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Coleção
beija flor:
Fonseca, A. H. L.
·
Psicoterapia
e Produção Cultural.
·
Psicologia
Humanista e Pedagogia do Oprimido. Um Diálogo Possível?
·
Apontamentos
para uma História da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial
·
Carl
Rogers.Sobre o seu paradigma fenomenológico existencial em psicologia e
psicoterapia.
Ficha
Catalográfica
Afonso
H Lisboa da Fonseca, 1954 -
Psicoterapia
e produção cultural. Psicoterapia também é cultura.
Maceió: Pedang, 2006.
ISBN
PSICOTERAPIA
E PRODUÇÃO CULTURAL
Psicoterapia
(Também) é Cultura
Pedang
Programa
de Publicação do Laboratório Experimental
de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial
Maceió
2006
©
2006. Afonso H Lisboa da Fonseca.
Psicoterapia
e Produção Cultural. Psicoterapia também é cultura.
Pedang
Programa
de Publicação do Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia
Fenomenológico Existencial.
Rua
Visconde de Irajá, 60/105. Pajuçara.
57030-150
Maceió AL.
http://www.geocities.com/eksistencia
Brasil
2006.
Inicialmente,
a psicoterapia foi entendida como pertinente à área da clínica. Com os
seus desenvolvimentos, com os desenvolvimentos das ciências humanas,
ressalta o quanto é estreita a mera circunscrição da psicoterapia à
esfera da clínica, ao tempo em que ressaltam as fundamentais determinações
da psicoterapia a partir da cultura, e dos próprios processos de produção
cultural. E a necessidade de enfocar, entender, e produzir a conceituação
e método da psicoterapia, a compreensão de seus agentes, processos e
resultados, a partir da perspectiva da cultura, e dos processos de produção
cultural. Este parece ser um próximo, e importante, capítulo da
compreensão da concepção e do método da psicoterapia.
Neste
sentido, é que busca contribuir o presente trabalho, abordando a
psicoterapia, o psicoterapeuta, o cliente e sua condição, os processos e
resultados da psicoterapia, a partir da cultura e dos processos de produção
cultural.
Deste
ponto de vista, avulta a importância da inserção da terapia, de seus
agentes, processos e resultados nas dinâmicas psicossociais das culturas
concretas, buscando entender, inclusive, a partir da perspectiva de uma
ecologia cultural, como a incidência de uma multiplicidade de culturas no
processo de constituição da pessoa na cultura do meio urbano configuram
a condição dos processos da terapia, ao mesmo tempo em que configuram a
condição do cliente, do terapeuta e dos processos da terapia..
Maceió, Enseada da Jatiúca, Abril 2006.
1.
Introdução.
A
definição da psicoterapia a partir de sua interioridade./ A
Psicoterapia, o terapeuta e o cliente como lugar e seres culturais
institucionais, constituídos anteriormente ao arcabouço conceitual de
cada escola e da própria psicoterapia./ A Anterioridade histórica e a
anterioridade funcional./ Introdução a uma concepção da psicoterapia
da perspectiva psico-socio antropológica da cultura./ A psicoterapia como
lugar institucional continente para um certo tipo de relação-processo,
metódicos e sistemáticos particulares entre o terapeuta e o
cliente./Processo de elaboração e re-elaboração psico-sócio-cultural
do cliente./As escolas de psicoterapia como tradições culturais
particulares./ Redefinindo e recontextualizando o estatuto e a concepção
da psicoterapia./ Alguns pontos de vista.
3.
O Cliente, um Produtor Cultural em Crise, ao Nível Microssocial.de sua
Existência.
Quem
é o cliente da Psicoterapia./ Respostas fáceis./ O dito cliente e as
implicações de uma definição a partir da clínica./ A psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial e o desmonte da concepção
clínica do cliente. /
Socialização, cultura e crise./ Um produtor cultural em crise./ Crise
cultural e crise existencial./ Produtor cultural em crise, incompetente, e
produtor cultural efetivo./ Efeitos Psicoterapêuticos./ O cliente, culturativo
e culturogênico./ O carecimento de elaboração e re-elaboração
cultural e os efeitos do processo psicoterapêutico.
A
instituição psicoterapia, psicoterapeuta./A constituição cultural pessoal do psicoterapeuta./
O terapeuta como um ser cultural da cultura de sua escola de psicoterapia/
A formação do psicoterapeuta./
O psicoterapeuta: particularidade e genericidade./ Não é o terapeuta quem
elabora e re-elabora o cliente culturalmente.
Multiplicidade
e comunidade da(s) cultura(s), ecologia cultural./ Socialização,
multiplicidade e comunidade de culturas: ecologia cultural./ A perspectiva
subjetiva da comunidade das culturas./ A psicoterapia vista da perspectiva
antropológica e psicossocial de uma ecologia cultural./ A psicoterapia
como processo de potencialização das capacidades culturativas e culturogênicas
da pessoa.
Um
Príncipe Negro nas Ruas do Rio
Obá
2º, amigo de Pedro 2º, atacou o racismo e defendeu a igualdade
Eduardo
Silva
Especial
para a Folha
Dom
Obá 2º d’África, ou melhor Cândido da Fonseca Galvão, como foi
batizado, nasceu na Vila de Lençóis, no sertão da Bahia, por volta de
1845.
Filho
de africanos forros, brasileiro de primeira geração, era, ao mesmo
tempo, por direito de sangue, príncipe africano, neto, ao que tudo
indica, do poderoso Aláafin Abiodun, o último soberano a manter unido o
grande império de Oyo na segunda metade do século 18.
Príncipe
guerreiro, Dom “Obá” (que quer dizer “rei” em ioruba) lutou na
Guerra do Paraguai (1865-70), de onde saiu oficial honorário do Exército
Brasileiro, por bravura. De volta ao país, fixou residência no Rio, onde
sua posição social era, no mínimo complexa. Tido pela sociedade de bem
como um homem meio amalucado, uma figura folclórica, era, ao mesmo tempo
reverenciado como um príncipe real por escravos, libertos e homens livres
de cor.
Amigo
pessoal, uma espécie de protegido de Dom Pedro 2º, Dom Obá assumiu, nos
momentos decisivos do processo de abolição progressiva, o papel histórico,
até então insuspeito de elo entre as altas esferas do poder imperial e
as massas populares que emergiam das relações escravistas.
Sua
figura imponente de homem de 2m de altura, seus modos de soberano, como
que captavam a atenção dos contemporâneos, embora poucos estivessem
realmente preparados para acreditar no que viam. Um príncipe afro-baiano
a perambular pelas ruas do velho Rio, barba à moda de Henrique 4º, muito
bem vestido em suas “finas roupas pretas”, como foi descrito, de
fraque, cartola, luvas brancas, guarda-chuva, bengala, ‘pince-nez’ de
aro de ouro.
Ou, em ocasiões mais especiais, muito ereto e importante em seu bem preservado uniforme de alferes do Exército, com seus galões e dragonas douradas, sua espada à cinta, seu chapéu armado com penachos coloridos, seu pacholismo admirável.
Dom
Obá, para ser breve, defendia uma visão alternativa da sociedade e do próprio
processo histórico brasileiro. Talvez pelo conteúdo mesmo de suas idéias,
talvez por sua linguagem crioula, colorida com expressivas pitadas de
ioruba e mesmo latim, a verdade é que seu discurso parecia opaco,
incompreensível para a elite letrada de então.
Escravos,
libertos e homens livres de cor, contudo, não apenas compartilhavam de
suas idéias, como contribuíam financeiramente para a publicação das
mesmas e reuniam-se nas “quitandas ou em família” para ler os
artigos.
O
que defendia este homem e porque parecia interessar tanto seus leitores?
Sendo um príncipe, era Dom Obá, ao menos teoricamente, um monarquista
acima dos partidos, nem inteiramente conservador nem liberal, talvez por
achá-los muito parecidos uns com os outros, inspirados apenas por
interesses materiais e casuísticos.
Por
essas e outras, tinha o príncipe posições políticas muito matizadas.
“Por isso sou conservador para conservar o que for bom e liberal para
reprimir os assassinatos que tem havido nesta atualidade a mando de certos
potentosos”, quer dizer “potentados”, pessoas muito influentes e
poderosas.
O
combate ao racismo, a defesa da igualdade fundamental entre os homens, foi
um dos pontos mais importantes de seu pensamento e da prática, explicava,
“por Deus mandar que quando o varão tiver valor não se olharia a
cor”. Contrariava não apenas concepções senhoriais, contrariava a própria
ciência “fin de siècle” com suas poderosas filosofias evolucionistas
e etnocêntricas.
A
miscigenação brasileira, para o príncipe, nada tinha a ver com idéias
evolucionistas de inevitabilidade, como pensou Nina Rodrigues; ou
desejabilidade, como pensou Sílvio Romero, do “branqueamento”. Tinha
a ver, ao contrário, com um sentimento de igualdade fundamental entre os
homens. O príncipe orgulhava-se de “preto ser” e, por não acreditar
em superioridades, era “amigo dos brancos e (de) todos os varões
sensatos e conhecedores (...) que o valor não está na cor”.
Saída
do mesmo universo cultural, uma carta de apoio ao príncipe lembra o
absurdo da discriminação, “visto da preta cor ser assemelhada todas as
raças”.
Outra
carta, em 1887, chega a formular um projeto de “enegrecimento”, antes
que de “embranquecimento” da nação. Para o missivista, súdito de
Dom Obá, a raça negra já não era problema, mas a própria solução.
Por isso apoiava a nomeação do príncipe como embaixador plenipotenciário
na África Ocidental, onde prestaria relevantes serviços, “mandando
transportar colonos africanos, para nunca mais sofrer o Brasil decadência
na sua exportação de fumo e café (...) e o açucar e o algodão nunca
deixem de fertilizar o solo onde nascera o mesmo Príncipe Obá 2º d’África,
de Abiodon neto”. Também aqui a discriminação é tida por
absurda, sendo, afinal, “cada qual como Deus o fez”.
O
próprio príncipe publica, vez por outra, poesia abolicionista e
antidiscriminatória. “Não é defeito preto ser a cor/É triste pela
inveja roubar-se o valor”, reza uma delas. Para ele, “o certo é que o
Brasil deve desistir (da) questão da cor, pois que a questão é de valor
e quando o varão tiver valor não se olhará a cor”.
Na
verdade, para Dom Obá, não parece existir exatamente uma “questão
racial”, mas uma questão de cultura, de informação, de refinamento
social. Daí, muitas vezes, o seu desconsolo com a pátria amada, “um país
tão novo onde completamente não reina a severa civilização colimada,
porque ainda há quem apure a tolice (...) do preconceito de cor”.
O
príncipe, como seus seguidores, chega a formulações pioneiras também
no sentido da criação de uma estética autônoma, na linha do “black
is beautiful” norte-americano dos anos 60. Na verdade, segundo um de
seus súditos, a raça negra não apenas era linda, era “superior do que
os mais finos brilhantes”.
