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TENDÊNCIA ATUALIZANTE Ação, Atualidade e
Atualização Afonso H Lisboa da Fonseca,
psicólogo. Como sabemos, a concepção de tendência atualizante é um elemento
central da concepção e metodologia da Abordagem Rogeriana. Está implícita na
Gestalt Terapia; e é, certamente, fundamental em qualquer abordagem
fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia. Na formulação
rogeriana, a concepção teve e tem um importante papel na definição de uma
prática humanista, fenomenológico existencial, de psicologia e de
psicoterapia. O conceito tem, nessa formulação, um enfoque demasiadamente
biologizante, deixando em falta a sua dimensão especificamente existencial.
Para quem trabalha ao nível da psicoterapia, do trabalho com grupos, e do
trabalho psicológico em geral, a questão não é simplesmente de potencialidades, no seu sentido genérico,
biológico, mas de possibilidades
existencialmente vividas, e do processo de sua atualização. Somos, todos nós, ativos, nas
dimensões mais originárias e essenciais da vivência de nós próprios; fenomenológico
existenciais, ativos, precisamente,
atualizantes, atuantes. Ou seja, somos seres que são, originariamente -- em sua
vivência mais originária, mais essencial --, vivência fenomenológico existencial de força, potência, de força
de possibilidade, de possível; que constantemente se desdobra, em vivência de
ação, atu-ação, atu-aliz-ação. Tendemos, assim a esta
atualização de possibilidades. À ação. Secundariamente, esta ação nos constitui, constantemente. E
constitui ao mundo que nos diz respeito. Secundariamente, porque o nosso mundo, a nossa realidade, e o nosso ser/vir a ser
identitário, são sub produtos da
nossa vivência; fenomenológica, existencial, ativa; do
processo de nossa atualização, da vivência de nosso núcleo, de nossa
dimensão, de força, de potência, de possibilidade, em seu perene e potente
desdobramento vivencial, ativo. No que chamamos de poiese. Poiese
é, assim, a produtividade, e resultantes, deste processo vivencial, ativo, atualizativo, no qual, enquanto consciência fenomenológico
existencial, vivenciamos a constância desta dimensão de nosso ser possível, e vivenciamos a atualização, o desdobramento, de
possibilidades. Poiética, na
verdade, é a ética da poiese. Ou seja, um modo de ser e de proceder que
privilegia, como referência vital, a vivencia, e a expressividade, deste
processo fenomenológico existencial, poiético,
de ser/devir. Para a poiética, a possibilidade,
e a sua atualização, é mais importante
do que a realidade. Inúmeros são os poiéticos.
Classicamente, podemos entender assim a Aristóteles e a seus peripatéticos, a
Brentano, a Nietzsche, a Heidegger, aos fenomenológico existenciais, a
Buber... Da mesma forma que assim podemos entender a Carl Rogers e a Fritz
Perls. Nos tempos de Aristóteles, a
questão sobre o ser se colocava como resolvida pela perspectiva de que o ser é tudo que é... Aristóteles vem
a colocar a questão do possível, do
que pode vir a ser. Quando coloca que
o ser não pode simplesmente ser
tudo o que é; na medida em que,
igualmente, existe o possível, e o seu devir, a sua atualização, o seu vir a
ser. De fato, o ser é o que é, e o que pode se atualizar, o que pode vir a
ser. Com isso, Aristóteles introduz no
pensamento ocidental o possível, e o movimento de sua atualização; a potência
e o ato, a atualização. Dados na imediaticidade
empírica da vivência de consciência
fenomenológica, fenomenoativa. Franz Brentano é o grande
receptor e mediador moderno de Aristóteles e de suas perspectivas. Dentre as
suas inúmeras e importantes contribuições, estão o desenvolvimento da
Fenomenologia, e da psicologia fenomenológico existencial; talvez possa mesmo
ser reconhecido como o iniciador da Psicologia da Gestalt. O certo é que os formuladores da
Psicologia da Gestalt foram seminalmente influenciados pelas concepções de
Franz Brentano. Foram alunos do principal discípulo de Brentano, Carl Stumpf.
