1.
Carl Rogers.
Sobre o sentido da concepção e do logos metódico
de seu
paradigma em psicologia e psicoterapia I
O
Carl Rogers que encontramos na culminância de sua obra, e de sua vida, era,
de um modo evidente, superlativamente despojado, e despretensioso.
De
várias formas. E aqui nos interessa sobretudo no que concerne a sua atividade
profissional, a suas concepções e método, e ao sentido ensaístico de sua
produção escrita.
Carl
Rogers era, então, o empirista fenomenológico existencial por excelência;
na tradição de Brentano. Fenomenológico existencial, dialógico (Buber), na
tradição de Brentano. Mesmo que se pudesse observar a prevalência de toda
uma teorização, metafísica, e mesmo retórica, da tendência atualizante, Carl Rogers já tinha ido,
experimentalmente, além; no sentido do logos metódico de um empirismo
humanista,
fenemenológico existencial, dialógico, em psicologia e psicoterapia, no âmbito
das relações humanas.
Desinvestido
de qualquer pressuposto de condição e
desempenho técnicos, na sua atuação. Destituído de aspirações científicas
tradicionais. Ou de veleidades práticas,
e pragmáticas. Destituído da crença
na efetividade do teórico e da
teorização, e do moralismo, em
particular, ao nível do existencial.
Sua
produção escrita, igualmente, perdera, cada vez mais, as veleidades
especificamente teorizantes, explicativas, ou científicas. E, cada vez mais,
se configurava como ensaística, brotando naturalmente da experiência
existencial, e vivência fenomenológico existencial, empírica, e
experimental de seu trabalho.
Como
meio e como via, como jeito de ser,
do psicólogo e do psicoterapeuta, do educador, da pessoa -- em processos
de co-laboração na potencialização
de metamorfoses, e de estilos existenciais de vida
--, o sentido do logos metódico de Rogers radicalizou-se, progressiva, e
firmemente, numa postura de abertura para, de privilegiamento, e de afirmação
experimental, dos momentos de dialógica
interhumana (Buber).
O
sentido do logos metódico de Rogers radicalizou-se numa postura de afirmação
experimental da concrescência fenomenológico
existencial da existência, na pontualidade de seus desdobramentos.
Consistentemente arraigado em pré condições de respeito radical -- pessoal
e metodológico -- pela alteridade, pela diferença, do cliente; e de respeito
pela diferença e frescor de sua vivência empírico fenomenal. Como
imprescindíveis condições do privilegiamento do encontro, nesta dialógica
interhumana. O encontro como vivência
de momentos de um modo de ser
generativamente existencial, existenciativo,
poiético.
O
quanto, e o como, nos acostumamos a ver -- na vivência de sua relação com o
cliente, ou com o grupo, à guisa de metodologia -- a obstinação mansa e rítmica
de Rogers, e de seus colaboradores mais imediatos, no privilegiamento,
radical, da mera, nua, crua, e simples, dialógica
interhumana. Não raro, de um modo exasperante, caótico, desconcertante,
irritante... Mas paciente, pacientemente elaborado, até que, como dizia Perls,
o deserto começasse a florescer.
Ou, como dizia John Wood, até que a
orquestra se afinasse, e estivesse em condições para uma ‘performance
poiética’.
Mal
entendido, muito mal entendido, foi Carl Rogers, muito freqüentemente, em
suas concepções e posturas metodológicas. Mal entendido pelos ‘de
fora’. E, freqüentemente, mal entendido por muitos dos “de dentro”, que
assumiam a incorporação de seu modelo.
Estes,
muito freqüentemente, pelo equívoco banal, e danoso, de confundir, e trocar,
por motivos vários, o simples pelo simplório.
Descurando do elementar, mas tão precioso, e sutilmente conquistado, empirismo
humanista , fenomenológico existencial, dialógico, na relação inter humana.
Substituindo
por atitudes retóricas, e estereotipadas, ou meramente manipulativas, a essência
incontornável de vivência de incerteza, de vivência de confirmação da, e
de interação com a, diferença do outro; negando-se à vivência de
desconcerto, não raro de desconforto, ou de conflito, inerentes à vivência
deste empirismo inter humano -- fértil, como tal, à germinação da ação,
da criação, da existenciação.
Não
muito longe, outros, por captarem o modelo rogeriano em fases primitivas,
quando ainda havia uma referência importante, e mesmo a aspiração de um
certo cientificismo. Com surpresa, os vemos hoje em dia tentando interpretar o
modelo rogeriano pela via de um cientificismo pseudo científico. Inscientes,
talvez, do finíssimo e precioso trabalho de Rogers na superação não só do
cientificismo, mas do próprio paradigma científico em psicologia e
psicoterapia, em privilégio do que permite, potencializa e engendra o
existencial. Perderam o bonde?
Mal
entendido pelos técnicos, Carl Rogers. Técnicos que surpreenderiam, evidente
e obviamente, a indigência de técnicas,
de uma metodologia técnica, no paradigma rogeriano. Inscientes, certamente,
de que Rogers já havia, de há muito, passado pela questão da técnica ao nível existencial das relações inter humanas,
e, portanto, ao nível do método em psicologia e psicoterapia. E compreendido
que a existência, em seu caráter fenomenal essencial de atualização de
possíveis inéditos, essencialmente irrepetíveis em sua qualidade e
processo, não é acessível à efetividade de competência da técnica. A existência, como observou Heidegger,
resolve-se apenas existencialmente.
E Rogers compreendia muito bem, e profundamente, isto. Da mesma forma que
entendia a inefetividade, e mesmo o dano, sempre latente, iminente e atual, do
abuso da impropriedade de uma abordagem técnica em questões existenciais. Na
verdade, foi esta uma primeira constatação, e uma das primeiras condições
de método, dos psicoterapeutas e psicólogos fenomenológico existenciais.
Mal
entendido, Rogers, pelos científicos. Que – pertinentemente -- não
reconheciam no paradigma rogeriano, e em sua atividade profissional, a aplicação
do método científico formal. Nem a aplicação tecnológica, por este
paradigma, de um conhecimento elaborado através dos procedimentos científicos
consagrados. Nunca entenderam estes, evidentemente, o sentido propriamente
fenomenológico existencial de experimentação.
Bem
antes dos cientificistas pseudo científicos em psicologia -- alguns mesmo dos
que se dizendo rogerianos,
de hoje (pasmem!) --, Rogers entendeu que -- da mesma forma que o
paradigma técnico -- o paradigma científico não dava conta do vivido
fenomenativo, no qual o possível é possível. Nem se aplicava à, ato-ação
ao nível do existencial. Na medida, em particular, em que o existencial se
configura como sendo da ordem do modo humano de ser da ação poiética, e não da ordem do epistemológico.
Não
é porque é menos, que o fenomenológico
existencial não é da ordem do científico. É, apenas, porque o científico
não dá conta do existencial, que nem mesmo da ordem da realidade é. Quanto
mais da ordem da objetividade. Diria pessoa pela boca de uma sua personagem,
Estávamos
cheias de ser nós. E isso porque sabíamos, com toda carne de nossa carne,
que não éramos uma realidade.
Bem
ao gosto de Nietzsche,
Rogers entendia que o existencial não se conforma ao empistemológico, e
epistemofílico, pressuposto científico da busca
de verdades. Não se conforma às esferas do conhecer, e do conhecimento,
e de suas vontades.
Não
é por outro motivo que o coração tem
razões que a própria razão desconhece (Pascal); e que seria enloquecedooooooorrrrr se amor tivesse a ver com verdade... (Maffesoli).
Mas, mais propriamente, o existencial, experimental, a-ventura-se, de um modo
essencial, na incerteza, e na improvisação, da potencia criativa, na
possibilidade humanamente ontológica da criação da realidade e do
verdadeiro.
Mal
entendido pelos moralistas. Especial e inconformadamente destronados.
Moralistas que, similar-mente aos científicos, não encontravam no paradigma
rogeriano a preocupação tradicional com a busca da verdade, com uma busca de
adequação a verdades, ou a valores preconizados, nem com a transmissão, ou
imposição, de verdades estabelecidas. Nem mesmo, inclusive, uma preocupação
com o positivismo do real, ou com o princípio de realidade.
Os
pragmatistas chocavam-se, certamente, com a enorme
inutilidade e “desperdício” de tempo e de recursos da metodologia
vivencial rogeriana. Essencialmente incompatível com o prático; em especial,
incompatível com o pragmático.
Sem
advertirem-se, certamente, de que, em sua especificidade, a existência humana
-- eminentemente da ordem do modo de ser do poiético
-- dá-se e desdobra-se, cria-se, engendra-se, resolve-se, ao nível deste
humano modo de ser que não é da ordem do modo de ser no qual se dão o útil
e a utilidade. Humano modo de ser, que sem prejuízo do prático e da prática,
não é da ordem do modo de ser no qual se dão a prática, o valor do prático
e da pragmática.
Ainda
que deste fenomenológico existencial poiético
modo de ser tudo provenha; e, paradoxalmente, provenham, inclusive, em
suas especificidades, todos os úteis, e as suas utilidades.
Na
verdade, como observa Buber,
com essencial propriedade, o modo humano ontologicamente existencial de ser, não
só, não é da ordem do útil e da utilidade, como não o é, igualmente, da
ordem do modo de ser no qual vigoram os fins e os meios; não é da ordem do
modo de ser da arbitrariedade, não é da ordem do modo de ser em que vigora a
causalidade das causas e dos efeitos, dos meios e dos fins; a sua fatalidade;
nem mesmo é, como observamos, da ordem do modo de ser que entendemos como realidade,
no sentido objetivo do modo de ser
no qual vigora o eixo dicotômico das relações sujeito-objeto...
Para
os teoréticos... Que resolvem o
mundo em sua abstração... Para os teóricos, Rogers, a santa incoerência... Uma verdadeira metamorfose ambulante. Congenitamente ingênuo...
De
vários tipos, os teóricos, em uníssono, e estereotipadamente, balançam,
desaprovadoramente, a cabeça, diante do paradigma rogeriano.
Sem
se precatarem de que, fundamentalmente, Rogers compreendera, em sua
efetividade, a distinção específica entre teoria e existência, a distinção
entre ação e teoria. Rogers intuíra a distinção entre explicação e compreensão,
e intuíra que não existe explicação
que possa levar à compreensão (Takuan Soho). E estava convencido de que,
para lidar efetivamente com a condição humana -- com suas questões, com
suas crises, superações e crescimento; para lidar com a sua efetiva e específica
possibilidade de ação --, é imperativo fazer-se ao largo do teórico, da
teoria e da teorização, e direcionar-se, decidida e radicalmente, no sentido
deste delicioso (cada um sabe a dor e a
delícia de ser o que é...), e ontológico, modo existencial de sermos.
Que é perfeita aderência à ação,
à incerteza, e ao devir, fenomenais. E que, especificamente, e por definição,
e radicalmente, não é da ordem do modo de sermos em que somos teóricos e
conceituais, explicativos.
Não
que Rogers fosse um anti teórico. Nada disso. Rogers tinha uma grande
consideração pela teoria e pela teorização. Está aí a sua obra escrita.
Mas, ainda que se interconectem, e interajam, cada coisa em seu lugar.
Aliás,
é de capital importância entender que a vivência
empírica é, por definição, não teorética; mas que existe uma diferença
fundamental entre o empirismo objetivista,
tradicional na cultura anglo-saxã, e o empirismo fenomenológico em termos do teórico, da teoria e da teorização:
o empirismo objetivista é radicalmente contrário, e avesso, à teoria e à
teorização. O empirismo fenomenológico não é avesso ao teórico, à
teoria e à teorização. Ou seja, igualmente para o empirismo fenomenológico,
a vivência empírica é caracteristicamente não teorizante, e não se
assenta sobre teoria. Mas a teoria pode constituir-se como um outro e
relevante momento, a partir da vivência não teórica. Da mesma forma que a
teoria pode constituir-se como elemento das condições de sua hermenêutica.
De
modo que, desde Brentano, não há, para o empirismo fenomenológico, um
preconceito e uma aversão ao teórico, à teoria e a teorização. Eles são
possíveis e necessários, desejáveis, ainda que sejam estranhos e heterogêneos
com relação aos momentos particulares da vivência empírica. Que, fenomenológica,
não comporta a dicotomia do eixo de referência das relações de
sujeito-objeto. Da mesma forma que, evidentemente, não poderia privilegiar o
pólo objeto desta relação, constituindo-se no campo da objetividade, como
objetivista.
O
desafio de Rogers era lidar com a potência humana de superação, e com
as dificuldades existenciais neste processo de superação; lidando com
clientes de psicoterapia, e de psicologia. Rogers entendeu que a atuação, a
efetivação, desta potência humana de superação se dá, especificamente,
no âmbito do modo de sermos que é pré-teórico, pré-reflexivo, pré-conceitual.
Modo de sermos a que ele, seguindo a Goldstein, denominava de experiência
organísmica. Modo de sermos a que Dilthey e Heidegger, guardando as
devidas particularidades, chamavam, respectivamente, de vivido
e de ser-no-mundo. E como atuação do que ele chamava, e entendia, como tendência
atualizante humana.
No
âmbito próprio da vivência momentânea deste modo fenomenológico de
sermos, a teoria e a teorização são supérfluos, de pouca valia, inefetivos,
impróprios. Quando não perturbadores, repressivos e danosos. Este modo de
sermos demanda outras habilidades, equivalentes às de um dançante, ou as de
um nadador, ou de um artista, em suas atividades próprias.
A
questão de Rogers, portanto, era a da experimentação, da definição, e
desenvolvimento, de uma concepção e de uma metodologia não teorizantes em
psicologia e psicoterapia, no trabalho com grupos, e nas áreas a que ele
posteriormente se dedica. Uma metodologia não teorizante, fenomenológico
existencial empírica, de vivência, para o cliente, a partir de condições e
atuação colaborativa e sinérgica, igualmente fenomenológico existenciais
empíricas, por parte do terapeuta, psicólogo, educador. Concepção e
metodologia fenomenológico existenciais empíricas, poiéticas, mais
aparentada do modo artístico de funcionamento, o que quer dizer, não
teorizantes, não técnicas, não moralistas, não científicas, não práticas.
Quanto
a sua própria teorização, Rogers, assim como Perls, viu-se preso, e
desafiado, portanto, na experimentação e na elaboração experimental da
teoria e da teorização, e na elaboração do logos metódico, de uma concepção
e metodologia de psicologia e de psicoterapia no âmbito da atuação de um
modo de ser,. radicalmente não teórico e não teorizante. Fenomenológico,
existencial, empírico. Modo de ser próprio da existência e da existenciação,
sua e de seus clientes, e dos participantes dos grupos que facilitava; modo de
ser próprio à dialógica inter humana, interpessoal, e coletiva.
E,
coerente, e concernentemente, a sua teorização vai se tornando cada vez mais
despretensiosa, em termos especificamente teóricos e explicativos, cada vez
mais ensaística, à medida que ele mergulha na perplexidade da vivência de
atitudes comensuráveis com as qualidades fenomenológicas, fenomenoativas, do
próprio modo de ser da existência. Atitudes cada vez menos explicativas, e
teóricas, cada vez mais implicativas e compreensivas.
Rogers
sempre privilegiou, como atitude metódica, e como proposta de vivência para
o cliente, a experimentação fenomenológico existencial. A dialógica inter
humana entre terapeuta e cliente. A linguagem dialógica inter humana da existência.
Patética. E, com isso, desdobrou e
abriu possibilidades preciosas e muito fecundas para a psicologia, para a
psicoterapia, para o trabalho ao nível do humano.
Possibilidades
nem sempre compreensíveis, em sua essência e características próprias, a
partir de um ponto de vista teórico. Ou de um ponto de vista pragmático.
É
fundamental considerar deste ponto de vista a obra teórica de Rogers. A sua
evolução à medida que se desenvolve a sua experimentação, a natureza
especificamente não teorizante de seu método, e a própria perplexidade da
experimentação profissional de uma metodologia, que por existencial, era
especificamente empírica, não teórica, não conceitual. Daí o caráter
essencial e grandemente aberto de sua obra teórica.
