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AFINAL, QUEM SÃO OS MAMELUCOS
NO BRASIL? Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo. (...)Eu sou mameluco Sou de Casa Forte Sou de Pernambuco Eu sou o Leão do Norte Eu sou mameluco Sou de Casa forte Sou de Pernambuco Eu sou o Leão do Norte – Lenine. Em
geral se entende e ensina que os Mamelucos
são um dos tipos da formação étnica do Brasil. E efetivamente o são. Junto
com os Caboclos, com os Mulatos, os Cafusos, os Ameríndios,
os Africanos Sudaneses Negros, os Brancos Europeus – Lusitanos e não Lusitanos
--, Judeus e Árabes. Mameluco seria um sinônimo de Caboclo,
enquanto tipo étnico. Na medida em que seria etnicamente resultante da mesma
miscigenação de Branco Europeu com Ameríndio, da qual resultaria como
tipo étnico o Caboclo. Ou da
miscigenação de Branco e Caboclo. É
uma definição muito genérica, e que tende se perder, na consciência
individual, e na consciência coletiva. Na verdade, parece atuar intensamente
aí uma generalização grosseira, ou ideológica. E a realidade do que chamamos
de Mamelucos pode ter uma outra
especificidade. Que remeteria, mais particularmente, à -- não muito
esclarecida -- imigração de Norte Africanos para o Brasil. E à miscigenação
de Norte Africanos, em particular de Mouros, Berberes e Semitas – Árabes e
Judeus --, do Norte da África, e seus vários tipos mestiços. E
não à miscigenação de ‘Brancos Europeus’, com Ameríndios. Na
medida em que possamos entender que estes povos, do Norte da África, não são Brancos Europeus --, na medida em que,
em particular, nem Brancos são,
muito menos “Europeus” --, talvez precisemos entender de um modo mais sutil,
mais particular, e específico, a constituição do Mameluco brasilisado, ou do
Mameluco do Brasil. Cabe
observar que o termo e conceito de Mameluco,
como tipo étnico, aqui, como na realidade brasileira, são aplicados em vários
níveis de genericidade, e latu sensu.
Na medida em que os tipos que entendemos como Mamelucos são tipos étnicos miscigenados do Norte da África, às
vezes intensamente miscigenados; com proporções diversas de constituição
étnica efetivamente Mameluca. Strictu sensu, como veremos o tipo étnico Mameluco resulta, na sua
originalidade, da miscigenação, a partir do Século XII, na Península
Anatólica, de Árabes, Semitas, com Turcos. Os Turcos são povos Mongóis,
originários do Turquestão, que é a região mais Ocidental da Mongólia. Este
tipo étnico se dissemina pelo Islam, e pelo império Turco Otomano, se
disseminando, naturalmente, pela África, em particular pelo Norte da África e
pelo Saara e suas franjas, missigenando-se com os tipos autóctones para lá
emigrados, mais ou menos mestiços já. A guisa de observação preliminar, e importante,
vale mencionar, certamente, que o Mameluco strictu senso, o Mameluco original, e o Mameluco brasilisado, que aqui aportam, do Norte da África
(pois, por certo, contingentes do tipo étnico, lato senso, já aporta Mameluco
no Brasil), o Mameluco tem uma de
suas raizes étnicas idêntica à do Ameríndio. Na medida em que os Mamelucos têm
como uma de suas raizes étnica a etnia Mongol, comum enquanto raiz étnica do
Ameríndio. De modo que, quando o Mameluco aqui aportado do Norte da África, Acredito que podemos entender que temos no Brasil
dois tipos de Mamelucos. (1) O Mameluco
do Norte da África, que já chega Mameluco no Brasil, proveniente
originariamente da miscigenação de Turcos -- do Império Turco Otomano --, com
Árabes. E a seguir com tipos étnicos da África do Norte, como o Berbere e o
Mouro, o Árabe mesmo e o Judeu. E (2) O Mameluco
Brasileiro, e seus descendentes. Que se constituem, ou se reiteram no
Brasil. Provenientes da miscigenação deste tipo étnico Mameluco, que nos
chega do Norte da África (naturalmente, miscigenado com Mouros, Berberes,
Judeus ou Árabes, do Norte da África), com o Ameríndio Brasileiro. Neste caso, propriamente Mameluco, e não Caboclo.