Às
vezes parece existir, no fundo, a idéia de superioridade negra. Não no
sentido biológico ou intelectual, parece, mas no sentido moral, em função
da vivência histórica de diáspora. Sua “humilde cor preta” era,
assim, “cada qual como Deus, Maria Santíssima, virgem, sempre virgem
sem ser pesada aos cofres públicos, sem ser assassina da humanidade”.
Tudo isso, concluía, “por preta ser a cor invejada”.
Eduardo
Silva é Chefe do setor de história da Fundação Casa de Rui Barbosa e
autor de “Prince of the People
-- The Life and Times of a Brazilian Free Man of Colour”, editora
Verso (Londres).
Publicado
na Folha
de São Paulo, 19.3.95. 6-8.
Desde
os seus primórdios, a atividade da psicoterapia parece seguir um
desenvolvimento natural e particular, difundindo-se pelo mundo e fazendo
parte naturalmente da configuração de instituições das culturas
modernas.
Já
a sua teorização, e a teorização de suas escolas, da qual a prática
freqüentemente se afasta em termos bastante significativos -- as vezes de
um modo criativo, as vezes de um modo simplesmente ridículo --, parece
viver num permanente processo de crise, desde os seus primórdios. Os
desenvolvimentos teóricos, por seu turno, nem sempre, acompanham, de um
modo consistente, nuances efetivas dos desdobramentos da prática,
afastando-se destes, freqüentemente, também, de modos bastante
alienados.
Por
outro lado, tanto a teoria quanto a prática da psicoterapia indicam na
direção, e exigem a direção, de novos caminhos conceituais
consistentes, mais consonantes com as realidades efetivamente vividas, e
de novas modalidades de compreensão de seu arcabouço e processos. Os
processos dos chamados clientes, e do chamado psicoterapeuta,
e dos ditos efeitos psicoterapêuticos.
Direção esta não contemplada adequadamente, ou freqüentemente nem
prevista, nos modelos conceituais tradicionais da psicoterapia.
Dentre
outras possibilidades, estas indicações, na verdade, parecem denunciar,
com vigor, o colapso e o potencial destrutivo de um certo paradigma de
concepção da psicoterapia -- o paradigma clínico da psicoterapia,
intensamente criticado por alguns psicoterapeutas de raiz fenomenológico
existencial --, e apontam, de modo igualmente vigoroso, na direção de
novos paradigmas.
Como
já observei em outro lugar[1],
não parece exagero afirmar que a concepção da psicoterapia passa por
uma profunda crise paradigmática, nos modelos descritos por Khun[2].
Crise esta que se origina no, e enseja o, desenvolvimento de novas
possibilidades paradigmáticas.
A
perspectiva sócio antropológica, ou psico-social da cultura, ou seja a
perspectiva psico-sócio-cultural de compreensão, e de explicação da
psicoterapia, do cliente, do psicoterapeuta, dos processos, e dos efeitos
dos processos psicoterapêuticos, destaca-se neste sentido, de um modo
cada vez mais evidente.
Acredito,
na verdade, que, na compreensão da psicoterapia, de seus agentes e ações,
na compreensão de seus processos, e na compreensão da produção de seus
efeitos, caminhamos, cada vez mais, no limite, no sentido de entender a
carência e a necessidade, a riqueza da perspectiva psicossocial e
antropológica de uma Ecologia da(s)
Cultura(s). Perspectiva apenas esboçada, mas que se revela
potencialmente muito esclarecedora e produtiva.
A
reflexão que se constitui neste trabalho, busca partir de uma crítica
dos absurdos da concepção clínica da psicoterapia, da concepção clínica
de seus processos, agentes e resultados, e desenvolver esforços na direção
de uma compreensão deles a partir da perspectiva psico-sócio-antropológica
da cultura, e mesmo de uma perspectiva de uma ecologia
cultural.
2.
Psicoterapia. Um Processo psico-social e Físico de Auto Elaboração e
Re-elaboração Cultural do Cliente, e de constituição dele como um
Produtor Cultural Efetivo.
A
definição da psicoterapia a partir de sua interioridade./
A psicoterapia, o terapeuta e o cliente como seres culturais,
institucionais, constituídos anteriormente ao arcabouço conceitual de
cada escola e da própria psicoterapia./Anterioridade
histórica e a anterioridade
funcional./ Introdução a uma concepção da psicoterapia da perspectiva
psico-sócio-antropológica da cultura./ A psicoterapia como lugar
institucional continente para um certo tipo de relação e processo
psico-sócio-cultural particular entre o cliente e o terapeuta./ Processo
de elaboração e re-elaboração psico-fisio-sócio-cultural do cliente./
As escolas de psicoterapia como tradições culturais particulares./
Redefinindo e recontextualizado o estatuto e a concepção da
psicoterapia./ Algumas pontos de vista.
Quando
mergulhamos em nós mesmos, não descobrimos uma personalidade autônoma,
desvinculada dos momentos sociais, mas sim as marcas de sofrimento do
mundo alienado.
(T.
Adorno, citado por M. Carone)
Normalmente,
se concebe e se define a psicoterapia a partir de sua própria interioridade. Ou seja, a partir do arcabouço conceitual de suas
escolas, uma vez, em particular, que a teorização da psicoterapia como
prática social genérica, é pobre e inconclusiva.
Isto
significa dizer que a concepção e a compreensão não só da própria
psicoterapia, como a concepção e a compreensão do cliente, do
terapeuta, dos processos em que eles se engajam, e dos chamados resultados
terapêuticos, dão-se a partir desta interioridade. Ou seja, do interior da própria perspectiva teórica
e conceitual da psicoterapia e de suas escolas.
Ao
lado da nossa significativa ignorância com relação à natureza efetiva
da chamada terapia, de seus agentes, processos e resultados, esta
perspectiva de definição e conceituação deles a partir da própria
interioridade da psicoterapia configura-se como uma perspectiva narcisista
de teorização. E, na verdade, uma incongruência lógica, na medida em
que partes do sistema e elementos que estão sendo definidos e
conceituados são utilizados para definir e conceituar este
mesmo sistema.
Isto
fez, e faz, parte das estratégias psico-sócio-culturais da psicoterapia,
em particular das suas estratégias de poder, e teve, também, como tal,
os seus efeitos produtivos. Na verdade, entretanto, a exclusividade deste
tipo de mecanismo vai, progressivamente, perdendo a sua criatividade, a
sua produtividade, e revelando-se abusiva, distorsiva e danosa.
É
evidente que a psicoterapia carece, e carecerá sempre, de constituir um
autoconcepção de si e de seus agentes, processos e resultados, a partir
de seu próprio arcabouço conceitual. Mas, na medida em que a
psicoterapia, seus agentes processos e resultados, fazem parte da
configuração de lugares e de processos da cultura, torna-se cada vez
mais delirante ater-se de um modo rígido a uma autoconcepção
narcisicamente constituída, a partir, meramente, da interioridade do seu
próprio arcabouço conceitual.
É
evidente que a compreensão da psicoterapia, de seus agentes, processos e
resultados, a partir da perspectiva da psico-sócio-dinâmica da cultura,
um terreno praticamente inexplorado, só pode oferecer enormes
possibilidades produtivas. Em particular num momento em que os sistemas teóricos
das psicoterapias revelam-se cada vez mais insuficientes para dar conta de
suas especificidades e de seus desdobramentos concretos. è curioso que não
se faça, ou tão pouco se faça neste sentido.
Precisamos
levar conseqüentemente em conta, no desenvolvimento de nossos sistemas
conceituais, a especificidade da inserção e emergência da psicoterapia,
do psicoterapeuta, do cliente, dos processos em que eles se engajam, e dos
resultados desses processos, na, e da, configuração de lugares e de
processos sócio psíquicos da cultura. A sua inserção e emergência na
e da cultura humana genérica, e nas e das culturas específicas,
particulares, em que eles se constituem e se desenvolvem como tais.
Em
primeiro lugar, temos que considerar que tudo leva a crer que a atividade
que se constitui como psicoterapia,
e que constitui o terapeuta e o cliente como tais, no que pesem as suas
especificidades, é um tipo de atividade que existiu e existe, sob outras
formas, em outros segmentos sócio-culturais, e em outras configurações
históricas. E mesmo em segmentos sócio culturais que se interpenetram
com os segmentos nos quais a psicoterapia é vigente como um recurso
consensual para certas situações de vida.
Basta,
por exemplo, considerar o papel e os efeitos psicossociais das relações
do Pai de Santo com os seus crentes, nos cultos Afro-Brasileiros, do Padre
e da confissão católicos, das atividades de aconselha-mento pastoral dos
ministros protestantes, de orientação espiritual dos Rabinos, ou místicos
(teria o Hassid algo a ver com o
papel do terapeuta?). Ou o papel de socialização e ressocialização de
certos líderes locais de comunidades rurais.
Evidentemente,
que a psicoterapia guarda uma especificidade cultural e histórica toda
sua com relação a estes processos e agentes sociais. Especificidade que
cada um deles igualmente preserva, respectivamente, em seus próprios
sistemas, práticas e processos. Não obstante, não é difícil
identificar elementos, condições, processos e resultados sócio-culturais
e psicossociais análogos ou comuns a todos eles e à psicoterapia. De
modo que podemos aprender muito identificando e aprendendo sobre as famílias de processos psico-sócio-culturais dos quais a psicoterapia
faz parte, e entendendo a pertinência da psicoterapia a estas famílias
de processos psico-sócio-culturais, e a sua natureza e especificidades
enquanto tal, sem que isto signifique a perda da identidade e das
especificidades da psicoterapia, mas auxiliando-a, no sentido da compreensão
de sua emergência, a partir dos processos da cultura, e no sentido da
superação de suas crises, e da potencialização de seus
desenvolvimentos.
Permanecendo,
todavia, no referencial da especificidade própria da psicoterapia, é
interessante, portanto, considerar a importância, normalmente
negligenciada, de suas determinações sócio-culturais e psicossociais,
assim como as determinações sócio-culturais e psicossociais de seus
agentes, processos e resultados.
Anteriormente,
a qualquer postulação conceitual específica da psicoterapia, de seus
agentes, processos e resultados -- a partir do arcabouço teórico de cada
escola, ou da própria teoria geral da psicoterapia --, eles próprios
existem, e desdobram-se, eminentemente, como seres, e como processos, sócio
culturalmente constituídos, e sócio culturalmente determinados. Emergem
são determinados e se determinam a partir da psico-sócio dinâmica dos
processos da cultura do sistema social nos quais eles existem,
anteriormente a qualquer postulação teórica ou determinação técnica,
e pertencem à dinâmica desses processos.