É
muito importante considerar que a elaboração do paradigma rogeriano, um
paradigma não teorético, e, por isso, empirista
– neste sentido fenomenológico
existencial dialógico --, se dá, exatamente, no âmbito cultural hegemônico
e forte de um empirismo. Mas,
especificamente, no âmbito do empirismo
objetivista, vigente na cultura norte americana e anglo saxã. Carl Rogers
destaca-se, assim, com a contribuição de uma concepção e método de
psicologia e de psicoterapia fenomenológico existenciais empíricos,
radicalmente heterogêneos com relação ao empirismo objetivista então
predominante.
Tudo
isto aponta para questões extremamente importantes, que dizem respeito, por
exemplo, ao fato de que, ainda que sua teorização seja importante, o
fundamental, em termos da obra de Rogers, não é exatamente a sua teorização,
mas a sua metodologia não teorizante. Ou seja, o melhor ponto de vista para a
compreensão e a apreciação do paradigma rogeriano não é exatamente o
ponto de vista de sua teoria. E, neste sentido, é importante considerar a
insuficiência da teorização, mesmo a teorização de Rogers, para captar e
expressar teoricamente a especificidade de seu logos metódico. Até porque,
ao morrer ele apenas iniciara, experimentalmente, a definição de sua concepção
e metodologia em termos fenomenológico existenciais empíricos.
O
mesmo podemos dizer com relação ao ponto de vista científico, com relação
ao ponto técnico, com relação ao ponto de vista prático, e com relação
ao ponto de vista pragmático. Como pontos de vista inespecíficos e impróprios
para a apreensão e compreensão do existencial, do fenomenológico
existencial empírico, e, portanto, do paradigma rogeriano.
Como
observamos, longe estamos de dizer que o paradigma rogeriano não é teorizável,
ou que a teoria e a teorização não sejam importantes no seu âmbito, ou que
não existe, na sua aprendizagem, na sua reprodução, e recriação, uma
dimensão teórica efetiva. Nada disso. Apenas é necessário colocar as
coisas em seus devidos lugares.
Em
primeiro lugar, afirmar que o ponto de vista teórico não é o melhor ponto
de vista para a compreensão do paradigma rogeriano. Na verdade, é o teórico
um paradigma impróprio. A teoria é possível, sim, inevitável, necessária,
interessante. Mas, quando efetiva, no caso do paradigma rogeriano, trata-se da
teorização de um paradigma cuja vivência, especificamente não teorizante,
é qualitativamente descontínua com o teórico. Da mesma forma que
podemos contemplar e imaginamos a água da piscina quando dela nos
aproximamos. Outra coisa é mergulhar na água, vivenciá-la, e nadar, com ela
interagir e desfrutá-la, das várias formas possíveis. O momentâneo
mergulho exige, e implica, outras formas de conhecimento e habilidades, que própria
e especificamente não são teóricos, ou teoricamente providos. São
fenomenais, fenomenológico existenciais, fenomenativos, pré-conceituais, pré-reflexivos,
empíricos enfim.
É
interessante observar que Rogers movimentou-se e evoluiu, em termos
humanistas, dos contrafortes norte americanos da ciência positivista, e objetivamente
empirista -- e do moralismo
religioso puritano --, em direção ao existencial, ao empírico fenomenológico
existencial, corpo-ativo. Em sua trajetória, guardava em si, desde o início,
o germe do fenomenológico, e do empatético.
Mas esta trajetória careceu de se configurar como uma imensa atividade de
desconstrução. Imensa -- não tanto em quantidade como em qualidade --
atividade de desconstrução em psicologia e psicoterapia do paradigma
objetivista, do paradigma técnico, do paradigma científico, do paradigma
moralista, do paradigma pragmático, e do paradigma prático...
De
modo que quando Rogers culmina, em seu paradigma, com o privilegiamento da nua
dialógica interhumana – ou interlógica
diahumana -- de sua empatética, um imenso trabalho de desconstrução, de
cascavilhamento e de experimentação fenomenológico existencial já havia
sido operado.
Creio
que podemos dizer que, como não poderia deixar de ser, Rogers deixa a sua
teoria bastante inconclusa. Na verdade, o ponto culminante de seu modelo é,
num certo sentido, em termos teóricos, um ponto
zero. Ele chega às proximidades do ponto zero de uma teoria do
privilegiamento fenomenológico existencial empírico, nu e cru, da dialógica
interhumana, como logos metódico de sua empatética.
Podemos
ver que, se, por um lado, a sua teoria vai ganhando um caráter
despretensiosamente ensaístico; e mesmo se são eventualmente flagrantes
contradições, descontinuidades, com relação a um modelo, a uma ontologia,
e mesmo método fenomenológico existencial –
ao qual ele vai aderindo de um modo cada vez mais radical; por outro
lado, a sua atividade profissional vai ganhando um caráter cada vez mais
vivencial, cada vez mais empírico e experimental, num sentido genuinamente
fenomenológico e existencial. Caráter que Rogers experimentou vivencialmente,
de um modo intenso, em vários contextos, na psicoterapia individual, na vivência
de grupo, na resolução de conflitos, na pedagogia... Ancorado, é certo,
eventualmente, na metafísica de uma tendência
atualizante, concebida em bases exorbitantemente biológicas, e apenas
entrevista em seu caráter propriamente fenomenológico existencial de vivência
da dimensão humana do possível, e de sua possibilitações.
Na medida em que consideramos a
dimensão existencial humana, as suas crises e questões, e as suas resoluções,
necessariamente especificamente existenciais, compreendemos que a concepção e
a metodologia de Rogers são muito sensíveis e refinadas. Não podemos nos
iludir com o seu despojamento. Sobretudo, apesar de simples o seu método, não
podemos cair no equívoco de confundir o simples com o simplório. A confusão
do simples com o simplório se tornou às vezes quase que epidêmica entre os
“centrados”.
Isto porque, freqüentemente, as
fontes da concepção e método, e a própria concepção e método, de Rogers
foram mal compreendidos, ou mesmo desconhecidos. E sua abordagem freqüentemente
entendida, ironicamente, como o modelo pronto do objetivismo, ou da pragmática,
de uma certa tecnologia da compreensão, adoçada de fragmentos açucarados da
retórica de uma imprecisa ideologia dita “humanista”.
Como estamos comentando, o
despojamento da abordagem de Rogers atualiza um desinvestimento de posturas,
de concepções, de métodos, de epistemologias, de ontologias, incompatíveis
com o privilegiamento da dimensão do existencial, com o privilegiamento da
dialógica fenomenológico existencial do interhumano; incompatíveis com a
sua empatética. Foram-se, então, na vivência do logos metódico do
paradigma rogeriano, como observamos, os procedimentos técnicos, as pretensões
científicas, o moralismo, o pragmatismo, as reflexões teóricas, a teoria e
teorização, e mesmo as condições definidoras específicas de uma prática.
Cascavilhando experimentalmente,
Rogers buscou as condições que pudessem garantir o veio rico do
privilegiamento da dialógica do interhumano, como concepção e como logos
metódico de sua abordagem de psicologia e de psicoterapia.
Primeiro a não diretividade, um
dos pilares clássicos de seu paradigma, que marca o seu afastamento do
paradigma moralista.
A não diretividade é enriquecida
pelas condições terapêuticas da compreensão empática, da consideração
positiva incondicional e da genuinidade do terapeuta, na relação com o
cliente. O privilégio da “experienciação”. A empatética
-- patética, peripatética -- do privilegiamento dos momentos próprios de vivência
(páthica) dos desdobramentos da dialógica do interhumano.
De fato, Carl Rogers efetivamente
experimentava, em um processo vigoroso, os fundamentos da concepção e método
de uma psicoterapia, e de uma psicologia, fenomenológico existencial.
Paradoxalmente, o seu despojamento representava, na verdade, uma apuração
experimental, cada vez mais refinada, de condições fenomenológico
existenciais de concepção e de método de psicologia e de psicoterapia.
A psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial se afirma e se desdobra, no âmbito da cultura
brasileira, e mundial, como um interessante recurso de assistência e trabalho
psicológico e psicoterápico, e de produção cultural. Quer seja ao nível
da psicoterapia, e nas áreas do seu desenvolvimento e diferenciação; quer
seja ao nível do trabalho nas várias áreas da psicologia, que se
diversificam cada vez mais, e, cada vez mais, ganham em importância. Como,
por, exemplo, no trabalho de desenvolvimento comunitário, na empresa, na
psicologia jurídica, no atendimento psicológico hospitalar, na mediação e
resolução de conflitos, entre outras...
No que podemos entender como
Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico existencial -- efetivamente
emergente, assim, e florescente em nossos dias, com ricas e importantes
possibilidades de fruição e de aplicação --, o trabalho de Carl R Rogers
tem um papel inegável, fundamental, e fundador.
Muito importante, pois, atentar
para isso, uma vez que é seminal e essencial a relação das concepções e método
de Carl Rogers com surgimento, desenvolvimento e consolidação de uma concepção
e metodologia de psicologia e psicoterapia fenomenológico existenciais. Coisa
efetivamente rara.
Não podemos, naturalmente, deixar
de atentar para a importância do trabalho pioneiro de um L. Binswanger, ou de
um M. Boss. E, a seguir, o trabalho de um A. Maslow, e de um R. May, no
desenvolvimento desta perspectiva em psicologia e psicoterapia, inclusive no
próprio desenvolvimento e formação de Carl Rogers. Mas coube a Rogers e a
F. Perls o momento da experimentação e caracterização da vivência de
metodologias fidedignamente fenomenológico existenciais. E, neste sentido,
empíricas, experimentais, performáticas, e poiético-hermenêuticas.
Durante um certo momento, a teorização
de Rogers, como não poderia deixar de ser, atrelou-se aos vieses das
psicologias científicas e das psicoterapias vigentes no meio cultural norte
americano e europeu. Desde muito cedo, não obstante, é nítido o movimento
de diferenciação do modelo rogeriano com relação ao hegemônico paradigma
do empirismo objetivista vigente nos
EUA. Creio que, teoricamente, apesar de algumas idas e vindas, Rogers evolui
para uma crise conceitual. Crise esta que morre na formulação de condições
hermenêuticas do empirismo
especificamente fenomenológico existencial e poiético-hermenêutico. Que
se configurava como característica forte da vivência de seu método, em
particular da sua última fase.
Creio que, de um modo importante, o
trabalho de Rogers, a partir de um certo momento, e em significativas dimensões,
deixa de receber simplesmente os influxos da Fenomenologia, do
Existencialismo, da psicologia fenomenológico existencial existente, e passa
a contribuir, de um modo significativo, com a constituição e desenvolvimento
destes.
Em particular, como é notório, e
característico, a sua abordagem foi assumindo um verdadeiro e corajoso strip tease fenomenativo existencial da teoria, da prática
teorizante e conceitual -- algo muito pouco visto --, e centrando-se de modo
cada vez mais empírico e experimental (num sentido fenomenológico e existencial) no que podemos entender
como o provimento empírico e
experimental, por parte do
terapeuta, do psicólogo, do facilitador, do pedagogo, de condições
hermenêuticas experimentais, fenomenológico
existenciais, para que o cliente, o educando, o grupo, o participante do
grupo, pudessem efetivamente interpretar
– num sentido fenomenológico existencial, especificamente -–, a sua vivência,
as suas questões existenciais, as suas possibilidades de ser, as suas
possibilitações, e resoluções.
Como observamos, não é só da
teorização e da conceituação que Rogers vai, fenomenológico existencial,
experimentalmente, abrindo mão, em sua concepção e método. Fenomenológico
existencial, e experimentalmente, Rogers vai superando, progressiva e
sucessivamente, em sua experimentação, o paradigma reflexivo em psicologia e
psicoterapia, o paradigma técnico, o paradigma comportamental; vai superando,
igual e sucessivamente, o paradigma científico, o paradigma moralista, o
paradigma prático e pragmático. Em privilégio de um paradigma fenomenológico
existencial, de cuja elaboração (e, aí, entender o sentido essencial desta
palavra) ele contribui decisiva e seminalmente. Um paradigma que podemos dizer
fenomenológico existencial experimental, fenomenológico existencial empírico,
dialógico, fenomenológico existencial poiético, hermenêutico.
A importância das elaborações de
Rogers se dão, principalmente e em especial, não ao nível de sua teorização,
mas, como seria de se esperar em uma abordagem empírica
(não teorética), fenomenológico existencial. Ao nível de sua resoluta
experimentação fenomenológico existencial de concepções e condições de
método.
Assim, não se pode apreender o
modelo rogeriano meramente a partir da sua teorização, ou mesmo da sua
escrita ensaística. Fenomenológico existencial empirista, no melhor sentido
da tradição de Brentano, é no
desenvolvimento de sua de sua metodologia que reside a sua especificidade, e a
sua riqueza.
Na realidade, juntamente com Fritz
Perls, Carl Rogers foi, progressivamente, assumindo um inquestionável papel
de liderança no desenvolvimento formulação da psicologia e da psicoterapia
fenomenológico existencial.
Pouca gente foi tão longe, e, em
particular, tão fidedignamente, quanto Carl Rogers, neste sentido.
Cremos que a história conceitual e
metodológica da Psicologia Fenomenológico Existencial centra-se e
centrar-se-á, cada vez mais, no provimento -- no âmbito da relação psicológica
e psicoterapêutica -- de condições
hermenêuticas para o processo hermenêutico
da interpretação fenomenológico
existencial, empírica e experimental, por parte do
cliente. Interpretação da força
-- da posse -- do possível, constituído como vivido; e em sua ato ação. Num certo
sentido, junto com Perls – este com um outro estilo, com uma outra história,
com outros pré-textos e textos mais ou menos teóricos --, fortemente
bafejados, neste sentido, por Buber, e por Nietzsche, Rogers parece ser um dos
propositores maiores destas condições, em psicologia e psicoterapia.
De modo que Carl Rogers, e Fritz
Perls têm, assim, efetivamente, um lugar bastante diferenciado na gênese,
constituição e desdobramentos das concepções e métodos das Psicologias e
Psicoterapias Fenomenológico existenciais, que emergem e florescem em nossos
dias, pejadas de interessantes e ricas possibilidades.
É importante que se distinga
claramente esta contribuição, uma vez que, freqüentemente, ela não é
notada, ou considerada, ou é meramente incompreendida. Há quem queira diminuí-los...
Mas olhando bem, não é pouco, em especial em termos qualitativos, o que eles
conseguiram...
Por outro lado, não é raro que se
fale de um modo retórico em psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial, já que ela está em moda, e pode até ser chique, sem nenhuma
referência a concepção ou método específicos, e sem referência , ou até
negando-se, as importantes e qualitativas contribuições de Rogers e de Perls
neste sentido específico. Quando os métodos de Rogers e de Perls, amplamente
aplicados, apesar de suas limitações, em particular conceituais, coadunam-se
e contribuem, diferenciada e significativamente, com o caráter fenomenológico
e existencial, em particular com a perspectiva de um empirismo aporético e
experimental, da metodologia em psicologia e psicoterapia.
3.
Carl Rogers, o patético.
Empatético, peripatético.
Creio que é muito necessário, e até
urgente, e fundamental, compreender e definir o sentido do logos
metódico do modelo de Carl Rogers como eminentemente patético.
Creio que ele, Carl Rogers, muito apreciaria ser desta forma entendido. Na
verdade, creio que, pela compreensão de uma patética
podemos compreender o sentido essencial do logos metódico do modelo de Carl Rogers, esclarecê-lo e desdobrá-lo.
De resto, o que não é pouco, estaremos compreendendo iguais qualidades da
psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial.
Eu, por certo, não utilizaria termos
possivelmente chocantes para o senso comum, se não estivesse convencido do
profundo interesse, neste sentido, de sua utilização.
Naturalmente que alguma operação de limpeza e de esclarecimento precisa ser feita, acerca
destes termos, antes de prosseguirmos no argumento. Limpeza, certamente.
