Textos Abordagem Rogeriana

 

 

TENDENCIA ATUALIZANTE E EMPATIA

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

 

 

 

 

A vivência do processamento da tendência atualizante, que na verdade se efetiva no processo da ação, é especificamente fenomenenológica. E, como tal, se dá no âmbito da compreensão, da vivência compreensiva, que é especificamente empática. Atualização é especificamente o processo fenomenal da ação, vivido como vivência e desdobramento de possibilidades. A empatia, remete ao caráter páthico, sensível, pré-conceitual e emocionado do processo de vivência da atualização de possibilidades, ou seja, da vivência específica da efetivação, em ação, da tendência atualizante. (FONSECA, 2007a.)

Freqüentemente, numa postura objetivista, a concepção da compreensão empática, passa por ser uma qualidade atitudinal que se oferece a outrém. Este entendimento objetivista, como seria de se esperar, se exime de esclarecer, dentre outros aspectos cruciais, que vínculos podem existir entre tendência atualizante e compreensão empática. A própria concepção de atualizante, de ato, de ação, de compreensão, de empático... é precária e insuficiente, permitindo uma ampla gama de mal entendidos e distorções. Esta postura objetivista é imprópria e inadequada para o entendimento e vivência da concepção e método da abordagem rogeriana, de cunho eminentemente fenomenológico e existencial.

A compreensão empática e o exercício da tendência atualizante fazem parte do mesmo processo fenomenal. A operação da tendência atualizante, que se dá, especificamente, como ação, ato ação, especificamente se dá no âmbito da compreensão, empática. De modo que não se trata de processos independentes, mas de dimensões simultânes de um mesmo processo fenomenológico, e dialógico.

Este processo pode, naturalmente, se dar no âmbito que configura a vivência da pessoa singular e “isolada”. No âmbito dialógico de sua relação “consigo mesmo”. Ou no âmbito da dialógica da sua relação com a natureza não humana, ou da relação com o sagrado (BUBER,). O processo vivencial empático não carece então, desta forma, de ocorrer, necessariamente, ao nível do inter humano, da relação interpessoal, para ser empaticamente compreensivo, atualizante, ato, ação. Nestes mencionados momentos de dialógica que não é especificamente inter humana, interpessoal, a vivência da pessoa, singular, é, igualmente, empática, compreensiva, e atualizante, ação, apesar de não se dar na condição da inter ação inter humana: é exercício da tendência atualizante, ato, ação; que, necessariamente se dá como o modo compreensivo e empático de sermos.

Na esfera própria do interpessoal inter humano (BUBER,), é como, em geral, nos referimos à empatia. Da mesma forma, nesta modalidade, interpessoal e inter humana, a empatia é, igualmente, inter ativa, ativa, ação. Necessariamente da ordem do atualizante, também da ordem do ato, da ação; da efetivação da tendência atualizante, e da compreensão. Normalmente não nos referimos à empatia na relação com a natureza não humana, e na relação com o sagrado, tal é, em geral, a desvinculação com relação ao caráter fenomenológico, e dialógico, da empatia.

Assim, em essência, podemos falar da vivência empática inter humana, e da vivência empática ao nível da relação com a natureza não humana, e da relação com o sagrado. Todas as três formas necessariamente compreensivas e atualizantes, ação, inter-ação – dia-ação dia-lógica. De modo que não existe vivência empática sem ação, sem a atualização de possibilidades, sem o exercício da tendência atualizante. Da mesma forma que não existe ação, efetivação tendência atualizante, atualização que não seja no âmbito da vivência empática. Mais que isto, todo o processo é de natureza eminentemente fenomenológica, e dialógica, em sua essência.

Em qualquer caso, a vivência empática ato ativa pode se limitar exclusivamente a seu caráter compreensivo, sendo meramente compreensiva; ou se desdobrar como simultânea e progressivamente compreensiva e motora, de um modo mais diferenciado.

A duplicidade de termos da expressão compreensão empática para expressar o sentido de empatia é uma redundância, uma tautologia. Toda compreensão é empática, e toda empática é, necessariamente, compreensiva. Ou seja, compreensão e empatia designam características do processo fenomeno(dia)lógico da vivência, que é eminentemente páthico, de logos páthico, pathos. Na mesma medida em que o pathos é eminentemente compreensivo, fenomenológico -- ainda que nada tenha de conceitual, de apolíneo. E se caracteriza inerentemente pela apreensão e desdobramento do possível, a apreensão e desdobramento da possibilidade contingente à vivência páthica, empathica (FONSECA, 2006).