A
psicoterapia, o psicoterapeuta, o cliente, são institucionalmente
constituídos, são instituições das culturas das quais eles emergem e
das quais eles fazem parte. Os processos da psicoterapia, de seus efeitos
e resultados, são sub-processos da psico-sócio dinâmica dos processos
das culturas pelas quais eles são produzidos como tais, e às quais eles
produzem. Os processos em que eles se engajam como processos
psicoterapêuticos, aí incluídos os chamados efeitos
terapêuticos, são processos, portanto, profunda e essencial-mente
determinados, constituídos e modelados pelos fatores culturais das
culturas nas quais eles se inserem e das quais eles emergem.
Quando
consideramos, por exemplo, que o pensamento, e mesmo o sentimento, são
culturalmente condicionados, de um modo radical, em particular a partir da
linguagem, assim como os valores, as atitudes, os conhecimentos, os usos e
costumes, etc., podemos entender o quanto que os agentes e processos da
psicoterapia são culturalmente arraigados, anteriormente a qualquer forma
de postulação ou de determinação conceitual ou técnica deles.
De
modo que o terapeuta e o cliente, e os processos em que eles se engajam,
estão determinados como, tais, em sua genericidade, anteriormente a sua
determinação ou postulação conceitual ou técnica, por parte do
sistema teórico ou técnico da psicoterapia.
Isto
nos remete, radicalmente, assim, a um piso mais básico de determinação
da psicoterapia, com relação aos seus sistemas teóricos. Que é o nível
imanente de suas determinações sócio-culturais históricas,
psicossociais. O nível imanente de determinações sócio-culturais e
psicossociais da constituição de seus agentes, das relações deles, dos
processos em que eles se engajam, e dos efeitos destes; anteriores a
qualquer das dimensões de sua teorização ou de suas pressuposições e
determinações técnicas.
Daí
que carecemos de nos centrar na clarificação da especificidade e importância
deste nível de determinações psico-sócio-culturais de constituição
da psicoterapia como instituição, e de constituição de cada um de seus
processos particulares, agentes e resultados.
Vemos,
nesta perspectiva, que a psicoterapia, num nível mais genérico, é o espaço
institucional continente para a ocorrência, e desdobramento dinâmico,
da relação particular entre dois
agentes sociais diferenciados, e institucional-mente constituídos. O espaço
institucional continente, igualmente,
para a ocorrência e desdobramento da relação particular entre duas
pessoas. A partir da dinâmica de interação de suas pessoalidades,
em suas singularidades. E de suas pessoalidades como mediadoras da dinâmica
de interação de suas respectivas determinações institucionais e de
suas respectivas constituições sócio-culturais particulares.
Desta
forma, a psicoterapia é um espaço institucional continente, metódico, e
sistemático, para a ocorrência, desdobramento, e duração, de um certo
tipo de relação, e de certos tipos de processos psicossociais
particulares, entre os seus agentes, os chamados terapeuta e cliente,
propiciados estes processos particulares a partir deste caráter metódico,
sistemático, e do processo da duração, pontual e extensiva, de sua relação.
Um
espaço, acredito, pragmaticamente constituído e modelado pela sócio-dinâmica
da cultura, a partir de outros tipos de processos sócio-culturais, na
medida em que obedece a fins específicos. Quais sejam os de auxílio ao
cliente em situações ou padrões críticos de sua existência, e os de
potencialização de seus processos de crescimento, de superação, e de
resolução de suas questões existenciais.
Do
ponto de vista psico-sócio-cultural do cliente, acredito que podemos
dizer que a psicoterapia constitui-se como um
processo de elaboração e re-elaboração, e de constituição dele como
um produtor cultural efetivo, ao nível microssocial de sua existência.
Neste
sentido, é interessante considerar que as escolas de psicoterapia
decantam e condensam, cada uma delas, dimensões particulares das grandes
tradições culturais da humanidade. Dimensões estas que se articulam
dinamicamente com fatores das tradições culturais locais e atuais dos
sistemas sócio culturais que constituem e produzem o terapeuta e o
cliente, como seres institucionais, e como pessoas
Desta
forma, a psicoterapia está a exigir uma redefinição, e uma
recontextualização. De sua concepção, de sua teoria e de sua prática,
no sentido de uma integração efetiva nestas dos elementos mais radicais
de suas determinações psico-sócio-culturais, e das determinações e
constituições psico-sócio-culturais de seus agentes, determinações
efetivamente ativas ao longo das nuances e sutilezas de seus processos, e
dos processos da produção de seus efeitos.
Desta
perspectiva, é que podemos observar o anacronismo mastodôntico, e a
destrutividade, em termos culturais, e em termos existenciais -- a partir,
em particular, da ética de uma filosofia da vida --, de uma concepção
da psicoterapia, do psicoterapeuta, do cliente, dos processos em que eles
se envolvem, e dos resultados destes, como pertinentes à esfera da clínica.
Um
enfoque da psicoterapia, de seus agentes e processos, a partir da
perspectiva de suas determinações sócio-culturais e psicossociais mais
concretas, e radicais, demanda e exige -- do ponto de vista prático, do
ponto de vista teórico e do ponto de vista ético -- uma redefinição e
uma recontextualização dela, do cliente, do psicoterapeuta, dos
processos em que eles se engajam, e dos resultados destes, conseqüentes
com estas determinações.
Tal
como entendemos, portanto, e tal como pode ser evidentemente entendido de
uma perspectiva sócio-cultural, a
psicoterapia, seus agentes, processos e resultados, são, de modo mais básico
e específico, do eixo da psico-sócio-dinâmica da cultura, e da produção
cultural. E não da esfera da clínica. São do eixo, especificamente, da
produção cultural, e com o tal devem ser basicamente entendidos e
tratados.
Desta
perspectiva, podemos explicitar alguns pontos que nos parecem importantes,
e relacionamos a seguir:
1. O
cliente de psicoterapia caracteriza-se e define-se por ser um produtor
cultural em crise, ao nível microssocial de sua existência e de sua
cotidianidade.
2. A
psicoterapia é, especificamente, um processo de elaboração e re-elaboração
psico- sócio-cultural, no qual, ou com a ajuda do qual, o cliente, a
partir de sua condição, pode constituir-se e reconstituir-se como um produtor
cultural efetivo, ao nível microssocial de sua existência e de sua
vida cotidiana.
3. O
psicoterapeuta é um parceiro, em termos pessoais e em termos
institucionalmente específicos e definidos, de co-laboração
no processo de auto-elaboração e re-elaboração cultural do cliente, ao
longo de sua relação metódica e sistemática com ele, no âmbito do
espaço institucional da psicoterapia. O terapeuta oferece-se à relação
metódica e sistemática com o cliente, a partir de seu status e condição
institucional de "psicoterapeuta" -- em um primeiro nível --, e
a partir de sua constituição, sedimentação, ressonâncias e dominâncias
culturais particulares, elaboradas ao longo de seu desenvolvimento, e em
processo de devir.
4. Em
seus níveis mais básicos, a psicoterapia se configura como a interação
psico-sócio-dinâmica entre o cliente e o psicoterapeuta, como pessoas, a
partir de suas constituições sócio-culturais particulares, e a partir
das definições sócio-culturais
de suas determinações institucionais.
3.
O Cliente, um Produtor Cultural em Crise, ao Nível Microssocial de sua
Existência.
Quem
é o cliente da psicoterapia./ O dito cliente e as implicações de uma
definição a partir da clínica./ Psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial, e o desmonte da concepção clínica do cliente./ Socialização, cultura e crise./
Um produtor cultural em crise./ Crise cultural, crise existencial
/Produtor cultural incompetente, produtor cultural efetivo./ Efeitos
psicoterapêuticos./ O cliente, culturativo
e culturogênico./ O carecimento de elaboração e re-elaboração
cultural e os efeitos do processo psicoterapêutico.
Veja
o meu caso. Eu nasci filho de índia com um paulista. Meu nome índio é
guarani pela amizade de minha mãe com uma guarani. Meu lado índio só
pensa em fogo, água e mato. Meu lado branco vai morrer sem entender o
lado índio.
(João
Maria Tapixi Rodrigues, índio Caingagues. Folha
de São Paulo 08.7.96. p. 1-8.).
QUEM
É O CLIENTE DA PSICOTERAPIA? IMPLICAÇÕES DE UMA DEFINIÇÃO A PARTIR DA
PERSPECTIVA DA CLÍNICA.
Quem
é o cliente de psicoterapia? O que o constitui como tal?
A
resposta parece um tanto quanto óbvia, ainda que traia sempre um certo
automatismo mecanicista, apressado e suspeito. Na verdade, a suspeição e
a inconsistência crescem sempre, à medida que buscamos superar esta
“obviedade” automática e mecânica.
Num
nível mais primitivo, mas bastante arraigado e pertinaz, a resposta tem
sido tradicionalmente oferecida a partir da perspectiva da clínica, ainda que, freqüentemente, de um modo mais ou menos
encabulado e/ou dissimulado, mais modernamente. Isto para não falarmos de
respostas oferecidas a partir de uma perspectiva religiosa, ou
para-religiosa, que já se situa, pelo menos historicamente, fora do âmbito
específico da psicoterapia.
Mais
recentemente, surgiram respostas para a questão sobre o que é o cliente
da psicoterapia, sobre o que o constitui como tal, a partir de uma
perspectiva fenomenológico-existencial. É, sem dúvida, uma mudança
qualitativa apreciável, este salto, de uma resposta a partir da equívoca
e danosa perspectiva dogmática da clínica, para uma tentativa de
resposta a partir de uma perspectiva fenomenológico-existencial.
Esta
perspectiva existencial, entretanto, tende a ser insuficiente, e até a
distorcer-se, na medida em que não se apreende nela, e não se considera
adequadamente, a importância especifica da dimensão
sócio-cultural da existência. E, por implicação, a importância
específica da dimensão especificamente sócio-cultural da psicoterapia,
de seus agentes, processos e resultados. E o cliente é, reificadamente,
entendido como uma existência monadicamente individualizada.
Quanto
à equívoca e danosa perspectiva reducionista da concepção clínica do
cliente da psicoterapia, e da própria psicoterapia, sabemos que o tempo
desevela o seu absurdo, apesar de sua persistência.
Constituir
o drama, as dificuldades existenciais do cliente, e as implicações
psicológicas e emocionais destes, numa questão de clínica,
apesar de usual, não é uma operação isenta do ponto de vista ético de
uma filosofia da vida. Sabemos, hoje em dia, que se trata de uma violenta
operação de destruição, ainda que esta destruição se situe, inicialmente, no nível do que Berger e Luckmann[3]
primorosamente chamam de aniquilação conceitual.
“Inicialmente”
apenas, é bom que se frise. Porque esta conversão, este momento inicial
de aniquilação conceitual, é, na verdade, o ponto de partida de todo um
processo que, partindo do conceitual, desdobrar-se-á como um processo de
destruição psicológica, psicossocial, social e, no seu limite, de
destruição física, do chamado cliente. Em particular, por que autoriza
e resulta no desencadeamento, por parte dos sistemas sociais do qual ele e
terapeuta fazem parte, de comportamentos destrutivos, em todos estes níveis.