Porque nenhuma palavra, talvez, tenha sido tão pesadamente torcida e
distorcida, difamada e degradada quanto à palavra pathos.
Na cultura contemporânea, o termo pathos
lembra a condição de um rei destronado, em desgraça. Pathos, na verdade, expressa o modo
de sermos, no qual vigoram, em
seus plenos e efetivos poderes, eminentemente ativos, o afetivo, a emoção, o
corpo, o sentido, os sentidos; o vivido,
no sentido da vida vivida em sua imediaticidade. Pré-conceitual, pré-reflexiva,
não teórica, não prática, não técnica, não comportamental, poiética. Caracteriza o que Buber chamou de modo de ser eu-tu; a vivência que Heidegger chamou de ser-no-mundo;
a dimensão de ser que Dilthey caracterizou como vivido,
vivência.
Ou seja, esse modo de sermos da ‘vida
vivida em sua imediaticidade aparescente’, existencialmente fenomenal, ativa
e criativa, potente de possível. Modo diverso do modo de sermos no qual
vigoram a mediação do conceitual, da teoria, da moral, do científico, do técnico,
do prático, do comportamento, da memória, da história.
Esse modo pático
de sermos. Que, nas suas tonalidades de embriagues, mais se configura como
um drible de corpo na consciência.
Do que plena e lúcida consciência. Dionisiacamente, sempre, mais uma tomada
de inconsciência, do que uma tomada
de consciência.
Este modo de sermos, fundamental,
imprescindível, ontológico e ontogênico. No qual subpercebemos
propriamente, vivemos em sua qualidade própria, o possível, a possibilidade.
E acolhemos e acalentamos a sua potencialização, o seu desdobramento, e ato
ação. Este modo de sermos que é prerrogativa ontológica nossa de
mergulho no Ser, na potência, no eterno retorno da força. Existencialmente,
momento de uma ins-pir-ação.
Meramente porque nele, e só nele, o possível, a possibilidade da superação,
que qualificam o humano, são possíveis e se desdobram.
Estas são qualidades do pathos, enquanto modo humano de ser. E o sentido de uma ética, um
modo de proceder, que o privilegia. O sentido de uma pathética. Path Ética.
Ou seja, de uma ética que privilegia as qualidades de um modo páthico de ser.
Pois bem. Na medida em que o corpo foi
desqualificado, no decorrer do desenvolvimento socrático-platônico da
civilização ocidental; na medida em que o possível e a força, a potência,
foram abominados, o pathos, que é
corpo ativo, e morada e agência do possível, a dimensão do possível que
constitui o nosso ser, e de sua atualização, o pathos
foi, igual e concomitantemente abominado. A palavra (pathos),
o conceito, este modo de sermos, foram virulentamente assacados, massacrados,
torcidos e distorcidos, difamados, degenerados... Até representarem, e
intensa e predominantemente conotarem, o sentido de doença, na concepção de
patologia. Ou de “doença”
mental, em sua mais soturna apropriação pelo ressentimento, na expressão psicopatologia...
Foi necessário o Humanismo da filosofia
européia do Século XIX, na sua volta ao Renascimento e à antiguidade grega;
foi necessário Nietzsche, e a Fenomenologia, para resgatar o sentido e o
valor do corpo, do vivido e dos sentidos. Para resgatar o valor do pathos, e de uma path-ética.
Para que se pudesse afirmar e resgatar o pathos,
o modo de ser da vivência pática, como
um valor.
Até que se pudesse entender que este modo
pático de ser faz parte de nosso
ser, faz parte de nossa saúde, e é, não só, a fonte desta saúde, como a
fonte de nosso ser. Fonte seminal de geração e regeneração de nós mesmos,
e do mundo que nos diz respeito. Aos quais podemos criar e recriar, gerar e
regenerar, na medida em que aceitamos e integramos, em que afirmamos, em que
vivenciamos na sua propriedade o nosso modo páthico
de ser. Que, de resto, só pode ser extinto muito depois que estivermos, nós
mesmos, extintos. Isto por um motivo muito simples, e comum a todos nós:
somos seres do possível, e é especificamente nesse modo páthico de ser que o possível é possível, e se desdobra.
Na verdade, é a restrição, em nossa
vida, desse modo páthico, o seu
sufocamento, na reiteração excludente dos ditames e limites da hegemonia da
consciência lúcida, calculativa, asséptica, repetitiva, medíocre,
obsessiva; a restrição e sufocamento do páthico
na hegemonia do limite, do individual e da individualidade, que é a base
para o que metaforicamente podemos chamar de “doença”, num sentido
existencial, e para todos os distúrbios somáticos que podem daí decorrer.
Patéticos sempre houve. Aqueles que
entendiam a loucura da interdição de nosso modo páthico
de ser, imolado no altar da vontade de abstração, da racionalidade
conceitual, da abstração do corpo e dos sentidos da vida vivida em sua
imediaticidade. Vontade que mal se escondia e se esconde como má vontade para
com tudo que é vivo, e que de vida palpita. Patéticos
que assumiram uma ética do pathos. Ou
seja, um modo de proceder que não exclui a afirmação do pathos, do páthico. Que
na verdade o privilegia como modo ontológico de sermos.
Os pré socráticos, que privilegiavam o
corpo, o vivido e os sentidos, assumiam uma perspectiva de privilegiamento do pathos.
A escola filosófica de Aristóteles ficou conhecida como escola dos peripatéticos.
Normalmente, quando se indaga o que
significa termo peripatético,
responde-se, apressada e sumariamente, que ele designa o fato de que os filósofos
desta escola filosofavam andando. Daí,
diz-se, este termo como designação (!?).
Esta “explicação” sumária deixa de
fora o sentido maior. De que, à medida que se caminha, a abstração mental,
a mente reflexiva, conceitual e calculativa, cede progressivamente lugar ao
modo de ser de uma vivência pática.
A mente reflexiva cede lugar a uma acentuação do pathos.
De modo que o que os filósofos peri-path-éticos
buscavam era esta acentuação do pathos,
e a filosofação a partir desta
vivência acentuada do pathos.
Patéticos,
então, na medida em que assumiam uma ética, um modo de proceder, que
privilegiava o pathos, a vivência páhtica,
enquanto método de filosofação.
Mais que isso, peri
path éticos, na medida em que não apenas privilegiavam a vivência páthica
como método, mas assumiam uma atitude ativa de afirmação, e ativo mergulho,
no modo pático de ser como estilo de filosofação. Uma querência pelo risco e pela tentativa poiética de atualização de seus possíveis. Daí também o
sentido de ex-peri-mentação,
num sentido fenomenológico existencial.
Aristóteles, seus colegas e discípulos,
eram, assim, peripatéticos. E
propriamente pode-se, assim, dizer que fizeram escola. Não só patéticos, como peripatéticos,
o foram também, dentre outros, Brentano, Nietzsche, o Expressionismo e os
expressionistas, Heidegger...
De modo que quando descobriram como método
não só a path ética, mas, em
específico, a peri
path ética, como modo privilegiado de ser, para o terapeuta e para o
cliente, os psicoterapeutas fenomenológico existenciais, como Carl Rogers e
F. Perls, não só não estavam sendo exatamente originais, como estavam em
muito boa companhia...
Começou lentamente, com a
qualitativa contribuição de C. G. Jung e de Otto Rank, e Sandor Ferenczi,
que entenderam que a psicoterapia não tinha a ver com o tecnicismo inerente a
um modelo objetivista, o modelo médico, em particular, que preconizava a
intervenção de um sujeito, o psicoterapeuta, sobre um objeto, paciente.
Evoluiu com as mudanças paradigmáticas dos psicoterapeutas fenomenológico
existenciais europeus, como M. Boss e L. Binswanger, e os psicoterapeutas
relacionais, que enfatizavam a imediaticidade da relação inter humana como
elemento fundamental do processo terapêutico. Até desaguar nos modelos peripatéticos
das abordagens de Carl Rogers e de Fritz Perls. Ambos preconizando, e buscando
criar condições para o, patético
mergulho ex-peri-mental do cliente, mergulho efetivamente peripatético,
como recurso fundamental do logos
metódico de seus modelos.
Concomitantemente, vale observar
que, a preconização de uma vivência peripatética
para o cliente, a partir dos vetores de sua atualidade e atualização
existenciais (e não de uma experiência moralista, científica, técnica ou
teorizante), como recurso fundamental de método psicoterapêutico e psicológico,
é acompanhada por igual prescrição de disposição metodológica para o
terapeuta. Uma disposição fenomenológico existencial experimental, peripathética, como disposição metodológica hábil a facilitar e
a potencializar a vivência e desdobramento da vivência do cliente.
Não podemos dizer que Carl Rogers
tivesse, ao tempo de sua morte, uma articulação teórica, ou consciência
plenas, do alcance de suas intuições peripatéticas. Mas podemos certamente
dizer que é ele que vai mais longe na preconização e na prática da vivência
peripatética como logos metódico
de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia.
Muito particularmente, em especial,
porque ninguém certamente, como Rogers, percebeu, e amplamente exercitou, de
um modo preponderantemente empírico, o poder pático,
o poder de propiciamento peripático
do grupo, como ambiência terapêutica, de trabalho psicológico e de
crescimento humano. A vivência do processo grupal, e de seus desdobramentos
vivenciais, como ambiência propícia para a vivência peripatética,
e suas implicações, como modo de ser no âmbito dialógico no qual o possível
é possível e se desdobra.
Se podemos dizer que Rogers não
tinha uma consciência plena, e, em particular, uma articulação teórica
cabal, do alcance de suas intuições, não podemos deixar de ressaltar que,
desde o início, suas intuições eram neste sentido distintas. O que se
configura muito claramente a partir do momento em que ele passa a falar de empatia – em-pathia. E
que Empatia, especificamente,
significa “dentro do pathos”.
Como formulador de uma abordagem de
psicologia e de psicoterapia, Rogers opera um verdadeiro striptease de concepção e método, em direção a uma preconização
da vivência pática como ambiência
e recurso psicoterapêutico. Preconização amplamente protagonizada
experimental e empiricamente por ele próprio, seja ao nível da vivência da
prática da psicoterapia individual, seja ao nível da vivência grupal.
Rogers vai abrindo mão, enquanto
psicólogo, enquanto psicoterapeuta, e enquanto facilitador de grupo -- e
libertando o cliente --, de uma concepção e de uma prática técnicas, de
uma concepção e de uma prática científicas, de uma concepção e de uma prática
moralistas, de uma concepção e de uma prática realistas. Como característica
de prática e de concepção de si próprio enquanto psicólogo,
psicoterapeuta, e enquanto facilitador de grupo.
Rogers vai abrindo mão de um
desempenho moralista, de um desempenho técnico, de um desempenho reflexivo,
de um desempenho científico, ou cientificamente assentado, e mesmo desempenho
prático, em direção ao privilegiamento de uma vivência páthica, de uma path-ética,
em-pathética, na verdade peripathética.
Nem teoria nem prática, na verdade
uma poiética.
Não é outro o reconhecimento que
ele faz do valor de saúde no exercício da liberdade
experiencial, da avaliação organísmica
da experiência. De resto já preconizadas por F. Nietzsche.
Rogers evoluiu decidida e
alegremente no sentido de um modelo que se esmerava em criar condições para
que o cliente pudesse dar-se aos influxos de sua experiência organísmica,
aos influxos dos poderes de sua atualização e avaliação organísmicas, no
âmbito de uma vivência páthica.
Isto é o que podemos entender como uma patética.
Peripathética.
O Rogers que encontramos na segunda
metade da década de setenta, até o final de sua vida, é um Rogers imerso no
privilegiamento da vivência peripatética no contexto da vivência grupal.
Evidentemente que existe em Rogers
uma consideração substancial sobre o método do terapeuta, sobre o seu modo
de ser e de proceder na criação das condições para que a vivência páthica do cliente possa ser privilegiada. E, na verdade, o que
Rogers propõe, no essencial, como modo de ser do terapeuta e do facilitador
de grupos, é o modo de ser da vivência páthica,
empáhtica. Rogers propõe, em essência,
um terapeuta, um facilitador de grupos, em-páticos. Que privilegiem se situar, nos melhores momentos de vivência
de seu logos metódico, dentro de
sua vivência páthica, como modo de
ser do terapeuta e do facilitador de grupo. Modo de ser este que pode
potencializar a vivência páthica
do cliente e dos membros do grupo, o modo próprio à atualização de seus
possíveis.
Patético,
Empatético, Peripatético, é o modo de ser privilegiado pelo
terapeuta e pelo facilitador de grupo que adota o modelo rogeriano, seguindo o
caráter e o estilo patético, Empatético
e peripatético de seu
preconizador.
Foi ousado, muito ousado, Carl
Rogers, abrindo mão dos sisudos referenciais da ciência de antanho, dos
poderes e pseudo poderes que esta faculta, dos poderes que permitem a postura
técnica, a postura teorizante, a postura moralista, e mesmo e em especial, os
valores da prática --, mesmo sem ver claramente o outro lado da travessia.
Hoje, podemos claramente entender
que a ciência, o científico, o técnico, o teórico, o prático, o
moralista, não dão conta da laboração ao nível do existencial, não dão
conta da existência, na projetatividade do possível e da possibilitação a
ela imanentes.
Numa imagem ainda insuficiente,
podemos dizer que a relação da ciência com a existência é análoga ao
pegar em pétalas com luvas de siderúrgica. O técnico constitui-se como uma
acentuação, ainda, da discrepância. Na medida em que se configura como
aplicação do conhecimento científico.
Rogers entendeu isto claramente. E,
ainda que não o tivesse articulado teoricamente, fez os movimentos decisivos
para definir e constituir a prática da psicologia, da psicoterapia, da
facilitação de grupos, no âmbito própria e especificamente da hermenêutica
fenomenológico existencial. Diante das insuficiências e inespecificidades da
ciência, da técnica e do moralismo, em relação à existência e ao
processo de sua atualização.
Limitações e insuficiências na
articulação teórica, ainda que carentes de superação, não impediram
Rogers, não obstante, de experimentar amplamente, ao nível da prática empírica,
o modo de privilegiamento do pathos,
a patética, peripatética, a ética, como modo de procedimento, de uma hermenêutica
fenomenológico existencial, no âmbito da psicologia, da psicoterapia e da
facilitação de grupos.
Em particular porque este modo de
procedimento é o modo próprio e hábil para que experimentalmente se possa
engendrar respostas para questões sobre “o que é que esta pessoa pode?”
“O que é que pode este grupo?” “O que podem os seus participantes?”
“O que posso eu...”
Na medida em que descobrimos e
redescobrimos que é ao modo de ser de uma
ex peri path ética que o
possível -- que nossa atualidade existencial reivindica, solicita, ou
desesperadamente demanda – que o possível é efetivamente possível, e se
desdobra. Possibilita-se.
Temos a descortinar-se diante de nós
os primórdios e toda uma história possível, teórica e prática, teórica e
empírica, poiético empírica, da
psicologia, da psicoterapia, e da facilitação de grupos, pertinente a um
paradigma peripatético, um
paradigma fenomenológico existencial hermenêutico.
E temos a saudar, efetivamente, um
grande e sincero pioneiro, com suas ousadas experimentações. O Dr. Carl R.
Rogers, um membro distinto da “confraria” dos patéticos,
empatéticos, peripatéticos...
Uma
das características mais marcantes e específicas do paradigma rogeriano, do
paradigma fenomenológico existencial, é a de que ele não é da esfera do prático,
ele não é uma prática.
A
característica do modo vivencial, fenomenológico existencial, que o
paradigma rogeriano preconiza, como modo privilegiado de vivência -- para o
cliente, e para o desempenho metodológico do terapeuta, ou psicólogo – se
descompromete com, e não privilegia, as características fundamentais do prático
e da prática.Tais como a ação
voluntária, a utilidade, a
hegemonia do princípio de sobrevivência como critério
(mas a superação). O vivencial, fenomenológico existencial, dialógico e
poiético, é um modo de sermos no qual dão-se, como vivência, a força do
possível, e da possibilitação, de sua atualização.
