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Coleção
beija flor:
Fonseca,
A. H. L.
· Psicoterapia e Produção Cultural.
·
Psicologia
Humanista e Pedagogia do Oprimido.
Um
Diálogo
Possível?
·
Apontamentos
para uma História da Psicologia
e Psicoterapia Fenomenológico
Existencial
·
Carl
Rogers. Sobre o seu paradigma fenomenológico existencial
em psicologia e
psicoterapia.
·
Gestalt
Terapia.
Teoria Mínima.
Ficha Catalográfica
Afonso H Lisboa da Fonseca, 1954 -
Para
uma história da psicologia e da psicoterapia
fenomenológico existencial -- dita humanista.
Apontamentos.
-- Maceió: Pedang, 2006
ISBN
PSICOLOGIA
HUMANISTA E PEDAGOGIA DO OPRIMIDO. UM DIÁLOGO POSSÍVEL?
Afonso
H Lisboa da Fonseca
Programa
de Publicação
do Laboratório Experimental
de Psicologia e Psicoterapia
Fenomenológico Existencial
Maceió
– AL, Brasil.
2006.
© 2006. Afonso H Lisboa da Fonseca.
Psicologia
Humanista e Pedagogia do Oprimido.
Um Diálogo Possível ?
PEDANG.
Programa de
publicação
do Laboratório Experimental
de Psicologia e Psicoterapia
Fenomenológico Existencial.
Rua Visconde
de Irajá, 60/105. Pajuçara.
57030-150
Maceió AL.
http://www.geocities.com/eksistencia/
ISBN
2006.
Brasil.
Para Carl Rogers, por sua
obstinação de toda a vida pela consideração e respeito pela pessoa.
Para John Wood e Maureen
Miller O’Hara, amigos queridos e despretensiosos mestres, fundamentais.
Para Paulo Freire,
companheiro do homem, que acreditou ativamente e ensinou que desumanidade
e desumanização nada têm de fatais.
Nova
York, 19 de Dezembro de 1973.
... E
chorei quando soube da morte de Victor Jara. Victor Jara era o Chico
Buarque do Chile. Preso no dia do golpe, foi levado para o Estádio
Nacional. Aí cortaram-lhe os dedos, entregaram-lhe um violão e disseram:
‘Agora, canta!’ E Jara esfregou o violão e cantou.
Ay canto que mal me sales!
Quanto tengo que cantar, espanto!
Espanto como el que vivo
Como que muero, espanto
De verme entre tantos y tantos
Momentos del infinito
Em que el silencio y el grito
son las metas de este canto. (...)’
Contam
as testemunhas que Jara não acabou de cantar. Foi metralhado no meio.
Jara
não está mais vivo. (...)
Parei
e dei uma olhada na janela para retomar o fôlego. E o que vejo, Zé? Os
carros passando normalmente, os supermercados cheios, as pessoas
desfilando a última moda para o inverno e, na esquina, o Exército da
Salvação canta e toca pelo Natal que vem. Levei um choque. Quando
levantei da mesa e olhei pela janela, esperava que todos na rua estivessem
parados, com um nó na garganta, água vindo nos olhos em silêncio.
Vivendo a morte de Victor Jara. Parece infantil, mas eu esperava isto. Mas
eles não estavam sofrendo comigo. Nem sabem. Engoli o choro (...)
Talvez se eu passasse chorando todos parassem. E será que se eu
sair na Rua 70 chorando, Nova Yorque vai saber que Victor Jara morreu?
(Trecho de uma carta do Henfil a um amigo no Brasil.)
O encontro entre a psicologia dita humanista e a
pedagogia do oprimido é um encontro sempre reiterado. Mormente agora,
que, com a intensa diversificação da psicologia no Brasil, o
desenvolvimento das práticas comunitárias em psicologia se dá com
grande vigor.
Já de há muito tempo que se aventa as possibilidades
deste encontro. Tendo sido um dos pontos altos a menção e comentário
explícitos de Carl Rogers, em Sobre o Poder Pessoal[1],
acerca das concepções e trabalhos de Freire, e das relações destes com
o seu próprio trabalho e concepções.
A conexão parece sempre muito interessante, dadas as
possibilidades que dela emanam, integrando o trabalho de psicólogos com o
trabalho de pedagogos progressistas, comprometidos efetivamente com o
desenvolvimento humano. Por outro lado, as identidades entre a psicologia
humanista e a pedagogia do oprimido vão além das meras intenções,
simplesmente. Na medida em que ambas as abordagens são empirismos
fenomenológicos. Ou seja especificamente empirismos, e
especificamente fenomenológicos. Derivadas de um modo importante,
em suas concepções e metodologias, dos esclarecimentos de Martin Buber
acerca do diálogo e do dialógico.
Não obstante os pontos em comum, não são desconsideráveis
as especificidades de cada uma das abordagens, as diferenças e mesmo
conflitos entre elas.
Este trabalho, escrito em 1984, permanece atual neste
contexto. Motivo pelo qual agora o publicamos.
Maceió, Enseada da Jatiúca, Abril 2006.
2
Crescendo e Escrevendo no Olho da Contradição
3
Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido
6.
A Filosofia do Diálogo de Buber, um Germinativo Ponto em Comum
Nos últimos anos (1984), tem havido uma sensível tendência,
em trabalhos oriundos da prática da Abordagem Rogeriana, no sentido de fazer referências a Paulo Freire
e a suas idéias, e no sentido de uma comparação da Abordagem Centrada com
a Pedagogia do Oprimido. Rogers
dedica um capítulo de um de seus últimos livros[1] a uma exposição e comentário do que ele considera
serem semelhanças entre a Abordagem Rogeriana e a Pedagogia do Oprimido.
Maureen Miller O’Hara, em um artigo publicado em 1979, e agora editado em
livro no Brasil[2], refere-se à obra de Freire como um importante fator
de constituição de suas idéias e práticas atuais. No First International Forum on the Person-Centered Approach, realizado
em Julho de 1982, na Cidade de Oaxtepec, no México, Maureen também
apresentou um trabalho relativo às relações entre a Abordagem Centrada na
Pessoa e a Pedagogia do Oprimido, intitulado: Person-Centered
Approach as Conscientização: the Works of Carl Rogers and Paulo Freire.
Trabalho que depois veio a ser reproduzido pelo periódico Journey, sob o título: Radical
Humanism: Facilitating Critical Consciousness[3]. John K. Wood também tem feito referências à obra
de Freire. No sumário de um de seus mais recentes textos[4] ele comenta:
Como Paulo Freire(1970) observou, com relação a
uma tarefa similar, o Diálogo como o encontro de homens destinados à
tarefa comum de aprender e agir, é quebrado se as partes (ou se mesmo uma
delas) perdem a humildade.
Muitos profissionais Latino-Americanos que trabalham
dentro dos referenciais teóricos e metodológicos da Abordagem Rogeriana,
como eu, vêem-se como que no fundo de um abismo entre
as obras de Freire e de Rogers. E não hesitam em invocar e lançar mão
das perspectivas da Pedagogia do Oprimido para uma recriação de seus modos
de trabalho, no sentido de uma melhor adequação de sua prática e de sua
teorização a sua realidade.
Isto estava muito evidente no grupo de
Latino-Americanos que participaram do First
International Forum on the Person-Centered Approach.
De onde e por que razão teria surgido esta tendência
de aproximação da Psicologia Humanista para com a Pedagogia do Oprimido?
Respostas diversas podem ser apontadas. Acredito na
influência de Pedagogy of the Opressed, de Freire, sobre o desenvolvimento de
Maureen Miller, como ela coloca. E Maureen tem sido uma das mais ativas e
profícuas participantes do natural processo de recriação da Abordagem
Rogeriana, nos anos recentes. A partir de 1976, ela, John K. Wood e Carl
Rogers têm vindo com certa freqüência ao Brasil, onde têm desenvolvido várias
atividades de vivência e de treinamento. Da mesma forma, têm ido a vários
outros países, em diferentes partes do mundo. O contato com o Brasil e com
a nossa cultura, assim como o contato com outros países e culturas tem
tido, acredito, uma sensível influência em suas vidas e em suas produções
teóricas recentes. O que conduz, de uma forma ou de outra, a uma certa
aproximação com a obra de Freire. John Wood e Maureen chegaram a morar por
alguns meses no Janga, próximo a Olinda.
É possível que estes contatos com outros países, em
particular com os países de terceiro mundo, e com a obra de Freire, sejam
uma importante fonte do desenvolvimento de tendências que superem impasses
atuais da abordagem Rogeriana, e lhe propiciem condições para um
desenvolvimento realisticamente mais compatível com a condição de uma
abordagem que se quer humanista, e
que, originada nos EUA, desenvolveu-se e disseminou-se por vários países
como uma das mais importantes linhas da psicologia e da psicoterapia
modernas.
*
Este trabalho foi apresentado no Iº Encontro Latino Americano da ACP,
em Petrópolis, em 1984. Tem portanto mais de dez anos. Publico-o aqui,
porque suas idéias gerais permanecem válidas, ainda que possam ser
feitas algumas correções. Não obstante sua temática é muito
relevante para questões importantes com que se defrontam os praticantes
da ACP no Brasil e na América Latina.
[1]ROGERS,
C.R. - SOBRE O PODER PESSOAL, São Paulo, Martins Fontes, 1979. pp.
107-15.
[2]O’HARA,
M. M. Psicoterapia, Tecnologia da Mudança ou Busca de Conhecimento, In ROGERS
e outros - EM BUSCA DE VIDA, São Paulo, Summus Editorial, 1983, pp.
103-21.
[3]O’HARA, M.M. - Radical Humanism. Facilitating Critical Consciousness. In Journey. Vol. 1 #6, Sept. 1982.
[4]WOOD, J.K. Comunities for Learning: A Person-Centered Approach, La Jolla, fotocópia, 1983, p. 29.
Desejo de ir além das aparências, tentar descobrir
nas pessoas qualquer coisa im-perceptível aos sentidos comuns. Compreensão
de que as diferenças não constituem razão para nos afastarmos, nos
odiarmos. Certeza de que não estamos certos, aptidão para enxergarmos pedaços
de verdade nos absurdos mais claros. Necessidade de compreender, e se isto
é impossível, a pura aceitação do pensamento alheio.
(Graciliano
Ramos, citado por Marilene Felinto)
A
crítica é uma participação, não uma dissociação.
(A. de Amoroso Lima)
Os que praticam a Abordagem Rogeriana na América
Latina defrontam-se com a questão do contato cotidiano com a realidade do
oprimido, e das relações de opressão. Assim como com as questões
relativas ao colonialismo e aos imperialismos.
Como uma abordagem humanista, que tomou corpo e se
desenvolveu nos EUA -- nas classes dominantes do Primeiro Mundo -- e
espalhou-se por outros países no bojo da influência neo-colonial Norte
Americana, a Abordagem Rogeriana defronta-se com uma encruzilhada: ou
integrar o oprimido e suas perspectivas como dimensões possíveis de seu
campo de ação e de reflexão, ou abrir mão do estatuto de humanismo.
Trata-se de indagar acerca de sua própria posição
efetiva e prática no contexto das relações de opressão. O destino do
poder que a sua prática e o seu conhecimento engendram, à margem da retórica
ideologizante, como ocupante de um espaço institucional no âmbito das
linhas de idéias e ação no campo das ciências humanas e das chamadas
profissões de ajuda.
Estas questões colocam-se de uma forma aguda e
atordoante, em particular para os profissionais de Terceiro Mundo que
assumem esta abordagem em sua prática profissional.
A possibilidade do cinismo -- o cinismo de se falar em
humanismo sem que se considere honesta e realisticamente as questões
concernentes às maiorias oprimidas, à manutenção e reprodução de suas
condições (em que estamos também envolvidos, particularmente como agentes
especializados da ordem institucional vigente), questões com as quais todos
convivemos --, ainda que seja parte significativa de nossa da nossa
realidade atual, é por demais frágil e frustrante, exige um nível fantástico
de irrealidade, e, por conseqüência, de um singular e real processo de
auto-destruição por parte de quem a assume.