Configurar-se basicamente, em particular, como um golpe violentíssimo em
sua auto-imagem, em sua autoconfiança, em sua esperança e poderes de
superação de suas humanas e culturalmente críticas situações limites,
ao lado da pressão no sentido de todo um processo degenerativo de sua
imagem social.
Todo
o espectro deste processo destrutivo é solidário e integrado em si, e
solidário com a rotineira operação de conversão
do drama, das questões e dificuldades existenciais, e culturais, do
cliente, e suas implicações, em questões clínicas
de doença.
Esta
concepção do cliente a partir da clínica, ainda que pertinaz, revela
cada vez mais o seu absurdo, como dissemos, absurdo que é explicitado,
inclusive, por muitos Psiquiatras lúcidos. De modo que, mesmo resistente
esta concepção, ela está em crise, e aponta o fim de seu tempo.
Desde
há algum tempo já a psicologia e a psicoterapia fenomenológico
existencial, através dos trabalhos de profissionais como R. D. Laing, D.
Cooper, C. R. Rogers, F. Perls, J. L. Moreno, R. May, G. Bateson, A.
Maslow, L. Binswanger, M. Boss, e outros, têm se contraposto a esta
perspectiva de concepção do cliente a partir da perspectiva da clínica.
O trabalho deles é brilhante e revolucionário. Colaborou
significativa-mente no sentido do desmonte da concepção clínica em
psicoterapia, e está, ainda, por oferecer os seus melhores frutos e
resultados. Exige, todavia, seqüência e conseqüência, das novas gerações.
Diante, em particular, dos desafios que suas implicações suscitam.
Mesmo
nesta perspectiva da psicologia e da psicoterapia fenomenológico
existencial, entretanto, a perspectiva clínica ainda perdura freqüentemente,
ainda que eventualmente de formas dissimuladas. Tanto é que se chega a
cogitar, no seu âmbito, a recuperação do diagnóstico
como instrumento da psicoterapia, postulando-se, desta forma, uma retroação
a momentos seus superados desde os anos cinqüenta e sessenta.
Isto
parece ocorrer porque não radicalizamos no sentido das conquistas
efetivamente realizadas pela psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial, e pela revolução operada pelo Existencialismo e pela
Fenomenologia, no âmbito das ciências humanas e da cultura, desde, por
exemplo, Nietzsche, Brentano e Dilthey.
Em
primeiríssimo lugar, esta radicalização parece significar o abandono do
“porto seguro” da clínica, em termos da chamada psicoterapia, e o
navegar no sentido de outras perspectivas, e no sentido da clarificação
de sua efetiva natureza, a partir de uma concepção ampla e honesta de
sua prática concreta.
UM
PRODUTOR CULTURAL EM CRISE. CRISE CULTURAL, CRISE EXISTENCIAL.
Um
desafio importante neste sentido -- no sentido desta seqüência, e conseqüência,
do trabalho da psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial;
no sentido da superação de uma concepção clínica
da psicoterapia, de seus processos e resultados, da superação de uma
concepção clínica do chamado
cliente, e do chamado terapeuta -- diz respeito, a meu ver, a um
aprofundamento da compreensão deles a
partir da perspectiva da cultura e da produção cultural. Desde
as dimensões mais genéricas da cultura, até as suas dimensões mais
específicas e particulares.
Quando
falamos de Produção
Cultural, remetemo-nos, normalmente, ao nível dos objetos, ou ao
nível da arte, ou ao nível dos grandes sistemas de objetivação da
cultura. Nós psicólogos e psicoterapeutas, entretanto, e em particular,
não podemos negligenciar, ou deixar de adequadamente valorizar, o fato de
que o nível mais fundamental da produção cultural é, especificamente, o nível da “produção”
das pessoas. O nível da produção cultural no qual a cultura se
constitui, e se reproduz, nas determinações culturais da constituição
das pessoas, de suas vidas, existências, crises e questões existenciais.
Ou seja, o nível mais básico da produção cultural é, exatamente, o
nível da produção das pessoas como produtos e produtores culturais, o nível
da produção da pessoa como produto e como produtor cultural.
Este
nível da produção cultural é certamente um nível fundamental, não só
para a compreensão da cultura, como para a compreensão, em especial, da
pessoa, e para a compreensão da psicoterapia, de sua prática, de seus
agentes – terapeuta e cliente --, processos e resultados.
A
configuração cultural na qual a pessoa nasce, cresce, desenvolve-se e
vive constitui-se como uma segunda natureza (Agnes Heller), que se
amalgama, necessária e indissociável-mente, com o que poderíamos
entender como a “primeira” natureza de sua herança biologicamente genética.
Numa
perspectiva muito importante, este processo incontornável de constituição
da pessoa como produto e produtora cultural, os acidentes, dificuldades,
distorções particulares e genéricas dele, parecem responder por dimensões
importantes do processo de constituição do cliente como tal.
Em
particular, quando concedêramos o crescimento e o desenvolvimento
cultural da pessoa no âmbito das intersecções, das interfaces, de
configurações de determinações culturais tensionadas, conflitivas,
contraditórias e antinômicas, como freqüentemente ocorre.
Sabemos,
assim, que socialização e aculturação são em maior ou em menor
intensidade, ainda que sempre, em algum nível, processos que têm as suas
dificuldades, conflitos e acidentes para a pessoa particular.
Dificuldades, conflitos e acidentes que, não raro, configuram-se como críticos,
ou que se constituem como cronicamente críticos, e estruturais. Como áreas
estrutural e cronicamente críticas, na constituição da pessoa, e de seu
campo de relações.
Em
especial, quando concedêramos que os sistemas sociais, em particular os
sistemas sociais urbanos, constituem-se como articulação, interfaces, e
diferenciações, de múltiplas determinações culturais significativas,
e conflitivas. Representantes, cada um delas, de diferentes configurações
sócio culturais, definidas cada uma delas a partir de distintas determinações
históricas, econômicas, étnicas, nacionais, regionais, religiosas,
raciais, políticas, etc. E que incidem, em toda a sua carga de ambigüidade
e caráter conflitivo, sobre o processo de constituição, de formação e
de desenvolvimento da pessoa particular, de suas condições de vida, de
sua vida, e de seu ambiente social e físico.
É
verdade que toda esta diversidade articula-se numa, e constitui uma,
‘cultura de interface’ e generalizadora, a que podemos nos referir
como cultura urbana, cultura burguesa,
modernidade... Esta, entretanto,
não extingue, pelo menos de imediato, e no caso de algumas jamais, o peso
e o conflito de contraditórias determinações culturais particulares.
Inclusive, e em especial, o conflito particular de cada uma das determinações
culturais particulares com esta mesma ‘cultura urbana de interface’.
De
modo que as pessoas têm que se socializar a partir de imposições,
necessidades, e demandas, constituídas por núcleos sócio-culturais
distintos, e em conflito -- eventualmente conflito grave --, desde a mais
tenra infância. Aspirando, por outro lado, a constituir-se, igualmente,
como ser genérico da cultura de interface que medeia as relações do
conjunto da comunidade de sistemas culturais de que participa. O que
significa, freqüentemente, distanciar-se de suas determinações
culturais mais ancestrais. Processo que, por si só, já gera inúmeras
tensões, acidentes e conflitos significativos.
No
processo de seu desenvolvimento, o indivíduo desloca-se, freqüentemente,
em particular entre nós, da cultura comunitária
particular do seus sistema sócio-cultural de tradicional de origem, na
direção da cultura individualista
do mundo burguês e urbano. Só este processo representa uma série de trans-form-ações, crises e dificuldades sócio culturais que
constituem-no facilmente como cliente de psicoterapia, carente de
constituir-se e re-constituir-se como um produtor cultural efetivo, no âmbito
de novas configurações culturais, a partir de suas heranças culturais,
e dos repertórios e desafios que os novos contextos sócio-culturais lhe
impõem.
A
socialização e o desenvolvimento da pessoa nessas condições é mais ou
menos problemática. Mas é sempre problemática e difícil.
O
desenvolvimento cultural da pessoa, que lhe permitirá constituir-se no
seu meio original, e/ou em outros, e efetivar as suas capacidades para
manipulá-los, e transformá-los, no sentido da criação das condições
para a satisfação, e produção, de suas necessidades, o desenvolvimento
da pessoa, pode ser significativamente perturbado e distorcido, a ponto de
constituí-lo, no limite, como um produtor cultural em crise.
Globalmente em sua existência, ou em aspectos particulares desta.
Isto
significa dizer que se quedam prejudicadas para ela as suas condições
culturais, e de produção cultural, indissociáveis da sua existência,
indissociáveis de suas condições e capacidades para o afrontamento e
enfrentamento das dificuldades de seu crescimento, de suas crises e questões
existenciais.
Queda-se
prejudicada a sua capacidade e as suas possibilidades de se apropriar e de
utilizar, de um modo efetivo, as objetivações cotidianas, as linguagens,
os objetos, os usos, e as objetivações não cotidianas -- em suas
especificidades e sutilezas próprias -- da comunidade de sistemas
culturais em que sobrevive e vive cotidianamente. Onde atualiza as suas
capacidades e sentidos, no processo de constituição dos objetos de
satisfação de suas necessidades, e de produção e reprodução delas.
Queda-se
prejudicada, no limite, a sua capacidade de auto-criação, de auto-recriação
e de crescimento, no processo de integração de suas culturas, e de suas
relações com o seu meio, de criação e de recriação dele.
É
esta condição cultural de crise, mais ou menos abrangente, mais ou menos
crônica, é a
pessoa como um produtor cultural em crise, que a constitui -- de
uma perspectiva cultural --, como cliente de psicoterapia. Que constitui,
como tal, o cliente da
psicoterapia.
Esta
condição de crise cultural --
mais ou menos abrangente e crônica, ou reagudizada em momentos ou questões
decisivos da vida da pessoa -- tem, naturalmente, toda a sua implicação
na vida dela como crise existencial,
mais ou menos crônica -- ou mais ou menos reagudizada periodicamente --,
com todo o seu séqüito de sintomas de ansiedade ou de depressão, ou
outros distúrbios típicos do cliente, em função dos perigos e frustrações
que ela potencializa na vida dele, e com as dificuldades que representa
para o seu crescimento, para a sua auto-imagem, para o seu processo de
ajustamento criativo com o seu meio, e para a sua realização e gratificação
pessoais.
O
processo da psicoterapia partirá desta condição do cliente, de
insatisfação, de frustração, de sensação de perigo, de impotência,
de falência de suas capacidades para manipular ou para movimentar-se em
seu mundo, de ansiedade e/ou depressão, mais ou menos crônicos, de distúrbio
mental, ou comportamental. E direcionar-se-á, progressivamente, no
substrato de um processo micro-sócio-cultural, específico, sistemático
e metódico, de interação entre ele e o terapeuta -- como instituições
sociais, e como pessoas, seres culturais --, no seio desta instituição
cultural da psicoterapia.
