DE OAXTEPEC AO NORDESTE DA AMÉRICA DO SUL

O Encontro Latino Americano da ACP

 

Afonso H Lisboa da Fonseca

 

 

 

 

Indice Textos ACP

 

 


 

 

Laboratório Experimental de Psicologia Fenomenológico Existencial

Rua Alfredo Oiticica, 106. Farol. 57050-010 Maceió AL. Brasil.

Fone: 82 2218175/3770054.

[email protected]    site: http://www.geocities.com/eksistencia/afonso.html

 

Maceió

1994


 


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Textos ACP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Todos que acreditaram

e acreditam, quiseram e querem

um Encontro Latino Americano.

 


 


 

 

 

 

 

1. Origens

2. Sobre o Encontro Imediato. O Espaço e o Tempo das Aprendizagens Sutis.

3. Efeitos à Distância

4. A Questão Cultural e a Questão Filosófica, Epistemológica e Teórico-Metodológica.

4.1. A Questão Cultural

4.2. O Conceito de Pessoa

4.3. Fundamentos Fenomenológico-Existenciais e Distorção Pragmático-Empirista

4.4. ACP, Existencialismo e Perspectiva Religiosa.

5. De Carências, Barreiras e Limites.

6. Conclusão

 


 


 

 

 

 

 

DE OAXTEPEC AO NORDESTE DA AMÈRICA DO SUL

O Encontro Latino Americano da ACP

 

 

1. ORIGENS

 

Era julho de 1983, em Oaxtepec, cercanias de Cuernavaca, no México. Realizava-se o Iº FORUM INTERNACIONAL DA ACP, sob o patrocínio da Universidad Ibero-Americana e do Center for the Studies of the Person. Pela primeira vez, reunia-se, ainda sob a influência pessoal, e na presença, de Rogers, a variada "fauna" da ACP num encontro internacional abrangente.

"Indóceis", os Latino Americanos polemizavam, problematizavam, incomformavam-se com o marasmo dos debates, com as incongruências epistemológicas e filosóficas, com o descaso  para com as questões culturais -- tão típico da ACP --, para com as discrepâncias entre as duras realidades Latino Americanas e as posturas rigidamente 'otimistas' da ACP e da Psicologia Humanista. Incomformavam-se com a apropriação pobre, e distorsivamente empirista, da fenomenologia e do existencialismo, tão frequentemente operada pela abordagem.

Um grupo de Latino Americanos, psicólogos, pedagogos, professores universitários, sociólogos, pontuavam os debates com as 'questões ausentes', pertinentes a estes temas.

 Lembro de minha admiração e entusiasmo pelo preparo e compromisso de tantos daqueles colegas com a realidade humana da América Latina, alguns deles crescidos no seio das dolorosas realidades da América Central.

Rapidamente surgiu a idéia da criação de um Grupo Latino naquele Forum. O grupo deveria reunir-se todas as manhãs.

Houveram discordâncias, inclusive entre Latino Americanos presentes ao encontro. "Somos todos, neste Forum e na ACP, como uma grande família, e divisões não fazem sentido...".Era este o tom dos argumentos em contrário.

"O Grupo seria fechado a não Latino-Americanos?" "Não! Mas não abriríamos mão de falar em portunhol. E se houvesse tradução gostaríamos que ela não atrapalhasse o andamento natural do grupo."...

E o Grupo reuniu-se a cada manhã.

Para mim, foram momentos especiais de "alegria Latino Americana". Em particular, por compartilhá-los com tantos colegas Latino Americanos -- e alguns outros não Latino Americanos, mas que por aqui viviam, ou outros que apenas se interessavam pela América Latina -- de grande lucidez, preparo, vivência, e compromisso ético de afrontamento da desumanidade e da desumanização.

 Não posso lembrar de todos. Mas, mais de dez anos depois, ainda me são claras as imagens e os jeitos de Juan Lafarga, Manuel Artilles, Alberto Segrera, Ricardo Blanco, Salvador Moreno, Eric Troncoso, Juan, Pillar Gomez, Jaime Doxsey, Mauro Amatuzzi... e vários outros.

Discutimos muito sobre o que nos pareciam ser as deficiências e problemas da ACP numa perspectiva Latino Americana. As deficiências do conceito de "Pessoa" da ACP, em particular a sua desconsideração para com a dimensão sócio-cultural da "pessoa"; as incongruências epistemológicas, e a apropriação pobre e empiristicamente distorcida, efetivada pela abordagem, de suas bases fenomenológico-existenciais. Discutíamos a necessidade de nós outros, Latino Americanos, nos encontrarmos. Alguém comentou que somos como um "espelho partido". Precisamos nos encontrar, juntar os pedaços, para que possamos ver a nossa cara.

Nesses encontros do Grupo Latino do Forum Internacional da ACP de Oaxtepec, decidimos criar o ENCONTRO LATINO AMERICANO DA ACP.

Foi assim que surgiu o encontro de Petrópolis, o primeiro Latino da ACP. Depois, vieram os de Buenos Aires, Sapucaí Mirim(Brasil), La Pedrera(Uruguai), Mar del Plata(Argentina) e o do Lago de Titicaca(Bolívia). Organizamos agora o VIIº Encontro no Nordeste do Brasil, Nordeste da América do Sul.

Desde o seu início, os encontros têm sido encontros residenciais intensivos. Uma equipe local responsabiliza-se pelo provimento da infra-estrutura básica do encontro e pelos esquemas de mobilização dos participantes e de comunicação. A estrutura e a temática propriamente ditas do encontro são definidas pelo próprio grupo dos participantes, a partir de suas reuniões iniciais.