Desta forma, levar em consideração as perspectivas
que engendraram e engendram a Pedagogia do Oprimido, é extremamente salutar
para nós que praticamos a Abordagem Rogeriana -- de um modo especial em um
contexto de Terceiro Mundo. Torna-se cada vez mais difícil manter-se como Humanista,
mesmo que apenas psicoterapeuta,
mantendo também o distanciamento da realidade da desumanização. O
distanciamento da realidade das relações de exploração e de opressão da
maioria da população, mantendo o distanciamento e a frieza com relação
à consciência dos vínculos com estas de nossa prática, e da produção
de nosso conhecimento.
Por outro lado, acredito que os que praticam e buscam a
construção e a reconstrução do conhecimento e da metodologia da
Pedagogia do Oprimido podem usufruir de uma influência enriquecedora, a
partir de alguns dos conhecimentos e práticas desenvolvidas no âmbito da
Abordagem Rogeriana nos últimos anos. Em particular, no que se refere ao
modo de trabalho com grupos.
Vale indicar nestas observações que o afastamento das
questões relativas ao oprimido e às classes oprimidas, o afastamento das
questões relativas ao imperialismo, não é uma característica exclusiva
da Abordagem Rogeriana. A Psicologia e a Psicoterapia que praticamos, seja
qual for a linha, surgiram e desenvolveram-se em um contexto que não é o
contexto do Terceiro Mundo. Transplantadas para este, só de uma forma
anormal tratam destas questões.
Sendo assim, é evidente que a crítica que é feita à
Abordagem Rogeriana pode ser feita a qualquer outra abordagem.
Encontramo-nos, as sociedades do terceiro mundo, em particular, mas não só,
diante do imperativo da necessidade da construção
de uma Psicologia efetivamente humanista, radicalmente humanista, que possa,
de uma forma concreta, dialogar com a condição do homem oprimido e com a
condição desta classe oprimida, e que possa ter nesse diálogo um
instrumento efetivo para a transformação dessas condições, e da condição
de nós próprios, como momento necessário do processo de libertação do
homem da condenação a condições de vida que limitam gravemente a
humanização, ou a libertação de condições francamente sub humanas.
Neste sentido, creio que o conheci-mento, e a prática,
desenvolvidos pela Abordagem Rogeriana podem oferecer, junto com
conhecimentos desenvolvidos no âmbito de outras abordagens, uma boa base de
trabalho, desde que possa desenvolver um fecundo processo de interação e
de reconstrução, a partir da crítica objetiva, contextualizante e
honesta.
O movimento a que me referi no início, de alguns
profissionais que praticam a AR*,
no sentido da Pedagogia do Oprimido, representado pelos trabalhos que citei
acima, possui aspectos que me parecem bastante positivos neste sentido. Por
outro lado -- e, ao fazer esta observação, não me coloco numa posição
maniqueísta --, os citados trabalhos me parecem, também, passíveis de críticas,
em aspectos que considero fundamentais.
Um deles, e talvez o mais importante, é o que me
parece ser a existência neles -- apesar da boa vontade e honestidade
pessoal de seus autores, na qual acredito --, de elementos de aniquilação
conceitual e ideológica das formulações de Freire. Talvez isto seja difícil
de evitar a priori, em se tratando da leitura de uma produção cultural do
Terceiro Mundo feita por agentes sociais do Primeiro.
Acredito que isto não se coloca como um empecilho
intransponível para um eventual diálogo entre a AR e a PO**,
na medida em que as pessoas envolvidas possuam a capacidade e a disposição
para transcendê-lo. Não me parece, entretanto, um aspecto desprezível,
constituindo-se, antes, em um ponto nuclear da questão.
Desde que conversei com Maureen sobre o seu artigo
relativo às eventuais relações entre os trabalhos de Carl Rogers e de
Paulo Freire, e que me dispus a escrever comentários a respeito, tenho
tentado descobrir que tipo de conexão me parece existir como possível
entre as duas abordagens. Nesse tempo, tenho me defrontado com os paradoxos
e contradições que uma análise deste tipo envolve. Em certos momentos,
parece que “tem tudo a ver”, para, no momento seguinte, parecer que não
tem nada. De fato, é mesmo difícil de começar, e ficamos freqüentemente
aprisionados numa sensação de imobilização.
Minha relação com Paulo Freire é antiga. Certamente
muito antiga, ainda que ele seja praticamente um desconheci-do para mim, em
termos pessoais formais*.
É, certamente uma relação que vai além do nível da reflexão teórica.
De formas muito significativas para o meu crescimento,
temos estado “juntos”, ainda que, pessoalmente, eu o tenha visto de
fato, pela primeira vez, há apenas pouco tempo atrás.
Tive, então, evidência disto, quando o vi e ouvi, de
volta do exílio de quase vinte anos, depois do movimento militar de 1964,
na Reunião Anual da SBPC**
de 1981 ou 82, no Rio de Janeiro...
Para uma audiência enorme, reuni-la para homenageá-lo
em sua volta ao Brasil, na Concha Acústica da UERJ***,
sobe ao palco aquela figura singular e tão aguardada, e diz qualquer coisa
assim:
‘Quando eu era menino’, meu pai e minha mãe me ensinaram a nunca
esquecer de dizer uma coisa: ‘Muito Obriga-lo.’ E eu quero dizer isto a
Vocês, agora.
Muito obrigado!
Porque o fato de eu estar de volta deve-se ao fato de que vocês ficaram,
e estiveram aqui na minha ausência...
Foi um instante de emoção intensa. Pelo significado e
plenitude daquele momento para todos nós que crescemos da pré-adolescência
à juventude em meio àqueles tempos escuros.
Para mim, e certamente para muitos nordestinos ali
presentes, tinha, ainda, um motivo particular. Aquele “quando eu era menino” bateu fundo dentro de mim. Lembrei-me num
relance, quase que apenas pré-consciente, mas inteiramente envolvido, de
meu Avô, que usava muito aquela expressão, quando ia contar uma história
de menino, dele. Não que Paulo Freire lembrasse o meu Avô, pela idade,
força moral, cabelo e barba brancas, ou seja lá o que fosse, não; mas, em
particular, porque aquela expressão, com aquele sotaque e jeito de dizer,
era uma expressão “arquetipicamente” Nordestina. Pelo menos para mim.
Aquele momento era o ponto zero da contagem regressiva
de um encontro que se tornara, felizmente, inevitável.
Antes, para mim, Paulo Freire tinha sido sempre um
ilustre e significativo “ausentado”. Daqueles que a gente sabia que
fazia muita falta, e que não entendia muito bem por quê o Brasil se dava
ao luxo de mandar para o exterior -- apenas sentia por perto os “dedos”
das forças responsáveis. Eu era ainda pequeno na época. Pouco tempo
depois, tive contato com movimentos progressistas da época, pré AI 5, em
reuniões de líderes estudantis dos Colégios Maristas do Nordeste. E Paulo
Freire -- eu apreendia isto difusamente -- era, de uma forma
“misteriosa”, independente do que pudesse estar, de fato, acontecendo
naquele momento, um espírito
muito presente. (Como Thiago de Melo, também, e tantos outros, ...
tanta gente que partiu – ou ficou – num
rabo de foguete... enquanto ‘chorava’ a
nossa pátria mãe gentil enquanto ‘choravam’ Marias
e Clarices no solo do Brasil[1],
-- e fora...).
Tempo de
Faz escuro, mas eu canto, porque outro dia vai chegar,
Vem comigo, companheira, vai ser bonito ver o dia raiar...[2]
Em que eu descobria
deslumbrado os sentidos da manhã.
Ou de:
Severino, retirante, meu amigo e bom moço,
sei que a tristeza é mar largo, não é como qualquer poço,
mas sei que p’rá cruzá-la vale bem qualquer esforço...
De Morte e Vida
Severina, do João Cabral de Melo Neto[3].
Eu devia ter mais ou menos treze ou catorze anos, na época.
Durou enquanto deixaram... Os encontros foram
proibidos... E a violência e a paranóia espalhando-se insidiosa, sob um
manto maligno de silêncio nervoso. Tudo de mobilização social se
desfazendo, como um som que ecoa e se vai perdendo no espaço e no tempo.
Cresci dentro do confuso “escuro” daquele tempo. Apenas com fragmentos,
freqüentemente aterradores, do que acontecia.
As coisas começaram a voltar depois..., mas, devagar.
Começamos, aos poucos, a redescobrir Paulo Freire e outros, suas idéias e
conquistas, o significado deles para o Brasil e para o Mundo, e o modo como
estavam sendo tratados.
Lembro-me da estória que contava um colega mais velho
-- que viveu mais conscientemente os anos do pós-64 imediato (não sabíamos
se verdade ou invenção). Dizia-se que, quando preso em Recife, Paulo
Freire teria sido chamado pelo diretor do presídio. O diretor soubera que
ele era um educador famoso, e teria pedido para que ele organizasse um
programa de alfabetização no presídio, que tinha um grande número de
analfabetos. Surpreso, Freire teria respondido, “Mas é exatamente por
isto que eu estou preso!...”.
Com o passar do tempo, Paulo Freire e suas idéias
foram novamente tomando forma para mim.
Àquela altura, eu já conhecia algo de suas idéias,
que me ficaram claras com o Poema Para
os Fonemas da Alegria, do Thiago de Melo:
Peço
licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar este canto de amor publicamente.
Sucede que só sei dizer amor
Quando reparto o ramo azul de estrelas
Que em meu peito floresce de menino.
Peço licença para soletrar,
No alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo,
constelações de girassóis girando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa
às vezes não há casa: é só chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem diferente
que acaba de nascer
porque unindo palavras
aos poucos vai unindo
argila e orvalho, tristeza e pão, cambão e beija-flor
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem
mas um modo de amar -- e de ajudar
o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
Ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.
Peço licença para terminar soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.
Santiago
do Chile
Verão de 1964.[4]
Eu não conhecia, ainda, de uma forma mais sistemática,
o arcabouço teórico da Pedagogia do Oprimido, mas já dava para entender
muita coisa.
As coisas foram voltando aos poucos, graças à
mobilização da sociedade. Os movimentos pela anistia e pela volta da
democracia e dos exilados. A campanha pela reativação e reorganização da
UNE. O Congresso da reorganização, proibido pelas autoridades da ditadura,
nas escadarias do Centro de Convenções, em construção, de Salvador. Uma
mobilização fantástica, quando estudantes de todo o Brasil -- como os
estudantes e pesquisadores de todo o Brasil, na PUCSP, na Reunião de 1977,
eu também no meio -- disseram “Não!”, “Foda-se!”, à proibição
explícita da ditadura, e enfrentaram a intimidação, também explícita,
de seus soldados e policiais. Para o Congresso da UNE de Salvador, eu era
presidente do CA da faculdade, e íamos de fusca para Salvador. Acordei no
meio da noite uma hora com uma metralhadora na janela do carro; e um
policial do outro lado da arma, escancarando os dentes como só quem está
do outro lado de uma arma escancara: Vocês
vão para o festival? Desce!
Passamos horas num posto da polícia. Estávamos
amedrontados no meio da madrugada, mas não havia violência. Tudo que eles
queriam era sabotar o Congresso, impedir ou atrasar a chegada dos
estudantes, que convergiam de todo o Brasil para Salvador. Fomos liberados
após algumas horas. E detidos ainda mais três vezes na estrada. Mas
chegamos a Salvador, que estava cercada de tropas, no final impotentes, com
a chegada de milhares de estudantes, apesar dos outros que ficaram pelas
estradas com os pneus dos ônibus furados pelos policiais.