Processo
que terminará por configurar-se, na prática, como fator relevante de um
processo de elaboração e de re-elaboração cultural do cliente, no
sentido da constituição e reconstituição dele como um produtor
cultural efetivo, no âmbito da configuração cultural em que ele
sobrevive e vive.
Existem
os casos que a condição do cliente não tem uma gênese tão típica e
evidente em tensões, dificuldades e conflitos culturais. Estes casos,
entretanto, têm sempre, também, os fatores culturais estruturais como
determinantes básicos. Seja do processo de sua constituição, seja dos
processos de interação entre o cliente e o terapeuta, seja dos
resultados de que o cliente carece. São estes, por exemplo, os casos da
ausência de, ou de conflito grave com, um dos pais no desenvolvimento da
pessoa, os casos de perda abrupta de pessoa significativa, os casos de
separações, de mutilações físicas, ou psicológica, de morte
iminente, e outros, que demandam e exigem sempre todo um processo elaboração
e re-elaboração cultural de si por parte do cliente
Assim
sendo, um produtor cultural em
crise, incompetente, a seu critério, ao nível micro-social de sua
existência, socializou-se/foi socializado de um modo tal que tende a ser
incapaz, impotente, inábil, a seu próprio critério, para a criação,
em sua vida cotidiana, das condições para a auto-atualização de suas
potencialidades, capacidades e sentidos, e para a satisfação e elaboração
multi-facetária de suas necessidades, e dos objetos de satisfação
destas.
Isto
o induz a um estado crônico de frustração, perigo e impotência[4].
a uma constante exposição improdutiva ao risco de fracasso nas
atividades de sua existência, em especial as mais críticas. A um
embotamento de suas potencialidades, capacidades e sentidos, e a um
embotamento do processo de elaboração, re elaboração de suas
necessidades e dos objetos de satisfação delas.
A
duração desta condição leva
a pessoa particular a um estado de crise existencial mais ou menos crônica,
re agudizada, eventual ou periodicamente -- em particular quando ela se vê
obrigada a se defrontar com situações críticas de vida, que exigem de
suas capacidades, necessidades, potenciais, e sentidos, respostas
criativamente produtivas.
A
condição crônica de frustração, de perigo, de impotência, de
incapacidade para crescer, ou a reagudização desta condição, em situações
problemáticas particulares, termina por levar a pessoa à psicoterapia, e
constituí-la como cliente, sob o influxo forte de uma experiência de
insatisfação, ou, freqüentemente, sob a impressão de uma falência de
suas condições existenciais, ou, imersa simplesmente em uma crise aguda
de ansiedade, ou de depressão, revestida das formas de uma crise
existencial.
EFEITOS
PSICOTERAPÊUTICOS
Os
chamados efeitos psico-terapêuticos
desenvolver-se-ão sempre, e traduzir-se-ão sempre, em termos
psicossociais, de cunho cultural mais ou menos marcado, mas sempre de
cunho cultural. Dirão respeito às transformações ao nível dos
conhecimentos significativos do cliente, e de sua capacidade de aprender
significativamente na cotidianidade de sua existência. Dirão respeito,
em particular, às capacidades do cliente de agir, de atualizar
possibilidades plasmadoras das condições de sua existência. Dirão
respeito às transformações de seus valores, e das configurações de
atitudes deles decorrentes. Dirão respeito às transformações de sua
capacidade de utilização de objetos e recursos de seu mundo, e de
desenvolvimento de novas modalidades de habilidades, mais sintônicas com
as suas necessidades atuais. Dirão respeito às transformações de suas
linguagens e ao desenvolvimento criativo delas. Ao desenvolvimento de sua
capacidade para o desfrute e vivência de seu corpo, e para a potencialização
de suas ações e possibilidades corporais. Dirão respeito a suas
capacidades no sentido da apropriação e da recriação da esfera das
objetivações cotidianas de sua vida, e da sua relação com a esfera das
objetivações não cotidianas.
A
relação com o psicoterapeuta, e o processo da terapia, se configuram,
progressivamente, como momento experimental relevante e intenso desta
reciclagem, deste processo de elaboração e re-elaboração cultural do
cliente. Momento que o cliente vivenciará periódica e metodicamente, em
sua cotidianidade.
O
processo da psicoterapia constitui-se, desta forma, como uma dimensão
importante de todo o processo de auto-criação e re-criação cultural do
cliente. Vale dizer: de todo um processo de potencialização e de efetivação
de suas capacidades de criação e de recriação de si próprio e de seu
mundo, a partir dos recursos culturais deste mundo, e dos recursos
culturais constituídos na formação cultural do próprio cliente. A
partir, em especial, de suas capacidades ontologicamente humanas --
capacidades culturativas e culturogênicas --, de suas necessidades e
sentidos.
Porque,
efetivamente, em particular, não é, em momento algum, o terapeuta quem
elabora e re-elabora o cliente culturalmente, ao modo da relação de um
sujeito com um objeto.
Em
primeiro lugar, é necessário considerar que esta relação entre o
terapeuta e o cliente, é intersubjetiva e fenomenal, é transacional. Ao
psicoterapeuta cumpre assimilar a constatação de Husserl e respeitar a
alteridade autônoma da pessoa do cliente: “O
outro é um foco autônomo de produção de sentido”.
A
relação entre o terapeuta e o cliente está -- em particular, em sua
globalidade, sentidos íntimos, e interesses intrínsecos e
significativos, para o cliente -- fora do controle do terapeuta. As
necessidades mais básicas do cliente com relação ao processo psicoterapêutico,
os sentidos e os efeitos, para o cliente, desse processo estão fora do
controle consciente e voluntário do terapeuta e, freqüentemente, dele próprio,
cliente.
Daí
a necessidade de uma relativização da importância do nível técnico da
psicoterapia, do nível de aplicação técnica de uma certa abordagem,
por parte do terapeuta -- se quisermos valorizar estes níveis
ontologicamente sócio culturais e inter humanos mais básicos da relação.
E a necessidade de uma entrega ao fluxo da espontaneidade da relação, e
da entrega do terapeuta ao fluxo de sua própria espontaneidade criativa,
no âmbito de sua relação com o cliente.
cumpre
observar, que quanto maiores os carecimentos do cliente de um processo de
elaboração e re-elaboração cultural maiores as possibilidades
produtivas do processo psicoterapêutico. Assegurada, evidentemente, a
com-petência necessária do terapeuta para participar desse processo.
4.
O Psicoterapeuta.
A
instituição psicoterapeuta./
A constituição cultural pessoal do psico-terapeuta./ O terapeuta como um
ser cultural da cultura de sua escola de psicoterapia./ A formação do psicoterapeuta/ O psicoterapeuta, particularidade e
genericidade./Não é o terapeuta quem
elabora e re-elabora o cliente culturalmente.
Ninguém
encontrará pessoas
estudando-as como se fossem apenas objetos.
(R D
Laing)
As
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais realizaram um
progresso marcante quando desistiram de pensar o psicoterapeuta como um
especialista, que intervém sobre um paciente,
e modifica-o desta ou daquela forma, a partir de sua intervenção. E
passaram a pensá-lo como uma pessoa que interage com outra pessoa. E que
as suas habilidades terapêuticas têm muito mais a ver com capacidades
humanas, do que com habilidades técnicas. Isto sem prejuízo de sua condição
e atuação institucional – que se configuram mais propriamente como o
“piso”, e não como o “teto” de sua atividade, no âmbito da relação
com o cliente .Acredito que não seria nada exagerado marcar este ponto
como um ponto de transição, um dos vários, talvez, entre a pré-história
e a história da psicoterapia e da psicologia.
Esta
perspectiva, ainda que tenha o mérito de considerar, e valorizar, a
singularidade absoluta da pessoa do terapeuta -- e da pessoa do cliente
--, tende a perder a sua efetividade, e a distorcer-se, na medida em que
as “pessoas” em questão, e, por implicação, a sua relação, são
reificadas, são restritas a sua individualidade
objetivista, e amputadas de suas determinações não objetivas, em
particular de suas determinações culturais, sejam elas as determinações
culturais genéricas, ou as determinações culturais mais particulares.
Esta
amputação, e distorção, talvez em função da influência de certas
particularidades pragmático objetivistas
da Cultura Norte Americana, tende a ser até obsessiva em certas áreas
das Psicologias Humanistas, que assumem que a mera manifestação da condição
da terapêutica da Consideração
Positiva Incondicional, e de outras Condições
Terapêuticas, seriam suficientes no trato com o cliente.
Lembro
de Anh Tothi, uma simpática senhora, psicoterapeuta centra-la na pessoa,
Vietnamita, da Cidade de Ho Chi Minh, amiga pessoal de Carl Rogers, no
Forum Internacional da ACP, em Terschelling, na Holanda, em 1992. Discutíamos,
num grupo, as questões culturais da psicoterapia e da psicologia, e eu
dizia que considerava que cerca de
setenta e cinco por cento dos processos e resultados da psicoterapia
deviam-se a processos sócio culturais básicos, decorrentes de fatores
culturais imanentes às pessoas do terapeuta e do cliente, e à relação
psico-sócio-cultural que se desencadeava e desenvolvia entre eles, a
partir destes fatores, e que não estavam tematizados pelas teorias e métodos
das escolas de psicoterapia.
Junto
com alguns outros colegas, em particular um colega britânico, londrino,
Ahn, delicadamente, como é o estilo tradicional dos Vietnamitas,
considerou exagerada a cifra da minha estimativa. “‘Setenta e cinco
por cento’, era muito”. Continuei expondo algumas idéias e pontos de
vista, e a discussão rolando. Já próximo do final, Ahn pediu a palavra,
Desculpou-se, agradeceu-me, e disse, delicada e suavemente, algo mais ou
menos assim:
considerando
as características de meu povo, a nossa fisionomia, o nosso jeito de
pensar e agir, de fato eu acho que setenta e cinco por cento é pouco. Na
verdade, podemos considerar oitenta e cinco, noventa e cinco por cento.
Aquilo
me fez um bem enorme...
O
PSICOTERAPEUTA COMO INSTIUIÇÃO
Acredito
ser fundamental considerar, na reflexão sobre a psicoterapia, a condição
específica do psicoterapeuta, e da psicoterapia, como instituições sócio-culturais
particulares, e a importância específica desta condição na emergência,
desdobramentos e produção de efeitos do processo psicoterapêutico. Em
particular, a importância, para o cliente, do relacionamento com este nível
institucional do processo.