Descendente da miscigenação de Mamelucos de origem Norte Africana com
Amerindígenas. Este tipo reedita, portanto, a origem étnica
ancestral dos Mamelucos da Ásia Menor, Península Anatólica, da Península
Arábica, do Iraque, da Índia, do Norte da África, do Islã. Que se constitui
pela miscigenação de Árabes com um tipo de origem étnica Mongólica (como o é
o Ameríndio), que são os Turcos. Assim, ao se miscigenarem com o Ameríndio,
tanto uns quanto outros (os Mamelucos que aportam no Brasil, ou os que se
constituem étnicamente no Brasil) reeditam, a miscigenação originalmente
constituinte dos Mamelucos da Turquia, Ásia, da Península Arábica, Norte da
África, do Islã. O termo Mameluco significa escravizado. Originalmente, os Mamelucos constituíam uma guarda
dos governantes Muçulmanos da Ásia Menor, Península Anatólica, atual Turquia
--, da Península Arábica, do Iraque, da Índia, e do Norte da África, do Islã.
Era uma guarda composta por soldados escravizados, de origem Turca. Eram
escravizados ainda quando crianças, para serem treinados militarmente. Era
já, então, um povo guerreiro. Os Turcos eram, originalmente, como observamos,
povos da estepe Asiática, do Turquestão, a região mais Ocidental da Mongólia.
Deslocaram-se para a China, por volta do Século X. E, a seguir, da China para
a Ásia Menor, para a Península Anatólica, a atual Turquia. Eram aí
escravizados ainda crianças, e eram treinados para constituir a guarda
militar dos governantes Muçulmanos. Vão ganhando poder aos poucos, na
proximidade com os governantes, e se constituem eles próprios como
governantes, tendo instituído dinastias no Egito Muçulmano, e em Damasco, na
Síria, e, na verdade, um império Mameluco e Muçulmano. A dinastia Mameluca do
Egito foi derrubada do poder por Napoleão, já no Século XVIII. A sua trajetória, de soldados escravizados da
guarda dos governantes Islâmicos, para casta; de casta para dinastia, para
império, no âmbito das relações entre o Islã e o Império Turco Otomano, faz
parte de um processo mais amplo de miscigenação entre Semitas e Turcos. Os
Mamelucos consolidam, assim, o seu tipo étnico, como esse tipo miscigenado de
Árabes com Turcos. No limite, de Chineses, Mongóis, com Árabes. Curiosamente, como observamos, é esta uma
composição étnica muito próxima da miscigenação, no Brasil, de tipos
arabizados da África do Norte, com o Ameríndio. Ameríndio este que tem uma
origem étnica muito próxima da dos Turcos originais, no que seria uma origem
Mongólica. Os Mamelucos originais se disseminaram por todo
mundo Islâmico, e pelo Império Turco Otomano. Como casta guerreira, e como
tipo étnico mestiço, mestiçado, e se mestiçando, em proporções diversas.
Disseminaram-se, assim, também pelo Norte da África, pelo Magreb, por toda a
África, em especial a partir de sua dinastia Egípcia, e do Sultanato do
Cairo. Fazendo parte de todo o complexo de relações militares, comerciais e
da colonização desta região pelo Império Islâmico, e pelo Império Turco
Otomano, de suas guerras, de seu comércio. E fazendo parte, em especial, do
ataque às riquezas da África Sudanesa, em particular da preação e da
escravização de Sudaneses para o comércio de cativos. Assim, participaram, também, certamente, dos
negócios do açúcar, no Magreb, no Saara, e nas Ilhas Atlânticas, de
colonização Ibérica. Participaram, assim, certamente, da "migração"
do Açúcar, da Ásia para o Norte da África, e daí para o Saara e para o
Magreb. De modo que, quando os negócios do Açúcar migram
para o Brasil, trazendo a escravocracia, e a escravidão de Sudaneses,
inevitavelmente, migram juntos os Mamelucos; e os mais ou menos Mamelucos, do
Magreb, do Norte da África, e do Saara. Singularmente, ou mesmo miscigenados
com os tipos étnicos mais ou menos autóctones – os, mais ou menos, Mouros, os
mais ou menos Berberes, os mais ou menos Semitas do Norte da África, do
Magreb, e das Ilhas Atlânticas, de colonização Ibérica. Todos estes se miscigenam e re-miscigenam entre si,
e com o Ameríndio, com os Sudaneses da África Subssaariana, com Brancos
Europeus, com Caboclos, Mulatos e Cafusos... Não obstante, é necessário distinguir. Se há uma
miscigenação de brancos Europeus com os Ameríndios, que constitui o tipo
étnico do Caboclo. Não podemos dizer que o Mameluco resulta de uma miscigenação
de mesma ou idêntica natureza. Num primeira forma, assim, o tipo Mameluco já chega
Mameluco no Brasil, proveniente do Norte da África, do Saara e do Magreb. E,
na segunda forma, o Mameluco resulta da miscigenação destes Mamelucos Norte
Africanos, Saarianos e Magrebinos -- mais ou menos Mamelucos, já, no sentido
étnico mais restrito, e imigrados para o Brasil --, com o Ameríndio.