Mas havia milhares de estudantes no Centro de Convenções,
e foi fantástico. Uma hora encontramos uma informante da polícia anotando
as placas dos carros no local onde o nosso estava estacionado. Foi um
momento tenso. Ela quis botar moral com o olhar. Até que alguém gritou a
plenos pulmões: DEDO DUUURRRÔÔÔÔÔ!!!!
E os outros acompanharam, em uníssono: FORAAAAAAAA!!!
FORAAA-AA!!! E foi juntando gente, estudantes, aos berros...
Era um dos muitos gritos que estavam contidos na goela,
e que naqueles dias soavam desentupidos. contra os desprezíveis “dedos
duros”, que todo mundo sabia que infestavam as universidades, e podiam ser
qualquer pessoa a seu lado... Ela bateu em retirada, na carreira.
Oscilávamos entre o triunfalismo, foraaaaaaaaaa, e a preocupação, eita,
agora vamo sê fichado. A polícia filmava todo o Congresso,
ostensivamente, cara a cara...
Já era um clima triunfante -- contra a ditadura, e da
campanha pela anistia e pelo retorno dos exilados -- o que recebeu Paulo
Freire na Concha Acústica da UERJ. Como o que recebeu Miguel Arraes,
Francisco Julião, Betinho... e muitos outros, dos que voltaram.
Só no pós, comecei a ler Paulo Freire mais
sistematicamente. E a entender melhor os fundamentos teóricos e filosóficos
de sua obra. Mas continuei “encontrando Paulo Freire sem conhecê-lo
pessoalmente. Numa viagem de estudos que fiz à Europa e aos Estados Unidos,
já para participar de programas ligados à Abordagem Rogeriana,
“encontrei” Paulo Freire de uma forma muito forte e inesperada. Entre
perplexo e orgulhoso, eu ia “encontrando” Paulo Freire pelo
“caminho”.
Surpreendi-me boquiaberto, na viagem, com Italianos me
indagando e conversando com intimidade sobre Paulo Freire. Na Inglaterra,
encontrei um grupo de Latino-Americanos, entre os quais dois queridos
amigos, desenvolvendo um Seminário de Estudos sobre a metodologia de Paulo
Freire, sob orientação de um professor chileno, exilado, que ia,
periodicamente, de Genebra a Londres. Nos Estados Unidos, encontrei uma suíça
que falava carinhosamente sobre Paulo Freire e o seu jeito de ser.*
E “o meu queixo quase caiu” quando, almoçando com um Austríaco, no
Campus de San Diego da Universidade da Califórnia, ele me falou de que era
pedagogo, e estava desenvolvendo, na Áustria, um trabalho fundamentado nas
idéias de Paulo Freire e de Ivan Illich...
Tempos antes, eu sofrera um impacto similar quando,
deitado em minha cama, em Maceió, tentando decifrar Sociedade Sem Escolas, do austríaco Ivan Illich[5] -- a ele levado por inspiração de Liberdade
Sem Medo[6] -- deparo-me com o autor falando fascinadamente sobre
suas experiências no Brasil, no interior de Sergipe, com um brasileiro,
Freire, que alfabetizava adultos em quarenta dias...
*
Era assim, quando escrevi este texto, em 1983. Depois, em função de
alguns encontros, concernentes às relações entre a Psicologia
Humanista e a Pedagogia do Oprimido, e mesmo em função do presente
texto, lido por Freire, tivemos vários encontros na PUCSP e em sua
casa, antes em Perdizes e depois no Sumaré, em São Paulo. Ficamos
amigos, e algumas vezes aceitei convites seus para compartilhar de seu
feijão, em alegres papos de almoço, precedidos de doses generosas de
sua seleta coleção de cachaças nordestinas.
**
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
***
Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
[1]
Da canção que se tornou o hino da campanha pela Anistia dos exilados
do regime militar. O bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc.
[2]
MELO, Thiago -- FAZ ESCURO MAS EU CANTO PORQUE OUTRO DIA VAI CHEGAR,
Rio, Civilização Brasileira, 1965.
[3]
MELO NETO, João Cabral de -- MORTE E VIDA SEVERINA, Rio, José Olympio
Editora, 1983.
[4]
MELO, Thiago op. cit.
*
Tempos depois, descobri que seu marido hospedara Freire em sua casa
quando de sua chegada à Suíça.
[5]
ILLICH, Ivan -- SOCIEDADE SEM ESCOLAS. Petrópolis, Vozes, 1977, pp.
46-7.
Cedo em minha formação como psicólogo,
entrei em contato com a Abordagem Centrada na Pessoa. Maureen Miller O’Hara
tem sido uma das pessoas com quem mais tenho aprendido nos anos recentes, em
situações muito variadas, e das que mais têm influenciado a minha prática
e desenvolvimento teórico.
Lendo um artigo[1] seu, descobri, com surpresa e satisfação, que Paulo
Freire também havia exercido uma marcante influência em sua formação na
área de Ciências Humanas, e, em particular, no processo de sua transição
da área das Ciências Biológicas para a Psicologia. Tínhamos chegado a
Freire por vias muito distintas, e nos encontramos, com conseqüências
muito ricas para mim.
A Abordagem Abordagem Rogeriana “começou a entrar em
minha vida” por volta de 1978, quando Rogers, Maureen, John Wood, e outros
do grupo deles vieram ao Brasil facilitar alguns programas. Participei de um
workshop de longa duração,
facilitado por eles, em Arcozelo, no Rio. Vejo, hoje, a experiência como
uma experiência confusa, passível de críticas. Mas é uma verdade, também,
que me propiciou condições de crescimento pessoal e de aprendizagem até
então insuspeitadas por mim. De descobertas e de conquistas que estão
arraigadas no que, não sem alegria, apesar dos pesares, sou hoje.
De Arcozelo
para cá, tenho participado, como participante e como facilitador, de inúmeras
atividades ligadas às idéias e metodologia da Abordagem Centrada na
Pessoa, particularmente as que se originam e se desenvolvem a partir das idéias
e dos trabalhos de John K. Wood e de Maureen M. O’Hara. Estas atividades têm
sido uma parte importante de minha formação e de minha prática como psicólogo.
Conheci uma grande quantidade de pessoas e de situações, vivi muito, e
aprendi a transcender (pelo menos acreditar que podem ser transcendidas) difíceis
situações existenciais e interpessoais. Potencializei a minha fascinação
pelos seres humanos, pela vida e por seus desdobramentos. Conheci gente de vários
lugares do Brasil, e de outros países, em situações intensivas de
relacionamento interpessoal. Tenho me interessado, e buscado conhecer melhor
-- e estas atividades têm sido importantes espaços de aprendizagem -- a
dinâmica das relações que criamos ao atualizar o inevitável destino de
vivermos juntos. A destrutividade, de nós próprios e do(s) outro(s), a
nossa capacidade de liberação e de criação.
Este contato com a Abordagem Rogeriana trouxe condições
para que muitos processos potenciais em mim pudessem desabrochar, tanto em
termos pessoais como em termos profissionais. Encontrei um espaço e pessoas
no qual e com quem pude desenvolver a busca por uma psicologia e por uma
psicoterapia não autoritária, um espaço possível para o desenvolvimento
de uma psicologia efetivamente humanizante, ainda que atravessado,
igualmente, por elementos e dimensões passíveis de crítica e de
questionamento.
Como conseqüência, parte da verdade sobre mim é que
encontro-me envolvido (1984), com colegas que encontrei nesse caminho, na
busca e na afirmação de práticas e idéias que conduzam neste sentido.
Uma parcela importante do que tenho aprendido
experiencialmente até hoje, inclusive, e de uma forma marcante, com este
encontro com a Abordagem Rogeriana, é que a realidade é sempre
infinitamente nova, sua verdade também. E só na medida que podemos nos
fascinar por esta novidade é que podemos libertarmo-nos para desvendá-las
e construí-las, em sua inevitável provisoriedade. Só assim é que nos
livramos da imprudência de remarmos contra a maré de seu fluxo.
Os encontros, pseudo-encontros e desencontros (mas
principalmente os primeiros) com John Wood e com Maureen, como pessoas com
quem vivi atividades práticas de uma forma mais direta -- atividades nas
quais muito cresci --, têm sido, junto com a minha prática, o meu
principal meio de aprendizagem dos referenciais da abordagem Rogeriana.
Participei de algumas atividades com Carl Rogers. Contatos em que ficaram nítida
a sua honestidade pessoal, e o seu anseio de busca.
Observando o panorama real da psicologia, da
psicoterapia e profissões de saúde mental, o seu trabalho ressalta, ainda
que possa eventualmente merecer críticas (como qualquer obra criativa),
como uma tendência fundamental no sentido de um compromisso com o ser
humano, com a busca de modos humanos e humanizantes de exercício do poder.
Não apenas dos macro-poderes, mas em especial dos micro-poderes, que tão
freqüentemente estão depositados em nossas mãos, ao contrário dos macro, e que dependem de nosso poder pessoal de decisão.
Naturalmente que, ao discutir a Abordagem Rogeriana, e
ao propor mesmo, como acho necessário, a sua “desamericanização”, assumo uma atitude de crítica com relação
a alguns aspectos de suas colocações. Considero isto uma participação
numa empreitada comum, e, acima de tudo, honesto e sadio. Principalmente em
sendo eu uma pessoa de um contexto diferente do seu. Contextos que existem
em relações de conflito -- relações estas que, ao nível das pessoas,
situam-se freqüentemente abaixo do limiar do silêncio.
De modo algum, entretanto, tenho a intenção de faltar
com o meu reconhecimento da importância do trabalho e do valor pessoal
deles, e da importância e valor para mim da relação com eles.
Todas as grandes idéias,
as
aspirações de todos os povos,
os heroísmos todos, gestos
de arrebatado entusiasmo,
sejam meus deuses.
(Walt Whitman)
Somente
aquele que se volta para o outro homem enquanto tal e a ele se associa
recebe neste outro o mundo. Somente o ser cuja alteridade, acolhida pelo meu
ser, vive face a mim com toda a densidade da existência é que me traz a
irradiação da eternidade. Somente quando duas pessoas dizem, uma à outra,
com a totalidade de seus seres: ‘És tu!’ é que se instala entre elas o
Entre.
(Martin
Buber)
O sofrimento começa a
desumanizar quando dele não tomamos conhecimento. (...) Passou a barreira
da sensibilidade, como os aviões a jato passam a barreira do som. E, como a
barreira do som é o silêncio, a barreira da sensibilidade é a indiferença.
E isso significa nem mais nem menos que desumanização.
(Alceu de Amoroso Lima)
|
No Capítulo 6
de Sobre o Poder Pessoal -- A
Abordagem Centrada na Pessoa e a Pedagogia do Oprimido -- Rogers
menciona e comenta o que ele considera serem relações de
similaridade entre as duas abordagens. O texto enseja diferentes e contraditórias
perspectivas de análises. Uma de suas implicações relevantes, a meu
ver, é a de que é um movimento concreto do “mundo da psicologia”
em direção à Pedagogia do Oprimido, e em direção, mais
especificamente, ao oprimido. Sem dúvida que vale a pena saudar este
fato, uma vez que não são muitos os movimentos neste sentido dentro
da psicologia oficial. Que se apresenta (oprimido? Não! É outro departamento!...) satisfeita, entre os seus
muros, com olhares indulgentes e afirmações abstratas, e evasivas,
sobre os 95% de pessoas que se encontram do lado de fora*.
Com isto, além de contribuir efetivamente para a causa da exploração
e da opressão, com a desumanização, implicação natural,
desumaniza-se e fossiliza-se. O movimento de Rogers, e de outros que praticam a AR,
parece-me ainda mais significativo, na medida que parece derivar de
uma busca de referenciais para o desenvolvimento da própria
abordagem, que, como as outras abordagens de psicologia e de
psicoterapia, enfrenta o beco sem saída em que estão metidas com a
reificação do ser humano em nossa Sociedade Ocidental Pós-Industrial. Buscar incluir o oprimido, e a sua perspectiva da
realidade e da vida humana, parece ser parte importante do caminho no
sentido que leva a psicologia e a psicoterapia a desenvolverem-se como
produtos e processos de humanização e de libertação do homem.