Ainda quando Brentano era vivo. Neste caso, entre os psicólogos da Gestalt, Kurt Goldstein. As perspectivas e concepções de
Brentano e de Aristóteles, vão aparecer de um modo importante nas concepções
de Kurt Goldstein. Tais como as concepções de organísmico, de organismo, de
auto regulação organísmica, de auto-atualização, de experiência organísmica... E as
concepções de Kurt Goldstein vão ter uma influência fundamental no
desenvolvimento das idéias, e na formulação da concepção e método da abordagem
de Carl Rogers. Assim, concepções como as de auto-regulação organísmica, auto-atualização, experiência
organísmica, tendência atualizante, são concepções que constam já do
arcabouço conceitual da psicologia organísmica de Kurt Goldstein, e têm um
lugar e papel essenciais em momentos básicos do sistema conceitual de Carl
Rogers. A concepção de tendência atualizante vai ser a pedra
fundamental do paradigma rogeriano. Vai permitir a Carl Rogers desenvolver
experimentalmente um interessante paradigma fenomenológico existencial de
psicologia e de psicoterapia. Este paradigma só vai depurando
plenamente as suas características fenomenológico existenciais, livrando-se, em
sua prática, dos resíduos de pressuposições metafísicas e teorizantes, na
última, e qualitativamente produtiva, fase da vida de Carl Rogers. Quando o
trabalho com grupos, em suas várias modalidades -- de grupos residenciais e
não residenciais, com pequeno, médio ou grande número de participantes, de
curta ou longa duração, e outras modalidades -- leva a uma assombrosa
radicalização fenomenológico existencial do paradigma de Rogers, e da
experimentação, por parte dele, e de seu grupo de colaboradores. A radicalização é tal que, neste
momento, toda a produção teórica anterior -- que já experimentara, durante
anos, um intenso processo de mudança e de metamorfose -- parece, de um modo
muito propriamente fenomenológico existencial, distante e supérflua, apenas
relativamente necessária. Em privilégio de um logos metódico fenomenológico
existencial empírico, que se ancora simplesmente na constação fenomenológica,
e existencial, de nossa ontológica condição de sermos ativos, atualizativos;
da condição ontológica básica de ativos
dos grupos humanos, e das pessoas. O conceito de tendência atualizante permanece um
instrumento interessante. Tanto do ponto de vista da Abordagem Rogeriana, como
do ponto de vista de um paradigma fenomenológico existencial de psicologia e de
psicoterapia. Ainda que ele seja, no âmbito da abordagem rogeriana -- onde
está melhor elaborado e mereceu maior atenção, na psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial -- um conceito vago, impreciso, freqüentemente
equívoco. Em razão de uma precária elaboração. Em particular, em função de um
viés abusivamente biologista na sua formulação. O conceito sempre se referiu à
tendência, e ao exercício da tendência dos seres vivos para atualizarem as
suas potencialidades, e se constituir como espécimens adultos, maduros,
socialmente ajustados e produtivos, no caso dos seres humanos. É conhecida a
ilustração que Rogers faz de sua idéia lembrando os brancos brotos das batatas
que cresciam nos estoques invernais do porão da casa de sua infância...