Resultando num tipo etnicamente diferente do Caboclo. O que traz, também,
imensas e particulares implicações culturais, ainda que os tipos étnicos se
miscigenem cada vez mais, em particular na realidade sócio-cultural
Brasileira... Mas, historicamente, por exemplo, sabemos que
quando Domingos Jorge Velho se dirige ao Sertão do Nordeste do Brasil -- para
massacrar Indígenas insurgentes, no que ficou conhecido como Guerra dos Bárbaros, e, depois, para
massacrar descendentes de Sudaneses escravizados, nas Guerras Palmarinas, de destruição do Quilombo dos Palmares, na
Zona da Mata de Alagoas --, comandava uma tropa de cerca de três mil
mestiços. Ele próprio, mestiço, também, não falava Português, mas
Tupi-Guarani. Acho que temos motivos para acreditar que estes mestiços tinham
altas proporções em sua composição étnica do mestiço Mameluco proveniente da
África, e da sua miscigenação com o Ameríndio. Não eram exatamente caboclos,
enquanto provenientes da miscigenação de Brancos Europeus com Ameríndios. Aparentemente, vastos contingentes deste tipo de
miscigenação foram utilizados pelos colonizadores em tropas de repressão e de
aniquilação do Indígena, insurgente ou não; e dos Sudaneses Escravizados,
igualmente insurgentes, ou não. Domingos Jorge Velho e suas tropas eram
extremamente violentos e brutais, e certamente havia muito mais de Bárbaros (da Barbaria, Norte da África, na designação Romana) em suas fileiras do que entre os
Indígenas alcunhados de “Bárbaros”. Ainda que tenhamos que considerar a
possibilidade da miscigenação de Mamelucos com Indígenas entre os próprios
Indígenas, com a descendência vivendo entre eles. O município que surgiu no local onde acamparam as
tropas mestiças, Mamelucas, de Domingos Jorge Velho, para combater o Quilombo
dos Palmares, é, ainda hoje, um dos mais violentos do já violento Estado de
Alagoas... Em sendo assim, é interessante e, precisamos atentar,
do ponto de vista sociológico e antropológico, para as especificidades dos
tipos Norte Africanos -- Mamelucos, Berberes, Mouros, e Semitas do Norte da
África --, imigrados para o Brasil, em particular nos primórdios da
colonização. Precisamos atentar para as especificidades, originalmente Turca
e Árabe -- Centro Asiática, no limite Mongólica --, e da Península Arábica,
dos Mamelucos imigrados para o Brasil. E para a miscigenação deles no Brasil.
Em particular a miscigenação com o Ameríndio, que constitui, digamos assim, o
Mameluco Brasileiro. Ao mesmo tempo em que reitera a miscigenação originária
Mameluca. Quem designou como tais os Mamelucos do Brasil,
certamente no período colonial, certamente reconhecia o fenótipo do tipo
Árabe-Turco original, Magrebino, e saariano. Ainda que, eventualmente,
talvez, não entendesse, não só a presença deste tipo no Brasil, como o como a
sua miscigenação Mongólica-Arábica original se reiterava entre nós. Mas
reconhecia fenotipicamente, talvez comportamentalmente, o Mameluco -- que se
distingue do Caboclo. O tempo, e, certamente, sutis, ou massivas,
operações ideológicas, contribuintes para o obscurecimento do papel da
imigração do Norte da África, do Magreb, e do Saara para o Brasil, foram
progressivamente assimilando o Mameluco ao Caboclo. Por mais que eles possam
se parecer, na verdade eles muito se distinguem. Em particular em suas raízes
étnicas, e culturais. E precisamos compreender, assumir, e sermos
conseqüentes com relação a nossas origens Norte Africanas; e, dentre outras,
Mameluca. Aos modos dessa implicação nos processos de nossa produção
cultural. Para compreendermos, portanto, a realidade étnica e
cultural do Brasil, parece interessante nos darmos conta da contribuição
étnica, e das culturas, do Norte da África, e do Magreb. A compreensão da
condição do Mameluco, a compreensão de sua distinção e especificidade com
relação ao Caboclo; a distinção e especificidade da condição de suas
características e contribuições étnicas e culturais, muito podem contribuir
neste sentido. Talvez possamos entender a nossa dimensão Mameluca
como uma das esfinges da sociedade e da cultura Brasileiras. |