Buscar incluir o oprimido e a sua perspectiva, sem assistencialismos e
falsas identificações, mais uma vez dissimuladores da opressão e da
alienação, parece ser a única forma de pormos
os pés no chão, para lidar com o homem (conosco mesmos), seja
ele de que mundo for. Porque a perspectiva do explorador parasita é
destrutiva e desumanizante para qualquer tipo de homem, inclusive para
ele próprio. Não se trata, assim, de “construir uma psicologia”
para os oprimidos, adotando a sua perspectiva, trata-se, sobretudo,
de, adotando a perspectiva da totalidade do humano, desenvolver uma
psicologia, uma ciência, para o homem. Assim, vejo um mérito importante na atitude de Rogers,
na medida que, bem ou mal, lança uma ponte, do poderoso lado da
psicologia institucional, através da qual algo de positivo pode
transitar em ambos os sentidos. Por outro lado, as possibilidades de crítica àquele
capítulo de Rogers no Sobre o
Poder Pessoal não parecem ser poucas. Inicialmente, o texto aborda a questão das relações
entre a AR e a PO de uma forma definitivamente muito apres-sada e
simplista. Esta é, aliás, uma tendência muito freqüente nas
comparações que se faz entre a AR e a PO. A implicação natural, é
uma superficialidade que escamoteia a complexidade de uma tal aproximação,
se não a inviabiliza, uma vez que tem por base uma consideração
muito limitada pela alteridade de Freire, de suas idéias, de seu
trabalho, e de seu contexto sócio histórico. Acredito numa relação
possível entre ambas as abordagens, apesar de tudo, mas esta seria,
apenas, uma base sobre a qual, no debate das pessoas que as praticam,
o diálogo pode se desdobrar, no sentido de uma saudável construção
e reconstrução respectivas. Curiosamente, parece que a maior limitação nas
tentativas efetuadas por praticantes da AR de relacioná-la com a PO,
deriva do fato de que seus autores não empatizaram de uma forma
adequada com esta pedagogia, e com as posições e condições
concretas de Freire. Como Rogers indica, há uma diferença fundamental
entre o seu trabalho e o de Freire, no que diz respeito às pessoas a
quem eles se destinam. No caso, os “estudantes das instituições de
ensino” e “camponeses amedrontados e oprimidos”. Parece-me, não obstante, que, para relacionar a ACP
com a PO, é necessário, e mesmo imprescindível, caracterizar clara
e explicitamente, o contexto
histórico e sócio cultural em que surgiu e em que se desenvolveu
cada uma das abordagens, e a quem elas se destinavam. O que pode
evidenciar as suas particularidades, as suas especificidades e
idiossincrasias. Um outro aspecto significativo a levar em consideração,
é que Rogers tem trabalhado e desenvolvido as suas idéias
basicamente no campo da psicoterapia e da educação. Freire
desenvolveu seus trabalhos e suas idéias apenas no campo da educação
-- não trabalhou no campo da psicoterapia --, tendo sempre, e
praticamente, um contexto político definido como referencial de seu
trabalho. Isto confere a cada uma das abordagens peculiaridades que não
podem ser negligenciadas numa análise da relação entre elas. Freire sempre concebeu a pedagogia como uma atividade
essencialmente política. Sendo a sua abordagem, desta forma, um
instrumento explicitamente político, referido ao contexto peculiar da
estrutura capitalista de nossa sociedade (foi isto, aliás, que deu
origem ao seu trabalho). Só a partir de Sobre
o Poder Pessoal é que Rogers, como ele mesmo coloca, atina para a
dimensão política de sua abordagem, explicitando-a como tal. É
exatamente isto que o leva a identificar similaridades entre a sua
abordagem e a PO. É importante atentar para o fato, entretanto, de
que a concepção do político é extremamente diferente em ambos. Freire partiu e assume
explicitamente a análise Marxista-Cristã da estrutura social, e
pensa, através dela, a sua pedagogia, como modo de transcendência
desta estrutura social. Rogers não assume esta perspectiva. Seu posicionamento
político é vago, ainda que se comprometa contra estruturas
desumanizantes, e com a construção de modelos de facilitação das
relações humanas que possibilitem a livre atualização do potencial
humano. De um modo geral (em um de seus últimos textos, Rogers
critica a ação imperialista dos EUA em El Salvador), Rogers, apesar
de entender a sua abordagem como política,
não a insere, de uma forma definida, num contexto das relações dos
Países de Primeiro Mundo, em particular dos EUA, com os Países do
Terceiro. Configura-se, assim, uma lacuna apreciável, e de difícil
transposição, para uma análise comparativa realista das relações
da AR com a PO, uma vez que o contexto dessas relações é um
referencial fundamental para esta última. Rogers tem se preocupado de uma forma acentuada com as
questões da corrida armamentista, e de como a psicologia poderia
oferecer subsídios para um eventual equacionamento da ameaça de
aniquilação da humanidade. Parece-me uma iniciativa importante, e
que interessa a todos. Vale ressaltar, não obstante, que, ainda que
esta seja uma questão crucial, para nós do Terceiro Mundo, a Questão
Leste-Oeste não esgota os nossos interesses mais importantes, e,
acredito, os interesses mais importantes da humanidade. Pontos
cruciais da preservação de nossa sobrevivência, em particular das maiorias
oprimidas, não se situam no eixo deste conflito, mas no eixo do,
melhor dissimulado, conflito
Norte-Sul. Este conflito, suas bases, desdobramentos, estruturas e
implicações não são, tematizados por Rogers e por sua abordagem. A AR se desenvolveu nos Estados Unidos, e Rogers
trabalhou -- e trabalha -- sempre com a Classe Média e Alta da
Sociedade Norte Americana (ou Européia), com psicoterapia e em educação
nas universidades. Freire trabalhou, trabalha, e desenvolveu as suas idéias
(quase que podemos dizer) a partir de, e em, um outro planeta. O
Nordeste do Brasil. Não se tratava, nem se trata, apenas -- ainda que
isto seja parte da verdade --, de “camponeses amedrontados e
oprimidos”, mas de camponeses historicamente afogados na exploração,
no sofrimento estruturado e no genocídio lento, abandonados à sua própria
sorte, nos descaminhos das “obras primas” e dos mecanismos da
desumanidade e da desumanização estruturadas, que, como seres
humanos -- todos nós -- não conseguimos ainda superar. Neste contexto, contexto da produção do trabalho e
das idéias de Freire, os Estados Unidos têm um papel específico,
principalmente porque têm um papel específico na produção e na
manutenção da miséria nos Países de Terceiro Mundo. Mas estas peculiaridades podem ser ainda mais
especificadas. Os trabalhos de Freire, no início dos anos sessenta,
foram minuciosamente acompanhados pelas Agências de Informação dos
Estados Unidos. Agências de financiamento do Governo Norte Americano
chegaram a financiar alguns dos projetos de Freire. Alarmarem-se
depois com os resultados revolucionários obtidos por Freire. Passaram
então a conspirar contra o trabalho de Freire -- , não por acaso,
contra a democracia brasileira, e com os movimentos que resultaram no
golpe militar de 1964. Participaram, assim, ativa e decisivamente do
desmantelamento do trabalho de Freire, e dos resultados por ele
obtidos, o que se deu, por fim, com o movimento militar, com Freire
sendo exilado para o Chile de Allende, depois para a Europa. Ao considerar e colocar estes dados, não pretendo
contrapor sectariamente o Terceiro Mundo ao Primeiro; ou Brasil,
Terceiro Mundo e Estados Unidos, mas indicar as dificuldades concretas
que se colocam a uma análise das relações entre as duas abordagens,
a partir das relações entre os seus respectivos contextos de origem
e de desenvolvimento. A Abordagem Rogeriana difundiu-se por vários países.
Num primeiro momento, ela foi, e é, assimilada, tanto as suas concepções
e método, como suas hierarquias de poder, quase que integralmente,
como ela se desenvolveu nos Estados Unidos. Isto é curioso e reflete
o quanto, freqüentemente, somos partes do Primeiro Mundo no interior
do Terceiro, mantendo e reproduzindo as relações de desigualdade
entre esses mundos. Com a difusão pelo mundo da AR, os Norte Americanos --
principalmente -- que participavam e participam deste processo,
contataram e contatam outros contextos sócio-culturais. Um dos mais importantes limites de sua produção teórica
tem sido, parece-me, o de dar à sua própria linguagem particular o
cunho de uma linguagem planetária e generalizável a toda a
humanidade. Não se preocupam, ao tentar uma empreitada desta
natureza, em incluir nesta linguagem, já que a pretendem planetária,
a voz e as linguagens das pessoas e dos povos destes outros contextos.
Sintoma de que freqüentemente negligenciam a percepção destes
outros como tão humanos quanto eles próprios. Explicitam apenas a sua linguagem, com o pressuposto de
uma validade universal. Com isto, colaboram no sentido da aniquilação
destas outras vozes e linguagens, que perecem no discurso da
abordagem. Curioso, entretanto, mais uma vez, é ver como a
linguagem Norte Americana, pretensamente universal, é assimilada por
pessoas de outros contextos, cuja voz nela não está incluída, e que
passam, com toda a desenvoltura, a expressá-la. Isto é freqüentemente
simétrico, também, com os mecanismos de transferência do poder
institucional. É importante frisar, todavia, que esta já não parece
ser mais uma tendência absoluta. Depois que os Norte Americanos “saíram
de casa” começaram a viajar mais pelo e contatar o Mundo, eles
também começam a mudar. A indicação das identidades com a PO é,
acredito, parte deste processo. Importantes produções teóricas suas, já levam em
consideração as diferenças, e expressam o seu processo de
aprendizagem de uma “língua” que não pressuponha a aniquilação
dos diferentes -- às vezes tão diferentes. Maureen (que não é Norte América-na, mas Irlandesa,
apesar de morar nos Estados Unidos) tem desenvolvido nesta direção
muito de sua produção; John Wood, também. No último número do
periódico Journey, John comenta a sua experiência de reconverter-se em Americano, depois de alguns meses na Europa. Toda
esta tendência parece alvissareira, e representa o sadio e natural
exercício de uma capacidade de crítica e de reconstrução, à
medida que fluem o tempo e a experiência. Quando faço estas observações, entretanto, e quando
proponho uma des-Norte-americanização
da AR, não estou propondo uma des-Norte-americanização
dos Norte-Americanos,
no que eles têm de sua própria cultura. Que, enquanto tal, é tão
feia ou bela quanto a cultura de qualquer um de nós, ou de qualquer
outro povo. Em Sobre o Poder
Pessoal[1], respondendo a críticas que propunham que a Abordagem
Centrada na Pessoa seria “moderada”,
e não teria relevância para lidar com “minorias
oprimidas”, tais como “Negros,
Chicanos*
, mulheres, estudantes, ou outros grupos marginalizados e
relativamente sem poder”, Rogers diz: “Eu poderia responder que, embora as ocasiões de trabalhar com minorias
raciais e étnicas tenham sido para mim limitadas, minha experiência
é de todo oposta a tais afirmações”. E invoca as semelhanças que ele vê entre a sua
Abordagem e a Pedagogia do Oprimido, para refutar a crítica. Diz
Rogers[2]: Os princípios sobre os quais (Freire) assenta seu trabalho são tão
semelhantes aos princípios de ‘Liberdade para Aprender’, que eu
fiquei boquiaberto e estarrecido. Concordo com as concepções de Freire. Já indiquei, ao falar de educação,
que eu estenderia os princípios básicos, sobre os quais ambos
parecemos estar de acordo, a todas as situações de aprendizagem. De início, é interessante observar a disposição de
Rogers de assumir os pontos de contato entre sua abordagem e a de
Freire. Salta aos olhos, de início, também, o fato de Rogers colocar
o problema em termos de minorias
étnicas e raciais oprimidas. Sem querer desqualificar as lutas de libertação e de
afirmação dessas minorias no contexto da comunidade Norte Americana,
é imperioso reconhecer que a questão principal para qualquer
humanista não é esta. Não se trata simplesmente de minorias
étnicas e raciais oprimidas, mas das maiorias
econômica-mente oprimidas. Maiorias
que são o sub-produto necessário de um sistema capitalista de produção,
de uma cultura capitalista, que, ao produzir de um lado a acumulação
capitalista nas mãos de uns poucos, produz, necessariamente, do outro
lado, a pobreza e a miséria necessárias a sua própria manutenção
e reprodução. Um sistema que de há muito extrapolou as fronteiras
nacionais, e que cria e mantém agora a pauperização de nações
inteiras. Um sistema que, junto com a burocracia socialistóide, ameaça
com a aniquilação a todo o Planeta.*
No texto citado, Rogers[3] coloca: Eu
dirigia-me a estudantes em instituições de ensino. Ele (Freire) fala
sobre o trabalho com camponeses amedrontados e oprimidos. Gosto de dar
exemplos concretos, ele usa quase só elementos abstratos. Ainda
assim, os princípios sobre os quais assenta o seu trabalho são tão
semelhantes aos princípios de ‘Liberdade para Aprender’ que
fiquei boquiaberto e estarrecido. Eis o
seu método de trabalho e os resultados que obteve junto aos
lavradores... Neste trecho, Rogers parece sugerir uma observação
sobre uma atitude idealista de Freire (...Gosto
de dar exemplos concretos, ele usa quase só elementos abstratos.
