo cada vez mais
profundamente; e pela contemplação e veneração desta manifestação procura
uma aparência de conhecimento de seu próprio modo-de-ser, enquanto que o
seu verdadeiro conhecimento poderia levar ao suicídio ou à regeneração.
A pessoa contempla-se o seu si-mesmo, enquanto que o egótico ocupa-se
com o seu ‘meu’: minha espécie, minha raça, meu agir, meu gênio.
O egótico não só não participa como também não conquista atualidade
alguma. Ele se contrapõe ao outro e procura, pela experiência e pela
utilização, apoderar-se do máximo que lhe é possível. Tal é a sua
dinâmica: o pôr-se à parte e a tomada de posse; ambas as operações se
passam no Isso, no que não é atual. O sujeito, tal como ele se reconhece,
pode apoderar-se de tudo quanto queira, que daí não obterá substância
alguma, ele permanece como o ponto funcional, o experimentador, o
utilizador e nada mais. Todo o seu modo de ser múltiplo ou sua ambiciosa
‘individualidade’ não podem lhe proporcionar substância alguma.”
Buber conclui sobre a sua concepção de pessoa,
“O homem é tanto mais uma pessoa quanto mais intenso é o eu da
palavra-princípio Eu-Tu, na dualidade humana de seu Eu.”
E
constatando, comenta,
“Que distante é o Eu do egotista!”
A
seguir, Buber comenta, o dizer Eu pessoal de algumas pessoas
históricas. Sócrates, Goethe e Jesus:
“... como soa de um modo autêntico e belo , o eu tão belo e enérgico de
Sócrates! É o Eu do diálogo infinito (...). Este Eu vivia na relação com
os homens, relação que se encontrava no diálogo. Ele acreditava na
atualidade dos homens e ia em sua direção.”
“Que som belo e autêntico tem o Eu de Goethe! É o eu de uma intimidade
pura com a natureza.”
“E, para apresentar, antecipadamente, uma imagem do reino da relação
absoluta, quão poderoso é o dizer-Eu de Jesus, como um verdadeiro poder de
dominação, e quão legítimo como uma evidência! Afinal, ele é o Eu da
relação absoluta, na qual o homem atribui a seu Tu o nome de Pai, de tal
modo que, ele mesmo não é senão o Filho, nada mais que filho. Quando ele
profere Eu, ele só pode ter em mente o Eu da palavra-princípio sagrada que
se tornou absoluta para ele. Se, por acaso o isolamento o toca, a ligação
é mais forte, e é somente do seio desta ligação, que ela fala aos outros.”
Por
fim, comentando a personalidade de Napoleão (certamente por que escrevia
no início do século, senão teria exemplos mais recentes e terríveis),
Buber fala de um terceiro tipo de modo de dizer Eu, que não é nem o
do egótico nem o da pessoa, e ao qual ele chama de Tu demoníaco:
“... aquele que não responde, aquele que responde ao Tu com um Isso,
aquele que na dimensão pessoal responde ficticiamente: aquele que somente
responde na sua esfera, no âmbito de sua causa e somente por seus atos.
Tal é o limite histórico e elementar onde a palavra-princípio da ligação
perde a sua realidade, seu caráter de reciprocidade: é o Tu demoníaco,
para o qual nenhum ente pode tornar-se um Tu.
Este terceiro tipo de eu, ao lado da pessoa e do egótico, que não é nem
homem livre nem homem arbitrário, nem se situa entre eles, existe postado
de uma maneira fatal, nas grandes épocas do destino, todos se entusiasmam
ardentemente por ele, enquanto que ele mesmo permanece em um fogo gélido;
aquele ao qual milhares de relações se dirigem, mas da qual nenhuma
provém; ele não participa de nenhuma atualidade, mas ele é como uma
atualidade da qual todos participam intensamente.”
Buber conceitua então e define o que ele chama de auto contradição:
“Quando o homem não põe à prova, no mundo, o a prior da relação,
efetivando e atualizando o Tu inato no Tu que ele encontra, então ele se
introverte. Ele se manifesta ao contato com o Eu não natural, impossível
objeto, isto é, ele se desvela ali onde não há lugar para a revelação.
Assim instaura-se o confronto consigo mesmo que não pode ser relação,
presença, reciprocidade fecunda mas somente autocontradição. O homem pode
tentar interpretá-la como uma relação, por exemplo, uma relação religiosa,
para escapar do horror de ser seu espectro; ele deverá sem cessar
descobrir a falsidade desta interpretação. Aqui se situa o limite da vida.
Aqui, algo irrealizado refugia-se numa aparência demente de realização;
por ora ele tateia, de um lado para o outro, nos labirintos onde se perde
cada vez mais.”
Mas
aponta para uma alternativa:
“Às vezes, quando o homem estremece na alienação entre o Eu e o mundo,
ocorre-lhe o pensamento de que algo deve ser feito. Como quando repousas,
na pior hora do meio da noite, atormentado por um pesadelo, estando
acordado, quando os baluartes desmoronam-se e os abismos vociferam e
percebes, no fundo do teu ser, que a vida subsiste e que deves voltar ao
seu encalço; mas como? Assim é o homem nos instantes de recordação,
horrorizado, pensativo, desorientado. E talvez conheça ainda, no seu âmago
profundo, a direção com o conhecimento não amado da profundeza, a
autêntica direção que pela oferta, leva até a conversão.”
A
conversão, para Buber, é o engajamento profundo e total, o mergulho
profundo, ativo e durador, do homem na concretude de sua existência,
caminho natural e sempre latentemente disponível para a vivência intensa e
potente das possibilidades da existência.
Para
a psicologia e para a psicoterapia, em particular para as chamadas
fenomenológico existenciais, as perspectivas de Buber configuram-se sempre
como interessantes e profundas possibilidades de aprendizagem e de
esclarecimento.
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