Diferentemente
do prático e da prática, as características peculiares do modo fenomenológico
existencial, poiético e dialógico, são a ação
espontânea (em contraposição com a ação voluntária, própria à prática),
a vivência fora do plano da dicotomização sujeito-objeto; e fora do modo de
sermos em que vigora a causalidade, em que vigoram os fins e os meios. São
características definidoras, ainda, do modo fenomenológico existencial de
sermos a vivência de superação,
característica e intrínseca à atualização de possibilidades (em
contraposição ao predomínio do princípio
de sobrevivência, à adaptação e
à conservação, característicos
do prático e da prática).
Esta
característica não prática do paradigma fenomenológico existencial
rogeriano talvez seja um pouco mais sutil, e até mais desconhecida. Uma vez
que é mais disseminada a compreensão de que a vivência do paradigma
rogeriano, não é da esfera do teórico e da teorização.
Automaticamente
assume-se, então, freqüentemente, que o paradigma rogeriano seria da esfera
da prática. Com o risco de confundi-lo, como freqüentemente ocorre,
de um modo articulado teoricamente, ou não, como um modelo pragmático.
Fenomenológico
existencial dialógico, poiético, caracteristicamente, o paradigma rogeriano,
assim, não é teorético, e teorizante
em sua vivência. A Fenomenologia e o Existencialismo privilegiam um modo de
vivência, um modo de “consciência”, que não é teórico, que se
caracteriza como “consciência” pré-reflexiva, pré-conceitual, pré-teórica.
É especificamente isto que define o empirismo
da Fenomenologia, e do existencialismo, da filosofia da vida. O fato de se
caracterizarem como abordagens da realidade na própria vivência fenomenal,
pré-reflexiva, pré teórica. E não através da mediação do teórico, da
teoria e do conceitual. Enquanto não teorizantes, não conceituais, as
abordagens fenomenológico existenciais serão sempre, como tais, empiristas.
Vale
observar, como observamos, que este empirismo
é, especificamente,
um empirismo fenomenológico existencial, e não o empirismo
objetivista, do objetivismo e do pragmatismo.
Vivencial,
portanto, o paradigma rogeriano não é, na sua vivência, um paradigma de
privilégio da experiência abstrativa, não é um paradigma de privilégio da
abstração, de privilégio da reflexão, da teorização.
Não
teorético, assim, o paradigma fenomenológico existencial rogeriano é
facilmente concebido, de modo algo automático, como sendo então da ordem da
prática, da ordem de um modo prático
de sermos.
É
fundamental para a compreensão do paradigma rogeriano, do paradigma fenomenológico
existencial, compreendermos que, da mesma forma que a sua vivência não é da
ordem da teorização, ela não é, igualmente, da ordem da prática.
Não é da ordem do prático, não
é da ordem de uma prática.
O
que pode parecer desconcertante, num primeiro momento. Mas, nada mais natural,
e específico ao paradigma fenomenológico existencial, ao paradigma rogeriano.
Certamente
que esta característica não estava muito clara nas primeiras fases do modelo
rogeriano, nem na sua teorização. Mas era muito clara nas fases finais,
sendo uma característica fundamental do modelo de trabalho com grupos ou do
modelo na relação diádica da última fase de Rogers e companheiros.
É fundamental assim observarmos que, em se tratando
do existencial, do fenomenológico existencial, e de uma concepção e
metodologia para a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial,
Rogers cabalmente entendeu que, se, por um lado, a questão não era da esfera do teórico -- já que, como vimos, o fenomenológico
existencial é um modo de vivência anterior, e heterogêneo com relação, ao
modo teorizante de sermos --, do ponto de vista fenomenológico existencial,
igualmente, a questão de sua concepção e método não era a questão de uma
prática. Ou seja, não era da esfera do
modo prático de sermos.
E
isto era e é fundamental, e fundador, em termos do paradigma rogeriano. Na
medida em que, como Rogers e a sua tradição entenderam, a existência, o
fenomenológico existencial, não são nem da ordem do teórico,
nem da ordem do prático, da ordem
de uma prática.
São,
mais especificamente, da ordem do poiético.
Não teorético, não prático,
em sua vivência, o paradigma rogeriano é eminente e especificamente poiético.
O
modo de sermos alternativo a uma teorética
não é, necessária e simplesmente, o modo prático de sermos, a prática.
Podemos ser, também, e de um modo ontologicamente mais fundamental, de modo
fenomenológico existencial poiético. O
modo de fenomenológico existencial de sermos, no qual, em especial e
especificamente, vivenciamos, agenciamos, potencializamos, e consumamos
possibilidades.
Intuitivamente,
isto estava muito claro para Rogers e seus colaboradores, ainda que não
tivessem articulado isto teórica e filosoficamente.
Assim,
se, por um lado, a vivência do paradigma rogeriano, seja em grupo ou na relação
diádica, não era, e não é, uma vivência de teorização, uma experiência
abstrativa (que abstrai o corpo, o vivido, os sentidos); se não era, e não
é, assim, uma experiência teorizante, reflexiva, igualmente, não é uma
experiência orientada para a prática, uma experiência de natureza prática. Que, igualmente, se distingue essencial e radicalmente do
paradigma fenomenológico existencial
poiético.
O
paradigma rogeriano não é prático, sua vivência não é da ordem da prática...
Diferente do modo de sermos abstrativo, teorizante, reflexivo; e diferente do
modo prático de sermos, a vivência do paradigma rogeriano é, assim, da
ordem do fenomenológico existencial poiético: o modo de sermos vivencial (estético)
no qual propriamente agenciamos, potencializamos, atualizamos e consumamos
possibilidades.
Assim é que o modo de vivência, caracteristicamente
privilegiado pelo paradigma rogeriano, não se situa no âmbito da prática.
Não se caracteriza como prática. E isto é um dos seus aspectos mais
peculiares e definidores, e um dos aspectos mais peculiares e definidores do
paradigma da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
Coube
a Carl Rogers, em particular na última fase de sua obra, a partir de 1974, a
radicalização de um paradigma fenomenológico existencial em psicologia e
psicoterapia. Tendo, em particular, o campo experimental de vivência do
modelo fenomenológico existencial de concepção e de facilitação de
grupos.
Ainda
que explícito (Rogers, Psicoterapia e Relações Humanas), Carl Rogers não
fazia grandes definições teóricas, epistemológicas, ou ontológicas, com
relação à natureza fenomenológico existencial de sua abordagem.
Isto
decorria certamente da postura tradicionalmente empirista
que ele compartilhava com o meio da cultura, da filosofia e da ciência norte
americanas. A questão qualitativamente crítica, não obstante, é a de que,
com a Fenomenologia da tradição de Brentano, à qual ele aderiu, o próprio
estatuto do empirismo se transforma.
O empirismo que Rogers praticava,
especificamente, o empirismo fenomenológico existencial. Enquanto que o empirismo
que vigorava na cultura norte americana era um empirismo objetivista.
O
empirismo é, em essência, uma abordagem da realidade na própria vivência
da realidade, sem a mediação da teoria. Radicalmente empirista, nesse
sentido, segundo a definição de Brentano, a Fenomenologia se distingue,
radicalmente, do empirismo objetivista, comum ao meio da cultura, da filosofia
e da ciência norte americanas, de que Rogers compartilhava. O empirismo
fenomenológico considera e privilegia o modo fenomenológico existencial
de sermos que se configura fora do modo de sermos no qual vigora a estrutura
da relação sujeito-objeto. E que, evidentemente, não assume, nem poderia
uma atitude de privilegiamento do objeto.
Rogers
e colaboradores profundamente entenderam e praticaram os diferenciais do empirismo
especificamente fenomenológico.
Ainda que não o tenham especificamente tematizado teoricamente, era evidente
a sua adesão a este. A falta de clareza com relação aos dois tipos de
empirismo foi, e é, motivo de vários tipos de confusão.
Decididamente,
não obstante, não era um empirismo de tipo objetivista o que praticavam
Rogers e colaboradores.
Daí
ser de grande interesse elucidarmos as características fundamentais do
paradigma fenomenológico existencial, em sua vivência empírica, para
compreendermos, vivenciarmos e desdobrarmos o paradigma rogeriano em
psicologia e psicoterapia. Em, particular, no que concerne a sua característica
fenomenológico existencial poiética. Característica que aparece plenamente
no último período da obra de Rogers, em especial na concepção, vivência e
metodologia do trabalho com grupos. Na verdade, aparece em toda a concepção
e metodologia da abordagem rogeriana, na medida em que o modelo de trabalho
com grupos exerce uma influência qualitativamente decisiva nas reformulações
concepção e metodologia do trabalho ao nível das relações diádicas, a
ponto de John Wood observar que só existia trabalho com grupos na abordagem
rogeriana, sendo, especificamente,.o trabalho diádico um “grupo de duas
pessoas”.
Coerentemente,
Carl Rogers adentrou, fenomenológico, existencial experimentalmente, a esfera
do poiético, como modo privilegiado
de vivência e como logos metódico de sua abordagem.
A
característica poiética do modo fenomenológico existencial de sermos
caracteriza-o como um modo natural e particular de sermos no qual, como vivência
fenomenal, se dá a possibilidade, e
o seu desdobramento, a sua atualização.
Peculiarmente,
dentre outras características, o modo fenomenológico existencial poiético de sermos, que permite a vivência do possível e de sua
atualização, dá-se na esfera da ação
espontânea; e não na esfera da ação voluntária, deliberada,
intencional, que caracteriza o prático.
Ou
seja, a ação, ao nível do poiético, da vivência da tensão projetativa do
possível, e da sua possibilitação, de sua ato-ação, é, especificamente,
espontânea, desproposital.
Por
outro lado, apesar de ser, assim, o domínio por excelência da vivência do
possível, e de sua atualização, a própria vivência poiética
não é da ordem dos úteis e da utilidade. De modo que, ainda que todos os úteis
e suas utilidades sejam produzidos poiéticamente, na vivência poiética, em
si, não vigora a utilidade e a utilização, e o valor delas; que são,
caracteristicamente da ordem da prática.
Esta
distinção entre teórico, prático e poiético já está presente em Aristóteles,
em sua distinção das três áreas de ciência.
O
termo poiese consagrou-se na
Fisiologia e na Medicina, e na Ontologia, quando falamos, por exemplo, em
Fisiologia, da hematopoiese,
designando o processo através do qual, nas células da medula dos ossos
largos do corpo, as células do sangue são geradas, criadas, produzidas. Poiese
tem, assim, este sentido, de geração, de engendramento, de produção.
Em
Ontologia podemos falar de ontopoiese.
Como o processo no qual, através do desdobramento vivencial do possível,
engendramos o próprio ser-no-mundo. O poiético
refere-se assim a este modo vivencial de sermos no qual o possível é
possível, e se atualiza, no engendramento de nosso ser-no-mundo, que é criação
e recriação, e resolução existenciais.
Carl
Rogers concentrou-se, progressivamente, na definição, e na criação, das
condições para a vivência fenomenológico existencial poiética, no
encontro diádico e no encontro grupal.
No
desenvolvimento experimental de seu paradigma de trabalho com grupos, estas
características vão sendo progressivamente radicalizadas, até a constituição,
em seu paradigma metodológico, de um privilégio soberano da vivência inter
humana fenomenológico existencial espontânea e -- fenomenológico
existencial -- experimental, poiética, como elemento central. Ao mesmo tempo
em que ele experimenta e busca definir as condições metodológicas de
propiciamento desta vivência no âmbito do processo grupal.
Como
Vera Cury apontou, as aprendizagens com a experimentação no desenvolvimento
do paradigma de trabalho grupal vai ter uma marcante influência na reelaboração
do modelo de trabalho inter individual.
É
importante observar que estas características do paradigma rogeriano não
negam a existência e a importância da própria da esfera da prática e do prático,
em sua dimensão própria. A importância do modo prático de ser. Apenas não
generalizam nem supervalorizam o valor do prático na condição do humano. Não
o elegem a condição de critério. Entendem o modo fenomenológico
existencial humano como nosso modo especificamente ontológico de sermos, o
modo especificamente existencial, no qual se dão a existência e o processo
de sua resolução; o possível, a possibilidade, e a sua atualização.
Mais
que isto, o paradigma fenomenológico existencial assume a perspectiva de que,
ainda que não sendo da ordem da prática, é ao nível de sua vivência
fenomenológico existencial poiética, dialógica, que constituímos a nós
mesmos, e ao mundo que nos diz respeito, aos úteis e a suas utilidades, como
atualização de possibilidades, como resolução existencial. Ou seja a
esfera da prática, de sua vitalização e revitalização, de sua criação e
recriação, depende fundamentalmente da criatividade vivencial do fenomenológico
existencial poiético.
De
modo que podemos pensar numa eficácia criativa, numa pragmática,
deste modo não pragmático e fenomenológico existencial poiético de sermos.
Era
eu o poeta estimulado pela filosofia,
não o filósofo interessado pela
poesia.
F. Pessoa.
É
muito importante atentar para o fato de que não se trata, no paradigma dialógico,
fenomenológico existencial poiético, empiricamente fenomenal, de um desapreço
pela teoria, pela teorização, e pelo modo teorizante e teorético de ser.
Empirista,
significa que o modo de ser privilegiado pelo paradigma fenomenológico
existencial será sempre não teorizante em sua vivência.
Mas,
ainda que o momento de sua vivência seja, especificamente, assim, não
teorizante, e privilegiativo do modo de sermos da vivência pré reflexiva, pré-teorizante,
pré-conceitual, a perspectiva fenomenológico existencial não desqualifica a
importância do teórico e da teorização, em seu momento próprio.
Apenas
busca colocar as coisas em seus devidos lugares: a vivência fenomenal é
ontologicamente prioritária, na medida em que especificamente ontológica. Ou seja, o nosso modo próprio de ser em que se
constitui o logos, o sentido, a
emergência fenomenal do sentido, que caracteriza o humano, como vivência do
possível e vivência de sua atualização. Modo poiético sermos de geração
de nosso ser-no-mundo.
O
teórico tem a sua diferença e
importância próprias, na perspectiva do paradigma fenomenológico -- ainda
que este seja especificamente empirista, não teorizante, em sua vivência.
Mas o momento da teoria e da teorização, anteriormente ou posteriormente ao
momento da vivência fenomenal, tem uma importância própria, e valorizada em
suas características e poderes próprios. O fenomenologista valoriza a boa
teoria e a boa teorização, e está motivado para estudar toda a teoria
efetivamente interessante sobre seus objetos de interesse. Ciente sempre de
que o momento hierarquicamente superior é o momento não teorizante, empírico,
da vivência fenomenal, dialógica e poiética.
Assim
é que o empirismo fenomenológico convive de um modo produtivo, sinérgico,
com a teoria e com a teorização interessantes.
Isto
é diferente da postura anti-teórica, e anti-teorizante, do empirismo objetivista,
radicalmente avesso à teoria e a teorização.
Cabe,
portanto, uma atenção cuidadosa na distinção, neste sentido, e no sentido
de suas peculiaridades e diferenças, entre o empirismo
fenomenológico (que se situa e privilegia um modo de vivência que
está fora do modo de ser da relação sujeito objeto; e, muito mais, fora de
um modo de ser que, no âmbito da relação sujeito objeto, privilegia o pólo
objeto desta relação), e o empirismo objetivista. Empirismo objetivista que não só
privilegia o modo de sermos da relação sujeito-objeto, como privilegia o pólo
objeto desta relação, e a sua descrição, supostamente objetiva. Ao tempo
em que rejeita e afasta-se. de qualquer forma de teoria ou de teorização.
O
que não podemos prescindir, é de que, fenomenológico existencial empirista,
ainda que conviva com o interesse da teoria e da teorização, fora de seus
momentos específicos, o momento da vivência fenomenológico existencial não
é teorizante. Sua característica é a de privilegiar no momento de sua vivência
o modo de sermos da “consciência” não teorizante, não reflexiva, não
conceitual, pré-conceitual, pré-reflexiva, pré-teorizante.