 

 

2. SOBRE O ENCONTRO IMEDIATO -- O ESPAÇO E O TEMPO DAS APRENDIZAGENS SUTIS

 

Um crescente número de diferentes tipos de Latino Americanos tem participado dos encontros. Brasileiros, Argentinos, Uruguaios, Mexicanos, Bolivianos, Peruanos, Equatorianos. Não temos tido encontros dos quais tenham participado representantes de todos os países da América Latina -- mesmo porque, em muitos deles, a abordagem não suficientemente desenvolvida --, mas a diversidade tende a crescer.

Os encontros têm se desenvolvido sempre como encontros teórico vivenciais, voltados para o intercâmbio de experiências individuais e subgupais, de cunho pessoal ou teóricas, relativas à prática da abordagem ou a temas correlatos.

Cada participante pode propor livremente os temas, ou atividades sobre temas, relevantes para a ACP, quer sejam temas teóricos, de fundamentação filosófica, relato de experiências de trabalho, idéias, estudos, vivências, etc. Terá o público compatível com o interêsse que sua proposta mobilizar.

Os encontros são sempre organizados segundo o modelo das    Comunidades de Aprendizagem da ACP. Como dissémos, uma comissão local de organização responsabiliza-se pelo provimento da infra-estrtura básica do encontro, e pelo sistema comunicação e de mobilização dos participantes.

 A partir da primeira reunião, o grupo de participantes decide como organizar a estrutura, temática e programação do encontro.

O "Grupão dos Participantes" funciona diariamente, em geral, com funções adiministrativas, e com funções especificamente grupais, no âmbito das atividades específicas do encontro. Os outros horários são reservados para a apresentação de trabalhos, palestras, debates, grupos de interêsse, eventualmente grupos vivenciais, etc.

As apresentações frequentemente motivam debates bastante ricos e interessantes. Um número significativo de trabalhos teóricos têm sido apresentados(*) ,discurssões têm sido propostas, da mesma forma que têm sido apresentadas mesas redondas informais, palestras, demonstrações, etc.

Estas atividades têm sido responsáveis por uma discurssão bastante interessante dos fundamentos filosóficos, da história, teoria, método, processo de formação e desdobramentos da abordagem.

As discurssões são, de modo animadoramente frequente, discurssões muito ricas e produtivas. Em particular, porque a articulação entre experiência pessoal -- de vida e profissional -- e conhecimento teórico pode efetivar-se de um modo bastante livre, múltiplo, sintonizado e em consonância com as necessidades dos participantes em função da informalidade e da estrutura organicamente emergente do encontro. O caráter frequentemente bastante pessoal e informal das discurssões, em especial, permite uma ampla liberdade, e um interessante processo de aprofundamento, personalizado e coletivamente compartilhado, dos temas, assim como um tratamento dos mesmos em níveis bastante diferenciados de sutileza e de interêsse, compatíveis com suas especificidades e nuances e com o interêsse pessoal e coletivo a eles relativos.

As discurssões, em geral, envolvem tanto a formação e interêsses teóricos e pessoais dos participantes, assim como os vários níveis de seus conhecimentos pessoais, culturais, sua experiência profissional e de vida e, em particular, os seus processos atualmente ativos de aprendizagem pessoal e profissional.

De modo que o espaço e o tempo próprios ao encontro têm se tornado um rico espaço e tempo de intercâmbio e de aprendizagem pessoal e profissional, teórico e vivencial. Na verdade, um intenso "laboratório" de aprendizagem individual e coletiva, a nível pessoal e profissional, teórico e vivencial, cultural e intercultural.

 Neste laboratório, portanto, não é desprezível o interessante processo especificamente de intercâmbio, de aprendizagem e de produção cultural e intercultural, entre os participantes, e sub-grupos de participantes pertencentes às diversas culturas e nacionalidades presentes nos encontros.

Como em geral se dá nas comunidades de aprendizagem centradas na pessoa, estes processos de aprendizagem e de intercâmbio não se limitam apenas aos momentos e reuniões "formais" do grupo. Como são encontros residenciais, e os participantes estão intensivamente juntos, compartilhando local de hospedagem, refeições, espaços de lazer, etc., os momentos "informais" do encontro configuram-se como momentos nos quais é possível o desenvolvimento de processos particularmente significativos de intercâmbio e de aprendizagem, seja como prolongamento dos processos desenvolvidos nas atividades formais, seja como processos originais, pessoais, interpessoais, ou subgrupais, de valor pessoal e/ou profissional.


 

 

3. EFEITOS À DISTÂNCIA

 

Podemos dizer, acredito, que o Encontro Latino tem tido significativas e interessantes influências nas comunidades locais da ACP dos países de seus participantes, e no sistema geral da comunidade da ACP na América Latina.

Estas influências repercutem principalmente ao nível da atualização e do desenvolvimento profissional, no âmbito dos grupos locais, na formação de novos profissionais, na organização institucional e na dinâmica da apropriação e da produção teóricas.

Em cada uma destas esferas, a influência do encontro e da atividade cotidiana dos participantes por ele influenciados, junto com outras influências, tem permitido uma dinamização dos processos de apropriação e de desenvolvimento dos fundamentos teóricos, filosóficos e práticos da abordagem, por parte de muitos dos grupos locais, inclusive de profissionais, estudantes e sub grupos que não estiveram presentes nos encontros.