Sabemos
da importância da boa estruturação desta dimensão da relação
institucional entre o terapeuta e o cliente, para o bom andamento do
processo terapêutico. O terapeuta não se relaciona com o cliente apenas
como pessoa. O cliente procura o terapeuta, e a ele vincula-se em uma
relação terapêutica, a partir de condições institucionais dele: a
partir de seus credenciamentos institucionais, de sua reputação no
sistema social em que ambos vivem, etc. Estabelece com ele um vínculo
profissional, dentro dos limites do qual pode desenvolver-se a relação
psicoterapeutica entre eles, o que envolve os níveis mais íntimos da
pessoalidade do cliente.
Este
vínculo institucional profissional protege o terapeuta de invasões a sua
privacidade por parte dos clientes, e garante as condições básicas do
processo da terapia, ao mesmo tempo em que protege a privacidade do
cliente de invasões ou inconfidências por parte do terapeuta.
Estas
dimensões, de vínculos culturais institucionais entre psicoterapeuta e o
cliente, são normalmente considerados como exteriores ao processo da
terapia propriamente dita. Não podemos deixar de considerar, entretanto,
a importância específica destes vínculos institucionais entre o
terapeuta e o cliente -- a partir da condição institucional do terapeuta
-- na produção de certos efeitos psico-dinâmicos importantes. Reconhecíveis,
normalmente, como do âmbito dos efeitos
psicoterapêuticos, ou de pré-requisitos destes.
Basta
considerar, por exemplo, que certos clientes buscam a psicoterapia por que
se sentem, ou efetivamente estão sendo, progressiva-mente excluídos ou
expulsos, no seu micro-meio, da ordem social da cultura em que vivem. A
psicoterapia, nesses casos, é um
lugar da ordem social da cultura que, por princípio, especializa-se
em receber e aceitar esta pessoa, no seu seio. Segundo os princípios de
uma tolerância anômala para os padrões vigentes na ordem social da cultura da
qual a pessoa sente-se, ou efetivamente está, sendo expulsa.
De
modo que, através da relação psicoterapeutica, a pessoa obtém uma vinculação de emergência, digamos, vinculação social e
poderosamente validada, à ordem social da cultura. O psicoterapeuta, freqüentemente,
é esta figura especializada da cultura, da configuração das instituições
-- não só tecnicamente, mas institucionalmente, filosoficamente,
psicossocialmente --, que busca a constituição de um vínculo social
institucional com a pessoa -- no caso cliente --, quando, nessas condições,
ela sente fracassarem progressivamente as suas outras vinculações, e a
sua própria capacidade de vincular-se.
Quantas
pessoas, clientes, não tiveram, e tem, neste tipo de vinculação a sua
possibilidade circunstancial mais significativa de pertinência social,
como alternativa ao mergulho no precipício da vivência da exclusão
psicossocial.
A
partir desta vinculação, um tal cliente pode se potencializar para
reorganizar progressivamente os seus vínculos sociais, e mesmo para
reorganizar a sua capacidade de constituí-los. Não raro, depois de um
longo período de suporte, mais ou menos significativo e necessário, por
este tipo de vinculação.
Não
podemos negar, ou subvalorizar, a importância específica das capacidades
e características pessoais e culturais do psicoterapeuta enquanto pessoa
no desenvolvimento da vinculação desta ordem. Mas a especificidade, e o
impacto psicológico específico de sua condição institucional, e a sua
habilidade de lidar com esta especificidade e com este impacto, e de usá-los,
são fatores fundamentais no desenvolvimento de um processo produtivo.
São
fatores do processo psicoterapêutico que ressaltam a importância da
condição institucional da psicoterapia e do papel do terapeuta, e de sua
habilidade de manejá-los, no desenvolvimento de um processo psicoterapêutico
produtivo.
Não
advêm, originalmente e em sua essência, de uma habilidade técnica específica
do terapeuta, mas advêm mais especificamente de sua condição
institucional, e dos efeitos psicossociais desta condição.
A
CONSTITUIÇÃO CULTURAL PESSOAL DO TERAPEUTA.
Por
outro lado, sabemos que esta dimensão institucional é apenas uma das
dimensões do ser do terapeuta enquanto tal.
Indissociável
desta sua condição institucional, desdobra-se dinamicamente, na sua relação
com o cliente, a sua pessoalidade.
Fonte, importante e fundamental, de criatividade e de originalidade no
processo psicoterapêutico. Capacidade de aceitação e de compreensão do
cliente em sua singularidade dinâmica, na singularidade de seu momento de
vida, e na atualidade pontual de seu momento vivido.
Somos
ingênuos, todavia, quando pensamos que esta pessoalidade do terapeuta
restringe-se a sua individualidade objetiva. E não apreendemos,
esquecemos ou negamos, que esta pessoalidade, assim como a pessoalidade do
cliente, se constitui, indissociavelmente, como particularização, também,
de fatores culturais. Fatores que, ainda que assim particularizados nas
pessoas, transcendem ao nível da mera pessoalidade individual, uma vez
que radicam nos sistemas sócio culturais de que o terapeuta, e o cliente,
participam.
De
modo que não podemos deixar de entender o psicoterapeuta, em sua
pessoalidade, como integração dinâmica, também, de fatores individuais
e de fatores transindividuais. Fatores transindividuais estes constituídos
pelos sistemas sócio culturais de que ele participa, e pela dinâmica dos
devires destes.
A
relação do psicoterapeuta com o cliente envolve, pois, um nível
institucional e um nível pessoal. Configurando-se este nível pessoal a
partir da relação interpessoal particular entre o terapeuta e o cliente.
Nesta
relação, além da interação de individualidades, interagem
dinamicamente os fatores transindividuais, psico-sócio-culturais, da
pessoalidade do terapeuta com os respectivos fatores da pessoalidade do
cliente.
Acredito
que estes níveis da interação entre o terapeuta e o cliente, em sua
esfera especificamente psico-sócio-cultural, respondem pela constituição
de níveis fundamentais, e críticos, e dos mais sutis e produtivos, do
que entende-los como efeitos
psicoterapêuticos.
Desta
maneira, não podemos deixar de entender que a constituição cultural
pessoal do terapeuta, em relação à mesma constituição do cliente, é
um fator fundamental do processo psicoterapêutico, e da determinação de
seus efeitos.
O
TERAPEUTA COMO UM SER DA CULTURA DE SUA ESCOLA DE PSICOTERAPIA.
Ao
considerarmos a constituição cultural do psicoterapeuta, é interessante
levarmos em conta que esta constituição tem uma particularidade: o
terapeuta foi, particular e diferenciada-mente, aculturado na
“cultura” de sua escola de psicoterapia.
As
escolas de psicoterapia privilegiam e concentram perspectivas e posturas
particulares das grandes tradições culturais da humanidade.
Cada
uma delas constitui-se especificamente a partir desta concen-tração de
perspectivas culturais, como uma certa tradição cultural.
Assim,
ao lado de sua constituição cultural pessoal, desenvolvida ao longo de
sua vida, e certamente por causa dela, o terapeuta integra e elabora em si
as perspectivas e posturas “culturais” de uma certa escola de
psicoterapia. Constituídas nele a partir do processo de sua formação
como psicoterapeuta. E orienta, a partir dela, o seu desempenho
profissional.
As
tradições culturais da história da humanidade que se concentram nas
perspectivas conceituais e metodológicas da Psicanálise, por exemplo, não
são as mesmas que se concentram nas perspectivas e posturas básicas das
linhas fenomenológico existenciais de psicologia e de psicoterapia. Da
mesma forma que não o são as perspectivas e posturas das linhas
comportamentais.
Vive
la diférance.
Acredito
que não podemos considerar estas questões de um ponto de vista maniqueísta,
mas certamente temos muito a lucrar com uma sociologia e com um estudo
antropológico e filosófico, inclusive axiológico, dos fundamentos das várias
e de cada uma das escolas de psicoterapia.
A FORMAÇÃO
DO PSICOTERAPEUTA
Ao
considerarmos a psicoterapia, o psicoterapeuta, e o seu desempenho, à luz
destes fatores psico-sócio-culturais, é interessante refletir
adequadamente sobre o que é,
efetiva-mente, a formação do
psicoterapeuta. Refletir sobre quais são as implicações dessas
perspectivas para a concepção e para a prática da formação do
psicoterapeuta.
Em
primeiro lugar, é interessante considerar que fatores importantes de sua
formação, fatores de uma importância decisiva na constituição dos
processos psicoterapêuticos nos quais ele se envolverá, ele os obtém e
desenvolve anterior e independentemente de sua formação
especializada.
Anteriormente
à sua freqüência a qualquer curso especializado de formação em
psicoterapia, anterior-mente ao seu curso de psicologia ou de medicina. São
os fatores ligados à aquisição e ao desenvolvimento de sua constituição
cultural pessoal particular. Os fatores ligados ao seu desenvolvimento
como pessoa, ser cultural. São fatores que haverão de interagir
dinamicamente com as constituições culturais de seus clientes,
anteriormente e a revelia de qualquer pressuposto ou determinação técnica
ou conceitual, determinando fundamentalmente os seus rumos, a qualidade de
seus processos, e os seus resultados.
Estes
fatores, portanto, carecem de ser considerados nos programas formais e de
desenvolvimento de psicoterapeutas. Carecem de uma consideração que
contemple a complexidade, a importância, a sutileza e a delicadeza deles,
e da participação deles nos processos da psicoterapia.
Precisamos,
inclusive, desenvolver posturas e critérios éticos e filosóficos para
lidar com estes fatores na formação dos psicoterapeutas. Em particular,
porque a multiplicidade de formações e de configurações culturais dos
terapeutas são importantes, em suas especificidades particulares. Como
possibilidades de ressonância, e de articulações produtivas com as múltiplas
formações culturais dos clientes, em sua diversidade e em suas
especificidades.
Por
outro lado, os programas formais de formação de psicoterapeutas carecem
de novas modalidades de compreensão de sua natureza. Modalidades que
superem a uma compreensão deles meramente como programas de formação técnica
e teórica, ou mesmo filosófica. Para entendê-los, também, como
programas de aculturação, e de desenvolvimento dos formandos nas várias
perspectivas, posturas, valores, atitudes, conhecimentos e técnicas da
cultura da escola de psicoterapia em questão. Em particular, os programas
carecem de ser entendidos, também, numa perspectiva psico-sócio dinâmica
da interação entre seres culturais formados, ou em processo de formação,
formandos, e professores, submetidos aos fluxos e refluxos dos devires de
suas determinações sócio culturais.
TERAPEUTA,
PARTICULARIDADE CULTURAL E GENERICIDADE HUMANA
Uma
das capacidades mais fundamentais de um psicoterapeuta -- a par da afirmação
da configuração de sua própria constituição cultural e, em particular
diante do acima exposto --, é a sua capacidade
para assumir naturalmente e transitar pela perspectiva da genericidade humana. Do humano
genérico, que é dimensão constituinte de toda pessoa.
Em
particular, uma atitude, honestamente assumida e prática, de respeito e
de valorização das perspectivas culturais e dos devires das perspectivas
culturais dos seus clientes. Conseqüência de uma postura desenvolvida e
consciente de respeito e de valorização da cultura alteritária das
outras pessoas em suas especificidades próprias.