O modo teorético
de sermos caracteriza-se pela representação, ou seja a re-apresentação, de algo que se apresenta
enquanto vivência fenomenal. E que, na representação, demanda, própria e
especificamente, o afastamento deste modo de ser da vivência fenomenal. No
seu sentido mais essencial teoria significa
visão de um espetáculo.
Desta forma, a teoria e a teorização constituem-se,
especificamente, como afastamento do modo de ser da vivência, e articula relações
explicativas de natureza objetiva.
Alguns
elementos, assim, caracterizam o modo teorético de sermos. Dentre eles:
1.
O fato de que, especificamente, o modo teorizante de sermos se
configura como um afastamento para com o modo de ser encarnado
do vivido fenomenológico existencial, dialógico e poiético.
O
modo teorético de sermos é um modo de ser abstrativo, contemplativo. No qual
o vivido, o corpo e os sentidos, ou seja, o especificamente fenomenológico e
existencial – e, vale dizer, o especificamente poiético --, estão
especificamente abstraídos, em privilégio do abstrato
do conceito, e do teórico.
Desnecessário
mencionar que o modo de ser fenomenológico existencial é especificamente encarnado,
pontual e momentaneamente vivido, na vivência imediata de corpo e sentidos.
Intuitivo, no sentido fenomenológico existencial, não comporta, na
pontualidade de sua vivência, própria a abstração, a mediação
conceitual.
2.
Uma distinção essencial e definidora é a de que o modo teorético de
sermos funda-se na explicação.
O
vivido fenomenológico existencial configura-se como, e especificamente é, compreensão.
O
vivido fenomenológico existencial constitui-se, em especial, como vivência
compreensiva, e desdobramento de possibilidade. Desdobramento este que se
constitui como a interpretação, interpretação
num sentido especificamente fenomenológico existencial. O que o constitui
como um modo poiético de sermos.
3.
O modo teorético de sermos vigora como articulação de relações explicativas de causa e efeito. Enquanto que o modo de
ser fenomenológico existencial, além de dar-se, primária e originariamente,
como vivência compreensiva, dá-se
como vivência pré-compreensiva de possibilidade, como desdobramento,
compreensão e consumação de possibilidade. Processo do qual se exclui não
só o modo de ser da explicação, como a articulação explicativa de causas
e efeitos.
4.
O modo de ser teorético se constitui na experienciação da dicotomização
sujeito-objeto. Enquanto que o modo de ser fenomenológico
existencial dialógico e poiético, ser-no-mundo, não comporta esta
dicotomização sujeito-objeto, ainda que se constitua, na sua momentaneidade,
na tensão do âmbito dialógico da relação eu-tu. (BUBER,)
A
partir desta constatação de que o modelo fenomenológico existencial
rogeriano não é da ordem da prática, da mesma forma que não é da ordem do
teorético, é interessante observar e compreender algumas características
que constituem o paradigma da prática, o prático. Compreender as características
fundamentais do paradigma teorético. E as características, e diferenciais,
com relação a estes dois, do paradigma fenomenológico existencial, dialógico
e poiético.
Algumas
características sobressaem no paradigma prático:
1.
O valor prioritário do útil e da utilidade;
2.
O valor da utilidade, segundo o princípio de sobrevivência;
3.
O prático, a prática, tem
com referência o valor da utilidade em termos de adaptação e do princípio
de sobrevivência;
4.
A prática caracteriza-se pela ação voluntária deliberada.
5.
A prática se dá no âmbito do modo de sermos da relação
sujeito-objeto.
6.
A prática se dá no âmbito do modo de sermos das relações de causa
e efeito.
A prática
exige o caráter voluntário e deliberado
da “ação”. E o critério de sua avaliação é o da utilidade. Em
particular, da utilidade para a adaptação e para a sobrevivência. Uma
característica fundamental do paradigma fenomenológico existencial rogeriano
é a da entrega à espontaneidade, a entrega à ação
espontânea do vivido; ou seja, a entrega à espontaneidade generativa (poiética)
do vivido, com sua característica espontaneidade desproposital de vivência
do desdobramento da força do possível, e da performação de sua atualização.
De modo que no modo privilegiado por sua vivência, o que vigora é o modo de
ser da ação espontânea, e não o modo de ser da ação voluntária e
intencional.
Na vivência existencial, não vigoram a utilidade e a
utilização, características da esfera da prática. E a prioridade de sua
força consuma-se na superação, e
não, simplesmente, no primado da sobrevivência, da manutenção e da adaptação.
As características do vivencial fenomenológico
existencial, privilegiado pelo paradigma rogeriano, não se enquadram portanto
no âmbito do prático, e da prática. Mas, especificamente, no âmbito do poiético.
O prático
tem sempre o sentido de uma
atividade voluntária que modifica o ambiente, tendo como critério o
primado da utilidade, em particular a utilidade para a sobrevivência. Na esfera do modo prático
de ser vigoram os úteis e as utilidades;
e a efetividade da causalidade e dos meios e dos fins.
Sumariando características do nosso modo fenomenológico
existencial poiético e dialógico de sermos, cabe dizer, em primeiro lugar,
que é este
o nosso modo onto-lógico de sermos, para uma perspectiva fenomenológico
existencial.
Em essência (que é existência), somos sentido (logos), e ação. Ontologicamente somos logos (sentido); ontologicamente somos onto-lógicos. Sentido e ação, como atualização sentida, que se dá
na vivência do possível, que é própria ao modo fenomenológico existencial
dialógico e poiético de sermos.
O sentido, o logos, que continuamente nos constitui,
se nos dá como pré-compreensão da força de possibilidade, como compreensão,
e desdobramento desta força (interpretação fenomenológico existencial) em
criação; ação propriamente dita.
Este modo de sermos é um modo que, ainda que comporte
a dualização eu-tu, não comporta a dicotomização sujeito- objeto, própria
de nosso modo acontecido, realizado, ôntico, de sermos (Buber,).
Neste modo de sermos, a causalidade não vigora. Ele
é imediatamente vivido e vivência. Presença que se desdobra, diria Buber.
Imediato, não comporta a mediação dos meios e dos
fins. Seja dos meios e dos fins teóricos, seja a dos meios e dos fins práticos.
Ao mesmo tempo, que nada tem do automatismo comportamental.
O modo fenomenológico existencial, enquanto modo de
incontornável atualização de possibilidade, é especificamente o modo de
dar-se da ação. Mas em seu âmbito, a ação como atualização de força de
possibilidade, em sua incerteza, tentatividade, e riscos próprios
(experimentação), não é, especificamente, a ação voluntária, deliberada
e intencional, característica da prática. A ação, no âmbito da vivência
fenomenológico existencial, é, especifica e propriamente, a ação espontânea
e experimental (no sentido
fenomenológico existencial). Ou seja a ação propriamente desproposital,
tendencialmente desmotivada, ainda que intensamente estésica e estética, .atualizante
de possibilidades, criativa.
A ação assim vivida é eminentemente inconveniente. Ou seja, no sentido de que não tem “convênio”,
não tem contrato, com o real, com a realidade e com acontecido. Ela não
serve à adaptação, à conservação, à sobrevivência, uma vez que, em sua
inconveniência, ela é a própria
força da superação e de reordenamento.
Assim, enquanto a prática, por exemplo, está
fortemente fundada na utilidade, pautada pelo valor desta para a adaptação e
sobrevivência, o fenomenológico existencial poiético atualiza sempre a
superação daquilo que a prática busca conservar.
Caracteristicamente, pois, o paradigma rogeriano não
se define na esfera teórica, nem na esfera da prática. Ou seja, em sua essência
não se trata do investimento em uma atividade de teorização, por parte do
cliente ou do terapeuta, do facilitador; de um empreendimento em que o teórico
e a teorização sejam relevantes. Da mesma forma, não se trata de uma
atividade prática. Ou seja, naquilo que lhe é mais essencial, o paradigma
rogeriano em sua vivência não guarda o caráter de valorização do modo de
sermos que permite útil e da utilidade, ou o caráter de ação voluntária
que caracterizam a prática. Muito menos está orientado pelos princípios da
adaptação, e da sobrevivência.
O modo de vivência fenomenal que lhe é próprio, não
se dá no eixo da relação de causa e efeito, nem no âmbito da realidade da
dicotomia sujeito-objeto.
O que lhe interessa é a espontaneidade generativa do
modo de sermos da vivência do possível, e de sua possibilitação, como
superação. Que não é da esfera do modo de sermos que é
caracteristicamente da ordem da prática.
A vivência fenomenológico existencial não é da
ordem das relações sujeito-objeto, ou da ordem das relações de causa e
efeito; não é da ordem do útil e da utilidade, e, ainda que de âmbito
eminentemente ativo, a ação em seu âmbito é da ordem da ação espontânea,
caracteristicamente desproposital.
Em sua atividade, o paradigma rogeriano centra-se,
assim, não na contemplação do
espetáculo do possível acontecido, objetificado na abstração da vivência
física de sua atualização. Nem num esforço e desempenho práticos.
Centra-se, sim, na própria vivência não dicotômica
(dicotomia sujeito-objeto) e integrada; vivência que não se situa no âmbito
da causalidade das causas e dos efeitos, dos fins e dos meios (Buber); vivência
que se centra na performação, do possível e de sua possibilitação, em
per-feito; de sua atualização -- como atualização meramente compreensiva,
ou como atualização objetivativa.
É a vivência empática,
(em)patética, da ação -- como
vivência do possível, e de sua atualização -- que caracteriza o paradigma
rogeriano. Vivência, portanto, que não é nem da ordem do teórico, nem da
ordem do prático. Especificamente vivencial, e poiética. Situando-se fora
das pretensões, dos pré requisitos, da teorização, e da prática.
Longe de dizermos, não obstante, que este paradigma não
tem uma eficácia específica. O que enfatizamos é que a sua eficácia é
mais básica, mais radical, e abrangente, do que a eficácia do teórico, do
que a eficácia do prático, e do que a eficácia do comportamental, ao nível
do existencial. Ou seja: ao nível da constituição, do próprio
engendramento, do sujeito, e do mundo. Engendramentos poiéticos,
como vividas atualizações despropositativas de possibilidades.
Diferente-mente da prática, ou mesmo de qualquer pragmática da “ação”
voluntária, e do princípio de sobrevivência como prioridade criterial.
O âmbito do vivencial é, especificamente, o âmbito
propriamente da ação. Ação que
engendra o possível, o novo, e cria. Diferentemente da teorização, da prática,
ou do comportamental.
Com isto, mesmo que a teorização rogeriana discrepe,
eventualmente, com relação a um paradigma fenomenológico existencial -–
em particular com relação a uma concepção biologizante da tendência
atualizante, e em termos de uma concepção pobremente fenomenológica de compreensão -–, a vivência experimental de Rogers evolui a passos
largos, e firmes, no sentido de uma metodologia empírica e experimental de
uma abordagem fenomenológico existencial de psicoterapia e de psicologia.
E, diga-se de passagem, exceção feita a Fritz Perls,
ninguém foi fenomenológico existencial experimentalmente tão longe,
quantitativa e qualitativamente, quanto Rogers, neste sentido.
5.
A particularidade da psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial
Acredito
que para entendermos e adequadamente avaliarmos o caráter e a contribuição
fenomenológico existencial do paradigma de Carl Rogers, precisamos de um esboço,
mesmo que tentativo, naturalmente, de características definidoras de uma
abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia.
É
interessante observar que, nem Husserl, nem Heidegger, nem a fenomenologia da
Psicologia da Gestalt (ainda que esta tenha uma contribuição importante, através
das idéias de Max Wertheimer, e de Kurt Goldstein), é em Franz
Brentano que vamos encontrar as raízes seminais da psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial, tais como elas aparecem em Rogers (e
em Perls). O Brentano em cujas concepções e métodos, inclusive, vamos
encontrar raízes seminais das concepções das fenomenologias de Husserl, de
Heidegger, da fenomenologia da Psicologia da Gestalt, das idéias de Max
Wertheimer, e de Kurt Goldstein.
Em
particular, e muito especialmente, no seu empirismo
especificamente fenomenológico, e no seu método
aporético, na sua apor-ética,
(derivados estes de Aristóteles).
Naturalmente,
não podemos esquecer, igualmente, as importantes raízes da PPFE
(psicologia e psicoterapias fenomenológico
existencial) na tradição hermenêutica
compreensiva da filosofia da vida de
Dilthey. E, daí, o seu prolongamento na hermenêutica
existencial de Heidegger; que, ainda que não tenha sido uma influência
direta sobre Rogers ou Perls (indireta, sim, via Medard Boss e Ludwig Binswanger),
ajuda substancialmente a esclarecer o caráter interpretativo -- hermenêutico,
no sentido compreensivo, fenomenológico
existencial, e poiético -- da concepção
e método da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
Não
podemos esquecer, naturalmente, a influência de F. Nietzsche como uma raiz
seminal. A influência monumental de sua obra sobre o pensamento ocidental, e,
em particular, sobre a intelectualidade e o meio artístico e intelectual alemão
e europeu, desde os anos do Século XX anteriores à segunda guerra mundial, e
que é o caldo de cultura no qual vicejam o a fenomenologia, o existencialismo,
e a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Em especial, a sua
influência na constituição do movimento artístico e cultural do Expressionismo,
que tanto determinou e influenciou o desenvolvimento da concepção e método da
PPFE (psicologia e psicoterapia
fenomenológico existenciais).
Nietzsche
também chega, de um modo seminal, a estas abordagens, dentre outras influências,
através das idéias psicoterapêuticas de Otto Rank, e das concepções filosóficas
fenomenológico existenciais (...) de Martin Buber. Nietzsche exerceu marcante
influência no desenvolvimento das idéias de ambos.
Nietzsche
contribui, decisivamente, com o seu explícito e enfático apartamento do pessimismo
que marca a filosofia de Schopenhauer (pessimismo que marcará seminalmente
a concepção da Psicanálise). E, através de sua compreensão de que a alegria
trágica é a força maior da existência.
Especialmente,
Nietzsche contribuirá com a sua radical postura de afirmação da vida. Com a
sua reafirmação do sentido do trágico (a vida merece ser radicalmente afirmada, mesmo quando ela é finitude, e
mesmo quando ela é sofrimento...), condição de potencialização do retorno
da vida, condição da alegria, sentido
do trágico recuperado aos gregos pré-socráticos.
Igualmente,
Nietzsche contribuirá com o perspectivismo
experimental de sua concepção do mundo, da verdade, da existência. Com a
sua particular concepção de experimentação
(radicalmente diferente da concepção científica de experimentação),
num sentido especificamente fenomenológico existencial, e que caracteriza a sua
Gaya Scienza, e que decisivamente
marcará as concepções rogerianas
(e de Perls).
As
idéias, concepções e posturas de Buber, elas próprias, tiveram uma enorme
influência no desenvolvimento da concepção e método das PPFE.
Tiveram uma grande influência sobre as concepções e método de Rogers, e
de Perls. Em particular o esclarecimento de Buber acerca da dimensão ontológica
do eu-tu, e de sua relevância para a geração e regeneração da existência
humana; na reversão do decurso das coisas, do decurso do mundo e da vida
coisificados, da fatalidade, e processo substrato da criatividade.
Podemos,
assim, sumariar, tentativa e sucintamente (comentamos em seguida), alguns traços
distintivos, e fundamentais, das psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais, extensi-vamente experimentados por Carl Rogers (e por Perls), na
vivência e elaboração de suas concepções e métodos.
Comentamos a seguir alguns desses aspectos, em
termos de:
1.
Ontologia;
2.
Epistemologia;
3.
Concepção da existência;
4.
Concepção da abordagem;
5.
Metodologia
Não
pretendo aqui discorrer filosoficamente sobre Ontologias, ou ser exaustivo
acerca da questão ontológica das PPFE
(ainda que esta seja muito importante). Mesmo
porque isto estaria fora de minhas condições. O que quero, antes, é apontar
distinções fundamentais, e direções.