Os resultados das discurssões teórico-filosóficas e metodológicas empreendidas nos encontros tem contaminado os grupos locais, potencializando o desenvolvimento de seus debate. Isto tem permitido uma dinamização dos processos de atualização de profissionais, assim como a dinamização e a criação de novos parâmetros e conteúdos para os programas de iniciação e de formação de novos profissionais.

 

Por outro lado, o encontro tem tido, também, uma significativa e saudável influência ao nível da organização institucional da abordagem no âmbito dos grupos locais, revitalizando e dinamizando padrões característicos da abordagem de organização institucional.

Sabemos que a questão institucional é, desde o início, uma questão muito relevante. E que tem recebido um tratamento particular no âmbito da ACP. Tipicamente, Rogers recusou-se, desde o início, às formas esclerosadas de organização institucional, tais como associações, comitês, comissões, etc. Sabia ele que o processo de desenvolvimento da ACP poderia desdobrar-se de um modo muito mais amplo e rico do que o que é posível nos estreitos limites burocráticos dessas instituições. Sobretudo, quis ele evitar constituir, ou que alguém se constituísse, como representante ou "proprietário" da ACP. Isto porque tinha a consciência de que estes processos tradicionais de institucionalização sufocariam, em lutas de "poder burocrático", as possibilidades de desenvolvimento da abordagem. Queria que o processo institucional da abordagem se desdobrasse de um modo criativo e descentralizado, evitando o seu ecistamento e o seu esclerosamento em querelas de poder burocrático. Optou por um processo descentralizado e espontâneo de organização institucional, que incluísse mais que excluísse, as pessoas interessadas em se desenvolver e em desenvolver a abordagem.

Esta opção comporta distorções e improdutividades, e pode, e deve, ser historicamente corrigida, criticada, aperfeiçoada, para que a comunidade de interessados na abordagem possa desenvolver-se de acordo com as nossas potencialidades.

A intuição de Rogers, entretanto, parece interessante, válida e criativa em sua essência, ainda em nossos dias. A intuição de evitar as improdutividades da burocratização e das lutas por poder burocrático, a intuição de evitar o peso estéril da constituição de uma casta de mandarins, ou de proprietários da abordagem, ou de um orgão oficial da mesma. É interessante observar que nem mesmo o Centro do qual Rogers participava com seus colaboradores -- O Center for the Studies of the Person, de La Jolla, Califórnia -- constituiu-se, em momento algum, como uma instituição oficial ou representativa da abordagem.

O Encontro Latino,seguindo o modelo das comunidades de aprendizagem, desenvolvido durante os anos setenta, modelo que já havia sido adotado pelo Forum Internacional, desenvolveu-se dentro deste espírito da ACP. Ou seja, dentro desta particular idéia de institucionalização da abordagem proposta por Rogers e integrada na cultura da ACP.

A partir deste modelo institucional, o Encontro Latino tem seconstituído como uma importante refrência e, certamente, como um dos mais importantes propulsores para o desenvolvimento e recuperação da abordagem na região, assim como uma referência internacional da ACP.

É um núcleo institucional leve, organizado descentralizadamente e minimamente institucionalizado.

 Nem por isto tem deixado de desenvolver a sua eficácia, como observamos acima. Cada grupo regional, como observamos anteriormente, também, é responsável pela organização da infra estrutura de um dos encontros, incluindo a comunicação com os participantes e a mobilização dos mesmos, anteriormente ao encontro. A estrutura, programação e temática do encontro em si são discutidas e definidas pelo conjunto dos participantes, a partir de suas primeiras reuniões.

De modo que, seguindo as características de institucionalização da abordagem, o encontro tem se desenvolvido de uma forma descentralizada e bastante eficiente, para os seus propósitos, constituindo-se como um ponto de encontro efetivo para as comunidades Latino-Americanas da ACP, no qual esta abordagem pode ser apropriada, avaliada, reciclada e desenvolvida.

Um critério bastante interessante para avaliar o valor do encontro nos pode ser dada pela constatação de que muitos dos temas importantes discutidos no Forum Internacional da ACP, em Terschelling, na Holanda, em 1992, são temas que de há muito tempo vêem sendo discutidos nos "Encontros Latinos". Temas, por exemplo, como a questão da dimensão social do conceito de "pessoa", a questão da recuperação da fundamentação filosófica fenomenológico-existencial da abordagem, que só agora começam a desenvolver-se como temáticas do Forum Internacional, são temas que são debatidos desde o primeiro Encontro Latino, em Petrópolis(Brasil), em 1983. Na verdade, são temas que surgiram mesmo, como problematizações, no Grupo Latino do Forum de Oaxtepec.

De modo que os Latino-Americanos que participaram do Forum de Terschelling podiam ter a sensação, e frequentemente comentar, que "aqueles temas nós já discutíamos, com progressos, há dez anos.”

 Na apresentação de Márcia Tassanari sobre o sumário dos trabalhos teóricos apresentados nos vários Encontros Latinos, pudemos perceber, e discutir, isto com clareza.

Prece interessante levar em consideração um outro aspecto, no desenvolvimento do encontro e na produção de seus efeitos: Não tivemos no desenvolvimento da ACP na América Latina uma influência constante da presença pessoal de Rogers, ainda que não possamos deixar de reconhecer o seu papel  não só na constituiçãoa  e no desenvolvimento da abordagem, como na chegada e desenvolvimento desta na América Latina. Mas a presença física de Rogers entre nós foi rara e fugaz. Rogers esteve entre nós -- no caso brasileiro -- , por alguns dias, por duas vezes, na década de setenta, e, por uma vez, nos anos oitenta, tendo influenciado o desenvolvimento da abordagem entre nós mais por seus livros do que por sua presença física.

