GESTALT TERAPIA, UMA NATIMORTA?

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
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Maceió
2001

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Às vezes, a julgar por algumas interpretações e por alguns desenvolvimentos da Gestalterapia, quando cortejados com suas origens, cabe até perguntar: foi uma natimorta?

Sem dúvida que foi muito viva, como tal, durante um certo momento, mas era apenas um embrião. Muito ativa, então, e com um "código genético" específico.

Impossível mutações? Claro que não. Desejáveis, na verdade, necessárias. Mas sabemos das exigências para que vingue uma mutação. Em especial, ela carece de trazer algo de melhor do que a sua forma anterior...

Nos seus primórdios, eminentemente experimental, a Gestalterapia era um projeto, ousadamente proposto, em teoria e prática. Tinha, efetivamente, algo dos cafés de Berlim, anteriormente à hecatombe do nazismo. Algo do Expressionismo. Algo de Brentano e de sua Fenomenologia, algo da filosofia da vida, de Buber e de Nietzsche, decodificados por Carl Stumpf, por Wertheimer e por Kurt Goldstein, por Otto Rank, e entendido por Frederick e Laura.

O Nazismo e a Segunda Guerra, o Holocausto Judeu, a estação Norte Americana, tudo isto, fez com que tudo isto se embaralhasse; e até com que algumas fontes da Gestalterapia fossem esquecidas, mal entendidas, ou até execradas, mal ditas. Vejam Nietzsche, por exemplo...

Perls, e esta é uma de suas condições mais fantásticas, é, ousada e ativamente, uma ponte entre dois tempos, uma ponte entre dois mundos, o Velho -- e o velho em sua velhice e, na explicitação de sua essência humana -- e o Novo Mundo. É, em alguns sentidos significativos, quase que como um náufrago, que busca trazer uma "mensagem", preciosa, de um mundo naufragado. Náufrago -- e ao mesmo tempo fascinado, entusiasmado, perplexo, com o Novo Mundo, em que aportava --, dedicou-se, de corpo e alma, a trazer e a inventar a "mensagem" de que era portador. Da qual talvez nem ele mesmo soubesse todo o sentido, certamente não o sabia, uma vez que muito deste sentido ainda estaria por desdobrar-se, por explicitar-se, por inventar-se. Mas ele sabia que tinha algo a dizer, e sobretudo a fazer. E buscou fazê-lo.

A Gestalterapia era um projeto. Trazia em si os germes de sua compreensão, e o apelo e o desafio de seu desdobramento teórico e prático...

Em que medida este projeto tem se atualizado, em que medida ele tem se distorcido... em que medida ele tem sido incompreendido ou ignorado, mesmo que se tenha espetacularmente disseminado a grife da Gestalt Terapia?

Claro, claro, que se há que garantir uma pluralidade de interpretações e de apropriações...

Mas seria lamentável constatarmos que a grife superou o embrião, que a grife superou o projeto da origem, e a originalidade da Gestalterapia. Que o embrião/projeto não se desdobrou, e uma mal dita engenharia genética substituiu o que havia de original no projeto e no embrião da Gestalterapia.

Felizmente não é assim. A grife pulula, as distorções e incompreensões, idem, mas o recém nato está vivo. Ainda que fraquinho.

Atualidade em Gestalterapia, acredito, não é macaquear Fritz. Muito menos, acredito, pelo menos, por enquanto (a não ser algo de efetivamente genial), seria inventar algo de diferente do projeto da Gestalterapia. Atualidade em Gestalterapia, é, acredito, resgatar e atualizar, desdobrar (tem muito pano prá manga...) o projeto original da Gestalterapia em nosso tempo e lugar. É aprofundar uma compreensão e desdobramento de suas raízes, de um modo até que talvez o próprio Fritz não entendesse nem pudesse entender.

O mais triste seria que o projeto da Gestalterapia, vivido pelos Perls e companheiros, ficasse só nisso, no projeto, e não se desdobrasse. Ou seja, não fosse desdobrado pela gerações futuras. Que, enquanto tal, a Gestalterapia morresse antes de nascer, substituída por incompreensões, por mal entendidos, distorções, ou simplesmente pelo interesse maior na griffe do que no projeto, e em seu desdobramento.

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