O
que sobressai, num primeiro momento, é, seguindo a Nietzsche e a Brentano, uma
ruptura e diferenciação radicais com relação à perspectiva platônica de
cisão do mundo em um “mundo das essências” e um “mundo sensível”. O
mundo das essências privativo dos desuses e das essências; o mundo sensível,
simulacro do mundo das essências em todos os seus aspectos, repetição
piorada, pertinente à sensibilidade humana.
Para
Nietzsche e para Brentano, a cisão não faz sentido. O mundo se dá
exclusivamente na sensibilidade, como fenômeno, como vivência.
Esta
perspectiva é uma base radical da Fenomenologia da tradição de Brentano, de
Nietzsche, e das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
Dada
esta perspectiva ontológica da realidade, constituída sempre e
exclusivamente como fenômeno -- perspectiva própria à Fenomenologia da
tradição de Brentano, e à filosofia
da vida de Nietzsche --, não podemos nos enganar com o existência dos
termos “fenômeno”, e “fenomenologia” na terminologia das filosofias
de Kant, de Hegel e de Schopenhauer.
Parafraseando
Deleuze, não existe compromisso possível entre, de um lado, a Fenomenologia
da tradição de Brentano e a filosofia da vida de Nietzsche, e, do outro, as
filosofias de Kant, Hegel e Schopenhauer.
Pelo
menos no que concerne à perspectiva ontológica básica do mundo como cindido
em duas dimensões. Um “mundo fenomenal”, da ordem da consciência e do
sensível, e um “mundo essencial”. Este designado por Kant como “numeno”,
“mundo em si”, “coisa em si”; designado por Hegel de “espírito
universal”; ou de “vontade” por Schopenhauer. Em contraposição sempre
a uma dimensão fenomenal, consciente, e inacessível ao mundo essencial.
A
Fenomenologia, tal como a designamos modernamente, e tal como ela se constitui
como raiz das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e
psicoterapia, é a Fenomenologia da tradição de Brentano. Que rompendo com a
perspectiva desta cisão do mundo em duas dimensões, dá origem às
fenomenologias de Husserl, de Heidegger, de Sartre, de M. Ponty, a
fenomenologia da psicologia da Gestalt, e as psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais.
Esta
precisão é muito importante. Na medida em que as filosofias de Schopenhauer,
de Kant e de Hegel têm uma influência básica na constituição de um outro
paradigma de psicologia e de psicoterapia, o paradigma psicanalítico,
radicalmente diverso, neste sentido, do paradigma fenomenológico existencial.
Ao
nível de sua vivência, o paradigma fenomenológico existencial não é um
paradigma epistemológico, ou seja, um paradigma que privilegie o
conhecimento, no sentido da epistemologia formal.
Não
que despreze o conhecimento epistemológico, mas a sua vivência característica
é mais de natureza de um desconhecimento, de uma embriagues; do que da ordem do conhecimento
formal, da ordem da lucidez. Como dizia uma colega de Teresina, mais da ordem
de uma tomada de inconsciência, do que da ordem da tomada de consciência.
No
vivido fenomenológico existencial toleramos, e cúmplice e amigavelmente
acolhemos, o confusional organísmico, no qual a consciência lúcida se
dissolve. Relativizamos o conhecimento e a consciência lúcidos. Em privilégio
da originalidade da vivência fenomenal, pré-conceitual, dionisíaca, em suas
intensidades corpoativas.
Naturalmente
que a predominância de cada um dos modos de ser é tendencial. Hora
predominando a consciência lúcida, ora a consciência embriagada da vivência
corpoativa. Em proporções diversas de mistura a cada momento.
O
importante é que, tendencialmente, não predomina, na vivência, o
conhecimento lúcido, o conhecimento abstrato, conceitual, teórico, teor-ético
e teorizante. De modo que a vivência não se interessa pelo conhecimento, mas
mais por este desconhecimento corpoativo, que, ainda que conhecimento, é índice
de sua reversão em direção ao organísmico, ao desconhecer mental e
mentalizante.
Uma
outra questão é a de que o existencial, o fenomenológico existencial, não
se dá na dimensão das relações sujeito-objeto. Perspectiva fundamental ao
empreendimento epistemológico, como ato de conhecer de um sujeito.
Como
se constitui, então, a epistemologia, a filosofia do conhecimento, deste modo
de desconhecer, deste modo de ser que é um
drible de corpo na consciência, e na vontade de saber, é uma questão.
Que interessa sobretudo aos científicos.
É
importante precatarmo-nos de que, na vivência fenomenal, não estamos na
ordem da ciência, mas na ordem da hermenêutica. Base sobre a qual uma ciência
pode se assentar, e que, como tal, subordina o empreendimento científico.
A
vivência das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e de
psicoterapia não é científica. As abordagens fenomenológico existenciais
de psicologia e de psicoterapia não são científicas, não são da ordem da
ciência.
E,
se não o são, não é por serem menos – nem mais. Mas apenas em função
do fato de que a existência, o existencial e sua resolução, não são da
ordem do científico e do epistemológico. A
existência só se resolve existencialmente (M. Heidegger).
E a psicologia e a psicoterapia laboram, em essência, ao nível do
existencial. Que não é acessível ao científico, nem ao tecnológico.
Uma
ciência humana de uma humanidade não científica? É um desafio para quem se
interessa.
Uma
arte da ato-ação no âmbito do inter humano? É possível, e interessante.
Por isso uma abordagem fenomenológico existencial vincula-se mais à
perspectiva da arte do que à epistemologia da vontade de saber da ciência.
Apesar
de não teórica a vivência, a teoria sobre ela é sempre possível, e sempre
decorrente. Em particular, como teoria hermenêutica, e não exatamente como
teoria científica, e epistemológica.
O
Expressionismo foi profundamente
influenciado pela filosofia da vida de
Nietzsche, e desenvolve-se no rico “caldo” de cultura que dá origem à
Fenomenologia e ao Existencialismo, e às PPFE.
O
Humanismo, de filósofos do Século
XIX, como Kierkegaard, Nietzsche, Brentano, que, para além de Hegel, buscavam
resgatar a perspectiva da experiência humana como referência – resgatando
as perspectivas de filosofias do Renascimento, e de filósofos gregos --,
teve, igualmente uma influência fundamental.
Subjaz
ao Expressionismo a consciência de que o humano não é da restrição
à ordem do real. Como Heidegger viria a colocar, posteriormente, em sua
fenomenologia existencial: a
possibilidade é mais importante do que a realidade.
Os
expressionistas, nas difíceis condições que determinaram a emergência de
seu estilo, intuíam isto, de um modo forte. E entendiam que não é no modo
da apolínea consciência lúcida, não é o modo da consciência teórica, da
consciência reflexiva e conceitual, que nos permitimos a experiência
fenomenal do vivido, a experiência da potência do possível, da
possibilidade, e de seu desdobramento expressivo, ontologicamente definidor do
humano.
O
potente, possível e o seu desdobramento e atualização, ato-ação, ação,
vivencia-se, apenas, experiencialmente, fenomenológico existencial-mente,
vivencialmente.
E
a primeira condição para permitirmo-nos a sua vivência, e a vivência
fenomenal de seus desdobramentos, é o destronamento da hegemonia da
realidade.
A
realidade, como objetividade, o acontecido, a possibilidade realizada, e, por
isso, despossibilitada, despossuída, coisificada.
A
potência do possível, da possibilidade, impregna a vivência fenomenológico
existencial.
A
potente possibilidade não é da ordem do real. Meramente porque o possível
não é real, não tem o
estatuto da realidade, realizada. Condição
maravilhosamente colocada na frase de uma mulher, personagem de prosa de
Fernando Pessoa, sobre o momento de um encontro com duas amigas: Estávamos
cheias de sermos nós. E isso porque sabíamos, com toda a carne de nossa carne, que não éramos uma realidade.
Isto
os Expressionistas sabiam
de um modo claro.
De
modo que se propuseram em seu estilo a uma vigorosa relativização do princípio
de realidade, do positivismo, e da própria realidade.
Desenvolveram,
assim, um estilo performático fenomenológico existencial, dramático, de produção artística.
No qual o artista concentrava-se na vivência fenomenal intuitiva de sua
inspiração, buscando concentrá-la. Como uma mola contraída, prestes a
soltar-se em distensão. Ou, como a musculatura contraída de uma pantera,
prestes ao bote. Configurando-se performance
expressiva -- na atividade da produção artística -- como ex-pressão
corpoativa imediata desta concentração. Toda ela vivenciada fenomenológico
existencialmente, ação, atualização de possibilidade. Insubmissa ao real e
à realidade. Ao princípio de realidade, e ao positivismo do real.
A
postura expressionista permitiu a expressividade cultural e artística, em
particular em, tempos de terríveis opressões, e exerceu uma poderosa influência
não só na arte, como na cultura de um modo geral.
Em
especial, exerceu uma poderosa influência nas concepções e metodologias das
PPFE.
Fritz
Perls sofreu uma influência direta, na medida em que vivenciou, desde a
adolescência, os experimentos de teatro expressionista de Max Reinhardt, na
Alemanha.
A
influência das concepções. metodologia e estilo do Expressionismo
espalhou-se por todo o meio artístico e cultural da Europa e dos EUA, nos
vários campos das artes. Aparecendo integrado nas concepções e metodologias
das PPFE a partir dos anos 50. Na
medida que, em particular, a questão destas era a da expressividade, a da vivência
do vivido fenomenal, como fonte ontológica do humano, como fonte ontológica
de geração e de regeneração, de potencialização, de atualização de
possibilidades, e de criatividade existencial.
Tomamos
o termo Existencialismo aqui no seu sentido mais genérico, que envolve a
filosofia da existenz, oriunda nas
filosofias de S. Kierkegaard, e de F. Nietzsche, e que originam o
existencialismo moderno, enquanto movimento filosófico, artístico e
cultural; e a literatura existencialista,
que aparece em particular em obras como a de Albert Camus, e de J-P Sartre.
É
interessante observar que, mesmo ao nível do existencialismo, precisamos
distinguir entre as várias raízes, e as particularidades que elas
determinam.
Assim,
é interessante observar que a perspectiva de raiz do existencialismo nas PPFE,
tais como elas se apresentam, em seu caráter de hermenêuticas fenomenológico
existenciais, nas abordagens de Rogers, e de Perls, provém de um modo
importante da filosofia da vida de
F. Nietzsche.
Ainda
que tenham uma contribuição importante das idéias e posturas de S.
Kierkegaard, é a particularidade da filosofia
da vida de F. Nietzsche que constitui aspectos definidores da
especificidade de sua concepção e metodologia.
Interessante,
ainda, é notar que, na juventude Nietzsche aproximou-se da filosofia de
Schopenhauer. Atraía-o sobretudo a possibilidade de que a filosofia de
Schopenhauer resgatasse o sentido do trágico
dos gregos pré-socráticos.
Nietzsche
constatou que, de fato, a filosofia de Schopenhauer nada tinha de trágico, e
apenas encharcava-se na perspectiva de uma soturna orgia de pessimismo.
Desde
então, Nietzsche afasta-se da filosofia de Schopenhauer, no sentido de
constituir a sua filosofia como um resgate da perspectiva trágica dos gregos
pré-socráticos. Filosofia radicalmente afirmativa da vida, ainda que com o
reconhecimento de que vida, finitude e sofrimento, necessariamente se
imbricam. E de que a finitude e o sofrimento não são motivos para difamar e
negar a vida.
A
afirmação da vida, reconhecendo o caráter intrínseco da finitude e do
sofrimento, é o que caracteriza o sentido
do trágico nietzscheano. A afirmação
trágica da vida, mesmo quando da finitude e do sofrimento, é condição
de criação, e de potencialização da vida. De potencialização das forças
de seu retorno – retorno que lhe é característico e intrínseco --, condição
de promoção de uma super abundâncias de forças de vida, da criatividade e
da alegria.
Em
Nietzsche, portanto, o trágico é alegre; é condição da alegria, e da criatividade...
De
modo que não há como confundir, o existencialismo matizado pelo pessimismo
schopenhaueriano, com o existencialismo alegre, trágico e potente radicado na
filosofia de Nietzsche. Se não podemos dizer que a filosofia de Nietzsche é
uma filosofia otimista – pessimismo e otimismo, uma questão de néscios, dizia ele –,
podemos dizer que a postura de afirmação da vida a ela característica,
afirmação da vida mesmo quando do mais
negro sofrimento, é condição da alegria. De promoção de uma
superabundância de forças de vida, da potência do retorno da vida, da
criatividade, e da alegria.
De
modo que não podemos pressupor uma perspectiva pessimista, de viés
schopenhaeriano, no existencialismo -- na verdade de raiz nietzscheana -- que
dá origem às PPFE. Nem Nietzsche, nem o existencialismo de raiz nietzscheana, nem
as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais devem a
Shopenhauer neste sentido. Como a Psicanálise, por exemplo.
Humanistas,
Kierkegaard e
Nietzsche compartilham a aversão ao universalismo e ao idealismo da filosofia
de Hegel. E, em particular, compartilham a aversão à desqualificação da
subjetividade e do indivíduo, que é própria ao hegelianismo. Nietzsche
acrescentará a sua aversão à valorização das paixões tristes. Rejeitam,
assim o hegelianismo, e buscam constituir as suas filosofias como
perspectivas, humanistas, que têm como referência a experiência humana, a existência
e o existencial.
Kierkegaard
postou-se, não obstante, numa perspectiva visceralmente religiosa,
constituindo um existencialismo religioso. Podemos dizer que se ele rejeita e
livra-se de Hegel, não livrar-se-á de Sócrates e de Platão. Alvos maiores,
também, da crítica Nietzscheana. Junto com Hegel, e com o cristianismo. As
três mortes do sentido do trágico, segundo ele.
De
modo que, sem negar a importância e a contribuição da filosofia de
Kierkegaard, parece interessante entender que ela é limitada em termos da
constituição do sentido das psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais. Histórica e filosoficamente elas devem, em essência, à
filosofia de Nietzsche a inspiração de suas peculiaridades fundamentais. Em
especial aos poderes de geração e regeneração da existência, de criação
e libertação, de sua perspectiva radical de afirmação da vida. O sim
dionisíaco.
Neste
sentido, da inspiração da concepção e do logos metódico das PPFE,
é interessante constatar a observação nietzscheana de que A existência não tem ‘dentro’. Todo padrão de interiorização é
doença (oriunda esta da repressão da potência, do possível,
possibilidade ex-pressiva, intrínseca ao existencial).
A
existência é (como devir) a partir de onde e quando ela assim é como tal. (Caminho
por onde há espaço, meu tempo é quando... – Vinícius). Sua ventura
(de vento) é a vivida ventura soprada perenemente pela potência do possível,
dada no vivencial, no fenomenal.
De
modo que existencialismo, assim entendido, é a afirmação desta ventura. Vida
à ventura, aventura. Como ousadia, audácia, de afirmação da potência
do possível, dado na vivencia eksistencial.
É a vida da ousadia e da audácia da aventura. Da experimentação, neste
sentido, do estilo experimental de
afirmação de uma vida que experimenta (Nietzsche).
As
psicologia e psicoterapias fenomenológico existenciais partem de uma constatação
e reconhecimento desta perspectiva existencial. E buscam compreender, definir
e constituir, em suas concepções e metodologia, em seus estilos, condições
para este modo de vivência, no contexto do trabalho psicológico e psicoterapêutico.
Vivência aventuresca, audaciosa, do estilo experimental de uma vida que
experimenta, e cria, e potencializa-se, na interpretação de seus possíveis.
Ação,
atualização, condições para a atualização de possibilidades inerentes à
vivência. Seja atualização ao nível meramente
compreensivo da vivência do cliente, seja ao nível compreensivo-objetivativo
de sua experiência, na dialógica inter-humana da relação com o terapeuta
ou psicólogo, e na habitualidade de sua vida. O resgate da habitualidade de
um estilo ousado e audacioso, aventuresco, com relação ao vivido, à vivência
da potência do possível, e à atualização do possível no vivido
existencial entranhado.