Ainda assim...). Esta observação, e o que dela implica soa
absurda para qualquer pessoa que conheça Freire ou a sua obra. Rogers
refere-se certamente a Pedagogia do Oprimido, e talvez não tenha captado adequadamente a
natureza daquele trabalho como o momento maior de reflexão de uma
intensa práxis. Tão real e concreta que conduziu Freire à prisão e
ao exílio. Prisão e exílio que não ocorreram simplesmente por
causa de suas idéias, mas, principalmente, em função de uma práxis
que, àquela altura, mobilizava milhares de pessoas, em todo o Brasil,
em um amplo trabalho de alfabetização de adultos, práxis da qual as
idéias de Pedagogia do Oprimido
eram um momento maior de reflexão. De qualquer forma, foi uma práxis que não se
interrompeu, que prosseguiu e que tornou Freire conhecido nos lugares
por onde passou, nos dezesseis anos de exílio. Pedagogia
do Oprimido foi editado originalmente no Chile, e culminava todo
um trabalho já desenvolvido no Brasil. Era, assim, o ponto culminante
de teorização de uma longa e profícua prática. Tomá-lo
isoladamente não faz justiça ao trabalho de Freire. Rogers propõe-se a descrever a metodologia e
resultados de Freire: ...eis o
seu método de trabalho e os resultados que obteve junto aos
lavradores... A descrição e a análise que se seguem, em todo o capítulo,
nas quais Rogers baseia suas comparações da AR com a PO, são
extremamente superficiais, apressadas, e comprometidas, grave-mente,
pela omissão dos princípios teóricos, filosóficos e políticos das
idéias e da metodologia de Freire. As idéias e método de Freire são -- expressão que
ele mesmo gosta de usar -- datados
e situados. Surgiram no
Brasil, no final dos Anos Cinqüenta e início dos Anos Sessenta. Um
momento em que as massas populares brasileiras tomavam consciência de
si, e se mobilizavam para participar ativa e efetivamente de sua história,
após séculos de alienação e exclusão do poder de decisão sobre
suas condições concretas de vida. Freire via, naquele momento, na
educação, e em particular na alfabetização -- já que somos um país
com uma grande população de analfabetos -- um momento pedagógico
fundamental para que esta participação pudesse orientar-se de uma
forma consciente, desalienada, não fisiológica. Fundamentada,
sobretudo, na realidade concreta do educando[4]. Começou a desenvolver a idéia que impregnou e que dá
sentido a seu método: ...uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na
decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas
que se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a
leitura da palavra, daí que a posterior leitura destas não possa
prescindir de continuidade da leitura daquela. Linguagem e realidade
se aprendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada
por sua leitura crítica, implica a percepção das relações entre o
texto e o contexto.[5]. Num outro momento, Freire coloca: A violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não
instaura uma outra vocação -- a do ser menos como distorção do ser
mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra
quem os fez menos. E essa luta somente tem sentido quando os
oprimidos, ao buscar recuperar a sua humanidade, que é uma forma de
criá-la, não se sentem idealística-mente opressores, nem se tornam,
de fato, opressores dos opressores, mas restaura-dores da humanidade
em ambos.[6] Fiori sintetiza: A
alfabetização, portanto, é toda a pedagogia: Aprender a ler é
aprender a dizer a sua palavra. E a palavra humana imita a palavra
divina: é criadora. A
palavra é entendida, aqui, como palavra e ação; não é termo que
assinala arbitrariamente um pensamento, que por sua vez discorre
separada da existência. É significação produzida pela ‘práxis’,
palavra cuja discursividade flui da historicidade -- palavra viva e
dinâmica, não categoria inerte, exâmine. Palavra que diz e
transforma o mundo. (...) Dizer
a sua palavra equivale a assumir conscientemente, como trabalhador, a
função de sujeito de sua história, em colaboração com os demais
trabalhadores -- o povo.[7] Desta forma, Freire inseria-se no
movimento histórico concreto de seu sistema social, em
busca de uma pedagogia que se colocasse a serviço do oprimido
no processo de sua libertação, permitindo-lhe converter-se em agente
de transformação dela. De objeto e vítima passiva da história, em
seu sujeito, pela leitura, conscientemente crítica, do mundo, e pela
conquista da capacidade de dizer a sua palavra. A educação foi, e é,
entendida na sua dimensão essencial-mente política, de participação
no processo de constituição do estudante como sujeito e como agente
de sua história -- a sua própria e a de seu sistema social. Freire desenvolveu, assim, um método revolucionário
de alfabetização, que propicia a alfabetização em quarenta dias de
um adulto analfabeto, em seu próprio meio. Desenvolveu inúmeras
experiências no interior do Brasil, dentre as quais as aludidas por
Ivan Illich em Sociedade sem Escolas[8]. O movimento militar de 1964 alcançou-o quando
coordenava, junto ao Ministério da Educação, um amplo programa de
alfabetização para todo o país, no qual achavam-se envolvidas
milhares de pessoas, entre educadores e educandos. Funcionários do governo Norte-Americano, que prestavam
serviço no Brasil naquele momento, opinaram que o método era
revolucionário, e que poderia produzir profundas mudanças. Depois do golpe militar, Paulo Freire foi exilado.
Esteve no Chile de Allende, onde dedicou Pedagogia
do Oprimido, em 1979, Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se reconhecem, mas que
sobretudo com eles lutam[9]. Foi para a Europa, trabalhou na Itália. Na Suíça,
passou a assessorar o Conselho
Mundial de Igrejas, e fundou um instituto -- O IDAC, Instituto de Desenvolvimento de Ação Cultural -- em Genebra.
Solicitado, deu assessoria, junto com o pessoal do IDAC, na estruturação
dos sistemas educacionais das jovens Nações Africanas, recém
libertadas do colonialismo português. Estas experiências estão
relatadas em livros, em particular em Cartas
à Guiné-Bissau[10] e Vivendo e
Aprendendo[11]. Voltou ao Brasil, em 1980, desenvol-vendo atualmente
seus trabalhos como professor da Universidade Católica de São Paulo
e da Universidade de Campinas. É também professor visitante da
Universidade de Havard, nos Estados Unidos. Acho difícil que se entenda a postura de Freire, sem
que se evoque a sua postura Marxista-Cristã de compre-ensão de nossa
realidade, e da inserção desta na realidade mundial. Postura de
compreensão da possibilidade, e da necessidade de sua superação, de
seu processo de transformação. Por outro lado, Freire é, essencialmente, um homem do
diálogo. Um mágico da vivência de palavras para dizerem e viverem
verdades. O diálogo, aqui,
não é simplesmente o do conceito vulgar, mas o diálogo
entendido como atitude dialógica,
e como encontro fenomenológico existencial, no sentido em que o
entendeu M. Buber[12]. (Este parece ser, consistentemente, um ponto de
contato entre a sua Pedagogia do Oprimido e a Abordagem Centrada na
Pessoa, que voltarei a comentar adiante). Um apaixonado pelo homem e
pela vida, um humanista radical, que só pode entender o humanismo
como um processo radicalmente comprometido com o desenvolvimento do homem
todo e de todos os homens, como disse Malraux. Sua prática política,
sua prática científica, pessoal e profissional, é uma prática
fundamentada nesses ideais. Sua produção está, concreta e
explicitamente, a serviço do processo de transformação das
estruturas que mantêm e criam as desigualdades entre as pessoas e
entre as classes. Partindo da crítica marxista do sistema capitalista de
produção, como essencialmente iníquo e desumanizante, insere-se
confiantemente no processo de sua superação. Entende-se, assim,
fundamentalmente comprometido com o homem, através de seu
comprometimento como brasileiro nordestino, como brasileiro e como
latino-americano, com a transformação das estruturas que sustentam,
de um lado, a acumulação das riquezas, e, do outro, a produção e a
manutenção da miséria às raias do indizível. Nada disto -- que é tão intrínseco e essencial, e
necessário, a Paulo Freire e a seu método -- está mencionado no
referido capítulo de Rogers, em Sobre
o Poder Pessoal. Um Paulo Freire, e uma Pedagogia do Oprimido,
desvinculados destes elementos, estão essencialmente
descaracterizados. Ele (Freire), continua Rogers, teve apenas cinco anos para trabalhar no Brasil, antes de ser preso; a
antiga ordem e a Junta Militar que assumiu o poder, em 1964,
temiam-no. Ele foi convidado a deixar o País, indo para o Chile onde,
desde então, tem trabalhado com várias organizações
internacionais.[13] Na verdade, quem assumiu o poder no Brasil, em 1964, não
foi uma Junta Militar, mas um marechal do exército. A Junta Militar só
assumiu três anos depois, em 1967. Quando Rogers escreveu isto, em
1977, já se havia perpetrado, em 1973, o covarde golpe militar no
Chile, com a decisiva participação da Embaixada dos EUA naquele País.
Allende já estava morto, assassinado, assim como muitos chilenos, que
pereciam e viriam a perecer das formas mais torpes e covardes;
Pinochet -- com o auxílio de especialistas
Norte Americanos -- dava seqüência à sanguinária matança de
cinco mil Chilenos. Paulo Freire, que até então estivera no Chile,
fugira mais uma vez, para não ser preso e eventualmente torturado
e/ou morto, como dezenas de outros Brasileiros e Chilenos ilustres.
Estava então, 1977, na Suíça, trabalhando para o Conselho Mundial
de Igrejas... E Rogers não sabia muito bem dele. Acredito que Rogers tem razão, quando diz existirem
similaridades entre a sua Abordagem e a Pedagogia do Oprimido. Mas ele
não chega a localizá-las e atingi-las em suas colocações naquele
capítulo. Parece-me que o seu erro básico, como mencionei, é o
de não considerar adequadamente e concretamente a alteridade fundamental da
pedagogia do oprimido e das idéias de Freire, e do próprio
Freire, em relação à AR. Arranca-os de suas bases e de suas raízes,
para tentar uma comparação com um modelo delas abstraído. O que
consegue, de fato, é liquidá-la conceitualmente. Diz a Pedagogia do
Oprimido com a linguagem da AR. Trata-os como abstração. Reduz a
Pedagogia do Oprimido a alguns conceitos na sua própria linguagem, o
que configura -- sem querer pôr em questão a honestidade pessoal de
Rogers – o feito de um processo de aniquilação conceitual, ideológica. Parece-me que, se queremos desven-dar relações, que
certamente existem entre as duas abordagens, a despeito de suas
diferenças, é necessário valorizar estas últimas, conhecê-las,
analisá-las, ponderá-las, conversar sobre elas, afirmá-las, respeitá-las,
para, só então -- no diálogo
de alteridades --, afirmar as primeiras e buscar construí-las. A isto
Rogers negligencia, nas referências daquele capítulo de Sobre
o Poder Pessoal, a respeito de Freire, e da Pedagogia do Oprimido.