A empatia é, assim, a vivência pática, pathos-lógica, poderíamos dizer. Mas não na acepção latina do sentido de pathos, de paixão, paciência, sofrência, doença; mas na acepção grega, como "sensibilidade", como vivência emotiva, emocionada, pré-reflexiva e pré-conceitual, fenomenológica, fenomeno ativa, por suposto (v. FONSECA. Carl Rogers, o Patético..).

Uma questão fundamental, e crucial, para nós, é esta, assim, de que a vivência pática, empática, compreensiva, é própria e especificamente, coincide com, o modo de vivência da ação. Com o modo de vivência ativo, ato ativo, atualizante. O modo empático de sermos é o modo de sermos no qual vivenciamos o possível, a possibilidade, e, em ato, os desdobramos, os ato-alizamos. De modo que a atualização, que efetiva a tendência atualizante, que nos constitui, se constitui, efetivamente, no âmbito da empatia, páthicamente, empáticamente.

Existe assim um nexo mais que casual, mais que conceptual, ou metodológico, entre empatia, atualização e tendência atualizante, na media em que as expressões indicam dimensões necessárias de um mesmo processo ontológico, fenomenal, fenomenológico e, necessariamente, dialógico.

A empatia, e a atualização, fenomenológica e operativa da tendencia atualizante, estão para além do modo de sermos da dicotomia sujeito-objeto, para além das determinações de causas e efeitos, para além das relações de utilidade, e aquém da realidade positiva e da objetividade.

De modo que ninguém é objeto de empatia, ninguém oferece empatia, como normalmente se pensa, como se oferecesse algo a um outro objetivo. A empatia se dá no âmbito fenomenológico da vivência de uma dialógica interhumana, que ainda que se dê na ambiguidade tensa da relação eu-tu, não se constitui como relacionamento objetivo, mas fenomeno(dia)lógico, existencial.

O que o entendimento, desta forma, da vivência empática indica é que ela é da ordem de uma interática, ou seja da inter-ação, da momentaneidade da dialógica inter humana. Esta empatia, dialógica, poderia se dar, como o dialógico (BUBER,), no âmbito da natureza não humana, no âmbito da relação com o sagrado; além de poder se dar na esfera, empática, da interática, inter humana.

O âmbito da vivência empática compreensiva, em suas propriedades características, é, assim, condição de possibilidade dialógica da atualização de possibilidades, da efetivação de nossa tendência atualizante. De modo que, como dissemos, é mais que casual o nexo entre empatia e tendência atualizante, é mais do que conceitual, e metodológico. É um vínculo ontológicamente necessário, na medida em que faz parte, como dimensão diversa, do mesmo processo fenomenológico, fenômeno ativo.

Este caráter fenomen(dia)lógico do processamento da atualização empáticamente compreensiva de possibilidades – da efetivação da tendência atualizante, da ação, da interação, em particular na dimensão da  interação inter humana, não é oferecida por alguém a um outrém objetivo, nem é uma qualidade subjetiva. Mas vivência dia(fenomeno)lógica inter humana e inter ativa, eminentemente ativa, de atualização de possibilidades.

Não se trata de uma atitude, mas de um modo de vivência fenomenológico. Que em sua especificidade, demanda, como modo de proceder, para a sua abertura, uma atitude habitual e natural de aquiescência com o modo fenomenológico existencial dialógico de sermos no encontro com o(s) outro(s). Uma aquiescência com e vivência do nosso modo de pré-coisa de sermos. Numa relativização regular e habitual do objetivismo, do positivismo, do princípio de realidade positivista.

De fato o privilegiamento deste modo de proceder configura uma ética. Patética (empatética), peripatética. Estética.

 

 

 

BUBER, M. EU E TU. São Paulo, Cortês. 1985.
FONSECA, A. Tendência Atualizante. Maceió, 2007, inédito.
FONSECA, A. Carl Rogers, o patético. Maceió. 2006.

 

 

 

 

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