Fundamental
observar que, não raro, este possível é sofrimento, é finitude. Não há
compromisso entre o possível e o agradável, entre o vivido e o sucesso. No
meio da noite, Nietzsche, em seu amor
fati, é o farol: Eu abençôo todo
sofrimento... Nada do que é necessário me ofende... O que não mata,
fortalece...”“.
O
que Nietzsche indica é que a afirmação integral da vida -- mesmo
a afirmação do mais negro sofrimento -- se não abole a possibilidade do
sofrimento, e da finitude – afinal, eles são intrínseco à existência, podemos sofrer de uma super abundância de forças de vida, ou de uma
falta de forças de vida... – se a afirmação integral da vida não
abole o sofrimento e a finitude, potencializa o retorno das forças da vida,
como uma super abundância de forças de vida, como criatividade, e alegria.
Em
linhas gerais, a concepção e o método das psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais assumem uma perspectiva existencialista, tal como
estamos descrevendo. Em particular, elas se esmeram em criar condições para
a oportunidade (kairós) de uma vivência
existencial, no âmbito da sessão e do processo dito psicoterapêutico, do
trabalho psicológico ou da vivência grupal.
Estas
condições envolvem a situação do terapeuta, do psicólogo, numa mesma
postura fenomenológico existencial experimental proposta para o cliente.
Trata-se
de condições para que o cliente possa se entregar dialogicamente, e inter
humanamente compartilhar, a sua entrega à concrescência de sua atualidade e
atualização existenciais. De modo que ele possa vivenciar, na sua
intensidade própria, os limites, as aporias,
desta atualidade. O que envolve a vivência dos sofrimentos e finitudes dela
decorrentes, mais ou menos agudos, mais ou menos cronificados, mais ou menos
intensos. De modo a que possa secretar vivencialmente, fenomenológico
existencialmente, os possíveis inerentes à potência da existência, e à
superação, na atualização destes possíveis.
Fenomenológico
existencial inter humano, no sentido dialógico que Buber descreve, o
desempenho do terapeuta esmera-se, e apura-se, em abrir-se para o encontro, e
para o desdobramento do encontro dialógico, com o cliente. Como co-laborativo,
na laboração da vivência e das superações deste. Para isso, o terapeuta
busca garantir certas condições de possibilidade deste encontro, e de sua
performance fenomenológico existencial dialógica.
Rogers
foi um dos principais propositores de uma metodologia para o provimento do
estilo de uma vivência experimental para o cliente no processo da terapia.
Desde
o ataque guerrilheiro na desconstrução do moralismo em psicologia e
psicoterapia, com a sua noção, e a valorização da noção, de não
diretividade; passando pelas condições de criação de um clima terapêutico
para o cliente: a consideração
positiva incondicional, a compreensão
empática, e a genuinidade do
terapeuta. Até o estilo fenomenológico existencial empírico e
experimental de facilitação de grupos. Neste ínterim a proposição de uma
pedagogia fenomenológico existencial empírica e experimental.
Perls,
fortemente bafejado pelo Expressionismo -- em especial pela experimentação
teatral expressionista do audacioso e ousado teatro expressionista de Max
Reinhardt --, desenvolveu o forte sentido de uma dramática expressionista,
experimental e inter humanamente dialógica, como metodologia na relação com
o cliente. Co-laboração experimental, no processo da laboração existencial
experimental da vivência do cliente de sua atualidade e atualização
existenciais. Dos limites, das aporias,
e dos possíveis vivenciados nesta atualidade e atualização. Co-laboração
no processo da laboração do cliente na atualização destes possíveis, na
superação de seus limites, dos limites de suas finitudes, de seus
sofrimentos. Na potencialização de seu processo ativo, de sua criatividade
fenomenológico existencial.
A
experimentação, num sentido
fenomenológico existencial (v.), é uma condição hermenêutica fundamental
da metodologia das PPFE.
A
concepção de experimentação, num sentido fenomenológico existencial,
constitui-se na filosofia de F. Nietzsche, em particular no sentido de sua gaya
scienza.
Enraíza-se
consistentemente em toda a perspectiva nietzscheana da realidade e da verdade,
como eminentemente perspectivas. A necessidade das perspectivas, da sua vivência, e da
sua limitação por outras perspectivas.
Brentano,
em sua linguagem, fala do caráter especulativo do ser. Que ele aborda através
de seu empirismo aporético.
Poria
origina-se de poro (grego),
que significa passagem. A-poria significa
limite, falta de passagem. Tanto para Nietzsche como para Brentano a existência
se caracteriza por aporias. A evolução
até o limite, a falta de passagem. Ambos
entendem que, no limite da aporia está a possibilidade, e a possibilidade da
poiese. Ambos assumem uma ética deliciosamente apor-ética. São aporiófilos;
aporiófilos é o que são.
A
ética é um modo de proceder.
E
a apor-ética deles define-se por privilegiar o fenomenal, o vivido, a
perspectiva. Afirmá-los, em suas características, intensidades e intensificações
próprias; até o seu limite, a sua aporia.
Este
é o ponto próprio onde se detona o possível, como poiese
(atualização de possíveis). Onde se detonam novas perspectivas, em suas
intensidades próprias. Novas perspectivas que limitam as precedentes.
O
gozo da intensidade e do fluxo da perspectiva, o gozo do limite de sua aporia,
e o gozo da superação, na potência ativa de novas perspectivas. Este o
sentido da experimentação existencial.
Sem
dúvida que a experimentação é sinônimo de tentativa, de risco. O risco de
tentar o possível, sempre latente. A experimentação, não obstante, não é
facultativa, é intrínseca à condição existencial humana. Ao gozo e à
resolução existencial.
Nietzsche
observaria:
Porque
o medo é a vossa excepção. Mas a coragem e a aventura e o gosto do que é
incerto, do que ainda não foi tentado... a coragem parece-me ser toda a história
primitiva do homem.
Invejou
e roubou todas as suas virtudes aos animais mais corajosos e mais selvagens:
foi só assim que ele se tornou... homem.
Pessoa
colocaria a experimentação fenomenológico existencial, aporética, diríamos,
de forma que só Pessoa:
Tudo
o que me acontece
O
que se passa
Ou
finda
É
como um terraço
Sobre
outra coisa ainda
Esta
coisa é que é linda.
Pois
bem, os psicólogos e psicoterapeutas são eminentemente aporéticos,
aporiófilos. Perspectivativos, e aporéticos,
aporiófilos. Assumem a radicalidade
da afirmação do vivido, da afirmação da perspectiva vivida. E estão
sempre interessados no limite, na aporia. Empiristas, assumem a vivência do
curso, das intensidades e fluxos vividos da perspectiva; assumem e propõem a
vivência da aporia, e a sua superação em novas possibilidades.
Como
ponto de partida, é como se estivessem sempre perguntando ao cliente, onde
é que está o limite? como é que está o limite? como é que está o
sofrimento da finitude vivida? ou não vivida? ou por viver? E, como
Nietzsche, implicitamente dirão sempre: ...
Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar
de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da
minha ‘veracidade.
As
raízes das concepções e metodologias das PPFE
vão encontrar uma fonte fecunda, e das mais fundamentais, na filosofia do diálogo
e do dialógico, de Martin Buber.
Buber
contribui, em particular, pela compreensão do caráter ontológico do vivido
fenomenológico existencial experimental, como relação, eu-tu, tal como ele
designou.
Para
Buber a vivência eu-tu resgata-nos da coisidade e da coisificação do modo
eu-isso de sermos da cotidianidade. Existencial, o dialógico fenomenológico,
eu-tu, demanda a entrega à concretude da atualidade existencial, em seus
limites, finitudes, aporias, potências e sofrimentos. A partir daí pode
determinar-se opção e superação. Que nos resgatam do decurso ilimitado do
mundo e da vida coisificados.
Estes
esclarecimentos de Buber foram fundamentais para a constituição progressiva
do estado da arte das concepções e do logos metódico das PPFE.
Em particular, no sentido do primado da entrega radical à concreude da existência,
como abertura para o modo dialógico, eu-tu, de sermos e como estratégia de
potencialização e de superação.
Mas,
mais que isto, as considerações de Buber sobre o dialógico, o eu-tu, entre
as pessoas, o inter humano, e os elementos
do inter humano, definem a análise de
um conjunto de fatores que impedem o desenvolvimento da dialógica do inter
humano; ao mesmo tempo em que permitem compreender e definir os elementos que
o propiciam. Assim, propiciam o inter humano:
-
O
privilegiamento do ser, ao invés do meramente parecer.
-
O
privilegiamento do inter humano, que não é inerente ao meramente social.
-
O
privilégio da conversação genuína. Ao invés do império do blá, blá, blá.
-
A
presentificação do outro.
-
O
privilégio da pedagógica abertura.
Ao invés da imposição propagandística.
Todas
estas, condições de possibilidade da dialógica do inter humano.
Estas indicações de Buber serviram de preciosos guias para a definição do
logos metódico do psicólogo e do psicoterapeuta fenomenológico existencial
na sua relação com o cliente.
O
empirismo fenomenológico existencial das
PPFE é uma de suas características
mais fundamentais. Devemo-lo originalmente a Aristóteles, tal como resgatado
por Brentano.
Estas
abordagens, como já observamos, privilegiam a imediaticidade vivida do
desdobramento da dialógica pré-teórica, pré-reflexiva, pré-conceitual,
fenomeno-lógica e existencial. Seja do encontro entre o terapeuta e o
cliente, seja a dialógica da vivência, no encontro, de cada um “consigo
mesmo”. Toda esta dialógica é, eminentemente, empírica;
fenomenológico existencial empírica.
Podemos,
assim, entender o primado de um caráter de vivência eminentemente empirista,
como logos metódico das psicologias e psicoterapias fenomenológico
existenciais. Como primado de filosofia de vida, como primado de vivência
para o cliente no âmbito do processo do trabalho psicológico e psicoterapêutico,
como primado de vivência metodológica, no desempenho do psicólogo e do
psicoterapeuta, ao longo do processo de seu trabalho.
Um
caráter empirista, no sentido especificamente fenomenológico existencial,
assim, como caráter metodológico fundamental.
O
empirismo em si é uma abordagem da
realidade na própria vivência da realidade, sem a mediação do conceitual,
do teórico.
Aristóteles
em seu tratado De Anima oferece uma
alternativa fundamental, quando propõe -- ao largo do uso de seu método empírico
nas ciências naturais -- que a consciência, igualmente, deve ser
metodologicamente abordada empiricamente.
Ou seja, a consciência deve ser metodologicamente abordada empiricamente, na
própria vivência de consciência. E não a partir de princípios e
pressupostos teóricos.
Ele
define, assim, a perspectiva do método de um empirismo
da consciência.
Brentano
segue a indicação de Aristóteles, e passa a esposar uma metodologia empírica
de concepção e abordagem da consciência. Ou seja, uma abordagem da consciência
na própria vivência da consciência, sem a mediação do teórico, e do
conceitual.
A
concepção e o método da Psicologia, assim como o método da Filosofia,
passam a ser entendidos, a partir de Brentano, e em sua tradição fenomenológica,
como o mesmo método empirista das ciências naturais.
Uma
particularidade definidora é a de que Brentano compreende a intencionalidade
da consciência: a consciência constitui-se como um campo em que a correlação sujeito e objeto já pré-existe de um
modo indissociável, modo este anterior a qualquer possibilidade de separação,
sujeito e objeto são cooriginais em sua intrínseca correlação.
De
modo que o empirismo fenomenativo da consciência em Brentano só poderia ser um empirismo
do campo da consciência intencional – que se situa, assim, fora da
dicotomização sujeito-objeto. E não, evidentemente, um empirismo
objetivista, característico do empirismo da tradição anglo saxã.
Empirismo objetivista este que fundamenta, inclusive, o empirismo do seu Pragmatismo.
Empirismo
objetivista (não fenomenológico), assim -- e Pragmatismo, nele fundamentado
--, que, fora de uma perspectiva da consciência como campo
intencional, situa-se na perspectiva da dicotomização sujeito-objeto. E,
não só: situa-se, enfaticamente, no privilegiamento do objeto no âmbito
desta dicotomização.
Questão
fundamental esta, uma vez que a Fenomenologia e o seu
empirismo apontam para um modo de ser ontologicamente fundamental. Modo de
ser este que não se dá no âmbito do que podemos entender como a dicotomização
sujeito-objeto.
Silvia
Pimenta,
comentando a perspectiva e o perspectivismo da filosofia de Nietzsche,
observa:
Não se trata
portanto da impossibilidade de atingir uma realidade exterior aos nossos
afetos, mas da impossibilidade de
distinguir duas
ordens de realidade: subjetiva e
objetiva, ideal e material, numênica e fenomênica. Trata-se da
impossibilidade de transcendência: o
que quer que seja “o mundo”, o homem é parte integrante dele, e não pode
reivindicar a exterioridade que seria necessária para instituir a si mesmo
como sujeito e ao mundo como objeto. O percurso que conduz do homem ao
mundo não é uma relação entre sujeito e objeto: sendo o homem uma parte
do mundo e não uma instância a ele transcendente, a vontade de potência no
homem constitui apenas um caso particular da vontade de potência em geral.
Curiosamente, a filosofia de Nietzsche se aproxima aqui da concepção
parmenidiana da identidade entre ser e pensar: entre o mundo e o ato de
interpretar não há afinidade ou adequação, mas identidade. (Velloso
Rocha, 2003. p.65.).
De
modo que, especificamente, o empirismo fenomenológico
não é um empirismo do objeto. Mas
um empirismo da vivência de consciência.
Da
mesma forma, não permite uma intersubjetividade.
Na medida em que se dá fora da dimensão da dicotomia sujeito-objeto, não
dispondo, em seu momento, do sujeito, da mesma forma em que não dispõe de
objeto.
Ainda
que não se dê no âmbito da dimensão própria à relação sujeito-objeto.
A vivência fenomenológica empírica é sempre vivência de relação,
e tensão de diferença, de alteridade. A dualidade de relação da vivência
fenomenológico existencial empírica se dá como a dualização da relação
eu-tu.
Quando
ocorre a diferenciação sujeito e objeto já não se está mais no modo de
ser dialógico da vivência.
Assim,
o empirismo da consciência fenomenal
da fenomenologia da tradição de Brentano é um empirismo
fenomenológico da vivência de consciência intencional, um empirismo
ativo, cujo solo e natureza é radicalmente diferente dos do empirismo
objetivista.
Carl
Rogers, F. Perls, F. Brentano, F. Nietzsche, Paulo Freire (vale dizer) eram,
assim, empiristas. Mas empiristas neste sentido fenomenológico existencial
dialógico. E, jamais, empiristas no sentido objetivista do termo.
Caracteristicamente,
a crítica teórica encontra algo de vazio e inconsistente na obra desses
empiristas. Isto se dá, exatamente, porque eles não são teoréticos. Eles são
empiristas poiéticos. Que se definem pelo privilégio da vivência
de consciência, e da vivência do ato, da ação: da atualização do possível,
que só no âmbito do seu pathos (empathia)
pode evidenciar-se, efetivar-se.
Isto
não quer dizer que suas concepções não gerem uma teoria, não sustentem, e
não se sustentem, em uma teoria. Ou que da vivência de seu método não se
possa derivar uma teoria. Muito pelo contrário, a definição de seu método
cristaliza-se teoricamente. E teorização pode emergir da vivência de seu método.
A característica, não obstante, é a de que a vivência de seu método é a
vivência momentânea de um modo não teórico, fenomenal, de sermos. Um modo
no qual vivenciamos o possível, e a sua atualização. Ou seja, um modo de
sermos no qual o possível é possível, e se desdobra.
Nada
contra a teorização anteriormente aos momentos especificamente empíricos,
e não teóricos. Ou posteriormente.
Carl
Rogers, por exemplo, era, definitivamente, um empirista. Um empirista radical.
Um empirista da vivência dialógica do inter humano.
Isto
é preciso que se entenda, e se explicite.