O que compromete vitalmente as suas colocações. Maureen Miller, uma das mais próximas colaboradoras de
Rogers nos últimos anos, e uma das mais ativas construtoras do
conhecimento recente da AR, ressalta, como observei no início, a
presença das idéias de Freire no desenvolvimento de seus próprios
pontos de vista. No seu artigo Psicoterapia,
Tecnologia da Mudança ou Busca de Conhecimento[14], ela refere-se ao seu encontro com a obra de Freire,
que, segundo relata, deu-se ao mesmo tempo que o seu encontro com a
obra de Rogers: (...) uma das mulheres passou-me um capítulo de um livro intitulado ‘Client-Centered Therapy’, de Rogers, capítulo intitulado ‘Educação Centrada no
Estudante’, e o livro, “Pedagogy
of the Opressed”, de
Freire. Esses dois livros abriram para mim um campo novo, e entrei nele como
normalmente o faço: completamente[15] Maureen tem se preocupado com as relações entre a AR
e a PO. No First
International Forum on the PCA, realizado na Cidade de Oaxtepec,
no México, em Julho de 1982, ela apresentou um trabalho sobre o
assunto intitulado, “Person-Centered
Approach as Conscientização: The Works of Carl Rogers and Paulo
Freire”. Quero tecer alguns comentários com relação a este
texto. Logo no início de seu trabalho, Maureen comenta a
natureza utópica das atitudes e idéias de Freire. Ela coloca: Freire
admite ser um utopista. E cita-o: ‘Conscientização’ implica em utopia. Quanto mais conscientes nós
somos, mais somos capazes de denunciar o inumano e o desumanizante, e
de proclamar o humano, movendo-nos, desta forma, sempre para mais próximos
de um sonho utópico. Nosso desejo é o de transformar.[16] Pelo que diz nesta passagem, Freire é um utopista. A
utopia é, de fato, um ponto fundamental da perspectiva de Freire.
Mas, dizer apenas isto, é insuficiente para definir a sua posição e
a sua concepção de utopia. As idéias de Freire fundamentam-se,
essencialmente, numa visão materialista-histórica da realidade, em
oposição a uma concepção idealista. A utopia -- palavra
histórica (Buber), que nos instiga a constituir na ação uma
resposta -- se constitui fenomenológico existencialmente como a
presunção de algo que não existe, mas que potentemente anuncia-se
como histórica-mente possível, a partir da negação de uma ordem
vigente, e do que, meramente, no âmbito restrito dos elementos de sua
realidade histórica, está anunciado como possível. Diante do ser
menos do oprimido, Freire identifica em ação a tendência viva
para a transformação, a tendência intrínseca para ser
mais. No movimento da história ele identifica o movimento da
classe oprimida para transformar a sua condição. A utopia é
fundamentalmente, para ele, um possível
histórico. Está arraigada naquilo que a realidade prenuncia como
passível de ser construído pelo tentativa e risco da ação
transformadora. Este prenúncio e possibilidade históricos são condições
necessárias da utopia de Freire: seu sonho utópico constitui-se da
interação ativa com a realidade material (em oposição à ideal). Germina da realidade concreta e nela desemborca, tanto para
nutrir-se como para realizar-se. Dizer, pois, simplesmente, que Freire é um utopista, sem clarificar adequadamente estas dimensões
de sua utopia, não define devidamente a sua atitude. Num outro trecho de seu trabalho, Maureen faz as
seguintes colocações: Existem similaridades técnicas entre a pedagogia do Oprimido... e as Abordagens centradas na pessoa à terapia, educação e facilitação de grupo... Seria um erro,
entretanto, assumir que tecnologias similares significam resultados
similares... Não acredito que os aspectos importantes, quer da pedagogia de Freire
quer das abordagens centradas na pessoa sejam baseados em suas
tecnologias. Quando indagamos sobre os fins, temos um quadro mais claro do compromisso
dos dois homens. Torna-se possível ver em que medida os seus
trabalhos são baseados em uma visão similar da vida humana, em que
medida eles são baseados numa análise similar e em que medida suas
práticas são compatíveis. E mais adiante: Carl
Rogers e Paulo Freire passaram suas vidas de trabalho em diferentes
contextos. Rogers tem trabalhado predominantemente com membros da
classe média da cultura dominante, pessoas muito parecidas com ele próprio.
Freire trabalha predominantemente com pessoas dominadas, camponeses
iletrados, no terceiro mundo. Esta diferença não pode ser vista de
uma forma superficial, especialmente quando se compara os trabalhos
dos dois homens ao nível de suas tecnologias; comportamentos que são
libertadores em um contexto podem muito bem ser opressivos em outros. Para
entender a correspondência entre os trabalhos dos dois homens, é
necessário ir por sob conceitos de superfície, tais como técnica. O
trabalho de Freire não é revolucionário por causa de seus
compromissos com camponeses do terceiro mundo. Existem exemplos dos tão
falados libertadores dos oprimidos que simplesmente continuam as táticas
de dominação. O trabalho de Freire é revolucionário em função de
seu comprometimento com a verdade da realidade. O
trabalho de Rogers pode ser reformulado e reconhecido pelo que ele
realmente é -- um processo de busca sistemática da verdade da
realidade. Não são nem a não diretividade, nem a expressão de
sentimentos que fazem as abordagens centradas na pessoa terapêuticas.
É o conhecimento ou consciência crítica, sobre sua própria condição,
que cura. Pessoas
em diálogo umas com as outras e com o mundo expressam sua herança
humana plena. Ainda que diferentes contextos imponham diferentes
problemas técnicos, quer seja no contexto de uma favela brasileira,
de uma sessão de aconselhamento norte- americana ou de um grande
grupo de comunidade, esta atividade humana é revolucionária, terapêutica
e transformadora. A
abordagem centrada na pessoa teve suas origens numa busca de estratégias
de libertação de pessoas oprimidas por ideologias desumanizantes,
instituições, tecnologias, crenças religiosas, mitos pessoais e
ortodoxias. O objetivo terminal da intervenções centradas na pessoa
era ‘tornar-se uma pessoa’. Rogers está comprometido a ajudar
pessoas a se tornarem quem, no mais profundo de seus corações, elas
sabem ser, diferentes da multidão. Freire
tem exatamente o mesmo objetivo.[17] Considero importante o trabalho de Maureen, sob vários
aspectos diferentes. Tanto no sentido de ser um movimento da
Psicologia em direção à Pedagogia do Oprimido, como já observei,
como no sentido de que aprofunda uma análise crítica das relações
entre a AR e a PO, ressaltando aspectos que me parecem relevantes,
como, por exemplo, o de que eventuais pontos de contato não se dariam
ao nível tecnológico. Acredito, na verdade, ser este trabalho de
Maureen um momento de um processo de tentativas de entender e afirmar,
por entre profundas diferenças entre as duas abordagens, a intuição
de inesperados, e certamente
preciosos (quem sabe profundos), pontos de contato. Processo este, no
qual busca inserir-se o presente trabalho. Mesmo assim, considero que, parte significativa das
afirmações que são feitas no texto de Maureen, relativas às
identidades entre as posturas e trabalhos de Rogers e de Paulo Freire
pecam, ainda, por fundamentarem-se numa consideração superficial
para com a obra e trabalhos de Freire. Para a formulação de
analogias ou paralelos, são comuns neste texto generalizações e,
eventualmente, afirmações que negligenciam ou desconsideram
determinantes e aspectos dos mais básicos e essenciais da obra
Freire. Nos trechos citados acima, está muito das teses de
Maureen neste trabalho. Teses que talvez possam ser sumariadas nos
seguintes itens: a) Existem muitas similaridades técnicas entre a pedagogia do oprimido...
e as ‘abordagens centradas na pessoa’... seria um erro, entretanto
assumir que tecnologias similares necessariamente significam
resultados similares; b) Quando indagamos sobre os fins, temos um quadro mais claro do
compromisso dos dois homens... Rogers está comprometido a ajudar
pessoas a tornarem-se quem, no mais profundo de seus corações, elas
sabem ser, diferentes da multidão. ... Freire tem exatamente o mesmo
objetivo; C) Quando indagamos sobre os fins, torna-se possível ver em que medida os
seus trabalhos são baseados em uma visão similar da vida humana, em
que medida eles são baseados numa análise similar, e em que medida
suas práticas são compatíveis; d) Carl Rogers e Paulo Freire passaram suas vidas de trabalho em diferentes
contextos. (...) Esta diferença não pode ser vista de uma forma
superficial (...); e) O trabalho de Freire não é revolucionário por causa de seu
compromisso com camponeses do terceiro mundo (...))))), é revolucionário
em função de seu compromisso com a verdade da realidade. São importantes as observações de Maureen com relação
ao fato de que eventuais similaridades não derivariam necessariamente
de tecnologias similares, e que, tecnologias similares podem levar a
fins diversos. Em primeiro lugar, entretanto, não vejo explicitadas
similaridades técnicas significativas entre a PO e a AR. A PO tem um
encadeamento de procedimentos técnicos específicos (que, de fato não
é a sua dimensão principal), através do qual, ao se abordar uma
certa comunidade, pesquisa-se o seu universo
vocabular, e se identifica os temas
geradores, através dos quais será confeccionado o material a ser
adotado nos círculos de cultura. São procedimentos especificamente definidos, que,
enquanto tais, não guardam similaridade com o que poderíamos chamar
de aspectos técnicos da AR,
que não extrapolam o momento específico do encontro. Os procedimentos
técnicos da PO articulam-se explicitamente com a totalidade histórico
social mais ampla, na qual grupo, indivíduo, e educador se inserem; e
têm por objeto de trabalho os vínculos materiais, culturais,
cognitivos e afetivos específicos desta inserção, de suas conseqüências
na determinação da constituição do indivíduo e do grupo. Já a AR não explicita, na formulação de seus
procedimentos técnicos, as relações da condição e atuação do
terapeuta, ou do educador, com o grupo e com a totalidade sócio-histórica
na qual eles se inserem. Eventualmente, são feitas alusões à totalidade planetária. Tal procedimento, entretanto, não leva em
consideração as totalidades intermediárias, que mediatizam a inserção
da condição do indivíduo, do grupo, do terapeuta ou educador, no
contexto global. Quanto a “fins
comuns”, nos trabalhos de Rogers e de Freire, parece-me uma
afirmação exagerada. Claro que podemos indicar aspectos que poderíamos
identificar como fins comuns em
ambos os conjuntos de idéias. Mas, ao elevarmos esses fins
comuns ao nível de uma identidade dos objetivos de ambos, tomamos
os respectivos conjuntos de idéias, e em particular a PO, num nível
tal de genericidade que a descaracterizamos completamente. É interessante observar que a palavra “oprimido”,
na terminologia da AR e na terminologia da PO, respectivamente, não
se refere a uma mesma condição. Referem-se, em cada caso, a
conceitos de universos teóricos diferentes. E é, certamente, impossível
reduzir um conceito ao outro, do modo como ambos estão formulados. Por outro lado, o objetivo de Freire parece ser o de,
entendendo-se explicita-mente como agente concreto, desenvolver uma prática
educacional que possibilite ao educando oprimido -- em particular ao
política e economicamente oprimido do terceiro mundo -- a leitura
conscientemente crítica de sua realidade. De tal forma que ele possa, em particular,
desmistificar a sua própria explicação de sua condição
existencial, e reconhecer-se como membro de um segmento social de
oprimidos e sofredores. E não, apenas, como individualidade
pessoal sofredora e oprimida. E possa -- na descoberta, invenção e
compartilha-mento da consciência de seu sistema social particular,
totalidade mais ampla e concreta da condição de sua opressão e do
seu sofrimento -- proferir, de forma, agora, conscientemente crítica,
a particularidade e a universalidade de sua palavra como ser humano
oprimido, que luta pela libertação, e resgate, de sua humanidade.