 Este não foi, certamente, o caso com relação à Europa e aos Estados Unidos. Seu lastimável desaparecimento teve, por isto, um efeito desorganizador muito menos intenso entre nós, e muito mais intenso ao nível das comunidades da Europa e dos EUA, que só agora parecem começar a dar mostras de recuperação da perplexidade, da paralisia, das distorções e do trauma, enfim, que este desaparecimento acarretou.

Na América Latina, a ACP pôde ter algumas tendências de desenvolvimento autônomo com relação a Rogers, confrontando e buscando alternativas para suas indigências autônomamente, e tendo mais espaços para a crítica e para uma reavaliação de seus fundamentos, com relação a suas necessidades concretas. O Encontro Latino tem sido um momento maior deste processo, constituindo-se como um núcleo de sustentação e de desenvolvimento dele. Uma referência para o desdobramento do processo teórico e de desenvolvimento institucional da ACP entre nós.

De modo que podemos constatar uma desorganização relativamente muito menor, na ACP na América Latina, em comparação com o que ocorreu e ocorre na Europa e nos EUA, em função das várias implicações decorrentes da morte de Rogers. Ou seja, nas comunidades Latino Americanas da ACP, este truma foi minorado. E minorado pelos dois fatores conjugados: (1) o de, para bem ou para mal, termos dependido menos da presença física pessoal de Rogers para o nosso desenvolvimento, ou 'sub'. E (2) da emergência e desenvolvimento do Encontro Latino, como núcleo e processo autônomo de referência e de produção teórica e institucional. O Encontro Latino foi, acredito, um fator fundamental para que as comunidades Latino Americanas da ACP pudessem superar criativamente o trauma da morte de Rogers, e situarem-se, até, numa certa vanguarda do desenvolvimento da ACP.

Um outro efeito à distância, bastante palpável, do Encontro Latino diz respeito ao seu efeito estimulador do desenvolvimento de encontros regionais da ACP. Desta forma, desenvolveram-se encontros como o "Encontro Nordestino da ACP", como o "Encontro Argentino", o "Encontro Uruguaio", os "Encontros Paulistas" e o projeto, em andamento, do "Encontro Brasileiro" da ACP, todos significativamente influenciados pelo Encontro Latino.

Como observamos, também os programas de iniciação e de desenvolvimento de profissionais, ao nível dos grupos locais têm sido bastante influenciados e dinamizados, tanto em termos quantitativos como em termos qualitativos. Esta é uma das mais importantes dimensões das influências do Encontro Latino, ao nível dos grupos locais.


 

4. A QUESTÃO CULTURAL E A QUESTÃO FILOSÓFICA, EPISTEMOLÓGICA E TEÓRICO-METODOLÓGICA

 

 

 

 

Quero a soprar por minha casa o sopro de todas
as culturas. Mas recuso-me a ser avassalado
por qualquer uma delas,
ou a viver em casa alheia, como um estrangeiro,
um pedinte ou um escravo.

M. Gandhi

 

 

4.1. A Questão Cultural

Nunca será muito dizer que o Encontro Latino surgiu de necessidade especificamente culturais, que brotou da busca de alternativas a questões culturais.

Sempre nos identificamos com a ACP como abordagem de psicoterapia, de psicologia, pedagogia, etc., mas sempre esteve claro que não podíamos prescindir da consideração e do respeito por dimensões culturais nossas que não eram adequadamente contempladas no âmbito da comunidade internacional da abordagem, ou no âmbito de nossa própria prática e teorização. Reinvidicávamos uma maior atenção a essas dimensões, e o direito de dar-lhes o lugar devido em nossa prática e em nosso processo de produção teórica e cultural.

Por outro lado, como observamos, não nos satisfazia o tipo de apropriação que era feito das raízes filosóficas, fenomenológico existenciais, da abordagem através da teorização e prática Norte Americanas. Não nos satisfazia, em particular, a sua grande distorção pragmático-empirista. Ainda que reconheçamos um importante papel produtivo à perspectiva pragmática na constituição de uma abordagem fenomenológico-existencial de psicoterapia, de pedagogia e das relações humanas.

Reinvidicávamos o direito e a oportunidade para uma apropriação da ACP, da fenomenologia e do existencialismo, como raízes de método em psicologia, psicoterapia, pedagogia, etc., a partir de uma consideração por nossa própria perspectiva sócio-cultural e histórica, e a partir de uma apropriação mais efetiva de suas fontes originárias.

 E, a bem, da verdade, somente nós mesmos poderíamos fazer isto.

O que não considerávamos, certamente, naquele tempo, acredito, era toda a complexidade e peso do significado da questão cultural para a psicoterapia, para a pedagogia, etc, e para o próprio desenvolvimento, e prática da abordagem.

Seis encontros após, aguça-se, acredito, a nossa consciência acerca dessas questões. A partir, num primeiro nível, da consciência e da prática de nossas diferenças.

Num clima saudável e de boa vontade, frequentemente alegre, temos praticado as nossas identidades e diferenças como Latino Americanos. Temos discutido e explorado, ao mesmo tempo, quem somos nós, em prática e em teoria, com relação aos Anglo-Norte Americanos, e com relação aos Europeus em geral. Sem preconceito nem etnocentrismos, com espírito crítico, mas, igualmente, com espírito desarmado e boa vontade, temos explorado identidades e diferenças, privilegiando a multiplicidade, e temos tentado evitar a alienação, a dominação, a colonização.