Como
qualquer pessoa, o terapeuta carece naturalmente de assumir e afirmar a
perspectiva de suas próprias configurações culturais. Ele não poderia
prescindir disto, nem isto seria possível, ou necessário. Na verdade
seria improdutivo e danoso. Em particular, na medida em que é,
exatamente, a riqueza da sua própria configuração e ressonâncias
culturais que se constitui como um dos recursos fundamentais de sua
participação no chamado processo psicoterapêutico. Astúcia e
hipocrisia fazem com que certas pessoas camuflem e escondam suas próprias
características culturais. Que camuflem e escondam, em particular os seus
preconceitos. Desnecessário dizer que na constituição de uma relação
improdutiva e danosa.
O
que o terapeuta como tal não necessita, igualmente, o que é na verdade
danoso para a pessoa do cliente e para o processo da terapia -- além de
ser altamente tóxico para ele próprio -- é de uma atitude
etnocêntrica. É de uma estúpida atitude facciosa de uma suposta
valorização de umas culturas, as suas ou as que ele idolatra, e de
desvalorização das demais, ou de algumas escolhidas.
Caracteristicamente,
o bom terapeuta tem bem integrada em si próprio a sua própria
perspectiva cultural. Desenvolve naturalmente, por outro lado, um respeito
profundo e interesse por outras perspectivas culturais. O respeito e
interesse dele por outras perspectivas culturais levá-lo-á sempre a uma
atitude dialógica no seu encontro com elas, em particular no âmbito de
sua prática profissional. Uma atitude de respeito e de valorização da
particularidade da perspectiva cultural do outro, de sua singularidade e
diferença, na pontualidade do seu encontro com ela.
Isto
em função do fato de que o terapeuta competente integra, natural-mente,
a perspectiva do humano genérico, a perspectiva da genericidade humana. O
bom terapeuta, na verdade, desenvolve um profundo interesse e fascinação
espontâneos pelo fenômeno humano, e pela multiplicidade de suas formas.
Em particular de suas formas existenciais e culturais. Interessa a ele a
afirmação e os desdobramentos produtivos desta multiplicidade, no drama
da existência pessoal da pessoa do cliente com que ele interage. Sabe
que, qualquer que seja a configuração cultural do cliente, de uma forma
concreta, a partir da genericidade humana, ela é também configuração
cultural sua, dimensões de seu próprio drama e destino enquanto humano.
De
modo que ele potencializa-se para participar de uma relação que
contenha, da parte dele, um respeito profundo para com a constituição
cultural do cliente, e para com os desdobramentos desta no âmbito da
existência dele, em especial no decurso da relação psicoterapeutica.
Sempre
haverá algum nível de tensão cultural entre o terapeuta e o cliente.
Tensão que, eventualmente, pode subir a níveis muito significativos.
Isto, é, acredito, parte e recurso do processo psicoterapêutico. O
importante é que o terapeuta preserve as condições de uma atitude e
relação efetivamente dialógica com o cliente, nos termos em que Buber[5]
define, e o seu genuíno bom humor e espírito esportivo.
Em
casos mais raros, isto pode não ser possível. A psicoterapia deve ser
então suspensa e o cliente deve ser encaminhado a procurar um outro
terapeuta.
CULTURATIVO
E CULTUROGÊNICO, O CLIENTE ELABORA-SE E RE-ELABORA-SE CULTURALMENTE NA
SUA RELAÇÃO COM O PSICOTERAPEUTA, E NA SUA COTIDIANIDADE.
Concluindo,
é importante insistir no fato de que, em sendo a psicoterapia um processo
de elaboração e re-elaboração cultural do cliente, não podemos dizer,
em momento algum, que é o terapeuta quem opera esta elaboração e
re-elaboração cultural do cliente, ainda que sua própria formação
cultural pessoal possa ser um interessante recurso no processo de auto
elaboração e re-elaboração cultural do cliente. O processo de elaboração
e re elaboração cultural do cliente é um processo eminentemente
fenomenológico, e existencial.
É
necessário considerar, ao contrário, que a psicoterapia, como processo
psico-sócio-cultural, carece de ser entendida como um processo inter
humano interpessoal de relação entre o psicoterapeuta e o cliente,
enquanto seres individuais e transindividuais totais. E que está fora do
controle consciente e voluntário, técnico, prático e científico, do
terapeuta, no que concerne a sua globalidade e em suas determinações
mais significativas.
De
modo que não são as intervenções conscientes e voluntárias, práticas,
ou técnicas, científicas ou moralistas, do terapeuta que respondem por
estas determinações mais significativas do processo psicoterapêutico, e
de seus efeitos. Mas a dinâmica da interação e da transação psico-sócio-cultural
inter humana entre ele e o cliente. Que envolve níveis que estão fora do
seu controle consciente e voluntário. E que envolve dimensões de
sentido, para o cliente, que ele, terapeuta, apesar de ser parte
envolvida, não pode entender ou sequer, freqüentemente, apreender, tal o
caráter subjetivo e privado da importância pessoal deles para o cliente.
O
poder de auto-elaboração e re-elaboração cultural do cliente decorre
de sua condição humana. É ontológico. E é apenas potencializado pelo
processo da psicoterapia, por sua relação psico-sócio-cultural com
chamado psicoterapeuta. O cliente é
ontologicamente culturativo e culturogênico, a partir de suas heranças
culturais, de suas capacidades, necessidades e sentidos, e dos recursos
disponíveis em seu mundo e em sua atualidade existencial.
5.
A Psicoterapia Vista da Perspectiva Psico-sócio-cultural de uma Ecologia
da(s) Cultura(s).
Multiplicidade
e comunidade da(s) cultura(s), ecologia cultural./ Socialização,
multiplicidade e comunidade de culturas: ecologia cultural./ A perspectiva
subjetiva da comunidade das culturas./Exemplificações./ A psicoterapia
vista da perspectiva de uma ecologia cultural./ A psicoterapia como
processo de potencialização das capacidades culturativas e culturogênicas
da pessoa.
Acredito
que o futuro do que entendemos por psicoterapia
muito terá a ver com o desenvolvimento de uma ecologia cultural. Mais especificamente, com o desenvolvimento da perspectiva
antropológica e psicossocial de uma ecologia cultural.
Na
verdade, as perspectivas aqui apresentadas emergem e conduzem-nos nesta
direção.
Os
ecossistemas sócio cultur-ativos nos quais nos constituímos e vivemos, e
nos quais se constituem e vivem clientes e psicoterapeutas -- em
particular os sistemas sócio-culturais urbanos --, são, como sabemos,
sistemas culturais muito dinâmicos, sistemas culturais múltipla e
complexamente constituídos, a partir de uma grande variedade de determinações,
cada uma delas com suas intensidades específicas. Suas culturas se sobrepõem,
e se articulam dinamicamente, se chocam e conflitam, segundo planos de
determinações étnicas, históricas, econômicas, regionais, religiosas,
de gênero, e outras.
Isto
significa dizer que as pessoas socializadas nesses sistemas culturais
socializam-se a partir da incidência confluente sobre o seu
desenvolvimento de influências, tensões e conflitos culturais
mobilizados a partir das relações das várias determinações da
configuração de suas próprias culturas, e das relações desta com
outras culturas que compõem o ecossistema em que ela se desenvolve e
vive. As pessoas constituem a sua subjetividade, se constituem, como
produtos e produtoras culturais, a partir da incidência sobre o seu
desenvolvimento, e sobre o desenvolvimento de suas famílias e grupos de
referência, de uma multiplicidade de influências culturais distintas: de
suas forças, tensões e conflitos. Sua subjetividade, sua pessoalidade,
se constituem como produto, como articulação mais ou menos tensa, de
todas estas influências culturais.
Evidentemente
que, por sua própria condição, a pessoa tem um poder constituinte,
tanto de si própria como de seu mundo, e não é um simples joguete, tabula rasa, para as forças culturais de seu ecossistema. Não
podemos negligenciar, todavia, que este próprio poder constituinte da
pessoa é culturalmente mediado, e que, desde a mais tenra infância, ela
é socializada no âmbito, e a partir, de influências, tensões e de
conflitos culturais, mais ou menos agudos, mais ou menos acentuados, mais
ou menos articuláveis na constituição das determinações de sua
personalidade.
Sabemos,
por outro lado, que as influências culturais não têm um peso idêntico
no processo de constituição da pessoa. A partir de suas vinculações
familiares, históricas e sociais em geral, certos componentes culturais têm
um peso maior ou exercem um papel dominante. Estas dominâncias,
entretanto, não eliminam a presença e participação de outras influências
menos fortes, ou mesmo de influências de força relativamente
equivalentes, mas com características qualitativamente próprias.
De
nossa vivência cotidiana e de nossa prática profissional, é fácil
pensar, por exemplo, um cliente, de raízes íbero-lusitanas, greco-socráticas,
judaico cristãs (Católicas), fermentada intensamente por elementos pré-socráticos
e pagãos. Que vive no meio urbano de uma pequena cidade do Nordeste do
Brasil, e que se constitui como ser da cultura individualista burguesa,
precariamente burguesa, deste meio urbano, mas que descende e ainda
compartilha fortemente da cultura do meio rural sertanejo do Nordeste,
comunitária, fortemente patrimonial e patriarcal, constituída de
elementos semi feudais, e em processo de intensas transformações. Nosso
hipotético cliente, pode, ainda compartilhar de inúmeras dimensões da
cultura de um mundo burguês e de um capitalismo avançado, veiculado
pelos meios de comunicação e na sua cotidianidade.
Podemos,
facilmente pensar, igualmente, um cliente, de raízes também íbero-lusitanas,
e magrebinas, perdidas no tempo, que descenda, mais imediatamente, da
cultura do engenho, da “Casa Grande”, mais especificamente,
escravocrata, patrimonio-patriarcal, semi-feudal e comunitária. E que,
passada a decadência da “Aristocracia do Engenho”, busca
constituir-se como ser da cultura do meio urbano, individualista. Cultura
orientada para uma ética do trabalho e para o arquétipo do “self-made-man”.
De várias formas antagônica às suas influências culturais mais
antigas.
Podemos
imaginar uma cliente brasileira, paulista, do interior de São Paulo, de
origem Italiana, que continua o seu processo migratório até uma capital
do Nordeste do Brasil. E que busca constituir-se aqui como uma nova
pessoa, novo ser cultural, em um novo mundo, a partir de suas influências
culturais ancestrais, e de suas influências culturais recentes, nos
desafios emergentes da cotidianidade de sua atualidade existen-cial.