Juntando sua voz à dos outros, como ele, oprimidos. Passando a
constituir-se, desta forma, como sujeito ativo de sua própria história,
e da história de sua integração social. Agora não mais,
simplesmente, como objeto passivo e vítima destas. Seu objetivo é o de participar, explícita e
efetivamente, do processo da história de libertação das classes
oprimidas --, e, pela libertação destas, da emancipação do homem.
Somando esforços no sentido do processo de tomada de consciência de
si próprias dessas classes, como segmento social oprimido. Condição,
em essência, determinada e mantida por razões históricas,
explicadas sempre de um modo mistificado. Desta forma, a PO almeja participar do processo de
constituição da consciência, e de mobilização da ação
transformadora, das classes oprimidas, tanto ao nível dos indivíduos
particulares, como a nível de seu corpo social, no sentido da
constituição de uma história compatível com um projeto de resgate
de e desdobramento de sua humanidade. As formulações dos respectivos fins em Rogers e em
Freire são formulações muito diversas, oriundas de interesses
diversos, e com inspirações diversas. Temos em Rogers, certamente, uma inspiração no
existencialismo monádico de Kierkegaard, que conduz ao individualismo
e, no limite, ao desespero, como resíduo da existência. E, em
Freire, a rebeldia marxiana, diante da injustiça e da iniqüidade,
que busca a sua articulação social. Neste sentido, parece-me que não podemos dizer que
Freire se ocupa também da restauração “da voz de cada pessoa”.
Para ele não se trata, normalmente, de uma restauração.
Imerso no oceano de uma conjuntura histórico-social que
historicamente conspira contra a sua humanidade, e, não raro, contra
sua própria vida, o oprimido nunca pôde, em geral, ter, e expressar,
a sua voz enquanto dimensão profunda de sua condição, e do
imperativo de sua reivindicação para alterá-la. Por outro lado, a palavra que o oprimido passa a
proferir, através de uma prática educacional libertadora, é, ainda
que não apenas, a sua palavra singular como sujeito individual.
Simultaneamente, é, igualmente, de uma forma intrínseca, a palavra
de um sujeito transindividual,
o seu segmento social, que com ele configura um outro momento de uma
indissociável unidade como objetos da opressão e da dominação. Esta questão interpenetra-se com a questão relativa
à colocação de serem similares as análises da sociedade feitas por
Rogers e por Freire, e de serem similares as suas respectivas visões
da vida humana, com Maureen coloca. Acho que, existe, nestes termos, uma distância quilométrica
entre Rogers e Freire. Não acredito -- sem querer assumir uma atitude
maniqueísta --, que os trabalhos de Rogers e de Freire, que a ACP e a
PO, sejam baseadas em visões similares da vida, ou que sejam baseadas
em análises similares. Não se trata, simplesmente, a meu ver, de uma
diferença apenas ao nível dos aspectos tecnológicos; não se trata
apenas de uma diferença de ênfase ou meramente quantitativa, mas de
uma diferença nitidamente qualitativa. A Pedagogia do oprimido parte, e tem como método
fundamental, uma análise dialética marxista da sociedade. Desta análise,
extrai a sua visão da vida humana, e o seu conceito e caracterização
do oprimido. Entende a situação de opressão como historicamente
engendrada, e acredita na possibilidade de sua superação,
posicionando-se pratica-mente como agente desta superação, através
do natural processo de historicização. Posiciona-se explicitamente
pela perspectiva e causa do oprimido, e pelo processo de sua luta de
libertação. A sua prática só pode ser entendida dentro destes
referenciais, que lhe dão o seu sentido particular. O indivíduo que
assume a prática da PO, assume, e valoriza, a condição intrínseca
de si como agente histórico, na realidade social concreta em que está
inserido. Posicionando-se pela perspectiva e causa do oprimido, como
causa da emancipação do homem. Pela atuação no sentido da
transcendência de sua condição, transcendência esta vista como
necessariamente tendencial no curso do processo histórico. Seus
procedimentos técnicos têm como referencia esta explícita
perspectiva e opção política. Rogers e a sua abordagem, mesmo quando se referem ao
oprimido, não assumem esta análise e perspectiva, e a visão que
delas deriva da condição e da vida humana, da condição e da vida
do oprimido. Sua prática reporta-se a um processo genérico e a histórico
de atualização do potencial humano, decorrente da tendência
formativa do universo. Mas não vai mais além, no sentido de
definir este processo em termos historicamente mais claros e
objetivos, no seio do processo histórico social concreto. Maureen menciona uma questão que parece fundamental
tanto para uma compreensão das determinações do processo de
crescimento de ambas as abordagens, de suas formas e conteúdos, como
para uma análise de suas eventuais relações, e para um eventual
esclarecimento de condições para o desenvolvimento de relações de
diálogo entre os que as praticam: é a questão do contexto
respectivo em que elas evoluíram. É claro que estes contextos
determinam particularidades significativas. A AR diferenciou-se e cresceu nos EUA, num contexto de
primeiro mundo. Na verdade, não se trata apenas do fato de que Rogers
trabalhou basicamente com pessoas da classe média. Isto não é
suficiente para definir a diferença do seu trabalho com relação ao
de Freire. A classe média Norte-Americana é essencialmente diferente
da classe média Latino-Americana, por exemplo. A PO surgiu como
resposta a uma condição histórica particular da Sociedade
Brasileira; como resposta à realidade da opressão e ao movimento
popular de busca de sua superação de uma maneira concreta. Podemos
dizer que a AR surgiu e cresceu no seio daqueles para cujas mesas,
carros e casas vai muito do que é expropriado corpo e do ser, da casa
e dos pratos daqueles em cujo seio nasceu a Pedagogia do Oprimido.
(Sem maniqueísmo ou intolerância, vendo apenas as coisas de um modo
objetivo). A AR disseminou-se pelo mundo. Em parte, em função da
disseminação do poderio Norte-Americano do pós-guerra. Poderio este
que contribuiu importante-mente para a manutenção da exploração e
da opressão, por cuja superação milita a PO. Estes fatos dão uma dimensão das distâncias entre as
duas abordagens, e das dificuldades de uma busca de similaridades. Na verdade, estes fatos nos compelem, também, no
sentido da busca de uma clarificação do sentido e das possibilidades
de busca destas similaridades, de eventualmente construí-las e afirmá-las. O fato de que a AR busca se comprometer explicitamente
com uma perspectiva humanista, e o fato de que a PO não absolutiza,
ou considera de forma intolerante ou mecanicista, a situação de
opressão -- acreditando estar em jogo, no processo de sua superação,
a causa da libertação do homem -- nos dá alento para acreditar na
validade de um tal projeto. Prece haver sentido e valor em se buscar
similaridades e convergências entre as duas abordagens, similaridades
e convergências que possam recriar os seus arcabouços conceituais e
metodológicos, e às pessoas que as praticam, possibilitando material
produtivo para os caminhos de equacionamento de suas dúvidas e
inquietudes. Ainda assim, é forçoso encarar, assumir e afirmar as
distâncias, diferenças e antagonismos dos contextos sócio-culturais
e históricos em que surge cada uma das abordagens. O agudo conflito
em que estes contextos co-existem -- ao contrário do que a ideologia
dominante faz crer a nossa consciência alienada -- e os desafios, as
implicações políticas, metodológicas, teóricas, práticas e
existenciais que daí derivam. A AR surgiu como uma produção da classe média
Norte-Americana. Transplantada para os países de terceiro mundo,
radicou-se, praticamente inalterada, e inquestionada, no meio da
classe dominante, ou de classes a seu serviço. Contribuindo, freqüentemente,
com os propósitos da alienação. A PO surge, e desenvolve-se, como produção dos
interesses daqueles oprimidos das formas mais degradantes, que nada têm
a ver com os interesses dos segmentos sociais que produzem e praticam
a AR. Outra colocação que me parece passível de crítica
no texto de Maureen, em função de seu nível de generalização, é
a afirmação do compromisso comum de Rogers e Freire com a
busca da verdade da realidade. Sem dúvida, tanto Rogers, quanto Freire, sustentam
este compromisso. Mas, mais uma vez, a colocação, neste nível
demasiadamente genérico, fica comprometida. A partir daí, as
idiossincrasias de cada uma das partes inviabiliza, ou pelo menos
complica, qualquer idéia de um compromisso comum. O compromisso de Freire -- e nisto, ao contrário do
que Maureen afirma, reside muito do caráter revolucionário de sua prática
e de suas idéias -- é, fundamentalmente o compromisso com o
oprimido. Um oprimido concreto, historicamente definido, “de carne e
osso”. Um compromisso com o homem, de um modo geral, mas que se
define pelo seu compromisso com a América Latina, que se define pelo
compromisso com o Brasil, que se define pelo seu compromisso com a
maltratada civilização do Nordeste do Brasil. Pelo próprio contexto de desenvol-vimento do trabalho
de ambos, seria um tanto absurdo pensar em compromissos comuns, além
do genérico comprometimento com o homem e com a humanização (o que,
sem dúvida, já é muita coisa). A seguir, Maureen comenta: Pode-se argumentar que muitas formas de desumanização surgem em fonação
de um desequilíbrio de poder entre o indivíduo e o grupo. As
necessidades do grupo contrapõem-se as necessidades do indivíduo, e,
geralmente, o grupo ganha às expensas do indivíduo. Isto é verdade, mas coloca apenas uma concepção
usual na AR, que não leva em conta que a forma básica de desumanização
não surge de um desequilíbrio nas relações grupo-indivíduo, mas
das relações históricas inter-grupais, ou seja, das relações
entre as classes, a dialética da interação das classes, que coloca
como contradição o fato de que, de um lado, se acumula o capital, e,
do outro, a humanidade expropriada, a miséria humana, econômica e
existencial (miséria existencial esta que também se acumula do lado
do capital). Escamotear estes aspectos é impedir qualquer
possibilidade de compreensão da PO. É inviabilizar qualquer forma de
aproximação entre ela e a AR. O referencial básico de preocupação da PO é a condição
do oprimido, enquanto indivíduo e enquanto classe, dentro e como
produto necessário, do sistema capitalista de produção. O oprimido
como agente de superação dialética de sua condição, como agente
de transformação da condição do homem e de superação desse
sistema. Naturalmente que existe a preocupação com o indivíduo
enquanto envolvido nas relações indivíduo-grupo. Negar o indivíduo
seria negar um dos momentos da dialética do processo. Mas, da mesma
forma, restringir o grupo aos micro-grupos, sem reconhecer a
totalidade mais ampla que define a condição mais geral e básica do
grupo e do indivíduo, seria descaracterizá-los, aniquilá-los
conceitualmente, reduzindo-os de seres complexos e reais, com quem
concretamente interagimos, a uma abstração. A questão que se
coloca, pois, não é, simplesmente, a das relações indivíduo-grupo,
mas, geralmente, a das relações grupos-grupos, totalidades sociais
que condicionam a constituição das condições concretas da existência
do indivíduo. Maureen coloca a seguir: O foco do interesse de Rogers, é a conscientização, através da
exploração do mundo interior do indivíduo e do ambiente íntimo da
relação terapêutica. Rogers trabalha para ajudar indivíduos a
explorar os mitos que eles têm com relação a si próprios; a se
tornarem mais conscientes e a mobilizar os seus recursos internos para
tornar-se mais plenamente eu*.