Por outro lado, cumpre-nos fazer justiça e reconhecer as contribuições por eles efetuadas no sentido do desenvolvimento de uma psicologia e de uma psicoterapia fenomenológico existencial, em particular a mediação Norte Americana , na constituição e desenvolvimento da ACP.

Estes pontos são extremamente importantes para um exercício sincero da ACP entre nós, para o processo de nossa atualização profissional e para a iniciação e desenvolvimento de novos profissionais.

À medida em que nos aprofundamos nestas questões, todavia, à medida em que nos aprofundamos nos meandros da questão cultural da ACP, da psicologia fenomenológico-existencial, e de uma arqueologia dos fundamentos da abordagem, entendemos, mais e mais, a sua complexidade e importância, tanto do ponto de vista filosófico, como do ponto de vista teórico, prático, e da produção cultural propriamente dita.

As diferenças culturais dentro de um mesmo país, e de um país para o outro, as relações diferenciadas para com a Cultura Anglo-Norte Americana, a raiz Ibérica, a relação com as Culturas Orientais, com as produções das Culturas da Europa Francesa e Germânica, em oposição à Europa Anglo-Saxã. As vertentes e raízes arcaicas da Cultura e da Civilização ditas Ocidentais: a Tradição Judaico-Cristã e a Tradição Judaica, as raízes Gregas -- Socrática e Pré-Socrática --, a raiz Latina, as influências Árabes. E, não menos importantes, a Cultura Ameríndia e a Cultura Negra, massacradas, mas profundamente determinantes do que somos enqunto culturas mestiças e de nossas possibilidades.

Todas estas influências carecem de ser consideradas quando encaramos a ACP de nossa perspectiva, quando encaramos a psicologia e a psicoterapia, e a nossa prática no âmbito da produção cultural.

Uma aprendizagem que parece fundamental é a de que damo-nos conta de que as questões epistemológicas são indissociáveis das questões culturais.

Por exemplo, uma epistemologia teórica, socrática, ou um pensamento trágico, pré-socrático, Nietzscheano? Pragmatismo empirista Anglo-Norte Americano, ou existencialismo fenomenológico Europeu, Judaico-Franco-Alemão? ,Atomismo, monoteísmo Judaico-Cristão, ou pluralismo, politeísmo Grego, pré-socrático e pagão (e não só Grego, Chinês, Hindu e Africano, Ameríndio, por exemplo). Racionalidade teórica, ou racionalidade trágica, ou racionalidade Zen?...

Todas estas questões se nos apresentam quando rompemos a rígida "couraça pragmático-.empirista" que herdamos junto com as importantes contribuições das Culturas Anglo-Norte Americanas.


 

 

4.2. O Conceito de "Pessoa"

Ao longo dos Encontros Latinos, temos discutido e criticado o conceito de "pessoa" da abordagem. A omissão, nesta conceituação, de uma adequada, consideração -- teórica e prática -- para com a dimensão sócio-cultural da pessoa.

Temos tentado discutir, entender melhor e considerar mais adequadamente esta dimensão sócio-cultural da pessoa, e a sua importância para os pressupostos e processos da psicoterapia, para o trabalho psicológico, para a educação, etc.

Passamos a considerar e a valorizar a noção de "transindividualidade" da pessoa, dos processos subjetivos e intersubjetivos que, embora genuinamente pertinentes à pessoa, são compartilhados pelos membros das culturas ou sub-culturas que ela compartilha.

Acredito que temos aprofundado por aí uma linha de reflexão que busca hoje centrar-se não só nas relações que se desenvolvem entre terapeuta e cliente, entre facilitador e grupo, entre educador e educando, como seres individuais, mas também nas relações que se desenvolvem entre eles como seres "transindividuais", ou seja, como seres intrínsecamente pertinentes a sujeitos coletivos e históricos específicos.

A falta de consideração por esta dimensão da pessoa, tanto da pessoa do terapeuta como da pessoa do cliente, tanto da pessoa do facilitador como das pessoas participantes de um grupo, da pessoa do educador e da pessoa do educando, é uma lacuna gritante em certos enfoque da ACP. Enfoques que prescindem de uma consideração pelas questões culturais da relação entre a pessoa do profissional e a pessoa do cliente, sob o pressuposto de que apenas a manifestação das "condições terapêuticas" ou de "facilitação", por parte do profissional, seria suficiente. Não é!... E a própria manifestação destas condições está intrinsecamente detrminada por fatores culturais. Esta lacuna não pode sustentar-se, na medida em que, revela-se a obviedade de seu absurdo no âmbito de atividades especificamente interpessoais, entre seres necessariamente culturais.

De modo que a "pessoa" da ACP, cliente e terapeuta, e a sua relação carecem de ser considerados a partir de suas determinações culturais.


 

4.3. Fundamentos Fenomenológico-Existenciais e Distorção Pragmático-Empirista.

Por outro lado, temos trabalhado no sentido de uma crítica e resgate dos fundamentos fenomenológico-existenciais da abordagem.

Acredito que a atitude pragmática Norte Americana teve um papel fundamental na constituição, a partir das filosofias da fenomenologia e do existencialismo, de um método fenomenológico-existencial de psicoterapia, de psicologia, pedagogia, etc. Rogers, junto com Perls, Moreno, Biswanger, Boss, Sartre, Laing, Cooper, e alguns outros, merecem um reconhecimento profundo e definitivo por este trabalho, efetivamente histórico, no campo das abordagens das relações humanas, em particular da psicoterapia, da psicologia, da facilitação de grupos, da educação, etc.