Mas
é necessário que, igualmente, se entenda, e se explicite, que, radicalmente
empirista, Carl Rogers nada tinha do empirismo objetivista, do empirismo
pragmatista, do empirismo positivista. Por mais que isto não tivesse ficado
conceitualmente claro, muitas vezes. E por mais que o confundissem,
explicitamente, ou não, muitos de seus seguidores.
Uma
coisa é a “empatia” objetivista, com toda uma série de adornos da moda e
peduricalhos possíveis. Outra coisa é a empatia na dialogicidade do inter
humano, fenomenológico existencial dialógica, e empírica.
Carl
Rogers prigilegiava radicalmente a vivência dialógica empírica,
e empática – patética, peripatética
--, do encontro com a pessoa, do
encontro com o grupo. Nada de conceitos a intermediar este encontro. Nada de técnicas
ou de outros recursos comportamentais. Nada de moralismo ou de pretensões
científica, ou cientificistas. Nada de teoria, de teorização, de teorética.
O que interessava fundamentalmente a Rogers era a empiria dos momentos dialógicos
de vivência do encontro; o que quer dizer, a empiria da vivência da poiética
da dialógica do encontro. Da vivência empáthica
da dialógica do possível, e de sua interpretação (desdobramento),
atualização, inerentes à empiria da vivência de consciência fenomenal.
As
abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e de psicoterapia primam
assim pelo privilegiamento do âmbito vivencial fenômeno-lógico existencial,
pelo âmbito da compreensão, e do desdobramento do possível que lhe é inerente.
Em
essência, a explicação, que se diferencia fundamentalmente da compreensão
(em particular porque não há
explicação que possa levar à compreensão – Takuan Soho),
a explicação, é absolutamente secundária para as psicologias e psicoterapias
fenomenológico existenciais.
Se
Freud explica, primordialmente as
abordagens fenomenológicas não estão interessadas na explicação.
Os
psicólogos, os terapeutas fenomenológico existenciais, em essência, não explicam.
Eles implicam.
No
sentido de que eles não são exteriores e alheios à dialógica alteritativa
do encontro inter humano com o cliente. É a esta dialógica que eles querem
privilegiar, e a ela pertencer implicativa-mente, compreensivamente.
A
arte que eles buscam cultivar é da performação como partícipes no próprio
âmbito desta dialógica. Como forma de potencializar a situação do cliente
no âmbito de sua própria vivência dialógica, na dialógica da vivência de
sua relação com o terapeuta/psicólogo, na dialógica da relação em seu
ser-no-mundo.
De
modo que ele possa vivenciar compreensivamente, e no desdobramento de sua
compreensão, vivência, a sua atualidade e atualização fenomenológico
existenciais; suas perspectivas, limites, aporias, e superações.
Compreensão
e desdobramento de compreensão; vivência e desdobramento de vivência, como
atualização de possibilidades, que em hermenêutica fenomenológico
existencial entende-se como interpretação fenomenológico existencial.
Classicamente,
a Hermenêutica é entendida como a
arte da interpretação. De modo
que as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais são, em essência,
e propriamente, hermenêuticas fenomenológico existenciais.
Aparentadas
da arte, porque a arte é irmã gêmea da existência... A arte é uma ética,
est-ética, de afirmação estésica da existência. Estética
de afirmação vivida da vivida afirmação que é já a potência da existência
e da existenciação, em suas perspectivas espontâneas e gratuitas, em seus
limites, sofrimentos, superações, alegrias...
Nem
teorética, nem prática... poiética. Patética.
6.
Algumas questões
Carl Rogers entendia
a sua abordagem como sendo uma abordagem fenomenológico existencial.
Entendia que a tendência atualizante,
que ele preconizava como fonte básica da motivação humana, só operava
fenomenologicamente. As condições que ele constituiu como condições de
criação de um clima terapêutico – quase tão faladas quanto mal
entendidas – são condições fenomenológicas. As características do funcionamento ótimo da personalidade são características
eminentemente fenomenológico existenciais.
Rogers sofreu uma
influência importante das psicologias fenomenológico existenciais de Abraham
Maslow e de Rollo May, introdutores da psicologia fenomenológico existencial
nos EUA, influenciados pelos psicoterapeutas fenomenológico existenciais
europeus, em particular Medrard Boss e Ludwig Binswanger, que buscavam
constituir uma psicoterapia fenomenológicas a partir da fenomenologia de
Heidegger. O livro Existence,
de Boss e Binwanger, dentre outros, publicado originalmente na Europa, teve
sua publicação nos EUA patrocinada por Maslow e por May. Rogers fez a revisão
da obra.
No entanto, Rogers,
de um modo geral, não tematizava de um modo mais sistemático e explícito os
fundamentos fenomenológico existenciais de sua abordagem, ainda que
teorizasse de um modo bastante significativo. Progressivamente, os escritos de
Rogers foram se tornando cada vez menos teorizantes, cada vez mais ensaísticos.
Registros dos processos de sua experimentação em psicologia e psicoterapia,
em particular no desenvolvimento e vivência de seu modelo de trabalho com
grupos.
Certamente que a
indisposição de Rogers para um maior aprofundamento teórico advinha de suas
influências empiristas.
Mas o propugnador
incansável da concepção de empatia no âmbito da psicologia e da
psicoterapia não podia ser simplesmente um empirista objetivista. O Carl
Rogers que acolheu as concepções fenomenológicas da psicologia organísmica
de Kurt Goldstein, como tendência
atualizante, auto-atualização organísmica, avaliação organísmica da
consciência, não podia ser simplesmente um empirista objetivista Rogers
não se filiava ao empirismo do Pragmatismo, nem ao empirismo anglo saxão, de
um modo geral. Não se filiava ao comportamentalismo. Ainda que não estivesse
bem desenvolvida a explicitação e o esclarecimento da vinculação de suas
concepções à Fenomenologia e ao Existencialismo.
No seu modelo de
trabalho com grupos, a partir de 1974, há uma depuração e radicalização
das características fenomenológico existenciais de seu modelo. Há uma
relativização das idéias de tendência atualizante, e mesmo de condições
terapêuticas no contexto do grupo, para centrar-se no provimento de condições
hermenêuticas para o desdobramento da dialógica do encontro grupal.
O fato, entretanto,
é que Rogers pouco tematizou os fundamentos fenomenológicos de suas concepções,
ainda que estas se caracterizem de um modo muito específico pela perspectiva
fenomenológico existencial.
O fato, entretanto,
também, é que a frágil explicitação e desdobramento dos fundamentos
fenomenológico existenciais da abordagem rogeriana faz com que suas concepções,
e o arcabouço teórico geral de sua abordagem se fragilizem. Gerando
dificuldades para a reprodução de seu conhecimento, e formação de novos
profissionais a ela aderentes.
Alguns conceitos estão,
em função disto, pobremente elaborados. Alguns flagrantemente inconsistentes
e superados.
O conceito de tendência
atualizante, por exemplo. Sua concepção vincula-se a uma perspectiva
biológica. Quando as questões pertinentes à terapia, ao trabalho psicológico,
à facilitação de grupos, dizem respeito não a uma dimensão biológica,
mas à dimensão fenomenológico existencial. A explicitação desta concepção
segundo a perspectiva fenomenológico existencial permite a assimilação da
tendência atualizante à dimensão do possível, da possibilidade
compreensivamente vivida. E a concepção de seu desdobramento à noção de
interpretação fenomenológico existencial. E à compreensão do modelo
rogeriano como uma hermenêutica fenomenológico existencial.
Por outro lado, a noção
de compreensão, na concepção de compreensão
empática – tão importante na concepção da abordagem rogeriana --
filia-se à concepção de compreensão da
filosofia da vida de W. Dilthey – a reprodução em mim, um ser vivencial,
da vivência de outro ser vivencial. Martin Heidegger foi influenciado por
Dilthey, e desdobrou as suas concepções, concebendo a compreensão
como a própria constituição do sentido, ao nível do ser-no-mundo.
Diferentemente da perspectiva de Dilthey, a compreensão desta forma concebida
deixa de ter uma concepção objetivista, ou subjetivista, já que a vivência
de ser no mundo se dá fora da dicotomização sujeito-objeto. A compreensão empática pode assim ser compreendida de um modo mais
próprio, em particular no sentido de seu caráter dialógico.
Assim, desvendar as
raízes fenomenológico existencial das concepções de Rogers, da abordagem
rogeriana, permite uma apuração de seu sentido, uma apuração do sentido
das concepções de Rogers. A superação de processos degenerativos da
abordagem, e uma continuação da sua produção e reprodução.
7.
Concluindo.
O
trabalho de Carl Rogers é qualitativamente muito significativo. Ainda que de
certas óticas, este significado possa parecer ambíguo. Seu trabalho oferece a
concepção e método de uma profícua abordagem de psicologia e de psicoterapia
para o trabalho na chamada “clínica” psicológica, no trabalho com grupos,
no trabalho no âmbito da psicologia comunitária, da psicologia hospitalar, na
psicologia organizacional e do trabalho, na psicologia educacional... Rogers
contribui fundamental e diferenciadamente, de um modo teórico e fenomenológico
existencial experimental, com a constituição de um modelo fenomenológico
existencial experimental de psicologia e de psicoterapia. É, sem dúvida, um
gigante neste sentido.
Naturalmente
que, nas condições em que ele viveu e trabalhou, há ambigüidades, imprecisões,
equívocos. Alguns, intrínsecos ao empreendimento pioneiro de constituição de
um modelo fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia. Alguns,
devidos a fatores e conflitos culturais. Outros, devidos às limitações das
informações sobre a ontologia, concepção e metodologia fenomenológica, e
sobre o existencialismo. Nada disso compromete a substância e importância de
sua contribuição, quer seja em termos conceptuais ou em termos metodológicos.
Rogers
transita, ao longo de sua vida, e de sua obra, desde âmbito moralista,
puritano, religioso; na direção de uma abordagem genuinamente fenomenológico
existencial experimental. Ao chegar, por exemplo, à culminância de sua obra,
na concepção e experimentação da metodologia fenomenológico existencial
experimental empírica do trabalho com grupos.
Teve
um influência importante da psicologia acadêmica norte americana, dos livre
pensadores norte americanos, como Emerson e Thoreau. Mas encontrou Kierkegaard e
Buber já no seminário teológico, anteriormente a sua carreira de psicólogo.
Como psicólogo, já, recebe as influências marcantes de Abrahan Maslow e de
Rollo May. Estes mediam de um modo importante a chegada até Rogers da
psicoterapia fenomenológico existencial européia, dos heidgerianos Boss e
Binswanger. Os gestálticos (da
Psicologia da Gestalt) chegam, de um modo substancial, através dos seminais
trabalhos de Kurt Goldstein e Max Wertheimer, emigrados para os EUA, após uma já
longa e profícua vida produtiva dentro da tradição fenomenológica da
Psicologia da Gestalt, na Europa. E é fundamental, no desenvolvimento de suas
concepções e metodologia, o intercâmbio com Otto Rank, emigrado da Europa,
para a Universidade da Pensilvânia. Rank trazia, sobretudo, e mais uma vez, a
influência de Nietzsche no desenvolvimento de sua abordagem de psicoterapia. E
teve uma substancial influência sobre Rogers.
Se
existem imprecisões, impropriedades, equívocos, nas formulações de Rogers, a
partir da perspectiva da ontologia e metodologia fenomenológica e existencial,
estes podem ser entendidos, como falamos, como conseqüências naturais do
pioneirismo de Rogers, e de suas condições culturais, sociais e históricas
específicas.
Afinal,
no seu ambiente cultural e acadêmico, fortemente empirista -- num sentido
objetivista do termo --, e pragmatista, o que quer dizer igualmente empirista
objetivista, Rogers desviou, configurando-se como um empirista substancialmente
fenomenológico, e desenvolvendo uma obra, influenciada pelas perspectivas de um
Kierkegaard, de um Buber, de um Binswanger, de um Brentano, de um Goldstein, de
um Wertheimer, de um Otto Rank, em especial.
Certamente
que não era fácil discriminar o caráter empirista da Fenomenologia e do
Existencialismo naquele momento nos EUA. Ao mesmo tempo, cabia evitar uma concepção
idealista da Fenomenologia, fortemente rejeitada, naturalmente, no âmbito de um
empirismo objetivista. Por entre Brentano, Husserl, Heidegger, Sartre,
Psicologia da Gestalt, tensões entre o modo americano e europeu de conhecer...
não era fácil encontrar um caminho.
Coerentemente,
Rogers foi pela via do empirismo, e o empirismo que só podia ser o empirismo
fenomenológico. Por aí ele constitui uma metodologia genuinamente fenomenológico
existencial de psicologia e de psicoterapia.
No
que pese, freqüentemente, a teorização de cunho às vezes demasiadamente
metafísico, e que vai se superando sucessivamente. Afinal de contas, a teoria,
e a teorização, não são o que existe de fundamental na experimentação de
uma metodo-logia fenomenológico existencial, especificamente empírica; quer
dizer: especificamente não teorética.
O
fato é que o Rogers que encontramos no final de sua vida produz uma literatura
ensaística, e está, metodologicamente, totalmente imerso na experimentação
fenomenológico existencial empírica e dialógica da vivência e constituição
de um modelo genuinamente fenomenológico existencial de concepção e facilitação
de grupos e de psicoterapia.
Entender
a abordagem rogeriana é, certamente, entender esta concepção e metodologia
específicas, fenomenológico existencial empíricas, que já está muito longe,
por exemplo, da mecânica da focalização,
ou das meras condições de criação de
um clima terapêutico (ainda que elas sejam importantes).
Não
foi pouco, em termos qualitativos, e mesmo quantitativos.
Não
fazemos justiça a Rogers enquanto não compreendemos vivencialmente,
empiricamente, as configurações do logos metódico fenomenológico existencial
experimental de seu paradigma de trabalho com grupos, e de terapia individual, a
partir de 1974.
Infelizmente
a teoria produzida por Rogers sobre este modelo ainda se situa na emergência, e
na perplexidade da emergência, deste modelo. Na perplexidade mesmo da condição
da teorização acerca de uma metodologia não teorética, o que é paradoxo de
toda abordagem fenomenológico existencial.
Na
verdade, em particular nos EUA, a Fenomenologia e o Existencialismo estavam
meramente chegando, e enfrentavam resistências de ordem cultural, de ordem
religiosa, e outras. O ethos maciçamente empirista, num sentido objetivista,
dificultava a apropriação então da Fenomenologia e do Existencialismo. Rogers,
apesar de influências seminais, de um Buber, por exemplo, de um Maslow, de um
Kierkegaard, não tinha conhecimento das particularidades das concepções de um
Brentano, ou de Heidegger. A bem da verdade, a partir de suas influências
originais, Rogers estava mais interessado na experimentação fenomenológico
existencial empírica de seu modelo.
A
teoria e a teorização são, entretanto, fundamentais. Mesmo em um modelo
fenomenológico existencial empírico – o que quer dizer, não teorético, não
teorizante, em sua vivência. Em
particular, quando se trata do desdobramento do modelo, e da transmissão dele a
novas gerações.
A
situação assim da teoria, a sedução pela “facilidade” e poderes de uma
posição empirista objetivista (freqüentemente adoçada por uma retórica “rogeriana”),
o status que Rogers alcançou, supostamente propagado, a preguiça, fazem com
que haja freqüentemente uma paralisia na compreensão teórica do modelo
rogeriano, e no desdobramento de suas concepções e métodos.
Isto
não faz jus, naturalmente, à importante e substancial contribuição de Rogers.
Nem às demandas da sociedade, que cada vez mais respeita e demanda o trabalho
do psicólogo, que cada vez mais requer modelos efetivos de concepção e método.
O
modelo de Rogers contribui efetiva e substancialmente neste sentido.
Resta-nos
o desafio de uma compreensão, experimentação e desdobramento deste modelo. O
que envolve uma vivência efetiva de sua originalidade empírica e experimental,
num sentido fenomenológico e existencial. A compreensão de suas raízes
seminais, tanto em termos históricos, como em termos conceituais e metodológicos.
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