Podemos
imaginar, ainda uma mulher negra, descendente da Cultura dos Negros da África
trazidos para o Brasil como escravos. Descendente, em especial da Cultura
de Resistência do Povo Negro durante a escravidão, que estuda em uma
universidade e adquire um diploma e uma profissão universitárias, que a
diferenciam marcadamente da maioria de seus parentes e amigos mais
antigos. E que tem que se constituir e reconstituir culturalmente, -- a
partir, e na direção, de suas influências culturais mais antigas, das
quais ela não pode se desligar e que são, na verdade, importantes fontes
de força, e de conflito, para ela; e de suas influências culturais
recentes, no âmbito da cultura do mundo burguês urbano de uma cidade
brasileira.
Ou
ainda um cliente cuja família paterna desenvolveu-se no Sertão do
Nordeste do Brasil, e que migrou para a Cidade de São Paulo. E cuja família
materna, de origem polonesa, se desenvolveu no Oeste do Paraná, tendo,
igualmente, migrado para a Cidade de São Paulo. E ele carece de
desenvolver-se a partir dos dois conjuntos de influências culturais,
tendo ainda, e em especial, de constituir-se como um efetivo ser cultural
cosmopolitamente paulistano.
Ou
uma cliente de origem íbero-espanhola, filha de um pai artesão e de mãe
doméstica, que se desenvolve em algum lugar da Província, e que migra
para a Cidade de Buenos Aires, em um certo momento de sua vida, e que
carece de preservar a sua cultura original, ao mesmo tempo em que tem que
se diferenciar desta, para constituir-se como ser cultural urbano da metrópole.
Ou
um jovem, filho de pais de origem judaica polonesa, que emigraram, para o
Brasil e que se fixaram na Cidade de São Paulo, e que carece de se
desenvolver preservando elementos que lhe são caros de sua cultura
ancestral, ao mesmo tempo em que carece de desenvolver novos elementos
culturais, concernentes aos desafios e questões das relações sociais de
sua atualidade existencial no novo contexto sócio-cultural adotado por
sua família.
Como
São Paulo, e de formas diversas, as cidades do Nordeste do Brasil são
interessantes para a exemplificação e observação desses processos, na
medida em que uma significativa multiplicidade de influências e determinações
sócio culturais conflitivas constituem a sua cultura mais geral.
Determinando intensos processos de transformação sócio-cultural, com
importantes repercussões no processo de desenvolvimento das pessoas.
Temos
uma tumultuada, e disrrítimica, transição de uma formação sócio histórica
patrimonio-patriarcal, semi-feudal, rural, para uma formação que tende
para o mundo burguês de um capitalismo urbano. As duas formações têm
características não só diferentes, mas francamente antagônicas, freqüentemente.
Como,
por exemplo, o mencionado caráter comunitário
da formação patrimônio patriarcal, rural -- baseada na família
patriarcal --, do qual diferencia-se a cultura individualista
burguesa do capitalismo urbano.
Os
indivíduos, por exemplo, que constituem o intenso processo migratório do
meio rural para o meio urbano realizam um processo que está longe de ser
um processo de movimentação meramente geográfica, apenas. É, antes, um
processo abrupto de ruptura e de metamorfose cultural. Da cultura de um
ecossistema comunitário para a cultura de um ecossistema individualista. No primeiro, a pessoa tende a existir, dissolvida,
enquanto parte do grupo comunitário -- A
que família você pertence?. O outro representa a dissolução da
comunidade patriarcal, e a atomização da pessoa, com a imposição de
importantes transformações a estrutura e dinâmica familiar. Transformações
que vão tensionar o desenvolvimento da pessoa, que já não será mais um
ser comunitário, mas uma pessoa inevitavelmente destinada a
individuali-dade.
Nesta
perspectiva, e na perspectiva dos conflitos a ela relativos, temos
importantes fatores psico-sócio-culturais de constituição das pessoas
no Nordeste. Esta perspectiva, e a de seus conflitos, entretanto, este corte no plano da formação sócio histórica, está longe de ser o
único relevante. Temos importantes dimensões ligadas ao plano étnico,
ao plano religioso, ao plano regional, e outros.
Uma
mega-cidade como São Paulo, ou o Rio de Janeiro, possui, também,
evidentemente, importantes questões neste sentido, determinadas,
especificamente, tanto por trans-form-ações próprias da cultura do meio
urbano, como por determinações étnicas, econômicas, de cultura
regional, religiosas e outras. Na verdade, todas as cidades são o espaço
por excelência para a importante participação destes fatores, tensões
e conflitos no processo de constituição das pessoas.
Podemos
considerar, à guisa de ilustração, algumas expressões de processos
limites em certos casos de hibridismo cultural e racial. Lembro-me de um
Israelense falando, emocionado, em 1982, dos filhos de casamentos entre
Judeus e Árabes. Era o auge de uma das crises militares no Líbano. O que
o emocionava era a beleza e a força daquelas pessoas. Quando penso que
hoje, 1994, os Plestinos discutem se a legislação que vigorará na Faixa
de Gaza, devolvida aos Palestinos, será a legislação Árabe Egípcia,
anterior à ocupação israelense, ou se será a própria legislação do
Estado de Israel, imagino o que é que isto pode significar, como um
sintoma de relações culturais inter-étnicas, numa situação extrema.
Seus problemas, dificuldades e possibilidades, no processo de constituição
cultural das pessoas naquela região, a partir de formações étnicas tão
fortemente diferenciadas, conflitantes, e de alguma forma compartilhadas,
em particular por filhos de casamentos mistos.
Ao
longo da História da Humanidade, os Judeus têm vivenciado inúmeras
situações deste tipo de relação e conflito cultural, freqüentemente
com conotações extremamente dolorosas e difíceis, mas também ricas de
possibilidades. Ocorre-me sempre de pensar no “hibridismo” Judeu-Germânico
longamente constituído, ao longo das relações seculares entre esses
dois povos, e que, por um lado degenerou no bárbaro massacre dos Judeus,
mas que, por outro foi responsável por tão importantes produções
culturais. Na área da Psicologia e da Psicoterapia, ele foi fundamental.
Homens como Freud e muitos outros psicanalistas, Perls, Moreno, Buber,
Frankl, Binswanger, e outros. Einstein, na Física. Thomas Mann, na
Literatura. Adorno, Walter Benjamin, Horkeheimer, Fromm, na Sociologia.
Isto para ficar apenas em alguns exemplos.
Os
exemplos todos são necessariamente simplificados, esquemáticos e ideais,
diante da complexidade, dinamismo processual, especificidades e sutilezas
das realidades efetivamente vividas. Podem, entretanto, variar ad-infinitum. Em particular os
retirados da simples vivência cotidiana dos consultórios de
psicoterapia. Guardarão sempre a marca de fatores culturais, e das relações,
tensões e conflitos deles, na constituição das dificuldades atuais ou
estruturais do cliente.
De
modo que uma ecologia cultural,
em especial a perspectiva antropológica
e psicossocial de uma ecologia cultural -- dos ecossistemas sócio-culturais
urbanos, em particular -- pode ser fundamentalmente importante para psicólogos
e psicoterapeutas, e para a teoria e prática da psicologia e da
psicoterapia..
A
perspectiva antropológica e
psicossocial de uma ecologia cultural, que possa dedicar-se, ao
certamente problemático e difícil, desafio de entender como interagem
entre si os vários elementos constituintes, e as várias determinações
culturais distintos, no interior de um ecossistema cultural. Uma ecologia
cultural que possa situar-se e desdobrar-se numa perspectiva
psicossocial, e que possa compreender a constituição da subjetividade da
pessoa, a partir da particularização da multiplicidade de influências,
tensões e conflitos macrossociais dos vários elementos e determinações
culturais de sua atualidade existencial. Em particular de suas relações.
Uma ecologia cultural que possa entender as especificidades e a dinâmica
da psicoterapia, de seus agentes, processos e resultados neste contexto
multicultural. Uma tal ecologia
cultural, pode ser fundamentalmente importante para a elucidação dos
processos de constituição da pessoa, e, em particular, para a elucidação
da natureza e da constituição como tais do cliente e do psicoterapeuta,
dos processos e resultados da psicoterapia. Auxiliando, de um modo
decisivo, no processo de recontextualização conceitual e metodológica
deles, e, em particular da vivência de seu desempenho.
Na
perspectiva de uma ecologia cultural, podemos entender a psicoterapia como
uma instituição especializada em abrigar o desenvolvimento e a vivência
de processos específicos de relações entre o que chamamos de terapeutas
e clientes. Processos de relação que potencializem as capacidades
culturativas e culturogênicas destes. No sentido de seus
processos de auto-constituição e reconstituição, como produtores
culturais efetivos, a partir de suas heranças sócio culturais,
dos poderes, e das impotências, viabilidades e inviabili-dades,
decorrentes dos conflitos e tensões entre os vários componentes dessa
articulação de heranças.
Aparentemente,
quanto mais complexo e dinâmico é um ecossistema sócio-cultural, quanto
mais intensos e diversificados são os processo de suas mudanças e trans-form-ações
sócio-culturais, maior a carência sócio-cultural da psicoterapia. E
mais intenso, e freqüente, é o processo de constituição de clientes
de psicoterapia, e dos chamados psicoterapeutas.
Uma vez que maiores são as tensões, conflitos e dificuldades vivenciados
pelas pessoas, no seu processo de desenvolvimento e de constituição como
produtos e produtoras culturais.
6.
Conclusão
A
necessidade de uma redefinição e de uma recontextualização da chamada
psicoterapia, de seus agentes, processos e resultados, é cada vez mais
evidente, e interessante. A importância dos fatores culturais é cada vez
mais óbvia. Compete-nos considerar a especificidade destes fatores, e os
requisitos conceituais, metodológicos, éticos, filosóficos e antropológicos
necessários. Para que possamos considerá-los adequadamente. Manter o
status-quo conceitual da psicoterapia é cada vez mais insustentável.
Não
propomos aqui nenhum modelo de psicoterapia. Propomos fundamentalmente uma
perspectiva de leitura e de compreensão do que efetiva-mente ocorre já
como processos de psicoterapia, e resultados psicoterapêu-ticos, na
interação entre os chamados
terapeutas e clientes.
Acredito
ser esta redefinição e recontextualização da psicoterapia uma demanda
do seu tempo, e do tempo de nosso desenvolvimento cultural. Não fazê-lo
é que me parece que pode implicar em processos improdutivos e negativos.
Afinal, “Se não agora, quando? Se não nós, quem?”
[1] FONSECA, A.H.L.,Introdução, in GRUPO, FUGACIDADE, RITMO E FORMA. Processo de Grupo e Facilitação na Psicologia Humanista, São Paulo, Summus Editorial, 1988.
[2] KHUN, T.S., A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS, São Paulo, Perspectiva, 1975.
[3]BERGER, Peter, LUCKMANN, Thomas, CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE, Rio, Vozes, 1975.
[4] Tal como o definem PERLS, F, GOODMANN, P. E HEFFERLINE, R. em GESTALTHERAPY, EXCITMENT AND GROWTH IN HUMAN PERSONALITY. NY, Penguin, 1969.