No entanto, esta curiosa, sutil, fecunda e surpreendente articulação. entre a fenomenologia e o pragmatismo é desequilibrada, a partir de um certo momento, e vai perdendo o seu poder, à medida em que a abordagem vai se convertendo, se distorcendo e se intoxicando, cada vez mais, numa rígida atitude pragmático-empirista, atitude típica das culturas Anglo-Norte Americanas.

Carecemos, acredito, de uma refrência básica para resgatarmos a perspectiva híbrida que inspira fundamentalmente a abordagem. A referência de que: a utilização e a interpretação pragmática de um método fenomenológico-existencial de psicoterapia e de psicologia não transformam o método fenomenológico-existencial em um método pragmático, ou pragmático-empirista de psicoterapia e de psicologia.

Esta referência parece ter sido, de um modo geral, perdida por muito da ACP Anglo-Norte Americana. E esta perda faz com que a abordagem vá se tornando cada vez mais empirista. Por vezes tóxica, vulgar e doentiamente empirista, perdendo as suas raízes fenomenológico-existenciais, e perdendo em densidade e conteúdo.

Evidentemente que não se trata de desconhecer ou de minimizar a contribuição do Pragmatismo no desenvolvimento da psicologia e da psicoterapia fenomenológico-existenciais. Na verdade acredito, que carecemos de nos dedicar a entender melhor e mais aprofundadamente este papel do Pragmatismo, reconhecendo-lhe o seu lugar e importância, e inclusive a possibilidade de novos desenvolvimentos a partir da contribuição.de sua perspectiva. Mas não parece ser interessante, e, na verdade, parece ser bastante danosa, a distorção em um método pragmático-empirista de um método fenomenológico existencial de psicoterapia e de psicologia

Na verdade, não podemos estar desatentos ao fato de que, no limite, esta distorção transforma a abordagem fenomenológico-existencial num astucioso dispositivo comportamentalista de manipulação, de dominação e de produção da subjetividade alheia.

Considerando estas reais funções destas distorções e as formas artificialmente adocicadas e amistosas de seus discursos e manifestações estereotipadas, não é difícil entender que estamos diante de uma curiosa, e preocupante, forma de "totalitarismo doce".

Relativizando a ênfase pragmático-empirista que herdamos de algumas perspectivas Norte-Americanas da ACP, buscamos empreender, no Encontro Latino, um resgate e uma revitalização das bases fenomenológico-existenciais da ACP. Hoje, há, muito mais generalizada em nossa comunidade, uma compreensão mais adequada da idéia da fenomenologia. Uma compreensão mais adequada das perspectivas existencialistas, em particular dos existencialismos originais, e não dos apressados "existencialismos Norte Americanos”. Que, frequentemente, pretendem negar ou substituir os 'originais', sem, ao menos, reconhecer o seu débito para com eles.

Há, hoje em dia, nas Comunidades Latino Americanas da ACP, uma ativa exploração dos vários existencialismos, uma intensa exploração da "Filosofia da Relação" de M.Buber, da "Filosofia da Vida" de F.Nietzsche, dos existencialismos de Heidegger, de Kierkegaard, M.Ponty e de outros. Os filósofos, para escândalo dos empiristas, -- sectariamente ancorados em sua própria filosofia para refutarem a importância de qualquer filosofia ou atividade filosófica --, os filósofos, vão se tornando cada vez mais nossos companheiros de trabalho e de aprendizagem. E mesmo de profissão, na medida em que pudemos reconhecer que nosso trabalho é eminentemente do âmbito da prática de uma Antropologia filosófica.

A consideração pela fundamentação filosófica passa a ser uma preocupação dos programas de treinamento entre nós. Vários grupos contratam filósofos como consultores, como asessores, ou como professores, para cursos de filosofia fenomenológica e existencialista, para profissionais já formados e em formação.


 

4.4. ACP, Existencialismo e Perspectiva Religiosa.

Uma questão, e situação, muito relevantes para o desenvolvimento da ACP e da psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial, e que têm se apresentado e começam a ser discutidas no âmbito do Encontro Latino, à medida em que se desenvolve uma arquelogia dos fundamentos da abordagem, é a questão do confronto, e das distorções, do confronto resultantes, entre as suas raízes (fenomenológico) existencialistas e a orientação socrático-judaico-cristã, religiosa, dominante na cultura dita ocidental e no clima cultural que dá origem à ACP.

As raízes existencialistas que terminam por determinar o desenvolvimento de uma psicoterapia fenomenológico-existencial, e, no caso, a ACP, partem de uma postura francamente ateísta, não teísta ou “politeísta”. Mais que isto, criticam e abandonam a 'inversão socrática' de privilegiamento e de valorização do espiritual, do abstrato, do teórico, e de uma desvalorização do corpo, dos sentidos e do vivido, sob o pressuposto de uma inferioridade dessas dimensões, que seriam pertinentes à abominável "animalidade humana". Assumem, por outro lado, estas raízes existencialistas, uma concepção da existência como eminentemente 'inocente', como 'não culpada', e, em especial, uma postura radical de afirmação da existência, do vivido, da vida em toda a sua plenitude e multiplicidade de dimensões.

Ora, esta postura é exatamente a postura oposta à postura do "ideal ascético" -- que valoriza sempre uma vida além e após o vivido, e a vida. Postura esta assumida pelas tendências predominantes da chamada Cultura Ocidental, e, em particular, pela tradição religiosa Socrático-Judaico-Cristã, que assume uma perspectiva socrática, de negação do corpo, do vivido e dos sentidos, uma postura de negação da vida, de pressuposição de uma culpa intrínseca da existência, que careceria de ser portanto redimida...