Pálidos e obstinados, em sua tendência atualizante em direção à luz... É impressionante, porque, em
seguida, Rogers dá ainda um passo "atrás" -- do biológico ao
cósmico --, ao vincular o que ele entende como tendência atualizante a uma tendência formativa do universo,
usando idéias de Ilya Prigogine, muito vigentes na new age, para corroborar as suas próprias concepções. Não é que não seja interessante
considerar a tendência atualizante de suas potencialidades por parte dos
seres vivos, no sentido biológico, e evolucionista... Ou indicar a tendência sintrópica que caracteriza a
vida, em contraposição aos movimentos deletérios da entropia... Mas, direto, do cósmico, e do biológico, para o
pessoal? Sem passar pela mediação da história? Sem passar pela mediação do
cultural e do social? Sem passar pela mediação da existência, e do
existencial? Há, efetivamente, aí uma
incontornável lacuna. Em especial para quem se remete aos humanos, e aos
grupos humanos: no que diz respeito à relação história-pessoa, e no que diz
respeito à concepção existência-pessoa, em termos da concepção de tendência atualizante. É interessante observar que a
vivência, a experimentação, e o desenvolvimento do modelo rogeriano, como
seria de se esperar, vai se deslocando, e se tornando cada vez mais
independente dos pressupostos teóricos, com o privilégio de uma vivência
fenomenológico existencial empírica. A um ponto tal que a teoria prossegue
reincidindo em crises, de crescimento, e, defitivamente, não acompanha os
resultados da experimentação, quedando-se em níveis muito precários, no que
concerne à rica fase final do trabalho de Carl Rogers, principalmente com
relação ao seu modelo de trabalho com grupos, e às repercussões dos
resultados da experimentação com grupos sobre o modelo de trabalho na relação
interindividual[1]. Aí também presente, de modo
importante, as confusões determinadas pela crise epistêmica decorrente: 1. Do fato de que a abordagem
rogeriana, de cunho fenomenológico
existencial empírico, cresceu no meio de um empirismo objetivista,
avêsso à teorização. Com os praticantes da abordagem rogeriana ainda influenciados,
de um modo significativo, por esse tipo de empirismo objetivista; condição
associada ao pouco conhecimento das perspectivas da Fenomenologia no meio da
abordagem rogeriana; 2. Dos mal-entendidos e confusões
relativos à precária compreensão acerca de qual é o lugar da teoria numa
abordagem que é, em sua vivência, não teorizante; ou seja, acerca de qual o
lugar da teoria numa abordagem fenomenológico existencial empírica e
experimental. Aparentemente confundida, ainda,
influenciada e desorientada pela aversão à teoria e à teorização da cultura
anglo-saxã, a cultura da abordagem rogeriana se quedou, e se queda,
inteiramente baratinada com relação à questão dos nexos entre a vivência
experimental empírica, não teorizante, e a teoria, a teorização, e a
crítica... A teoria foi evoluindo para uma
fértil crise de perspectivas epistemológicas e ontológicas, até que Rogers e
os seus colaboradores mergulharam na intensa experimentação fenomenológico
existencial empírica de seus referenciais, num contexto grupal, com uma
teorização ainda incipiente, e freqüentemente pautada pelos referenciais do
empirismo objetivista -- incompetente para dar conta da riqueza e da
complexidade dos produtos e processos de sua experimentação. De fato, neste
momento, o fato de que Rogers e colaboradores estavam ricamente imersos nas
dimensões existenciais de um tal processo, e em suas densidades e
complexidades teóricas, não permitia, ainda, um afastamento que
possibilitasse uma reflexão e produção teórica. Sem dúvida, o pouco
conhecimento no seu meio, e no meio da cultura da abordagem, dos referenciais
da Fenomenologia e do existencialismo, dificultava sobremaneira esta
empreitada teórica. O momento posterior à morte de
Rogers é um momento de paralisia teórica, pelo menos em termos paradigmáticos,
em que a teoria vai sendo cada vez mais alienada e alienígena, ainda que a
força da obra ensaística de Rogers permaneça fazendo adeptos. E que o
empirismo fenomenológico existencial característico de seu paradigma possa
ser compreendido e desenvolvido por profissionais competentes e criativos. A concepçao de atualização, e
mesmo de tendência atualizante -- esta importante contribuição de
Aristóteles, Brentano e Goldstein, que Carl Rogers soube valorizar, conceitual
e metodológicamente, em psicologia e psicoterapia -- permanecem assim como
concepções básicas, do paradigma rogeriano, e da psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial. No caso da abordagem rogeriana,
em particular, no sentido de sua reformulação e atualização. Isto porque são
concepções que guardam a originalidade da formulação rogeriana, ao mesmo
tempopermanacem como concepções atuais
-- produtivas --, não só no contexto da abordagem rogeriana, como no
contexto da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. A atualidade da concepção de tendência
atualizante, em sua acepção fenomenológico existencial, em psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial, advém do fato, simplesmente, de que,
ainda que um conceito teórico, ela se remete à dimensão vivencial,
especificamente experienciável. Eespecificamente existencial. Remete-se ao
próprio processo humano de realização, e de superação. Dimensão ontológica
humana fundamental, e fundamental para a concepção e vivência da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial, em específico da abordagem
rogeriana, e da gestalt terapia, que são psicologias e psicoterapias do ato e da atualização, da atualidade.
Abordagens poiéticas, estéticas. |