(...) Ele também reconhece a importância dos grupos na facilitação
do crescimento individual, trabalhando nos últimos anos quase que
exclusivamente em contexto de grupos. Mesmo na situação de grupo,
entretanto, o que prende a atenção de Rogers é o comportamento
individual (usualmente emocional) dos participantes. Ele cita freqüentemente
exemplos em que a expressão individual do eu ‘mudou o grupo’. Rogers não fala de questões
de grupo, responde usualmente a
alguém que questiona eventos a um nível do grupo com algo do tipo. ‘Bom,
eu gostaria de saber como você se sente’. Quando
um participante quer discutir a dinâmica de poder, por exemplo,
Rogers provavelmente quererá saber como o indivíduo está
experienciando o seu próprio ‘poder pessoal’ no momento (...)
Rogers dá o dádiva do reconhecimento pessoal, facilitando a
‘reumanização’ das pessoas aos seus olhos e aos olhos de sua
sociedade. E prossegue: Freire, por outro lado, foca muito de sua atenção sobre o grupo ou
sobre a sociedade, criando estratégias de ensino através das quais
as pessoas podem explorar como o grupo está funcionando de formas que
incrementam as suas possibilidades ou são-lhes detrimentais. Freire
focaliza as forças sociais que promovem ou conspiram contra a
humanidade plena. Denuncia sistemas de organização humana,
ortodoxias e ideologias políticas que requerem a escravização de
almas para o seu funcionamento. Busca um sistema de organização em
que o grupo não parasite a força de vida do indivíduo[18]. Nestes trechos, Maureen delineia diferenças significativas entre a
postura de Rogers e a de Freire. Como ela deixa claro, Rogers tem no
indivíduo em si o seu principal foco de interesse, ainda que reconheça
a importância dos grupos na facilitação do crescimento individual,
trabalhando nos últimos anos quase que exclusivamente em contextos de
grupo. Freire, por seu turno, interessa-se pelo indivíduo, e
não o desqualifica, como um valor em si. Mas não vê nele, apenas, a
sua individualidade, ou a sua mera filiação a um dado sistema
social. Entende nele, especificamente, a sua trans-individualidade, ou seja, a particularização, na
constituição de sua pessoa, das relações deste sistema, como
totalidade histórico-social concreta, em particular as características
psicossocias e comportamentais comuns à pluralidade dos indivíduos
do sujeito histórico a que ele pertence. Ao que parece, as relações interclasse, e a sua
particularização na constituição da pessoa, que são um ponto
focal básico do interesse de Freire, não se constituem como um ponto
de interesse para Rogers. Emana daí uma diferença profunda entre
ambos, nos modos como cada um concebe a pessoa, as respectivas concepções
e práticas, e realidades em que se inserem. Não me parece suficientemente exato dizer que Freire
foca muito de sua atenção sobre o grupo ou sobre a sociedade(...)[19] Parece-me que Freire foca a sua atenção, a partir de
um análise marxiana da sociedade, sobre as relações
opressor/oprimido, e sobre o modo como a ideologia opressora
hegemonicamente coloniza, e determina, a consciência, as atitudes e
comportamentos do oprimido. Busca, neste contexto, o desenvolvimento, prática e
descrição de uma Pedagogia que seja meio de transformação da
consciência colonizada do oprimido, em consciência crítica de sua
realidade, transformação do processo concreto de sua constituição
e manutenção, de forma que o seu comportamento, assim desenvolvido,
possa ser o de um agente na constituição da história de sua libertação,
que é a história da libertação dos oprimidos e humilhados. De modo que Freire está fundamentalmente atento à
dialética entre o macro-social e o individual, e a suas mediações.
A bem da verdade, apesar de referenciar-se numa análise dos vários níveis
do macro sistema social, Freire não perde nunca o indivíduo como
referência. Seu trabalho é o de militar no sentido da luta deste
contra e pela superação da alienação. É muito genérico dizer que Freire Denuncia
sistemas de organização humana, ortodoxias e ideologias políticas
que requerem a escravização de almas para o seu funcionamento. Que busca um
sistema de organização em que o grupo não parasite a força de vida
do indivíduo.[20] Freire é muito específico ao adotar uma análise
especificamente marxista da realidade social, expurgada dos
desumanismos e dos desserviços
prestados ao socialismo pelo stalinismo. Desta forma, como ele gosta
de falar, ele “denuncia e anuncia”. E o que ele denuncia é especificamente o
modo de produção capitalista como iníquo, desumano e desumanizante.
E anuncia a sua natural transcendência, no bojo da libertação dos
oprimidos. Assume a luta pela perspectiva dos oprimidos como causa de
libertação dos homens, posicionando-se, na medida em que adota uma
concepção dialética da história. O interjogo dialético no qual ele fundamenta o seu
trabalho, é a dialética da interação conflituosa das classes
sociais. E não, meramente, como está dito no texto, Um interjogo dialético ou luta entre um anelo por humanidade plena e a
tendência do grupo para dominar e consumir. A práxis,
para Freire, é a própria criação da realidade, através da ação
(e não, meramente, “exploração ativa”), e da reflexão sobre
esta ação. Na terça, refletir sobre o que se fez na segunda, para fazer melhor na
quarta, diz Freire. Mais adiante, Maureen coloca: Ainda
que a ênfase de Rogers seja pessoal e individualista e a de Freire
seja sobre forças sociais, isto não significa que o foco deles seja
realmente diferente. Não pode existir um indivíduo que não pertença
a algum grupo social, e não existe um grupo que não seja constituído
por indivíduos. De fato, na realidade humana, indivíduo e
grupo podem ser pensados como aspectos diferentes de uma mesma coisa.
Quando definimos grupo nós incluímos os indivíduos. O conceito de
pessoa implica um auto-assertivo, expressivo e responsável membro da
família humana, tanto quanto o conceito de pescador*
implica em homem, peixe e água. Mais uma vez, me parece inexato dizer que Freire se
foca em forças sociais. O fluxo da história, da interação das forças
sociais, segundo uma interpretação materialista dialética, é um
ponto importante da sua análise, mas esta análise não se limita
apenas a esta dimensão, ou tem este ponto como o mais importante. Parece-me, decididamente, incompleto não mencionar que
parte fundamental da preocupação de Freire é o como estas forças
se particularizam na organização da consciência, da ação e da
condição do indivíduo oprimido, como interagem com a sua intrínseca
vocação de ser mais, de
humanizar-se, e como, a partir daí, a educação como prática de liberdade pode constituir-se como fator de atualização
--, e não de obstrução, desta vocação. A concepção de Freire do indivíduo, e das forças
sociais, é essencialmente dialética. Se, por um lado, parte da análise,
e busca de compreensão, da sociedade, enquanto totalidade, e de suas
contradições, flui naturalmente para a particularidade do indivíduo,
como constituído e como constituinte destas. De tal forma que a
consideração pelas forças sociais configura-se, apenas e
explicitamente, como um momento de suas preocupações. Não me parece
correto afirmar simplesmente que a sua ênfase é nessas forças
sociais. Por outro lado, se concordamos que é impossível a
existência de indivíduos que não pertençam a algum grupo, e que não
existem grupos que não sejam compostos por indivíduos, não podemos
nos limitar, apenas, a este nível genérico e altamente abstraído de
formulação, para entender as concepções de Freire. Seus
indivíduos, e os grupos aos quais eles pertencem são datados
e situados, constituídos histórica-mente, e em processo de
historicização. São, por exemplo, os Camponeses Nordestinos do
Brasil do início dos anos sessenta, ou os Operários dos anos
oitenta. São os Camponeses Chilenos do final da década de sessenta,
os Operários Italianos dos anos setenta, o povo libertado da Guiné-Bissau,
São Tomé e Príncipe... O oprimido é entendido em sua
particularidade cultural e histórica, em sua atualidade concreta e
enquanto categoria de um processo transcendente, que, ao constituí-lo
como segmento social diferenciado, já prenuncia a sua superação. O conceito de pessoa
implica num auto-assertivo, expressivo e responsável membro da família humana, mas é fundamental explicitar que, só na
medida em que a pessoa é um auto-assertivo, responsável e expressivo
membro de uma sub-família humana, ou seja: de uma cultura e de uma
configuração sócio-histórica particular, que se articula com a família
humana mais ampla, é que ele se vincula a esta. Podemos dizer que
entre o indivíduo e a família
humana existe a mediação necessária da cultura, da integração
social particular, da classe social, na atualidade de seu momento sócio-histórico. Maureen coloca ainda: A relação
entre consciência individual e consciência coletiva está além do
escopo deste artigo, mas está provando ser uma nova e muito excitante
direção de estudo. Este ponto parece-me ser um ponto fundamental para que
se considere o trabalho de Freire. A intersecção de consciência
coletiva e consciência individual é uma referência básica de seus
interesses, e dos interesses de suas concepções e métodos. De tal
modo que a relação entre a consciência individual e a consciência
coletiva configura-se, assim, como um ponto imprescindível para a
compreensão das idéias e posições de Freire. Para ele são questões fundamentais: como, na consciência
do oprimido, a consciência da classe oprimida é hegemonicamente
dominada pela consciência da classe opressora, processo que determina
uma consciência fragmentada, que não se organiza como consciência
de seu sistema social, determinando o comportamento alienado de suas
necessidades, das necessidades de seu sistema social? Como uma
pedagogia pode desvelar a dominação e, desvelando a dominação,
desvelar a consciência da classe do oprimido na consciência do
oprimido. De tal forma que possa libertar a sua própria ação
transformadora de sua condição e realidade? Nesta síntese dialética, a consciência do oprimido
-- a consciência da classe opressora particularizada opressivamente,
e a consciência da classe oprimida, particularizada oprimidamente --,
na superação deste momento pela emersão da consciência do segmento
social dos oprimidos na consciência do oprimido, na medida em que ele
desmistifica a sua visão do mundo e a visão de sua relação com o
mundo e com seus companheiros, nesta síntese é que reside o objeto
de interesse da PO.
|
*
Isto foi escrito em 1984. Mudou significativamente o panorama da
psicologia de lá para cá. Ainda que em muito e amplos de seus segmentos
continue da mesma forma.
[1]ROGERS, C.R. op. cit. pp. 107-15.
*
A designação refere-se, nos EUA, a imigrantes de origem
Latino-Americana.
[2]ROGERS, C.R., op. cit. p. 111.
*
Observar que este texto é de 1983.
[3]ROGERS, C.R., op.cit p.108.
[4]WEFFORT,
F.C. - Educação e Política, Reflexões Sociológicas Sobre uma Pedagogia da
Liberdade”. in FREIRE, P. - EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DE LIBERDADE.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, pp. 3-26.
[5]FREIRE,
P. - A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER. São Paulo, Cartaz Editora, 1982. pp.
11-2.
[6]FREIRE,
P. - PEDAGOGIA DO OPRIMIDO. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978. pp. 30-1.
[7]FIORI,
E. M. - Aprender a Dizer a sua Palavra. in FREIRE, P. L. PEDAGOGIA DO
OPRIMIDO, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
[8]ILLICH, Ivan - Op. cit.
[9]FREIRE,
P. Op. Cit.
[10]FREIRE,
P. CARTAS À GUINÉ-BISSAU. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.
[11]FREIRE
e Outros - VIVENDO E APRENDENDO. São Paulo, Brasiliense, 1983.
[12]BUBER,
Martin DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO. São Paulo, Perspectiva, 1982.
[13]ROGERS,
C.R. Op. cit.
[14]Publicado
in ROGERS, C.R. e Outros EM
BUSCA DE VIDA, São Paulo, Summus Editorial, 1983.
[15]O’HARA, Maureen M. - Op. Cit. p.103.
[16]O’HARA, Maureen M. - Person-Centered Approach as Conscientização: The Works of Carl Rogers and Paulo Freire. La Jolla, 1982, artigo, p.3.
[17]Op. Cit. pp. 3-13.
* “Self”, no original.
[18]Op. cit. pp. 7-8.
[19]Op cit. p. 07.
[20]Op. cit., p. 08.
6.
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