A vida, o vivido, os sentidos são desqualificados em função do espiritual, do abstrato, do mundo e da vida além da vida.Ao presente, à atualidade vivida é negado um valor radical, em função do valor de uma 'outra vida' de um 'outro mundo', após esta vida e este mundo efetivamente vividos.

À medida em que, a partir de suas bases fenomenológico existenciais, a abordagem começa a desenvolver-se no âmbito de sociedades e de culturas fortemente Socrático-Judaico-Cristãs, religiosas, e mesmo de origem Puritanas, como a Cultura e a Sociedade Norte Americanas -- que, como tais, reagem aversivamente a estas posturas e perspectivas existencialistas, e mesmo à fenomenologia, em função de seu pragmático-empirismo básico --, instala-se, no próprio interior da abordagem, um conflito de raiz, que até hoje perdura.

Por um lado, como já vimos, este conflito, resolvido de um modo desequilibrado em termos da questão da fenomenologia, leva a uma "pragmático-empirização" distorsiva e abusiva das perspectivas e práticas da ACP. Leva, por outro lado, a uma "socrático-cristianização", do fundamento existencialista da abordagem, invertendo a reinversão que Nietzsche e o existencialismo operam na inversão que fizera Sócrates de uma perspectiva Pré-Socrática de valorização da vida, do corpo, dos sentidos e do vivido..

Deixando de lado o aspecto da "pragmático-empirização", que já mencionamos anteriormente, este processo socrático-cristianização da sua perspectiva, e de sua prática, leva a abordagem a perder a referência de uma postura radical e efetiva afirmação da vida. De uma efetiva postura de valorização e de afirmação do corpo, dos sentidos e do vivido. Leva à perda de uma postura 'politeísta' de valorização da multiplicidade da realidade, e da própria existência, do próprio vivido. A uma perda de uma postura de consideração para com a diferença e de valorização da diferença, da alteridade -- tão característica e fundamental na 'Filosofia da Relação' de M.Buber --, não obstante retóricos e  vazios discursos em contrário. Leva, enfim, à constituição da abordagem como um terreno fértil para a normalidade do niilismo, da manipulação e da dominação, tão comuns e disseminados em nossas culturas.

Colocações deste tipo podem até supreender, e suscitar a indignação de alguns colegas, que não hesitarão em contradizê-las, em defesa da 'abordagem'. São interessantes, e extremamente necessários, o diálogo e o debate. Comecemos por observar que há uma distância muito grande entre retórica e prática efetiva, entre a retórica e a realidade.

A atitude religiosa na abordagem vai encontrar um fundamento nos vários Existencialismos Cristãos. Em particular no Existencialismo Cristão de Kierkegaard, citado inclusive por Rogers como um de seus possíveis inspiradores. Uma opção bastante problemática, parece, pois não saberíamos dizer o que teria a ver a abordagem centrada na pessoa com uma perspectiva filosófica que conclui pelo isolamento absoluto do indivíduo, e pela impossibilidade de sua comunicação com os outros que não seja através da mediação de Deus, e que entende a existência humana como condenada à angústia e ao desespero. Isto para não mencionar os seus paroxismos como encarnação da perspectiva do ideal ascético.

Esta questão do confronto entre o existencialismo e a perspectiva religiosa parece ser extremamente importante para a compreensão e prática da ACP e para os seus desdobramentos, depois de suas fases iniciais, em particular entre nós. Mais do que 'retórica centrada na pessoa', necessitamos aprofundar uma compreensão dos elementos conflitantes em questão, e interpretá-los e avaliá-los criativamente.

Temos começado a fazer isto no Encontro Latino e o debate tende a se desenvolver. Acredito que carecemos de aprofundar uma crítica das distorções, e recuperar os fundamentos fenomenológico-existenciais da abordagem, ou mesmo re-inventá-los, ou simplesmente inventá-los, quando for o caso. A forma privilegiada, e produtiva, a meu ver, de tratar a abordagem, de imunizá-la contra o niilismo galopante que a acomete, de resgatar o seu potencial produtivo e a sua efetividade criativa.


 

5. DE CARÊNCIAS, BARREIRAS E LIMITES

 

Uma das principais limitações do encontro diz respeito a sua circunscrição relativa ao seu momento específico. Seus "efeitos à distância" podem ser potencializados.

É certo que, através de seus participantes, os efeitos do encontro terminam por atingir as comunidades locais da abordagem, a pessoas e grupos que nele não estiveram presentes ou representados. Este processo, entretanto, pode ainda ser bastante desenvolvido. Ao mesmo tempo em que a influência das dinâmicas cotidianas dos grupos locais, dos debates, aprendizagens, dificuldades, etc, podem confluir de modos mais efetivos para o encontro, potencializando os seus processos. Carecemos, por isto, de sistemas efetivos de comunicação entre os grupos locais, que permitam a circulação e a troca das informações, tanto de notícias como de produtos teóricos, inovações, etc. De modo que, tanto a cotidianidade dos grupos locais possa ser dinamizada pelo intercâmbio, como a própria dinâmica dos encontros possa ser potencializada

Isto nos permitiria manter um "encontro permanente", de modo que o encontro propriamente dito seria apenas um momento de maior condensação desse processo. Seria alimentado e dinamizado por ele, ao mesmo tempo em que serviria como elemento privilegiado de sua retroalimentação e dinamização do mesmo.

Precisamos tomar, no próximo encontro, medidas práticas concretas no sentido de  criarmos os meios adequados para pormos em atividade esses sistemas de comunicação. Uma decisão neste sentido foi tomada no último encontro, na Bolívia. O Grupo de La Paz encarregou-se de editar o primeiro número de um 'boletim' e de um 'caderno teórico', que seria enviado aos demais grupos locais. Até o momento, todavia, isto não foi possível.

Uma questão muito significativa, também, é a da participação representativa dos vários países da América Latina. Temos tido, como dissémos, participantes da Argentina, México, Uruguai, Bolívia, Chile, Equador, Peru e alguns participantes do EUA. Quantitativamente o número de participantes do México, do Chile, Equador tem estado abaixo do que seria de se esperar. Em particular do México, onde reuniu-se pela primeira vez o Grupo Latino, que desenvolveu a idéia original do encontro, e encetou os seus primeiros passos, e que contava com a participação de vários e competentes colegas Mexicanos. Não temos tido a presença de colegas da Colômbia e da Venezuela, países que devem contar com um número significativo de colegas que praticam a abordagem. A participação do Chile também é desprporcional, e não temos tido, também, a participação de colegas da América Central. As distâncias e as dificuldades financeiras têm, evidentemente, um importante papel nesta questão. Carecemos, entretanto, de realizar um trabalho específico de comunicação com relação aos colegas desses países, muitos dos quais, certamente, não sabem da existência do encontro e por ele se interessariam. Um trabalho particular neste sentido carece de ser desenvolvido com relação aos colegas Mexicanos, dada a importância que eles representam para a perspectiva da ACP na América Latina.

 

O Encontro Latino tem sido um elemento de fortalecimento do periclitante espaço público no âmbito da abordagem.

A abordagem sofre de um processo de enfraquecimento e me4smo um colapso de sua 'esfera pública'. (Os elementos desta questão têm sido discutidos no próprio encontro, e carecem de um espaço adequado para serem melhor discutidos, de modo que, aqui, são apenas mencionados). O 'espaço público', como ocorre frequentemente em nossas culturas, é descaracterizado como tal, ou é objeto de apropriação privada por parte de pessoas ou de grupos. Isto significa que o poder e o conhecimento próprios à abordagem, e por ela engendrados, de cunho eminentemente públicos, ou seja, pertinentes à esfera pública da vida social, são privadamente apropriados, passam a pertencer a grupos de "amigos", a "famílias", que perdem a perspectiva da publicidade deles. A cconsequência é o enfraquecimento deste espaço e o próprio enfraquecimento da abordagem, a dificultação de seu processo de desenvolvimento, e o próprio esclerosamento e desintegração desses grupos, como frequentemente ocorre.

O Encontro Latino, assim como outros encontros do gênero são a própria encarnação de uma tendência oposta, e reforçam esta tendência oposta. Uma tendência de reconhecimento da esfera pública das relações sociais no âmbito da abordagem e de seus elementos, e de valorização desta esfera em sua especificidade própria. Uma recusa a esforços de privatização do poder e do conhecimento no âmbito da abordagem que são reiterados em suas efetivas funções.

São, no entanto, ainda fortes as tendências de desqualificação e de descaracterização da esfera pública no âmbito da abordagem. A sedução do narcisismo e do estrelismo, a tendência à organização em torno de 'narcisos' ou de pretensas estrelas é o ápice deste processo.

Daí a necessidade de uma atenção no sentido do fortalecimento do encontro como um espaço efetivamente público e coletivo da abordagem, zelando para que este espaço não seja tomado pelos esforços de descaracterização da esfera pública. É necessário uma garantia coletiva de que o encontro não será submetido às tentativas de instrumentalização dele, de seu interêsse público, com fins privados, pessoais, individuais, ou subgrupais.

Parece necessário que desenvolvamos uma consciência crítica com relação ao que representam os 'narcisos', e o 'estrelismo', e as suas implicações improdutivas e destrutivas para o cunjunto de praticantes da abordagem.

Acredito, por outro lado, que há a necessidade de o encontro funcionar como um espaço efetivo de apropriação e de generalização da teoria tradicional da abordagem, de seus fundamentos filosóficos e de sua crítica, o que, de um modo geral, é ainda pobre entre nós.


 

6. CONCLUSÃO

 

 

Parece que de repente

Sabes que te falta uma mão

Os dois olhos, a língua, e a esperança

É possível, Pedro, João, Tiago

Que perdesses algo de tão importante

Sem que percebesses?

- Pablo Neruda

(Citado por Fátima Severiano)

 

 

De 1982 até hoje, o Encontro Latino tem percorrido, parece, uma interessante trajetória para constituir-se como uma referência significativa para a ACP, não só na América Latina, mas também no âmbito da comunidade internacional. Está, entretanto, em fase ainda de consolidação e de desenvolvimento de suas potencialidades, e exige um esforço coletivo nesta direção. São fundamentais as questões do desenvolvimento de sistemas de comunicação entre os grupos locais, o aprofundamento dos processos de uma arqueologia dos fundamentos da abordagem, de uma perspectiva eminentemente crítica e criativa, e uma reiteração de seus princípios fundamentais, junto com uma consciência das distorções. Acredito ser igualmente importante o aprofundamento do debate acerca das questões culturais, e da vinculação específica destas questões com a abordagem. Ao mesmo tempo, carecemos de dinamizar o debate  em torno das formas criativas e produtivas de organização institucional e da comunicação cotidiana entre os grupos locais. A questão da formação, em proceso de transformação em vários lugares, demanda igualmente uma atenção especial.

 

 

 


 

(*) Um estudo descritivo dos trabalhos apresentados nos vários encontros tem sido desenvolvido por Márcia Tassanari e Jaime Doxsey.

Indice Textos ACP

 

 

 

 

 

 

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